Nossas posturas, nossos gestos, o modo como caminhamos, como
sentamos, como nos levantamos, como gesticulamos em uma conversa entre amigos, ou
no trabalho, não são atos autômatos, mas sim, movimentos que, analisados em seu
espaço e tempo de maneira contextualizada, escancaram um mundo de significados.
Assim como Pichon-Rivière & Quiroga (1998) apontam, é interessante entender o
movimento como um sinal que traz em seu bojo revelações da alternante relação de
harmonia e discórdia entre o homem e o mundo, que acaba por se resolver através de
suas condutas frente a este.
Desta feita, é no corpo – protagonista do movimento e inserido num
âmbito social, no qual age como sistema de expressão e de linguagem – que,
(re)descobrimos o lugar do sujeito, definindo-o como aquilo que lhe é mais próprio,
menos alheio e menos antagônico. Esta característica é o resultado de uma análise do
vínculo entre o corpo e o eu.
Entretanto, surge a suspeita de que alguma mudança decisiva pode
acontecer nesse corpo tão seu, a partir do momento em que possa se distanciar dele e
presenciá-lo, como uma coisa entre outras. Isto ocorre quando é submetido a uma
observação total ou parcial. Aparece, então, um sentimento de estranheza que converte
Muito ainda se pensa sobre a idéia de um corpo existente em uma tripla
dimensão, onde se inclui a presença do próximo (o Outro), seu olhar, fator este que o
constitui. Assim, é através do Outro, de seu olhar, que o corpo vem a se constituir.
O mundo moderno é um mundo de conflito, é também o mundo de um
conflito que foi interiorizado, que virou um conflito interior. Este é o mundo que dá à luz
os sofrimentos, no que tange à relação do sujeito com o Outro. Para Bauman (1999[1925])
o:
[...] direito do Outro à sua estranheza é a única maneira pela qual meu próprio direito pode expressar-se, estebelecer-se e defender-se. É pelo direito do Outro que meu direito de coloca. Ser responsável pelo Outro e ser responsável por si mesmo vêm a ser a mesma coisa. Escolher as duas coisas e escolhê-las como uma, uma só atitude indivisível, não como duas instâncias correlatas, mas separadas (p.249).
A primeira dimensão traz ao sujeito a ótica que integra as qualidades do
corpo, suas medidas, sua eficiência, sua capacidade e sua vulnerabilidade. Estas só
aparecem quando o corpo como tal fica silenciado, esquecido, embevecido numa tarefa
que pode ser tanto execução de uma obra, como a contemplação desta. Assim, a
eficiência do movimento se evidencia quando, de alguma maneira, se perde na tarefa, e
não por meio do estudo de sua forma.
Com o Outro – sob seu olhar – surge ao sujeito uma segunda dimensão do
corpo, que vem a revelar, um organismo em funcionamento regido por uma central.
Esse olhar que o sujeito não percebe, tem a capacidade – como se estivesse a dissecá-lo –
concederá a seu corpo uma vinculação direcionada ao olhar do outro, e, na outra ponta
da corda, concederá uma gama variada de percepções acerca de seu corpo conforme
como e de onde é olhado (observado). A esta dimensão ainda pode-se acompanhar uma
valorização afetiva primária, ou seja, existem culturalmente partes do corpo com
conotações estéticas e sexuais determinadas, pré-fixadas (LACAN, 1985). Sendo assim:
Tudo isso tem de ser levado em conta quando se tenta motivá-lo, isto é, estimular certos apetites mais ou menos reprimidos ou inconscientes, transformando-o assim de um consumidor potencial num consumidor orientado. O homem não é simplesmente uma máquina que reage ante os estímulos físicos, não permanece inerte à espera de que forças externas o sacudam. O uso das palavras tais como desejo, impulso ou vontade denuncia o movimento próprio do organismo
(PICHON-RIVIÈRE & QUIROGA, 1998, p.26).
Do ponto de vista da sociedade, outro problema se coloca: como se pode
produzir um indivíduo que necessite ou deseje o que a comunidade aprova, exige ou
premia? Como se pode treinar o impulso para que se encaixe nas demandas de um
papel social? Quando os impulsos da estrutura psíquica de um indivíduo se dirigem a
objetivos socialmente aprovados, eles a apóiam e a garantem em suas funções, porque se
verifica um ajuste entre as expectativas atribuídas e as assumidas.
O impulso orgânico e as situações estão de tal modo vinculados que o
impulso busca a situação como saída, e a situação proporciona as chaves e estabelece o
tipo de conduta que dará satisfação ao impulso. No homem é possível investigar tanto
compreender esse conjunto de estruturas objetivas e procurar indagar como pode
constituir o fundamento sobre o qual se estabelece a motivação do comportamento.
As atitudes corporais, a capacidade de expressão por meio do corpo ou
linguagem pré-verbal, como uma dança, uma conversa em linguagem surdo-mudo e a
mímica, que podem ser criativas se não estiverem submetidas a normas fixas,
representam uma fonte de prazer. Por meio disto um sujeito pode realizar uma
verdadeira reorganização corporal, embora sempre limitada, não representando uma
liberdade absoluta, mas sim, um poder fazer motivado. Só se é livre por intermédio das
motivações.
O corpo cumpre, assim, em última instância, uma função defensiva – do
ponto de vista psicanalítico – quando se desloca sobre ele a fonte de angústia e de