2 O JOGO DO TRONO DOS FÃS
2.6 Onda do Mainstream (ou onda da Identidade)
Retomando algumas ideias que as outras ondas de estudos trouxeram, o que se deve destacar inicialmente é que nesta onda há um deslocamento de foco. Os estudos passam a se centrar nas questões e recompensas emocionais dos fãs, ao invés das discussões sobre emancipação e hegemonia. Sandvoss escreve:
Apesar da questão de poder ser claramente importante, dada a proeminência do fandom como um recurso simbólico, não pode, portanto, ser subordinada sob o emblema da “resistência prazerosa”. Ao contrário, também precisamos nos voltar para a relevância do fandom para o eu e a sua representação para os outros – é nessa tarefa que os estudos de fãs contemporâneos e o corpo de trabalho que descrevemos como “A Terceira Onda” (GRAY et al., 2007) embarcou. (2013, p.36)
Essa onda, a mais atual, tem como preceito diminuir a ideia polarizada que enxerga os fãs como mocinhos e os produtores como vilões da história. Hoje, para sobreviver, os produtores precisam ouvir a audiência. Dentro de uma noção maior de audiência, os fãs são reconhecidos como prioridade devido ao seu poder de consumo. Os fãs são valorizados e uma vez mais confirmados como ativos na maneira como interagem uns com os outros e com os textos. Tais interações têm uma razão principal, que também discerne essa onda das outras: a internet e as tecnologias.
Mudanças nas tecnologias de comunicação foram um fator crucial para a mudança de foco, tanto nos modos de participação dos fãs quanto no olhar que os produtores e pesquisadores colocam sobre eles. Não se restringe mais a fanzines e encontros casuais como acontecia em 1992, quando Henry Jenkins publicou a edição
original de Textual Poachers7. A internet auxilia a compreensão do papel dos fãs nas transformações sociais, culturais e econômicas. Essa forma de enxergar o papel dos fãs é vista de dois modos (GRAY, HARRINGTON, SANDVOSS, 2017): tanto em um nível macro, quanto no micro.
No campo micro, entende-se que o que é explorado são as questões intrapessoais. Ou seja, os prazeres, a questão do afeto. O que motiva, de maneira pessoal, um determinado consumo ou uma determinada leitura que é feita de um texto. De que modo as relações entre os fãs de uma comunidade contribuem para o desenvolvimento da identidade do fã. No campo macro, perde-se o foco nas questões de emancipação e nas lutas contra as hegemônicas dominantes. O fandom deixa de ser questionado como audiência manipulada e, como supracitado, passa a ter seu papel na sociedade cada vez mais valorizado.
Hills, um dos principais nomes da Onda do Mainstream, nos apresenta o fandom como sendo “sobre identidade, sobre afeto, sobre o sentido do eu, no nível subjetivo. Sobre ser colocado numa comunidade, na qual é preciso uma noção de discurso bem como de emoção” (HILLS, 2015, p.150). Charlotte Brunsdon (1984, p.86 apud JENKINS, 2015, p.169), foca o fandom a partir da ideia dele atuar em cima de prazeres rituais que criam condições de familiaridade entre as pessoas. A fim de desenvolver esses prazeres que se tornam hábito, as comunidades online e off-line são marcantes para os fãs pois formam espaços sociais responsáveis por manter o engajamento dos fãs. Mesmo quando o seriado acaba, por exemplo, nesses espaços sociais os fãs interagem e reafirmam valores e ideias, podendo manter vivo seu interesse naquilo que acabou. Esse “manter vivo” provém do consequente engajamento com outras pessoas que compartilham os mesmos sentimentos.
