2.6 Instabilidades do modelo fermiônico de hot spots
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga
Para analisar a instabilidade supercondutora no modelo fermiônico de hot spots com vetor de onda nito Qx = (Q0, 0) ou Qy = (0, Q0), que possui algumas similaridades com o estado de Fulde-Ferrel-Larkin-Ovchinnikov (FFLO) [68, 69] e é conhecida na literatura como onda de densidade de pares (ODP) [70], e a ordem de carga (OC) com vetor de onda na mesma direção, vamos adicionar um termo perturbativo à Lagrangiana total do sistema L[ψ†, ψ], que é dado por L(2)ext[ψ†, ψ] = e∆4,5σ,σ0ψ4,σψ5,σ0 + e∆8,1σ,σ0ψ8,σψ1,σ0 + e∆3,6σ,σ0ψ3,σψ6,σ0 + e∆7,2σ,σ0ψ4,σψ2,σ0 + e∆1,6σ,σ0ψ1,σψ6,σ0 + e∆7,4σ,σ0ψ7,σψ4,σ0 + e∆2,5σ,σ0ψ2,σψ5,σ0 + e∆8,3σ,σ0ψ8,σψ3,σ0 + eXσ,σ4,50ψ4,σ† ψ5,σ0+ eXσ,σ8,10ψ8,σ† ψ1,σ0 + eXσ,σ3,60ψ3,σ† ψ6,σ0 + eXσ,σ7,20ψ7,σ† ψ2,σ0 + eXσ,σ1,60ψ1,σ† ψ6,σ0+ eXσ,σ7,40ψ7,σ† ψ4,σ0 + eXσ,σ2,50ψ2,σ† ψ5,σ0 + eXσ,σ8,30ψ8,σ† ψ3,σ0 + c.c., (2.151) onde e∆`,mσ,σ0 = e∆`,mσ,σ0(r, t)e eX`,m
σ,σ0 = eXσ,σ`,m0(r, t)são, respectivamente, as funções respostas para ODP e OC no sistema (veja a Figura2.12). Redenindo os parâmetros microscópicos da Lagrangiana L(2)ext[ψ†, ψ]em termos de parâmetros renormalizados ou físicos, semelhantemente ao que foi feito nas Eqs. (2.108)(2.110), as equações de grupo de renormalização na aproximação de dois loops para as transformada de Fourier dessas funções respostas podem ser escritas como
Λ d dΛ∆e4,5 σ,σ0 = λ[g3t∆e3,6 σ,σ0 − g3v∆e3,6 σ0,σ] + ηψ∆e4,5 σ,σ0, (2.152) Λ d dΛXe4,5 σ,σ0 = λ g3v X α=↑,↓ e X3,6 α,α− g3tXe3,6 σ,σ0 − g3vXe3,6 σ0,σ + ηψXe4,5 σ,σ0, (2.153) com λ = 1/(cos θR+ sen θR) e o ângulo θR sendo denido logo abaixo da Eq. (2.61). Nesse caso em particular, nós consideramos a taxa de espalhamento entre os férmions dos hot spots ` = 4 e m = 5 para os canais partícula-partícula e partícula-buraco, que são dadas, respecti-vamente, pelas funções de correlação ΓR(2,1)
ODP,45(q, q0) e ΓR(2,1)
OC,45(q, q0). Essas últimas funções são, por sua vez, representadas em termos dos diagramas de Feynman mais relevantes na Figura
2.18. Observando as Eqs. (2.152) e (2.153), vemos que elas descrevem, de fato, as ordens supercondutora e onda de densidade de carga com vetor de onda Qx = (Q0, 0). Porém, devido
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga 60 à invariância do modelo por rotações de π/2 (ou simetria C4), equações semelhantes para as funções respostas devem ser obtidas, quando se considera o efeito de instabilidades como essas, cujo vetor de onda Qy = (0, Q0) aparece na direção perpendicular.
