EXPLORANDO O EDUCAR – BRINCAR – CUIDAR
6.3 OPERACIONALIZAÇÃO DO ESTUDO 1 Coleta dos dados
A coleta dos dados ocorreu entre setembro e dezembro de 2013, sendo conduzida pelo itinerário de pesquisa de Paulo Freire, bem como sua proposta dos círculos de cultura, denominados neste estudo cirandas de roda21, fazendo uma alusão ao brincar e ao universo infantil, cujo percurso metodológico está representado na figura abaixo.
Figura 9 – Representação das cirandas de roda
Fonte: Próprio do autor
21 De origem portuguesa, francesa e espanhola, as cirandas de roda foram ganhando um jeitinho brasileiro de cantar, dançar, criar gestos, jogar versos, fazer graça. São muitas as cirandas de roda que fazem parte da infância e acompanham as diferentes fases da vida. Até hoje meninos e meninas, jovens e adultos, continuam girando de mãos dadas, cantando ou correndo em volta de uma roda (PIACENTINI, 2010, p. 52).
Antes da coleta dos dados propriamente dita, tiveram três momentos que considero importantes no decorrer dessa trajetória e que quero destacar, são eles: 1o momento: participação na reunião científica do grupo de pesquisa da saúde da criança e do adolescente, do qual os professores da sexta fase são membros, na intenção de apresentar o projeto de pesquisa e fazer o convite para os professores participarem do estudo. Contudo, deparei-me com um imprevisto uma vez que apenas uma das professoras pôde estar presente, mesmo assim o projeto foi apresentado e o convite feito a essa professora.
Frente a esse fato, organizei o que considero o 2o momento: onde individualmente fiz o convite as três professoras que não estavam presentes na reunião, para tomarem parte no estudo, ao mesmo tempo em que coloquei de maneira breve os aspectos mais significativos em relação ao projeto de pesquisa, como questão norteadora, objetivos e referencial teórico-metodológico, finalizando com a entrega do termo de consentimento livre esclarecido (TCLE) (APÊNDICE A). Chegamos ao 3º momento denominado Encontro - acolhendo os docentes para as cirandas de roda: aqui, já com o aceite e a presença de todas, reunimo- nos na casa da Amarela22, conforme pode ser verificado a seguir.
Vale lembrar que, desde o início, coloquei para o grupo o meu desejo de nos reunirmos fora da UFSC por acreditar que esse distanciamento é importante para o processo de reflexão, ao mesmo tempo em que proporciona um respiro das atividades diárias. Apesar de o grupo ter adorado a sugestão, devido à agenda dos participantes, dois momentos tiveram que ser realizados na UFSC, sendo que os demais foram na casa da Amarela e da Vermelha. Tanto no encontro, quanto nas cirandas tive o cuidado de preparar o ambiente, com o intuito de fazer os participantes sentirem-se valorizados, acolhidos e estimulados ao diálogo. E outra vez o lúdico fez-se presente, de diferentes formas, conforme o objetivo do momento, através de um livro infantil, de uma poesia, uma brincadeira, brinquedos, música, filme, fotos e lembrancinhas (dias das crianças e natal), tudo isso acompanhado por deliciosos lanches.
Tal qual o jogo, entendo que esses momentos, caracterizaram-se como uma atividade temporária, que tem uma finalidade, que se realiza tendo em vista uma satisfação, e assim nos apresenta como um intervalo da vida cotidiana. No pressuposto de que é exercido dentro de certos
22 Amarela é o codinome de uma das participantes. A escolha dos codinomes está descrita na ciranda de roda II.
limites de tempo e de espaço, que possui um caminho e um sentido próprio. “Joga-se até que se chegue a um certo fim” (HUIZINGA, 2012, p.12). Apesar disso, o jogo permanece como um tesouro a ser preservado pela memória e transmitido, tornando-se tradição e podendo ser repetido a qualquer momento (HUIZINGA, 2012).
6.3.1.1 Encontro: acolhendo os docentes para as cirandas de roda Duração: aproximadamente 4 horas – período vespertino
Local: Lar doce lar da Amarela
Figura 10 – Frida Kahlo
Fonte: GALERIA LUCIANO MARTINS, 2014
Objetivos
- Reunir os participantes;
- Dialogar sobre o projeto de pesquisa e esclarecer possíveis dúvidas; - Sensibilizar e aproximar os docentes à temática em estudo;
- Organizar o cronograma das cirandas de roda com os participantes; - Recolher o TCLE.
Dinâmicas, textos e recursos audiovisuais - Câmera digital;
- Computador; - Material impresso.
Reflexões e percepções da pesquisadora
- A proposta de reunir os participantes fora da UFSC foi aprovada desde a chegada na casa da Amarela, onde encontrei todas conversando, dando risadas, descontraídas e parecendo estar à vontade.
- Achei curioso o fato de que elas já estavam conversando em roda, sentadas no sofá, cadeira e até mesmo no chão.
- Ambiente acolhedor.
- Pessoas alegres, comprometidas e interessadas.
- Computador utilizado para breve apresentação do projeto de pesquisa (título, objetivos, questão norteadora, justificativa, metodologia, referencial teórico e aspectos éticos). Ao final da apresentação foi colocado o cronograma das cirandas em aberto para ser organizado pelos participantes. Marcamos, inicialmente, cinco cirandas.
- O material impresso utilizado foi cópia do capítulo de Ciranda de roda, do livro intitulado Brincadeiras Infantis na Ilha de Santa Catarina, de Telma Piacentini, da fundação Franklin Cascaes (ANEXO C), distribuída para cada participante e lida em voz alta por mim, uma vez que foi o nome que eu sugeri para denominar os círculos de cultura no sentido de fazer um link entre o brincar e o itinerário de pesquisa de Freire. Os docentes aceitaram a sugestão.
