I. IMPRENSA E INTELECTUALIDADE
4. Onde estão nossos intelectuais?
São diversos os estudos que têm avaliado a trajetória dos intelectuais nas sociedades contemporâneas. Muitos deles, como a obra do sociólogo Frank Furedi, autor de Where Have
All the Intellectuals Gone?, constituem-se em afiadas críticas ao modo como a vida intelectual
se degradou nos últimos tempos, dentro e fora do mundo acadêmico.
Furedi não é o único. Segundo Jacoby (2001, p.139), ao longo do século XX, os intelectuais migraram para instituições, tornando-se especialistas e professores. Em sua obra
O fim da utopia, o autor fala em “eclipse do utopismo entre os intelectuais”.
O destino de toda visão utópica está vinculado ao destino dos intelectuais, pois se em algum momento a utopia pode sentir-se em casa, é entre os pensadores independentes e nos cafés por eles freqüentados. Na medida em que estes já não existem, a visão utópica esmorece. [...] Haveria uma afinidade entre a utopia e os intelectuais independentes? E se os intelectuais se transferiram dos antigos antros para as salas de conferências e seminários, o que terão ganhado ou perdido com isto? (JACOBY, 2001, p.139-140).
A antiga visão dos intelectuais como seres independentes e desenraizados cede lugar a uma visão dos intelectuais como dependentes e vinculados ou institucionalizados.
Simplificando, poderíamos dizer que antes os intelectuais eram marginais que queriam se integrar. Hoje são integrados que se fingem de marginais – uma alegação que só pode ser sustentada transformando a marginalidade numa pose. Não é tudo, mas resume boa parte da situação. A outra parte está no reconhecimento e mesmo na celebração de sua nova posição de integrados, como profissionais de carreira. São duas reações ao mesmo processo. Ambas significam o eclipse de uma antiga realidade – que na verdade sempre foi em parte mitológica – do intelectual independente (JACOBY, 2001, p.153).
Apesar de se tratar de um estudo sobre a intelectualidade norte-americana, ao transportar tais idéias para a situação brasileira, veremos que as conclusões a que ele chegou condizem com a nossa realidade.
De acordo com ele, criados nas ruas e cafés da cidade antes da era das enormes universidades, os intelectuais da “última” geração escreviam para o leitor educado. “Foram suplantados pelos intelectuais high-tech, por consultores e professores – almas anônimas, que podem ser competentes e até mais que competentes, mas que não contribuem para a vida pública”. Os intelectuais mais jovens, cujas vidas se desenvolveram quase inteiramente nos
outras pessoas. Este é o perigo e a ameaça. A cultura pública depende de um grupo cada vez menor de intelectuais mais velhos que dominam o vernáculo.
Aqui é importante destacar que, quando Jacoby julga a situação dos intelectuais da nova geração, ele não deixa de fazer uma mea culpa:
Quando digo “eles” ou “os intelectuais mais jovens”, quero dizer “nós”. Quando me refiro à geração “ausente”, estou discutindo a minha própria geração. Quando questiono as contribuições acadêmicas, estou examinando os escritos de meus amigos e os meus próprios. Tenho artigos publicados em revistas acadêmicas e um livro editado por uma editora universitária. Leio monografias e periódicos acadêmicos. Adoro bibliotecas universitárias, estantes sem fim, imensas salas de periódicos. Lecionei em várias faculdades. Nem por um momento pretendo ser feito de uma substância diferente e melhor. Minha crítica dos intelectuais ausentes é também autocrítica (JACOBY, 1990, p.12).
O historiador questiona o impacto das universidades na vida cultural, buscando comprovar que o ambiente, os hábitos e a linguagem dos intelectuais sofreram transformações nos últimos cinqüenta anos. Sob o seu ponto de vista, os intelectuais mais jovens, quase todos professores, não necessitam ou desejam um público mais amplo. Os campi são seus lares; os colegas, sua audiência; as monografias e os periódicos especializados, seu meio de comunicação. Ao contrário dos intelectuais do passado, eles se situam dentro de especialidades e disciplinas. Seus empregos, carreiras e salários dependem da avaliação de especialistas. Eles trocaram uma existência precária por carreiras estáveis.