Os parâmetros de ordem para as instabilidades ODP e OC com as simetrias s e dx2−y2 devem ser aqui denidos simetrizando e anti-simetrizando as funções respostas com relação aos índices de spin e às posições dos hot spots na zona de Brillouin, ou seja, da seguinte forma
e ∆s ODP = εσ,σ0( e∆4,5σ,σ0+ e∆3,6σ,σ0), (2.154) e ∆d ODP = εσ,σ0( e∆4,5σ,σ0− e∆3,6σ,σ0), (2.155) e Xs OC = δσ,σ0( eX4,5 σ,σ0 + eX3,6 σ,σ0), (2.156) e Xd OC = δσ,σ0( eXσ,σ4,50 − eXσ,σ3,60). (2.157) Como resultado, as equações de grupo de renormalização na aproximação de dois loop podem ser escritas como
Λ d dΛ∆es ODP = λ(g3t+ g3v) e∆s ODP + ηψ∆es ODP, (2.158) Λ d dΛ∆ed ODP =−λ(g3t+ g3v) e∆d ODP + ηψ∆ed ODP, (2.159) Λ d dΛXes OC = λ(g3v− g3t) eXs OC + ηψXes OC, (2.160) Λ d dΛXed OC = λ(−g3v+ g3t) eXd OC+ ηψXed OC. (2.161)
Para obter uma ideia qualitativa dos resultados de grupo de renormalização, discuti-remos primeiramente as correções de um loop para o modelo fermiônico de hot spots. Nessa ordem de aproximação, podemos calcular os parâmetros de ordem para ODP e OC próximo Λc simplesmente substituindo o Ansatz (2.42) para os acoplamentos nas Eqs. (2.158)(2.161) e, em seguida, desprezando a contribuição de dois loops, dada pelo termo de dimensão anô-mala ηψ. Fazendo isso, nós encontramos imediatamente dois diferentes regimes, que dependem crucialmente dos valores iniciais dos acoplamentos para interações do tipo do modelo de Hub-bard. Para compreender isso, devemos comparar diferentes escalas de energia, que emergem no presente problema: a primeira é a escala crítica Λc, dada pelos acoplamentos que divergem no
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga 61 limite de baixa energia, e a segunda escala corresponde ao cut-o de baixa energia das bolhas de polarização partícula-partícula e partícula-buraco para os vetores de onda Qx = (Q0, 0) e Qy = (0, Q0), ou seja, vR
Fkc(1− tan θR)/λ. Por simplicidade, consideraremos aqui a superfície de Fermi renormalizada que emerge na aproximação de dois loops, para fazer uma estimativa sobre qual dessas escalas vence sobre a outra nos dois regimes físicos mencionados acima.
No primeiro regime, que ocorre para acoplamentos fracos no presente modelo (ou seja, giR(0) < gc, onde gc é um acoplamento crítico), é fácil vericar que vR
Fkc > Λc. Isto signica que o cut-o de baixa energia nas bolhas de polarização partícula-partícula e partícula-buraco para os vetores de onda Qx = (Q0, 0) e Qy = (0, Q0) impedirá a divergência dessas funções no ponto xo de um loop. Dessa maneira, ambas as instabilidades ODP e OC permanecem com um comprimento de correlação muito inferior àqueles das ordens SCS-d e ]ODS-s, uma vez que os diagramas de Feynman correspondentes a essas duas últimas ordens são indepen-dentes de qualquer tipo de cut-o (veja as Figuras 2.13 e 2.14). Essas conclusões estão em total concordâncias com alguns trabalhos referentes ao modelo de spin-férmion [26, 71], sendo também conrmadas por um trabalho independente de Whitsitt e Sachdev [72] para o modelo fermiônico de hot spots.
Por outro lado, no segundo regime, e para as nossas pretensões o mais interessante, o comportamento do sistema muda drasticamente. Isto ocorre para acoplamentos moderados no sistema [giR(0) > gc], uma vez que nessa situação temos Λc > vR
Fkc. A maior parte dos parâme-tros de ordem calculados aqui exibem uma divergência para a escala de altas energias Λc, que é evidentemente uma consequência da divergência dos acoplamentos, quando a aproximação de um loop do grupo de renormalização é implementada para esse modelo em questão. Consequen-temente, os parâmetros de ordem para as instabilidades ODP e OC tenderão a se comportar, próximo a Λc, como uma lei de potência da forma e∆ODP ∼ (Λ − Λc)αODP e eXOC ∼ (Λ − Λc)αOC, onde os expoentes críticos αODP e αOC são dados, aproximadamente, por
αs
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga 62
= + +
1 3 5 4 4 5 6 3 −ig3t 3 6 −ig3v −ig∆4,5σ,σ′ −i∆g3,6σ,σ′ i∆g3,6σ′,σ 4 5 −iδg ∆4,5σ,σ′+ + · · ·
4, σ 5, σ′(a)
4, σ 5, σ′+ +
4 5 −iδg Xσ,σ4,5′+ · · ·
4 5 3 6 −ig X3,6 α,α −ig3v 3= + +
5 4 4 5 6 −ig3t 3 6 −ig3v −ig Xσ,σ4,5′ −ig Xσ,σ3,6′ −ig Xσ3,6′,σ 4 5(b)
Figura 2.18: (a) Função vértice supercondutora ΓR(2,1)
SC,45(q, q0)(círculo cinza à esquerda da igual-dade) expandida em termos dos diagramas de Feynman que contribuem efetivamente para o modelo fermiônico de hot spots até a ordem de dois loops. (b) Função vértice ordem de carga ΓR(2,1)OC,45(q, q0)(círculo cinza à esquerda da igualdade) com vetor de onda Qx = (Q0, 0)expandida em termos dos diagramas de Feynman que contribuem efetivamente para o modelo fermiônico de hot spots até a ordem de dois loops
αd
ODP =−λ(g3t+ g3v) = −0.373, (2.163)
αs
OC = λ(g3v− g3t) = 0.125, (2.164)
αOCd = λ(−g3v+ g3t) =−0.125. (2.165)
Podemos notar dos resultados de grupo de renormalização na aproximação de um loop acima que os expoentes associados com os parâmetros de ordem para as fases ODP e OC com simetria dx2−y2 tornam-se negativos, o que leva essas duas quantidades a divergir próximo à escala crítica de energia Λc. Contrário a isso, os parâmetros de ordem para essas fases com
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga 63 simetria s renormaliza-se para zero perto da mesma escala de energia Λc. Além do mais, os expoentes críticos associados com as fases ODP-d e OC-d tornam-se, na aproximação de um loop do grupo de renormalização, equivalentes aos expoentes para as fases SCS-d, ]ODC-d, que mostramos na Tabela 2.3. Um outro efeito observado no modelo fermiônico de hot spots, no que diz respeito às fases ODP e OC, é a a diminuição do módulo dos vetores de onda Qx = (Q0, 0) e Qy = (0, Q0), na situação onde ocorre o aumento da dopagem no sistema por portadores de carga do tipo buraco. Essa dependência do vetor de onda com a dopagem é observada experimentalmente para algumas famílias dos cupratos supercondutores [30]. De fato, ela revela o papel relevante que a superfície de Fermi desempenha para o aparecimento dessas ordens, no que se refere, pelo menos, à família dos cupratos supercondutores que não possui o elemento lantânio em sua estrutura.
