CAPÍTULO 2: MARCO TEÓRICO: O IMPACTO DOS MEGAEVENTOS NA
2.3 O impacto dos megaeventos esportivos no desenvolvimento urbano
2.3.1 Megaeventos no exterior
2.3.1.6 Olimpíadas de Londres – Inglaterra (2012)
As Olimpíadas de Londres ocorreram entre 27 de julho e 12 de agosto de 2012 e tiveram como referência o megaevento de Barcelona, por seu legado e planejamento em longo prazo, entretanto, Londres se destacou mais em termos de transformação social (Bianco, 2010; Mascarenhas, 2013a; Paiva, 2013) e sustentabilidade (Diniz, 2011). O megaevento proporcionou o desenvolvimento da região de Stratford, localizada na zona leste da cidade, sendo essa área carente de investimentos urbanos (ver Figuras 2.13 e 2.14). No século passado, Stratford era caracterizada pela instalação de indústrias têxteis e químicas, produzindo grande concentração de poluentes. Nas décadas de 1970 a área adquiriu caráter residencial, contudo, sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento (Diniz, 2011; Altman, 2013). Stratford também era constituída por habitações precárias e muros pichados, sendo uma zona com os maiores índices de desempregos e os mais baixos índices de escolaridade e expectativa de vida (Holanda, 2012; Clarke, 2013; Mascarenhas, 2013a; Altman, 2013).
Figura 2.13: Stratford antes das Olimpíadas de 2012. Fonte: Powell e Olmos, 2012.
Figura 2.14: Stratford após as Olimpíadas de 2012. Fonte: Powell e Olmos, 2012.
Para a escolha do local foi criado em 2004 um documento de referência chamado “Transforming the Landscape” (Transformando a Paisagem), que defendia a importância da cultura na candidatura do megaevento, além de acentuar a importância de um programa de regeneração econômica, tendo como ponto central a zona leste de Londres (Hitchen, 2010). Para Ken Livingstone, prefeito entre 2000 e 2008, a participação de Londres como sede da competição seria a oportunidade de o Governo fazer intervenções urbanas em Stratford (Pereira, 2011; Holanda, 2012; Mascarenhas, 2013a), “usando as Olimpíadas como um
catalisador de investimentos no futuro” (Hitchen, 2010, p. 41). Ainda, segundo Diniz (2011),
o fato de Londres desfrutar de áreas já qualificadas para atender aos jogos fez com que houvesse a necessidade de construir novos equipamentos em regiões degradadas.
Com o intuito de obter um legado positivo após os jogos, a entidade organizadora das Olimpíadas “London Organising Committee Of The Olympic Games” (LOCOG), derivada de entidades privadas e o órgão público “Olympic Delivery Authority” (ODA), fizeram parte do planejamento das construções das instalações esportivas para o megaevento (Bianco, 2010; Hitchen, 2010; Castanheira, 2013). Segundo a “London Legacy Development Corporation” (LLDC, 2012), o projeto do legado é separado em três fases: (i) mobilização (2009-2012), (ii) transformação (2012-2015) e (iii) regeneração (2015-2030). Além disso, foi criado o site
London Legacy Group, no qual as pessoas podem até hoje deixar suas opiniões e tirar dúvidas
sobre os projetos desenvolvidos.
A primeira fase está relacionada à demolição de edifícios, construção de novas infraestruturas, limpeza e descontaminação do terreno e a realização dos Jogos Olímpicos. A fase da transformação refere-se ao desmonte de estruturas temporárias (Arena de Basquete, Arena de Polo Aquático e Hóquei na Grama) e na modificação daquelas permanentes para o uso diário da população, como é o caso do estádio Olímpico, Parque Aquático, Velódromo,
Cooper Box (arena de handebol), Complexo de Mídia e a Vila Olímpica. A última fase
iniciou-se em 2015 com a construção de novos bairros próximos do antigo, creches, centros de saúde e escolas. Logo, as fases de transformação e regeneração constituem o legado dos jogos, sendo comandado pelo Olympic Park Legacy Company (OPLC), novo setor público sem fins lucrativos, que ficou encarregado de cuidar dos investimentos após os jogos (OPLC, 2012; Holanda, 2012; Castanheira, 2013). Esse setor mais tarde tornou-se a London Legacy
Development Corporation (LLDC).
A partir das três fases citadas, Londres objetivou garantir infraestruturas adequadas que atendessem aos jogos, fazendo com que essas não se tornassem obsoletas. A
descontaminação do solo e dos canais aquáticos, problema grave na região, também foi resolvida, visto que era uma área de uso industrial. A poluição eletromagnética, gerada pelas torres e linhas de transmissão de energia elétrica de alta potência também foi solucionada. Assim, o legado de Londres estava relacionado à sustentabilidade, recuperação das áreas ambientalmente degradadas e da zona industrial deprimida, garantindo os Jogos Olímpicos mais sustentáveis até 2013 (Altman, 2013; Castanheira, 2013). Segundo a LLDC (2012), as modificações ocorridas contribuirão para um estilo de vida mais saudável e sustentável da população, com maior incentivo ao esporte, construção de novas instalações de saúde e educação, centros comunitários e de convivência.