- Por mais que os participantes tivessem conhecimento sobre o projeto, a apresentação para o grupo mostrou-se extremamente importante para sensibilizar e aproximar os docentes à temática em estudo, além de oportunizar o compartilhamento da realidade vivida e assim promover o início da reflexão.
- Tinha programado para que o encontro durasse 2 horas, tal qual foi minha surpresa que ficamos, aproximadamente, 4horas reunidas.
Naquele momento, achei importante deixar “o tempo nos levar”, sem perder de vista os objetivos propostos.
- Os objetivos do encontro foram alcançados com êxito, exceto pelos TCLE, pois apenas duas participantes entregaram.
- Encontro registrado por foto.
- Ao término do encontro servi um lanche o que proporcionou um momento de descontração.
A partir daqui, seguindo o cronograma organizado pelo grupo iniciamos o itinerário de pesquisa, dando início à coleta dos dados, cuja trajetória pode ser acompanhada nas cirandas de roda I, II, III e IV. Como já foi mencionado nos círculos de cultura, não existe um professor, mas um coordenador-mediador, cuja função é dar informações aos participantes e, ao mesmo tempo, promover condições favoráveis ao trabalho em grupo e a reflexão pelo diálogo (FREIRE, 2011a). Nesse sentido, além de pesquisadora assumi também o papel de mediadora nas cirandas de roda. Imediatamente, percebi que esse seria outro desafio a ser enfrentado no decorrer desta trajetória, mas com a convicção de que conhecer os participantes seria um facilitador, o que curiosamente mostrou-se um desafio ainda maior.
6.3.1.2 Levantamento dos Temas Geradores - Ciranda de roda I: O ensino do BT no curso de graduação em enfermagem
Duração: aproximadamente 4 horas – período vespertino Local: Lar doce lar da Amarela
Figura 11 – Monalisa
Fonte: GALERIA LUCIANO MARTINS, 2014
Objetivos
- Refletir sobre o ensino do BT no curso de graduação em enfermagem; - Discutir sobre a utilização do BT na prática profissional do enfermeiro; - Levantar os temas geradores.
Dinâmicas, textos e recursos audiovisuais - Gravador de voz; - Câmera digital; - Computador; - Material impresso; - Quadro de pano; - Filme; - Fotos.
Reflexões e percepções da pesquisadora - Ambiente acolhedor.
- Pessoas alegres, comprometidas, interessadas e curiosas.
- O material impresso utilizado foram papéis cortados com frases de Paulo Freire escolhidas por mim antecipadamente (ANEXO D), onde cada participante pegou um papel aleatoriamente e fomos lendo em voz alta uma a uma para dar início à reflexão. A estratégia foi considerada eficiente, porque além de promover a reflexão foi possível fazer um link entre a prática educativa dos participantes, o brinquedo e o pensamento de Paulo Freire.
- Quadro de pano com motivo infantil com o título O ensino do brinquedo terapêutico no curso de graduação em enfermagem para expor as frases de Paulo Freire e uma síntese das reflexões (FOTO 3). - Cena do filme O Sorriso de Monalisa23 foi outra estratégia utilizada com o intuito de promover a reflexão do tema proposto e ao mesmo tempo possibilitar um novo olhar para o ensino do BT no curso de graduação em enfermagem. Nessa cena, a personagem principal (professora de artes) pede para as alunas observarem uma obra de arte já conhecida por livro e que elas buscassem olhá-la de uma forma diferente. Assim como, foi estimulado aos participantes aproximarem-se da sua prática em relação ao lúdico e ao brinquedo para então refletir sobre ela. Os participantes gostaram da cena, mas percebi que do ponto de vista para a reflexão as frases de Freire e o artigo contribuíram mais efetivamente, o que não diminuiu o valor da estratégia utilizada.
- Outro material impresso utilizado foi o artigo intitulado O ensino BT no curso de graduação em enfermagem no Estado de São Paulo. Essa estratégia foi bastante positiva para a reflexão, além de contribuir para a construção de conhecimento sobre o tema uma vez que aborda outras realidades do BT no ensino de graduação em enfermagem.
23 O Sorriso de Monalisa é um filme americano de 2003, escrito por Lawrence Konner e Mark Rosenthal, dirigido por Mike Newell. Trata da vida de uma professora de artes da década de 1950, que se formou em uma escola liberal, mas vai trabalhar em uma escola feminina tradicionalista, onde as jovens são educadas para serem esposas e mães. No filme, a professora tenta abrir a mente das alunas para terem um pensamento liberal e assumirem sua identidade cultural como ser social e histórico.
- Para finalizar a ciranda, também foi utilizado como estratégia mostrar as fotos dos acadêmicos da UFSC realizando atividade lúdica e ou BT instrucional (durante o meu estágio docência) nos campos de atividades teórico-práticas, algumas já conhecidas e acompanhadas pelos participantes. Essa estratégia foi utilizada para rever o que tem sido feito e contribuir para reflexão, além de promover um momento agradável. - Os objetivos da ciranda foram alcançados com êxito, apesar de na leitura do artigo os participantes já estarem um pouco cansados por ser a última atividade proposta, mesmo assim foi produtiva e considerada uma boa estratégia.
- Ciranda registrada por foto e gravador de voz, cujos diálogos foram transcritos por mim, conforme acordado com os participantes e validados pelos mesmos.
- Durante a ciranda, servi um lanche o que proporcionou um momento prazeroso.