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2. EDUCAÇÃO, CULTURA E O MAIS CULTURA NAS ESCOLAS

2.2. OLHARES SOBRE O PROGRAMA MAIS CULTURA NAS ESCOLAS

Após um levantamento bibliográfico que utilizou quatro bases de dados – Google Acadêmico, Portal de Periódicos da Capes, o Scientific Electronic Library Online (Scielo) e a Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal (Redalyc) – considerando publicações de 01/2013 a 12/2016 e utilizando como descritor a expressão “Mais Cultura nas Escolas”, foram encontrados trabalhos no Google Acadêmico (25) e na Redalyc (1)13. A análise tomou como referência o ano de 2013, pois neste ano houve um aumento da divulgação do programa junto às escolas e teve início o processo de seleção das escolas participantes. Possivelmente, em decorrência do número de eixos temáticos do programa, os trabalhos tiveram origem em diferentes áreas tais como: a) Artes (em especial Artes cênicas/teatro); b) Administração (gestão); c) Tecnologia da informação; e d) Educação/Formação de professores. As políticas intersetoriais, a gestão de patrimônio cultural, a relação entre cultura e novas tecnologia, e a educação integral e de tempo integral foram os temas mais citados nos documentos consultados. A tabela 1 apresenta a natureza e respectiva quantidade de publicações que fazem referência ao programa Mais Cultura nas Escolas:

12 Esta revisão bibliográfica foi realizada entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016.

13 Um dos trabalhos faz parte das duas bases e por isso só foi contabilizado uma vez.

TABELA 1 – NÚMERO DE TRABALHOS PUBLICADOS REFERENTES AO PROGRAMA MAIS CULTURA NAS ESCOLAS SEGUNDO A NATUREZA DO TRABALHO

NATUREZA DO TRABALHO QUANTIDADE composto por seis trabalhos (2 apresentações em eventos, 2 artigos publicados em periódico, 1 dissertação e 1 tese) que abordam o programa de maneira direta. Os demais, o Grupo 2, apenas citam a existência do programa, mas de maneira indireta, ou seja, o programa não foi tratado de maneira específica. Por isso, somente serão analisados os trabalhos do Grupo 1 que constam no QUADRO 5:

QUADRO 5 – SÍNTESE DE TRABALHOS PUBLICADOS DO GRUPO 1

TIPO NATUREZA AUTORIA TÍTULO PALAVRAS-CHAVES BASE ANO

ARTIGO Anais de

Dentre esses trabalhos, o de Santana (2015) voltou-se para a análise do programa na cidade de Santo Amaro das Brotas/SE. Para o autor, o programa teve resultados positivos, visto que o programa Mais Cultura nas Escolas contribuiu para o resgate de memórias culturais. Já o trabalho das autoras Sowa e Rosa (2014) também veem o programa positivamente, já que este pode contribuir para a melhoria da educação básica abrindo espaço para a diversidade cultural e favorecendo a reflexão acerca de questões sociais.

Outro trabalho que explora as potencialidades do programa Mais Cultura nas Escolas é o de Griner, Albrecht e Lopes (2014) que fazem uma relação entre políticas culturais voltadas à educação – dentre as quais o Mais Cultura nas Escolas – e o Plano Nacional de Cultura (PNC) lançado em 2010. Segundo os autores, uma das possíveis dificuldades do programa é a de relacionar as atividades com os espaços culturais da região onde a escola se encontra. Para eles, algumas cidades não possuem muita diversidade de equipamentos culturais e isso poderia prejudicar o desenvolvimento das atividades a serem executadas na escola. Essa desigualdade na distribuição de equipamentos culturais no Brasil foi identificada por meio da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde 1999, o IBGE realiza levantamentos sobre os equipamentos culturais nos diversos municípios brasileiros.

Em 2006, a instituição elaborou um suplemento especial sobre indicadores culturais no Brasil (BRASIL, 2007e). No ano de 2015, um novo suplemento sobre cultura foi divulgado (BRASIL, 2015). Nesta última versão, o documento evidencia um pouco da dinâmica da área cultural nos estados e municípios comparando as mudanças ocorridas entre 1999 e 2014. Os dados revelam que, apesar do aumento do número absoluto de equipamentos culturais, excetuando-se as bibliotecas, que estão presentes em 97% dos municípios (BRASIL, 2015), alguns equipamentos possuem distribuição irregular no território brasileiro.

