Antes de avançarmos para a segunda parte deste trabalho é oportuno
algumas observações do que analisamos até o momento. Parece-nos claro que a
causalidade desempenha um papel importante dentro do discurso político exposto
na prima dictio do DP. O homem, como causa material, só pode alcançar a vida boa
191 MAGLIO, 2003, p.126. 192 DP I, VIII, §1, p.104; I, X, §2, p.115. 193 DP I, IX, §11, p.114.
194 DP III, II, §10, p.693: “Cuius libet principatus aut alterius offici per elecionem instituendi, precipue
vim coactivam habentis, eleccionem a solius legislatoris expressa voluntate pendere”.
195
Sugestão de MAGLIO: “Marsilio è sincero nelle sue convinzioni ma forse non sa cogliere esattamente le implicazioni di un passaggio dagli ordinamenti comunali a strutture a direzione uni- personale per le quali occorreva prevedere dei meccanismi di esercizio del potere e di controllo della
universitas civium ben più maturi e complessi (ad es. un sistema di assemblee a vari livelli con largo
utilizzo del principio della representatività politica), proprio allo scopo di evitare lo svuotamento della sovranità popolare” (2003, p.75).
(suficiente) se estiver numa associação que permita a ele tal feito. Este fim perfeito
só ocorrerá na comunidade perfeita, a civitas.
Ela, por seu turno, também possui suas causas. Os ofícios públicos dão a
forma da comunidade, que organizada racionalmente, proporciona um estado de paz
e tranquilidade (causa final). Entretanto, para que este estado permaneça é
necessário algo que regule os grupos através de um instrumento que garanta a
justiça e a ordem dentro da sociedade civil. Este instrumento será a lei, escolhida
numa assembleia pelos cidadãos ou pelos seus representantes: o conjunto dos
cidadãos (legislador humano), a causa eficiente. Ela é formulada pelos prudentes e
depois aprovada pelo conjunto de cidadãos (ou pela valecior pars), determinando o
que é útil e justo para a sociedade, o que se deve ou não fazer em foro público.
Contudo, a causa eficiente cumpre seu papel com certos meios; pois, do mesmo
modo que um artesão necessita de ferramentas para fazer uma estátua, o legislador
humano precisa de um instrumento para aplicar a lei. Este meio será o governante, a
causa eficiente secundária ou instrumental do poder.
Marsílio demonstra racionalmente através do discurso causal como um
Estado deve ser
196. E mais, demonstra, já no discurso político, que não há nenhuma
razão para o sacerdócio exercer o poder político, pois tal função é intrínseca as
causas do grupo governante. Cabe agora, examinar as causas da Igreja e do
Sacerdócio (este grupo social especial) tema do nosso segundo capítulo.
196 “A noção de causas aristotélicas parece clara. O conjunto dos cidadãos é a causa eficiente e
material para que se realize a causa final da sociedade civil. Isto está ligado a uma idéia formal onde quem governa deve agir segundo a vontade popular” (STREFLING, 2002, p.147).
C
APÍTULOII
AC
AUSALIDADE NAE
CLESIOLOGIAPara que nossa pesquisa sobre a importância da causalidade no
pensamento de Marsílio ganhe consistência torna-se necessário compreender o seu
emprego no que tange à Eclesiologia
197. Este será o foco principal do presente
capítulo. Partimos do pressuposto de que Marsílio segue o mesmo objetivo
197 O termo “eclesiologia” designa, em linhas gerais, um estudo sobre a Igreja. De acordo com o
Catecismo da Igreja Católica: “a palavra ‘Igreja’, do grego ‘ek-kalein’, significa convocação. Designa
assembléias do povo, geralmente de caráter religioso.[...] Na linguagem cristã, a palvra ‘Igreja’ designa a assembléia litúrgica, mas também a comunidade local ou toda a comunidade universal dos crentes” (Capítulo II, ART 9, §1, p.216s.). Segundo CODINA: “a eclesiologia deve, por um lado, voltar às fontes bíblicas e patrística da Igreja, e, por outro, deve tentar responder aos sinais dos tempos” (1993, p.11). Por isso ela deve ser histórica e estar ligada a uma realidade concreta para não correr “o risco de pensar na Igreja com categorias especialistas, abstratas, metafísicas, supratemporais, como se a Igreja pudesse existir à margem do espaço e do tempo” (CODINA, 1993, p.12). Por conta disso é possível verificar, ao longo da história da humanidade, diferentes eclesiologias: “a eclesiologia bíblica (do Antigo e Novo Testamento), a eclesiologia patrística, medieval, da reforma e contra- reforma, as dos concílios Vaticano I e Vaticano II, as eclesiologias pós-conciliares [...]” (CODINA, 1993, p.14). Os acontecimentos históricos do século XIV proporcionaram uma reflexão autônoma da eclesiologia. Nas palavras de Riccardo BATTOCCHIO: “è risaputo da chiunque si occupi della storia dottrinale del cristianesimo come proprio all’inizio del XIV secolo, e in relazione agli eventi che segnano quest’epoca, cominci a prendere forma uma trattazione autonoma della tematica ecclesiologica” (2005, p.10). Veremos