Como discutido anteriormente, as divergências que aparecem nos parâmetros de ordem do modelo fermiônico de hot spots na aproximação de um loop são articiais e podem ser elimi-nadas introduzindo correções no modelo de mais alta ordem. De fato, considerando correções de dois loops e resolvendo as Eqs. (2.158)(2.161) na vizinhança do ponto xo PF1, obtemos que os parâmetros de ordem para as fases ODP e OC devem obedecer as leis de potência
e
∆ODP ∼ ΛνODP e eXOC ∼ ΛνOC, onde os expoentes críticos νODP e νOC correspondem a
νs ODP = λ(g3t+ g3v) + ηψ∗ = 3.722, (2.166) νd ODP =−λ(g3t+ g3v) + ηψ∗ = 3.722, (2.167) νOCs = λ(g3v− g3t) + ηψ∗ = 3.722, (2.168) νd OC = λ(−g3v+ g3t) + η∗ ψ = 3.722. (2.169)
Pelos resultados mostrados acima, concluímos que, na aproximação de dois loops, os expoentes críticos dos parâmetros de ordem denidos nesta seção tornam-se positivos e, como uma consequência, ao invés de serem divergentes, como na aproximação de um loop, eles uem claramente para zero no limite onde a escala de energia Λ tende para baixas energias. Em termos físicos, isso ocorre porque a correção de dois loops da auto-energia (isto é, a instabilidade
2.6.2 Onda de densidade de pares e ordem de carga 64 de pseudogap) nas equações de grupo de renormalização impede a formação de correlações quânticas de longo alcance, ou seja, com comprimento de correlação que envolva todo o sistema [25].
Uma outra propriedade interessante que emerge dos resultados nas Eqs. (2.166)(2.169) é a degenerescência entre os expoentes críticos das fases ODP e OC no modelo fermiônico de hot spots. Como era de se esperar, isso é puramente uma consequência da simetria emergente de pseudospin (2.142) que aparece no sistema próximo ao ponto xo não trivial de dois loops PF1. De fato, o fator de forma para os parâmetros de ordem das fases emaranhadas ODP-s/OC-s e ODP-d/OC-d possui simetria SU(2), em completa analogia com o resultado derivado na Eq. (2.146) para o parâmetro de ordem relacionando as ordens de curto alcance SCS-d e ]ODC-d. No contexto do modelo de spin-férmion, um tipo de simetria com essas características ou seja, envolvendo os parâmetros de ordem para as fases ODP e OC - foi notada em um trabalho de Pépin et al. [26], que trata da competição entre as ordens ODP-d/OC-d e SCS-d/ ]ODC-d na aproximação de campo médio em um sistema com ausência de simetria de rotação C4, e também em um trabalho de Wang et al. [73, 74], onde é mostrado, através de uma análise de Ginzburg-Landau, que os parâmetros de ordem para as fases ODP e OC tornam-se componentes de um super-vetor com simetria SO(4) no regime de baixa energia.
Do ponto de vista experimental, uma fase supercondutora com vetor de onda ligando os hot spots na direção dos eixos principais da zona de Brillouin [Qx = (Q0, 0) e Qy = (0, Q0)], possuindo assim as mesmas características de uma fase ODP bidirecional, foi recentemente ob-servada no cuprato supercondutor Bi2Sr2CaCu2O8+x [75], por meio da técnica de microscopia de corrente de tunelamento Josephson. Desse modo, podemos armar que as conclusões deri-vadas de modelos relativamente simples, como o modelo fermiônico de hot spots ou o modelo de spin-férmion, podem ter grande impacto na descrição dos possíveis tipos de quebra espontânea de simetria presentes, por exemplo, na fase de pseudogap dos cupratos supercondutores.