Na pesquisa de Maciel (2015), também é tratada a questão da falta de estrutura das escolas para o desenvolvimento de atividades de caráter cultural. Além disso, a autora tece críticas sobre a participação de pessoas alheias ao ambiente escolar visto que estas, em algumas ocasiões, não estão preparadas para atividades de cunho pedagógico. Segundo a autora:

Nesse sentido, considero que sem um olhar atento para uma efetiva aprendizagem, através de programas, que possam de fato contribuir com a educação integral do estudante, o valor dessas iniciativas se perde, configurando apenas um “adorno” conquistado pela escola, constando burocraticamente, esvaziado em seu sentido mais caro, que é essa relação holística do estudante com o mundo que o cerca (MACIEL, 2015, p. 25).

Na análise do programa Mais Cultura nas Escolas realizada por Thompson e Souza (2015), o foco principal recai sobre as relações entre cultura e educação patrimonial. Os autores afirmam que, na atualidade, o Estado tem empreendido esforços na adequação a uma nova realidade social em que as liberdades e diversidades estão no centro das políticas culturais. Dessa forma, o programa Mais Cultura nas Escolas tem favorecido não somente os aspectos culturais, mas também sociais por viabilizar a exploração do território educativo com o desenvolvimento de atividades dentro e fora da escola, com a utilização de museus, bibliotecas, praças e outros espaços culturais.

A análise de Santaiana (2015) reporta-se ao aspecto intersetorial do programa Mais Cultura nas Escolas. A autora, que analisa a intersetorialidade na educação integral, afirma:

Detive-me a descrever como o Mais Cultura funciona, como forma de evidenciar como ele encontra na intersetorialidade sua forma de funcionamento. Primeiro, ele emerge, articulando dois Ministérios:

Educação e Cultura; posteriormente, ele é constituído tendo como um dos seus objetivos potencializar o PME (Programa Mais Educação) e/ou o Ensino Médio Inovador; por último, ele precisa que sejam estabelecidas parcerias culturais para que possam ser contemplados com as verbas destinadas ao Programa. Uma das capacidades do dispositivo de intersetorialidade é o poder circular entre os sujeitos, com programas diferentes, mas visando constituir uma mesma subjetividade: preventiva.

Os estudos realizados até então sobre o Mais Cultura nas Escolas, suscintamente apresentados, indicam que o programa representou um diferencial na associação entre educação e cultura. Um dos destaques repousaria na forma como o programa buscou articular educação, cultura e comunidade, priorizando o aspecto intersetorial como analisado por Santaiana (2015).

Outro dos pontos positivos do programa Mais Cultura nas Escolas deveu-se à proposta de utilização de espaços e equipamentos culturais diversos mediante estratégias específicas. Seguindo o princípio de território educativo, o programa incentivou o desenvolvimento de atividades fora do ambiente escolar (SOWA e ROSA, 2014).

No entanto, algumas fragilidades foram identificadas pelos/pelas pesquisadores/as que analisaram o programa Mais Cultura nas Escolas. O desenvolvimento de políticas que articulam diferentes pessoas, de esferas diversas, pode estar mais passível de enfrentar resistências para se consolidar. E considerando uma política em nível federal como é o caso do deste programa, o enfrentamento das dificuldades começa na própria região onde se localiza a escola devido à carência de diferentes naturezas, como a inexistência de parcerias culturais e de equipamentos culturais.

Outra fragilidade do programa está relacionada à participação de pessoas alheias ao ambiente escolar na execução de atividades que, a princípio, devem atender a uma dupla função: pedagógica e cultural. E esta associação de objetivos nem sempre é possível como afirma Sempere (2011) ao discorrer sobre as diferenças entre políticas educacionais e políticas culturais.

Como pode ser observado, apesar do programa Mais Cultura nas Escolas ter sido lançado em 2013/14, os eventos que lhe deram origem remontam ao início do mandato de Gilberto Gil como ministro da cultura. Naquele momento, é possível identificar uma ênfase nos aspectos antropológicos da cultura. Diversos eventos antecederam a criação do programa Mais Cultura nas Escolas e algumas de suas características podem ser percebidas em outros programas do governo federal, como o Mais Educação e o Ensino Médio Inovador. Dentre essas similaridades, identifica-se o destaque à importância do território educativo.

As pesquisas relacionadas ao programa Mais Cultura nas Escolas indicam que o programa representou um avanço em relação à associação entre educação e cultura. No entanto, algumas dificuldades também foram percebidas, em especial em relação à participação da comunidade e de pessoas externas no ambiente escolar.

Após este panorama acerca do programa Mais Cultura nas Escolas, passa-se ao capítulo 3, que tem como principal finalidade aprepassa-sentar a metodologia empregada nesta pesquisa.