Considerando a questão do estudo, optei pela utilização do Interacionismo Simbólico (IS) como base teórica, e pela Teoria Fundamentada nos Dados (Grounded Theory) como base metodológica de pesquisa qualitativa, para a realização da coleta e análise dos dados; haja vista que, enquanto o IS tem por objetivo captar o aspecto intersubjetivo das experiências sociais das pessoas, a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) fornece a trajetória para que este aspecto da vida subjetiva se torne acessível ao entendimento do investigador (CHENITZ e SWASON, 1986).
O método da TFD explora o processo social que, aliado ao estabelecido pelo IS, tenta compreender, a partir do referencial dos atores, os significados derivados da interação social estabelecida por eles. Permite também descrever e analisar a interação de variáveis envolvidas em determinado problema, levando a compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, resultando no entendimento mais profundo das particularidades do comportamento dos indivíduos. Possibilita descobrir e compreender o que está por trás do fenômeno, fornecendo detalhes intrincados na dinâmica da experiência humana em dada situação (STRAUSS e CORBIN, 1991).
Desenvolvida por Glaser e Strauss (1967), ela possui a finalidade de conhecer o fenômeno diretamente no contexto social sob estudo, em que as pessoas partilham suas vidas, incluindo os locais de trabalho, no inter-relacionamento de significados e ações e apresenta os seguintes pressupostos:
- Toda interação humana é um processo de constante evolução.
- A elaboração da teoria envolve abordagens dedutivas e indutivas.
- Devem existir grupos amostrais, que são comparados entre si durante o estudo, dando origem a conceitos de amostragem teórica e a saturação das categorias.
Sua técnica sistematiza a análise comparativa dos dados, proporcionando ao pesquisador a possibilidade de desenvolvimento de uma teoria substantiva, por meio de métodos indutivos e dedutivos, dando a precisão e o rigor analítico, que favoreça a compreensão dos fenômenos sociais e psicológicos observados no ambiente, tendo em vista que os significados são derivados da interação social, ao invés de testar teorias já existentes (STRAUSS e CORBIN, 1991).
Para Glaser e Strauss (1967), ao gerar uma teoria, a ênfase não reside nos fatos em si, mas na categoria conceitual, que é concebida a partir deles e, por sua vez, nos conceitos que emergem. Neste sentido, viabiliza-se a construção de hipóteses testáveis, decorrentes da identificação dos elementos da teoria representadas pelas categorias conceituais e suas propriedades (elementos conceituais).
Para os autores, entende-se por categorias e propriedades os conceitos indicados pelos dados, que devem ser, ao mesmo tempo, analíticos, suficientemente generalizados para designar características de entidades concretas; e sensitivos para produzir um quadro significante, induzido por ilustrações que habilitem o entendimento de referência, em termos da sua própria experiência.
Como os conceitos são a base de análise neste tipo de abordagem meto-dológica, os procedimentos seguidos buscam identificá-los, desenvolvê-los e relacioná-los, para que alcancem relevância teórica comprovada, ou seja, os conceitos serão considerados significantes, quando estiverem repetidamente presentes ou ausentes, quando, por meio do procedimento de codificação, ganharem o status de categoria.
O uso deste método capacita-nos a pensar sistematicamente e de maneira flexível, sobre os dados e a relacioná-los de modo mais complexo, de forma que a resposta a cada um de seus elementos possa garantir a saturação teórica de cada categoria. Essa saturação, segundo Glaser e Strauss (1967), exige a combinação
entre os limites empíricos dos dados, a integração, a densidade da teoria e a sensibilidade do pesquisador.
Para Strauss e Corbin (1991), a decisão por quais incidentes e onde encontrá-los será controlada durante o processo de coleta, codificação e análise dos dados, com vistas ao desenvolvimento da teoria, uma vez que na TFD se mostram os incidentes e não as pessoas em si. Importa coletar dados sobre o que as pessoas fazem ou não, que condições favoreceram aquela ação/interação, seu impacto e conseqüências presentes, bem como de estratégias que nunca aconteceram.
Os autores citados anteriormente referem que a amostra inicial é baseada somente na área temática geral ou problema de pesquisa, não sendo norteada por estrutura teórica preconcebida, pois os dados é que indicarão o problema emergente, direcionando os próximos locais e atores que vão ser pesquisados, com base na evolução da relevância teórica dos conceitos.
Nesse sentido, há necessidade de o pesquisador possuir sensibilidade teórica, para que possa conceitualizar e formular a teoria que emerge da coleta e análise dos dados do que realmente está acontecendo, mantendo-se aberto e desprovido do maior número possível de posturas preconceituosas que possam interferir neste processo e indo além dos dados apresentados, para perceber, em meio às sutilezas dos significados dos dados, novos problemas, idéias e conceitos, para que o pesquisador reflita em como interpretá-los e explicá-los (GLASER, 1978).
Ainda segundo o autor, a sensibilidade teórica refere-se à qualidade pessoal do pesquisador, traduzida pela habilidade, que inclui a sua compreensão e aplicação de passos metodológicos, mas, principalmente, a capacidade de discernir o que é pertinente ou não para o seu estudo.
Centa (2001) menciona que esta sensibilidade pode ser proveniente de diversas fontes, incluindo literatura especializada, experiência profissional e pessoal, bem como o processo analítico dos dados, uma vez que durante todo o tempo de interação com os atores, levantam-se questões, fazem-se comparações,
formulam-se hipóteformulam-ses, dando-formulam-se início à construção de estruturas teóricas sobre os formulam-seus conceitos e relações.
Santos e Nobrega (2002), acrescentam que essa característica inclui a manutenção de um equilíbrio entre criatividade e cientificidade, aliada a uma postura cética ao seguir os procedimentos da pesquisa.
A TFD consiste, portanto, na descoberta e no desenvolvimento de uma teoria a partir de dados obtidos sistematicamente de forma comparativa sobre um determinado objeto, estabelecendo-se as categorias e que, segundo Stern, Allen e Moxley (1982), têm a sua utilização indicada para descobrir novas perspectivas para enfrentar problemas práticos de situações familiares.
Ainda sobre este aspecto, Santos e Nóbrega (2002) afirmam que por se tratar de abordagem interpretativa, a TFD é útil quando já existe um conhecimento mínimo sobre um fenômeno, ou quando uma nova perspectiva é requerida, indicando o caminho para chegar a resultados confiáveis que possam gerar ações.
4 METODOLOGIA
Há uma forma de sentir a realidade de certas experiências cuja expressão em palavras é difícil, por se tratar de processos internos intransferíveis.
(Rolando Toro)