Apesar dos estudos mais recentes estarem focados numa questão de identidade e afeto, para Hills, o fandom ainda se apresenta como um espaço de hierarquias e divisões. Essas divisões funcionam com base no conhecimento compartilhado e nas emoções que conectam os fãs. O fandom é, acima de tudo, performance. Sobre isso temos que:
O fandom ainda é performativo. [...] O fandom é realizado de maneiras diferentes e pode significar diversas coisas em distintos microcontextos, em diferentes momentos de interação social, e até mesmo em plataformas distintas. Ser um fã no Tumblr pode significar uma coisa, ser um fã numa
7Textual Poachers, publicado por Jenkins em 1992, é considerada pelos estudiosos da área uma das obras
convenção pode significar outra. Pode haver muitos tipos de fandom, indo além da noção de afirmativo versus transformativo como uma problemática binária. Podem existir todas as espécies de diferentes tipos, modos, níveis e hierarquias dentro do fandom, que podem ser desempenhados de formas variadas. (HILLS, 2015, p.149)
As noções de fandom afirmativo e transformativo são propostas por Jenkins (2009). Fandom afirmativo corresponde ao grupo de fãs cujo objetivo principal é acumular o máximo de informações a respeito do produto midiático. Ao acumular conhecimento a respeito do objeto, eles procuram tratar as informações acumuladas como sendo as únicas verdadeiras, sem abertura para as mudanças que se vê em fanfics ou fanarts, por exemplo. Ou seja, a única narrativa que é aceita é a oficial. Por outro lado, o fandom transformativo corresponde à comunidade cujo objetivo é alterar e aceitar diferentes versões da narrativa. Eles transformam, exploram, modificam o texto original, conforme for de seu interesse.
Hills escreve as diferentes maneiras de se comportar como fã, dependendo de onde essa performance acontece. Isso dá origem a diferentes tipos de fãs e modos de interação com os objetos. Em cada espaço, o fã irá se comportar de uma maneira. Isso nos leva diretamente às possibilidades que o Facebook oferece, às quais pretende- se explorar de maneira mais detalhada no decorrer deste trabalho, a fim de verificar e argumentar se essa rede social, sendo usada pelos fãs, tem características particulares, que não vemos em outros sites e redes sociais.
Ainda seguindo o contexto das redes, entende-se que as mudanças no campo dos estudos de fãs não ignoram totalmente as dinâmicas dos fandoms como reflexo do que acontece na sociedade – como se pode observar na fala de Hills descrita acima, na qual ele confirma hierarquias. Pelo contrário. As tecnologias de comunicação expandiram as fronteiras e tornaram o fandom global. Não obstante, tais formas de participação tornam o fandom um espaço para observar interações. Brough e Sharsthova consideram que:
É claro que, comunidades de fãs, como outras, também são suscetíveis a pontos de vista homogeneizantes, que podem impedir ou, às vezes, silenciar, outros. O que é mais relevante aqui, entretanto, é que comunidades de fãs normalmente se formam ao redor de mundos de conteúdo que podem não ser explicitamente políticos por natureza, mas que oferecem ferramentas e espaços para o engajamento político. (2012, s/p)
Ainda sobre isso, Amaral (2016) trata o fandom como lugar de ativismo e de visibilidade de discussões políticas. A autora menciona que, para Jenkins, tais discussões giram em torno de representatividade – cidadania, gênero e raça. Jenkins
propõe a conscientização dos fãs sobre esses temas, a partir da ideia de “imaginação cívica”. Essa expressão se refere a “possibilidades de construção de narrativas que extrapolem a dualidade de celebração ou resistência, muito enfatizada nos estudos sobre fãs e sobre subculturas” (AMARAL, 2016, p.74). A autora prossegue, declarando que Jenkins parece estar:
[...] Avançando e rediscutindo a perspectiva da convergência, e enfatizando os aspectos políticos-cognitivos da coletividade [...] sobre a relação entre fãs, seus conjuntos de práticas e as indústrias, embora não ignore as tensões do mercado com temas sensíveis como raça, gênero, classe social a partir das narrativas da cultura pop. (AMARAL, 2016, p.74)
O que começou no final da década de 1980, ganhou forças nos anos 1990 e 2000 e prossegue até hoje, é um debate que se modifica a cada dia. Conforme já citado nesse texto, Jenkins coloca o fandom como mutável e suscetível aos diversos avanços e influências que sofremos cotidianamente. Uma das mais importantes – que continua a modificar as formas de consumo e participação dos fãs, são as tecnologias de comunicação e, mais especificamente, para este trabalho, as redes sociais, conforme veremos.