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PARTE I – MARCO TEÓRICO

2. SENTIDO DE VIDA

2.1 Ontologia Dimensional do ser humano

Uma das principais contribuições de Viktor Frankl talvez tenha sido a visão de homem que o teórico disseminou. Esta visão de homem o concebe como um ser tridimensional: Constituído pelas dimensões somática, psíquica e noética. É na dimensão somática onde se coordena as funções biológicas e fisiológicas do homem. A dimensão psíquica abrange as sensações, impulsos, instintos, desejos, talentos intelectuais, comportamentos adquiridos, costumes sociais, dentre outros (AQUINO et

al., 2010). A dimensão espiritual ou noética (nous = espírito) é a dimensão

especificamente humana. Nesta dimensão, encontram-se as decisões pessoais, a criatividade, a religiosidade, o senso ético, a compreensão de valor. A adição desta dimensão por Frankl na dimensão ontológica do homem tem a sua relevância na medida em que, nessa perspectiva, o homem tem total liberdade de se posicionar diante dos condicionamentos físicos e psíquicos. Essas dimensões penetram umas nas outras,

falando-se dessa forma em “multiplicidade dentro”, e apesar da unidade do ser-no- mundo (LUKAS, 1989). Desta forma, Frankl comenta que há uma unidade antropológica, apesar das diferenças ontológicas serem diferenciáveis (FRANKL, 2008).

A ontologia dimensional se fundamenta em duas leis. A primeira diz que “quando um mesmo fenômeno é projetado de sua dimensão particular em dimensões diferentes, mais baixas do que a sua própria, as figuras que aparecerão em cada plano serão contraditórias entre si” (FRANKL, 2011. p.35). Ao imaginarmos um cilindro (representada pela figura 3) e projetarmos a sua representação tridimensional para os planos bidimensionais das linhas horizontal e vertical, podemos ter, no primeiro caso, um círculo e, no segundo, um retângulo. Essas figuras são contraditórias entre si.

Figura 3 – Representação da primeira lei da Ontologia dimensional de Frankl (retirado

de FRANKL, 1988).

Já a segunda lei da ontologia dimensional de Frankl diz que “quando diferentes fenômenos são projetados de suas dimensões particulares em uma dimensão diferente, mais baixa do que a sua própria, as figuras que aparecerão em cada plano serão ambíguas” (FRANKL 2011, p. 35). Pode-se imaginar então um cilindro, um cone e uma

esfera (representadas pela figura 4). As sombras que essas formas geométricas lançam no plano horizontal formam três circunferências iguais entre si. Não podemos, a partir destas projeções, saber o que há sobre elas, ou seja, um cilindro, um cone ou uma esfera.

Figura 4: Representação da segunda lei da ontologia dimensional de Frankl (Retirado de FRANKL, 1988)

Segundo a primeira lei da ontologia dimensional, a projeção de um fenômeno em dimensões diferentes e mais baixas resulta em inconsistência. A segunda lei, porém, diz que a projeção de diferentes fenômenos em dimensões mais baixas resulta em formas iguais. Podemos perguntar em como fazer uma analogia entre as imagens e a ontologia de Frankl? Ora, uma vez que projetemos o homem em suas dimensões biológica e psicológica, também obteremos resultados contraditórios, pois, no primeiro caso, o organismo biológico é o resultado. No outro caso, o mecanismo psicológico. Todavia, apesar dos aspectos biológicos e psíquicos se contradizerem entre si, à luz da antropologia dimensional tais diferenças não mais contradizem a singularidade do homem. Isto pode ser observado na projeção do círculo e o retângulo, por exemplo.

Apesar de serem formas diferentes, as projeções de ambos resultam no mesmo cilindro (FRANKL, 2011).

Desta forma, somente quando se apreende o homem por meio da dimensão espiritual que se consegue evitar contradições e equívocos, haja vista que a dimensão espiritual é mais ampla, abarcando as outras dimensões. Por isso, o homem não pode ser representado nem no plano somático, com reflexos fisiológicos de um sistema fechado, nem no plano psicológico, como um sistema fechado de reações psicológicas, porque o homem é essencialmente um ser aberto ao mundo (um ser para o mundo), radicando na sua autotranscedência.

Em sua tese de doutorado, Aquino (2009) faz uma proposta de integração entre a Logoterapia de Frankl e a teoria Funcionalista dos Valores de Gouveia (explanada no capítulo anterior) (2008). Sua proposta sugere que a subfunção existência (saúde, sobrevivência e estabilidade pessoal), tem origem na dimensão somática, haja vista que faz parte das necessidades básicas do homem. Na dimensão psíquica do homem estariam localizadas as subfunções realização (êxito, prestígio e poder) e Normativa (tradição, obediência e religiosidade) pois estão relacionadas a padrões e normas da sociedade, que seriam aprendidos socialmente, assim também a vontade de poder. Em contrapartida, a dimensão noética do ser humano seria a origem da subfunção

suprapessoal (o conhecimento, a maturidade e a beleza), pois tem como característica a

autotranscendência do ser humano. Relacionando a dimensão noética com a psíquica (noopsíquico), se obtém a subfunção Interativa (afetividade, convivência e apoio social), que é constituída daquilo que é especificamente humano; e do relacionamento das dimensões psíquica e somática, é obtida a subfunção experimentação (sexualidade, prazer e emoção), cujos os valores são contemplados na Logoterapia como consequência de encontrar sentido (AQUINO, 2009). A figura 5 apresenta a relação entre a Ontologia Dimensional e a as subfunções valorativas na Teoria Funcionalista dos Valores:

Figura 5 – Relação entre a Ontologia Dimensional e a as subfunções valorativas na Teoria Funcionalista dos Valores (Retirado de AQUINO, 2009).

Em resumo, a ontologia dimensional de Viktor Frankl refere-se ao homem como possuindo três dimensões: A dimensão somática, Psíquica e Noética. Segundo Frankl (2011), a ontologia dimensional está longe de resolver o problema mente-corpo. Todavia, ela explica porque tal questão não pode ser solucionada. Inevitavelmente, a unicidade do ser humano – unicidade essa, apesar da multiplicidade do corpo e da mente - não pode ser achada em suas fases psicológica, nem biológica, mas deve ser procurada em sua dimensão noológica, da qual o homem foi, de início, projetado (FRANKL, 2011).