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3. TECNOLOGIAS BATISTAS EM TRÊS CENAS

3.3. ONG Pró-Viver Obras Sociais e Educacionais

A ONG Pró-Viver é um projeto que nasceu em 1992 a partir da iniciativa do pastor Odilon dos Santos Pereira, da Primeira Batista, junto com alguns membros da igreja. Segundo o site2 da ONG, no início o objetivo do grupo era de “investir seus dons e talentos em ações concretas que pudessem modificar de maneira efetiva o quadro de miserabilidade em que se encontravam crianças e adolescentes moradores da região central de Santos.” portanto, o público alvo destas ações: crianças e adolescentes batistas e não batistas.

No ano de 2000, firmou um convênio com a Prefeitura Municipal de Santos, através da Secretaria de Educação, e consolidou o trabalho com as crianças em vulnerabilidade social.

Expandiu o território de ação para mais quatro bairros de Santos: Marapé, Areia Branca, Morro da Penha e Bom Retiro. Totalizando aproximadamente 500 crianças e adolescentes de 4 a 14 anos de idade. Atualmente, o site da entidade afirma como missão:

“Colaborar para o desenvolvimento das potencialidades globais de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias, que vivam em situação de risco pessoal e social, através de atividades complementares a Escola, capacitação profissional, geração de renda e empreendedorismo social.”

2http://www.proviver.org.br/publico/ Acesso em: 06/01/2021

A maioria dos espaços utilizados para realização das atividades são de igrejas destes bairros, com exceção do Bom Retiro, que utiliza o espaço da Sociedade de Melhoramento do Bairro. A parceria com as igrejas mostra como apesar de ter se tornado uma ONG vinculada à Secretaria de Educação, ela continuou seu vínculo com as organizações religiosas. Tal ato possibilitou que estas igrejas em Santos não permanecessem apenas com a discussão do religioso, mas participassem também dos espaços públicos da educação e cuidado social a partir das ações da ONG.

O primeiro contato com a ONG ocorreu enquanto fazia campo na unidade da Primeira Batista. Na igreja, I me apresentou o projeto da instituição e disse que trabalhava na ONG de forma voluntária, ministrando aulas de educação religiosa nas quartas pela manhã. Foi assim que fui convidado a participar de algumas das atividades desenvolvidas pela entidade.

A primeira atividade que participei foi uma aula com o tema “eu e meus sentimentos”. A educadora disse que utiliza os mesmos temas de suas aulas no culto infantil proferido na Igreja Batista. Havia na sala cerca de 12 crianças, meninos e meninas que tinham a idade entre 6 a 10 anos, a maioria já vestidos com o uniforme escolar, e um adolescente, de aproximadamente 15 anos. Nenhum deles eram membros da Primeira Igreja Batista e de acordo com a educadora, quase todos moravam e estudavam próximos ao centro.

Na aula, I usou placas de emojis para que eles pudessem falar qual sentimento cada figura estava sendo representada. Em seguida, ela fez uma brincadeira de batata-quente.

Quem era queimado deveria jogar a bola em algum dos emojise depois explicar o motivo de ter o escolhido.

A atividade conseguiu trazer algumas vivências do cotidiano dessas crianças. A partir disso, I pediu para que desenhassem ou escrevessem algo que estivesse relacionado com algum dos sentimentos usados.

Por fim, I contou a história do filho pródigo, uma parábola contada por Jesus, localizada no livro de Lucas, capítulo 15, versículos 11 ao 35, no novo testamento. A história bíblica fala de um jovem que pede a divisão da herança de seu pai antes do falecimento dele, vai embora e gasta com mulheres e bebidas. Quando seu dinheiro acaba, percebe que está sozinho e passa fome a ponto de sentir desejo de comer a comida dos porcos no local em que trabalhava. Então se arrepende de suas atitudes e decide voltar ao pai, que o acolhe de braços abertos.

Enquanto contava a parábola de maneira mais lúdica, I relacionou as situações da história com as emoções citadas na aula, e ensinou questões de conduta, como: não abandonar os pais, não gastar dinheiro com bebidas, festas e mulheres, encontrar bons amigos e se arrepender dos erros cometidos. Também trouxe aspectos da relação cristã com Deus, no qual o pai da parábola seria Deus e o filho seria aquele que se afasta dele, mas depois volta arrependido.

Figura 4- ONG Pró-Viver unidade Centro, pátio da Primeira Igreja Batista. Fonte: site da Pró-Viver

Na segunda visita na ONG pude conhecer R, a coordenadora do projeto Pró-Viver.

Formada em pedagogia e com pós em psicopedagogia, ela atua desde 2012 na coordenação pedagógica da ONG. Mostrou-se sempre muito receptiva e acolhedora, mesmo sempre cheia de tarefas a resolver no dia-a-dia da ONG. Toda semana ela passa pelas unidades da ONG

para capacitar os educadores, realizar treinamentos e acompanhar o funcionamento daquela unidade.

Ela contou um pouco sobre o projeto e disse que eu também poderia participar das atividades promovidas pela ONG na unidade do Marapé às quintas, local em que poderia me apresentar mais sobre o projeto, pois lá a quantidade e a dinâmica de crianças e educadores é maior.

A aula seria com um grupo missionário cristão vindos do Paraná chamado Jovens com uma missão (Jocum), mas eles estavam atrasados. Enquanto isso, a professora voluntária conversou com as crianças sobre o dia 18 de maio, dia nacional do combate ao abuso e à exploração sexual da criança. Ela falou com as crianças sobre alguns desenhos e alertou sobre a importância de denunciar questões de abuso.

Quando o grupo da Jocum chegou, em 7 pessoas, a educadora e as crianças desceram até o pátio da igreja para assistir a uma pequena apresentação teatral encenada por eles.