Os grandes pensadores, de Galileu a Freud, não se contentaram com as descobertas solitárias; eles buscaram, e encontraram, um público. Se eles parecem muito distantes, um padrão muito elevado, o meu parâmetro é a última geração dos intelectuais americanos. Eles também dirigiram-se a um público; o mesmo não ocorreu com a geração seguinte (JACOBY, 1990, p.18-19).
Para Jacoby (1990, p.19), o público interessado em produções de qualidade não sumiu. Tanto que os escritos clássicos de intelectuais mais velhos continuam a suscitar interesse e discussão. O que ele enfatiza, portanto, não é o desaparecimento de um público, mas o “eclipse dos intelectuais públicos”. De outro modo, a questão não é o valor de suas contribuições, mas o relacionamento que mantêm, enquanto intelectuais, com um público mais amplo.
Ele procura revelar que os intelectuais não-acadêmicos são uma espécie ameaçada e que os novos acadêmicos, apesar de se apresentarem em número muito maior (em conseqüência da “explosão” da educação superior após a Segunda Guerra Mundial),
representam sociedades insulares, sendo que aqueles que não pertencem à sua esfera raramente chegam a conhecê-los.
A geração nascida em torno e após 1940 emergiu em uma sociedade em que a identidade entre as universidades e a vida intelectual era quase completa. Ser um intelectual implicava ser um professor. [...] Independentemente da quantidade deles, para o grande público eles são invisíveis. Os intelectuais ausentes estão perdidos nas universidades (JACOBY, 1990, p.29).
O pesquisador mostra que, antes de 1940, as universidades não desempenharam o mesmo papel. As escolas de nível superior eram pequenas e freqüentemente fechadas aos radicais, aos judeus e às mulheres. Somente a geração nascida após 1940 é que sentiria o peso total do academicismo.
Nos anos 60, as universidades praticamente monopolizaram o trabalho intelectual; uma vida intelectual fora do campus parecia quixotesca. Quando a poeira baixou, muitos intelectuais jovens jamais haviam deixado a escola; outros descobriram que não havia nenhum outro lugar para ir. Tornaram-se sociólogos radicais, historiadores marxistas, teóricos feministas, mas não exatamente intelectuais públicos (JACOBY, 1990, p.21).
A realidade cotidiana da burocratização e do emprego tomou conta deles. A nova esquerda que permaneceu na universidade revelou-se trabalhadora e bem comportada. Numa transição quase sempre indolor, eles passaram da condição de estudantes aos postos iniciais na carreira docente, e, em seguida, às nomeações estáveis. Atualmente, denuncia Jacoby (1990, p.193), “os marxistas americanos têm escritórios no campus e vagas privativas”.
Evidentemente, a maior parte dos teóricos de esquerda não reconhecerá que a finalidade de sua vida profissional, ou da obra de outros, seja a obtenção de poder institucional; antes, dirão que buscam estabelecer um corpo de “contra” cultura ou de cultura marxista que nunca chegou a existir nos Estados Unidos. Com referências freqüentes a Gramsci e as suas idéias de hegemonia ideológica, os teóricos de esquerda encaram seu ensino e seus escritos como o estabelecimento das bases culturais para um renascimento político; eles buscam desenvolver uma “nova” sociologia, uma “nova” ciência política e uma “nova” história que sejam convincentes (JACOBY, 1990, p.198).
O mesmo se aplica aos nossos intelectuais. Hoje em dia, eles viajam com currículos e cartões de visita; sobrevivem graças à retaguarda institucional. “A primeira ou segunda pergunta padronizada entre os acadêmicos não é ‘quem?’ mas ‘onde?’, querendo significar a instituição a que um indivíduo está filiado; isso faz a diferença” (JACOBY, 1990, p.121).
Jacoby (1990, p.194) vai além. Na sua opinião, “os intelectuais de esquerda sucumbiram aos imperativos que os agruparam nas universidades, mas eles não são vítimas inocentes [...] não aceitaram ingenuamente ou de má vontade o regime acadêmico; eles próprios adotaram a universidade”.
Seja como for, não foi o caso de uma “traição”. Em seu trabalho, Jacoby demonstra que, antes de tudo, os intelectuais radicais não eram opositores irredutíveis do poder institucional. Quando surgiu a possibilidade de entrarem nessas instituições e talvez se utilizarem delas, eles o fizeram. No entanto, “embora sempre prontos a denunciar as violações às liberdades acadêmicas e, por vezes raciais e sexuais, eles, caracteristicamente, esqueceram os custos da institucionalização” (JACOBY, 1990, p.194).