como Marsílio, ao críticar a eclesiologia teocrática propõe uma eclesiologia alternativa com bases nos textos da Sagrada Escritura, que, desde a sua época, não ficou isenta de controvérsia. Cabe lembrar que o Papa Clemente VI, em 10 de abril de 1343, teria dito que a sua pior leitura fora do herético Marsílio (BATTOCHIO, 2005, p.12). Os estudiosos divergem sobre os valores religiosos do DP. BATTOCHIO ressalta que Marsílio ora é visto como um homem fundamentalmente irreligioso e alienado da visão cristã da vida, ora é um reformador da Igreja, motivado por uma intensa paixão evangélica (1995, p.280). DAMIATA menciona que: “Marsilio combatte non il sistema di fede, ma certe concezioni politiche, che a torto o a ragione con essa s’intendeva giustificare” (1983, p.34); chegando a chamá-lo de um cristão convicto (1983, p.37), pois “Marsilio reagisce con le convinzioni e la sensibilità di un uomo medioevale e quindi di un animo nel suo profondo ancora credente” (1983, p.38). Entrementes, a advertência de Giuseppe SEGALLA parece ser justa “Marsilio è anzitutto um credente e um credente appassionato, perché il suo discorso è sempre polemico, direttamente o indirettamente” (1980, p.307). Maiores informações sobre a eclesiologia em Marsílio pode ser encontrada na bibliografia especializada: GEWIRTH, Alan. Marsilius of Padua, the Defender of Peace, v.I. In: Marsilius of Padua and Medieval Political Philosophy. New York: Columbia University Press, 1951, p.260-302; QUILLET, Jeannine. La Philosophie
Politique de Marsile de Padoue. Paris: Vrin, 1970, p.161-274; DAMIATA, Marino. Plenitudo Potestatis e Universitas Civium in Marsilio da Padova. Edizioni Firenze: Studi Francescani, 1983.
p.207-230; BAYONA, Bernado Bayona. Religión y poder Marsilio de Padua ¿La primeira teoría
laica del Estado? Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 2007. p.209-259; BATTOCHIO, Ecclesiologia e Politica in Marsilio da Padova. Padova: Instituto per la Storia Ecclesiastica Padovana, 2005.
estabelecido na prima dictio, a saber: desmascarar o sofisma que interfere no bom
andamento das sociedades civis (a causa perniciosa que não permite ao homem a
felicidade terrena). Como a sociedade marsiliana também está preocupada com a
outra finalidade humana, pois o sacerdócio é um dos grupos sociais, torna-se
necessário compreender a relação que existe entre o Estado e a Igreja; entre a
universitas civium e a universitas fidelium que compõem a civitas perfecta
198.
Sendo assim, trataremos de alguns elementos da extensa secunda dictio, do
DP, que traz um acurado exame de passagens da Sagrada Escritura e das
Autoridades da Igreja, à luz da teoria causal. Nosso objetivo neste capítulo será
analisar o papel da teoria causal (se é que ela desempenha alguma função?!) na
proposta de como a Igreja e o sacerdócio devem ser. Para tanto, será oportuno
explorar em:
2.1. Sobre a ecclesia: (a) quem a constitui (a causa material); (b) quem
instítuiu (a causa eficiente); (c) se há uma causa instrumental na sua
instituição; (d) como ela deve estar organizada (causa formal); e, por fim,
(e) qual é a sua finalidade (causa final).
2.2. Sobre o sacerdocium: (f) quem pertence a ele (causa material); (g)
como está organizado (causa formal); (h) quem instítui os cargos (causa
eficiente); (i) se há uma mediação (causa instrumental); e, por último, (j) a
sua finalidade (causa final).
Defenderemos que a universitas fidelium constitui a Igreja (causa material),
pois ela foi estabelecida imediatamente por Cristo (causa eficiente) com o fito de
propagar a fé e mostrar o caminho da bem-aventurança perene (causa final) a todos
os homens; e, como Cristo se sacrificou por todo o gênero humano no passado,
198 DAMIATA: “Dando per nota nei suoi tratti generali su questo punto la dottrina di Marsilio, diciamo
che si tratta di una collaborazione, molto stretta. Il fatto non meraviglia troppo, se riflettiamo che civitas e Chiesa – per quanto diverse – in fondo sono due facce di una medesima medaglia. L’universitas
civium coincide con l’universitas fidelium, il legislator della I dictio con il legislator fidelis della II dictio
o del Defensor minor” (1983, p.209). Para MAGLIO: “Alla visione dele due città, tipica dell’agostinismo politico medievale, Marsilio sostituisce l’idea di un’unica città dell’uomo nella quale convivono due diverse dimensioni dell’esistenza e dunque due finalità che l’uomo persegue ora come membro dell’universitas civium ora come membro dell’universitas fidelium: l’identità della societates non è l’identità dei suoi fini e neppure delle rispettive forme di organizzazione di tali fini. Riteniamo pertanto che l’espressione universitas civium/ universitas fidelium esprima non una coincidenza ma un rapporto di necessaria implicazione tra le due forme organizzative attraverso le quali trova esaustivo compimento l’esistenza umana” (2003, p.105).