Por conseguinte, as obras criaram novos eixos urbanos que beneficiaram a população de Stratford, como o surgimento de novas vias de trânsito, linhas de trem e metrô (Diniz, 2011; Holanda; 2012, Castanheira, 2013) e comércio, oferecido principalmente pelo Shopping
Center Westfield Stratford City, o maior shopping da Europa (LLDC, 2012; Altman, 2013;
Paiva, 2013). Outros objetivos estavam relacionados com o aumento do número de empregos, visto que em Stratford surgiram 50.000 novos postos de trabalho entre temporários e permanentes. Junto a isso, há o estádio Olímpico, o Centro Aquático, o estádio de Hóquei, o Velódromo e a Vila Olímpica (Diniz, 2011; Castanheira, 2013).
Em 2013, passado um ano do megaevento, os jogos já tinham rendido 9,9 bilhões de libras com turistas e novos investimentos ao Reino Unido, ultrapassando o valor dispendido com a organização e infraestrutura dos jogos, que corresponde a nove bilhões (Oswald, 2013a). Somando-se a isso, o Parque Olímpico de Londres, chamado de Parque Rainha Elizabeth após 2012 (ver Figura 2.15), foi adaptado para receber a população e reaberto dia 5 de abril de 2014 (Queen Elizabeth Park, 2014). A escultura ArcelorMittal Orbit, constituída de aço vermelho, continua fazendo parte do Parque, sendo a atração turística de Stratford (ver Figura 2.16) (Diniz, 2011; Oswald, 2013b; Queen Elizabeth Park, 2014). Conforme LLDC (2012, p.24), o local “vai cumprir o seu potencial como uma importante localização de
investimento e um ativo-chave da economia”.
Outros aspectos positivos são a estação de trem King’s Cross que passou a ser a segunda melhor conectada da Europa e a Vila Olímpica que abrigou os atletas durantes o evento e hoje está com os 2.818 apartamentos vendidos para inquilinos particulares e do Programa de Moradia Social do Governo Britânico (Affordable Homes Programme and
National Affordable Housing Programme) (Oswald, 2013b), pertencendo à primeira fase da
Figura 2.15: Parque Rainha Elizabeth em Londres. Fonte: London Legacy Development Corporation, 2012.
Figura 2.16: Escultura ArcelorMittal Orbit em Londres.
Fonte: Arup, 2012.
Apesar de a realização do megaevento ter ocorrido recentemente, há indícios de que Londres já supere Barcelona quanto ao legado (Mascarenhas, 2013a). De acordo com a BBC Brasil (2013), o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte afirma que o legado do megaevento “foi saudado pelo Comitê Olímpico Internacional como um 'exemplo' para
futuros jogos”, além de seguir como inspiração para próximas cidades-sede nos próximos 10
anos.
Com relação ao legado social, houve maior preocupação com as pessoas de classe econômica menos favorecida ao escolher a região de Stratford para ser o centro dos jogos (Mascarenhas, 2013a). As desapropriações ocorridas atingiram cerca de 400 proprietários, que tiveram a possibilidade de participar de reuniões, contribuindo com suas opiniões. Para essas pessoas foram pagas altas indenizações (Diniz, 2011), possibilitando que muitos fossem morar a 2,5 km do local, em uma nova zona residencial (Clarke, 2013).
De acordo com Rolnik (2011b), “Londres fez uma política muito forte de investimento
em habitação social, com 30% de todos os empreendimentos obrigatoriamente produzindo habitação popular”. Esse investimento chegou próximo da estagnação das moradias
precárias.
Em contraposição a esses benefícios, algumas famílias de baixa renda deixaram de morar na região devido ao aumento do preço dos imóveis, dado que áreas próximas ao evento
tiveram inflação de quatro vezes mais que a média nacional. Tendo em vista essa situação, o Governo investiu em políticas sociais para maior integração da comunidade, contudo não foi possível solucionar a situação de todas as famílias (Oswald, 2013b). Tais benefícios sociais estavam associados aos subsídios de habitação, redução do pagamento de impostos e auxílios para baixa renda (Governo do Reino Unido, 2015).
Por fim, as Olimpíadas de 2012 ocorreram a partir da qualificação em uma área que precisava de investimentos urbanos, o que oportunizou melhorias na educação, saúde, aumento no número de empregos, “reposicionando Londres como cidade global líder” (Hitchen, 2010, p.168). Em relação ao legado social, houve preocupação por parte do Governo em atender à necessidade da população atingida pelas remoções (Diniz, 2011; Rolnik, 2011a; Mascarenhas, 2013a), contudo, mesmo com políticas sociais que auxiliassem essas pessoas, nem todas conseguiram continuar na região devido ao aumento do custo de vida (Oswald, 2013b). Mesmo com tal fato, pode-se dizer que o megaevento foi realizado com sucesso, tendo benefícios em longo prazo, servindo de exemplo para futuras cidades- sede.