Em suas considerações finais, após defender a existência de uma “geração ausente” de intelectuais, Jacoby admite que sua tese pode ser contestada pela afirmação de que os novos intelectuais prosperam no jornalismo.
Concordo que o “novo” jornalismo, assim como aquele não tão novo (reportagem pessoal, denúncia, crítica de rock) testemunha – ou outrora testemunhou – o vigor de uma nova geração mais jovem. Além do mais, em virtude de uma omissão generalizada, os jornalistas adquiriram uma crescente importância crítica. No entanto, as limitações de quem vive apenas da imprensa – prazos, espaço, dinheiro – acabam por diluir, ao invés de estimular, o trabalho intelectual (JACOBY, 1990, p.26).
Não é verdade, entretanto, que se possa enquadrar o trabalho jornalístico numa única prática. Como veremos no próximo capítulo, existem contextos específicos dentro desse rico universo definido pelos veículos de comunicação que ultrapassa, ou ao menos ameniza, os ditames impostos pela produção em escala industrial.
Neste sentido, a imprensa – parte que nos interessa neste estudo – passa a se constituir em lugar ideal para a concretização de uma das funções fundamentais do intelectual: escrever para um público. Hoje, vive-se sob o poder dos meios de comunicação de massa e os intelectuais, como outras categorias, têm consciência da importância da divulgação de suas obras nestes espaços. A influência da mídia passa a ser determinante na produção, seleção e divulgação cultural.
O público virtual do escritor é seu júri de honra. E o intelectual é o ser humano que passa a vida sendo julgado, e que a cada palavra, artigo ou livro encontra-se sujeito ao veredicto do auditório, entre a vida e a morte, a sagração e o esquecimento. [...] Ele está na essência e a existência sob a
dependência dos outros. A quantidade desses “outros” fixará o valor desse “eu” (DEBRAY, 1979, p.120).
Também para Antonio Candido (2000, p.75), a posição do intelectual depende do conceito social que os grupos elaboram em relação a ele, e não corresponde necessariamente ao seu próprio. Esse fator exprime o reconhecimento coletivo da sua atividade, que deste modo se justifica socialmente.
O fato é que, assim como a sociedade, a vida intelectual passou por transformações.
No decorrer do século XX, a intelligentsia nativa continuou desempenhando esse papel, em revoluções e reformas, na oposição a golpes militares e ditaduras, na cultura e nos meios de comunicação. [...] Quando afinal apareceram os meios de comunicação de massa, os intelectuais ocuparam suas salas de redação e escreveram seus editoriais (CASTAÑEDA apud FARO, 1999, p.17).
A vida cultural letrada se faz, atualmente, mais do que nunca, em sintonia com a universidade e a mídia.
Abram-se as revistas e os suplementos dos jornais mais informados: as suas seções de cultura alimentam-se de artigos, entrevistas, resenhas e reportagens escritas pelos intelectuais, ou sobre os intelectuais, das maiores universidades do país. [...] a cidade já não mais promove aquele tipo de vida cultural e literária tangível até os anos 40, quando a Universidade apenas começava a se implantar e não tinha ainda absorvido profissionalmente os intelectuais (BOSI, 1992, p.319).
É verdade que isso ainda não é o suficiente. O desafio maior está em fazer chegar essas produções a parcelas mais significativas da população. De qualquer forma, acreditamos que o que é silencioso e profissional hoje pode ser aberto e público amanhã.
Com inspiração em Lajolo (1995, p.64), confiamos que produções intelectuais:
[...] embora nascendo da elite e sendo a ela dirigidas, não costumam confinar-se às rodas que detêm o poder. Transbordam daí e, como pedra lançada às águas, seus últimos círculos vão atingir as margens, ou quase. Seus efeitos, a inquietação que provocam, podem repercutir em camadas mais marginalizadas, mais distantes dos círculos oficiais da cultura.
Por fim, vale destacar um último alerta feito por Jacoby (2001, p.160): não existe qualquer vínculo entre o sucesso institucional e a contribuição intelectual. Bons salários, posições seguras e convites lucrativos para falar não impedem que se seja original e subversivo; nem podem as remunerações ralas ou os empregos inseguros garantir o pensamento crítico revolucionário.