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Operações cibernéticas como ataque armado

4. O Uso da Força

4.2 Uso da Força em Contexto Cibernético

4.2.1 Operações cibernéticas como ataque armado

Para definir ataque armado é necessário perceber que este termo está diretamente ligado à agressão e à proibição do uso da força. A agressão, mencionada na Carta no artigo 29º quanto às competências do Conselho de Segurança, é-nos definida como “o uso da força armada por parte de um Estado contra a soberania, integridade territorial ou independência política de outro

32 Estado, ou de qualquer outra forma incompatível com a Carta das Nações Unidas”.66-67.

Esta definição presente na Resolução 3314 da Assembleia Geral das Nações Unidas é crucial para definir ataque armado visto que tem sido várias vezes mencionada pelo TIJ. Nos casos das atividades militares do Nicarágua68

anteriormente mencionado, bem como nos casos da Republica Democrática do Congo/Uganda69 e das Plataformas de petróleo Irão/Estados Unidos da

América70, o TIJ, a partir da definição de agressão, define ataque armado como

“a forma mais gravosa do uso da força”.

De acordo com a jurisprudência, o Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia declarou que “um ataque armado existe sempre que se recorre às forças armadas entre os Estados ou em que há violência armada prolongada entre

66 Resolução 3314 da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre definição de agressão, artigo1º,

disponível em: http://hrlibrary.umn.edu/instree/GAres3314.html, acedido a 12 de Março de2017.

67 Pode-se ler-se ainda no artigo 3º desta resolução os tipos de uso da força que revestem a forma

de agressão: “Considerar-se-á ato de agressão qualquer um dos atos a seguir enunciados, tenha ou não havido declaração de guerra, sob reserva das disposições do artigo 2.° e de acordo com elas: a) A invasão ou o ataque do território de um Estado pelas forças armadas de outro Estado, ou qualquer ocupação militar, ainda que temporária, que resulte dessa invasão ou ataque, ou qualquer anexação mediante o uso da força do território ou de parte do território de outro Estado; h) O bombardeamento pelas forças armadas de um Estado, ou o uso de quaisquer armas por um Estado, contra o território de outro Estado; c) O bloqueio dos portos ou da costa de um Estado pelas forças armadas de outro Estado; d) O ataque pelas forças armadas de um Estado contra as forças armadas terrestres, navais ou aéreas, ou a marinha e aviação civis de outro Estado; e) A utilização das forças armadas de um Estado, estacionadas no território de outro com o assentimento do Estado recetor, cm violação das condições previstas no acordo, ou o prolongamento da sua presença no território em questão após o termo do acordo; f) O facto de um Estado aceitar que o seu território, posto à disposição de outro Estado, seja utilizado por este para perpetrar um ato de agressão contra um terceiro Estado; g) O envio por um Estado, ou em seu nome, de bandos ou de grupos armados, de forças irregulares ou de mercenários que pratiquem atos de força armada contra outro Estado de uma gravidade tal que sejam equiparáveis aos atos acima enumerados, ou o facto de participar de uma forma substancial numa tal ação.”, artigo, cfr. 3º Resolução 3314 da Assembleia Geral das Nações Unidas(…) op.cit. artigo3º.

68 Case concerning military and paramilitary activities in and against Nicaragua (…) op cit

69 Case concerning armed activities on the territory of the Congo (Democratic Republic of Congo

v. Uganda), 19 de Dezembro de 2005, disponível em : http://www.icj-

cij.org/docket/files/116/10455.pdf.

70 Case concerning oil platforms (Islamic Republic of Iran v. United States of America), 6 de

33 as autoridades governamentais e grupos armados organizados ou entre esses

grupos no interior de um Estado” 71.

Um ataque armado, para que se qualifique como tal, deverá sempre contemplar um elemento transfronteiriço, visto que os atos organizados, conduzidos e dirigidos apenas no território do próprio Estado, leva a aplicabilidade do “uso a força” de acordo com a sua lei interna (desde que em consonância com a lei internacional de direitos humanos e em situações de conflito armado não internacional com a lei dos conflitos armados) 72.

Quanto ao financiamento de grupos que realizem operações cibernéticas, apoiado na decisão do TIJ no caso acima mencionado, que considera que o financiamento de guerrilhas envolvidas em operações contra outro Estado não é considerado o uso de força, então também aqui um mero financiamento a um grupo hacktivista que leve a cabo operações cibernéticas contra outro Estado, não será considerado uso da força.

No que concerne a apoio logístico, no caso do Nicarágua o TIJ decidiu que armar e treinar uma força de guerrilha envolvida em operações contra outro Estado seria qualificado como uso da força, como tal, fazendo um paralelo entre treinar forças de guerrilha e fornecer a um grupo de hacktivistas malware e/ou formação passíveis de ser utilizados em ataques cibernéticos contra outro Estado, também poderá ser qualificado como uso da força73.

As operações cibernéticas que não pretendam infligir dano e apenas tenham como objetivo fragilizar um governo ou economia, segundo o Manual de Tallinn, não se qualificam como uso da força. No entanto, para que uma operação cibernética seja considerada como uso da força, não necessita obrigatoriamente de infligir um dano físico. O roubo de Informação sensível ou por exemplo o

71 Promotor v. Dusko Tadic, Caso No. IT-94-1-AR72, Decisão sobre a Moção de Defesa para a

Apelação de Interlocução em relação à Jurisdição, 2 de Outubro de 1995. Apelações do TPI, para70.

72 Vide, SCHMITT, Michael N, “Tallinnn Manual(…) “op cit. regra 13 73Ibedim.

34 bloqueio de um porto, embora não cause danos físicos, cairá sobre a denominação de uso da força74.

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