Colocaram em cena textos simples e engraçados, com temática girando em torno de profissões. Para finalizar, eles contaram a história do “livro sem palavras”, já citado ao falar dos cultos infantis no domingo. A diferença foi que ao invés de usarem cores, eles usaram um modelo de cubo mágico com figuras representando os significados da história, muito atrativo para as crianças.

Com o convite da R, pude participar das atividades da ONG na unidade da Batista do Marapé. Quando conheci o local, percebi muita diferença, principalmente na organização e na quantidade de educadores e crianças. Na Primeira Batista havia aproximadamente 15 crianças pela manhã e 24 de tarde, com um ou dois educadores em cada dia. Já no Marapé era uma média de 230 crianças no total por dia, com seis educadores diariamente. R afirma que tal circunstância ocorre por conta do Marapé ser um bairro movimentado e próximo a mais de

uma escola na região. Grande parte destas crianças e adolescentes não são ligadas à igreja, o que diferencia dos ministérios infantis.

Por conta da grande quantidade de crianças de diferentes idades, há uma separação por grupo de cores, cada cor reúne crianças ou adolescentes com idades aproximadas, que varia de 4 a 16 anos.

Figura 5- Uma das turmas na ONG Pró-Viver unidade Marapé, último andar na Batista do Marapé.

Fonte: facebook da Pró-Viver

Antes de iniciar as aulas, crianças e adolescente se reúnem num espaço amplo que fica no último andar de um pequeno prédio nos fundos da igreja para realizar a chamada. O prédio é utilizado na semana especialmente para as atividades do Pró-Viver. São alguns andares com muitas salas, no último andar há também a cozinha e um espaço livre amplo, neste local todos da ONG tomam café e almoçam.

Após a chamada, as turmas são divididas para aulas diferentes, depois de algum tempo elas fazem rotação, assim todos participam de todas as aulas. A única turma que não rotaciona é a de 4 e 5 anos, pois ficam sempre na sala infantil.

As aulas oferecidas para eles são de informática, reforço escolar e educação física.

Cada aula tem a participação de um ou dois educadores especializados ou ao menos um especializado e um voluntário.

Com a permissão de R, pude participar de algumas das aulas e comecei pela turma infantil. Haviam duas educadoras para uma turma de aproximadamente 20 crianças, de 4 e 5 anos, a atividade que estava sendo realizada era de corte e colagem. Os alunos precisavam fazer uma aranha como o modelo mostrado pela educadora.

Em seguida fui para a aula de informática. Lá havia apenas um jovem educador e as crianças faziam revezamento para utilizar os computadores, pois não havia equipamentos suficientes para todos. A atividade era dentro de um programa de jogos, em que os alunos precisavam fazer contas de matemática para dar andamento no jogo. A atividade não estava sendo muito prazerosa para a turma de 6 e 7 anos, pois algumas contas estavam difíceis de resolver. O educador não estava conseguindo dar conta de todas as crianças sozinho, por isso acabou deixando de acompanhar e ajudar os que estavam com mais dificuldades para resolver as atividades. Então alguns alunos acabaram preferindo não usar o computador e ficar brincando no meio da sala.

Depois participei da aula de educação física, na qual o educador estava dando aula de karatê para a turma de crianças de 10 e 11 anos. Diante dos alunos enfileirados, ele ensinava alguns movimentos coordenados da arte marcial. Como a maioria da turma estava com vestimenta inapropriada para o treino, muitos não conseguiam realizar muito bem os movimentos. Mesmo assim, eles pareciam se divertir com a aula e o educador parecia ser respeitado e querido pelos alunos.

Ao conversar um pouco com o educador, ouvi que ele organiza uma grande variação de atividades com os alunos, com brincadeiras, esportes, jogos e treinos de karatê, que ele conhece. Perguntei o que ele acha sobre a formação que o Pró-Viver dá a essas crianças e

jovens. Ele disse que elas se tornavam muito mais bem educadas, mas que às vezes elas se tornam “moles” demais. Explicou que muitas vezes escuta reclamação dos alunos por algo que aconteceu na escola deles, e não conseguem lidar com essas dificuldades.

Por fim, tive uma conversa com R. Esta conversa possibilitou compreender mais sobre alguns dos valores e ensinamentos da ONG. Ela diz que busca contribuir para que as crianças se desenvolvam não apenas cognitivamente dentro da escola. Ela afirma que a ONG propõe trabalhar com a criança, em suas palavras, “na sua integralidade”. E exemplifica alguns ensinamentos: “A gente trabalha com as crianças a questão das emoções, a gente trabalha com as crianças a questão de bons valores, de regras, do aguardar/esperar, do compartilhar coisas.”. Ela também disse que a ONG se propõe a desenvolver na criança o sentimento de pertencimento e cidadania. Para ela “é uma coisa muito em falta, essa questão do pertencimento. [...] as crianças destroem muito as escolas, picham, quebram, por falta dessa conscientização de pertencimento.”

Por conta do vínculo da ONG com as igrejas, algumas pessoas da membresia participam voluntariamente das atividades da ONG. Outros atuam como educadores contratados. Além disso, o Pró-Viver disponibiliza os contatos das famílias com as igrejas em que suas unidades estão inseridas. Isso possibilita a tentativa de criação de vínculo das entidades com as famílias R nos conta que “as igrejas abrem esse espaço para gente utilizar, elas podem ter acesso, por exemplo, ao contato com a família. Nós temos voluntários da igreja que trabalham com as crianças no projeto e desse voluntariado, desse vínculo que é criado, [...] elas acabam sendo estimuladas a participarem das programações da igreja [...]

com a família.”.