4 ANÁLISE DOS DADOS
4.2 Análise com os outros verbos de alçamento
4.2.2 As construções com alçamento padrão
4.2.2.2 Oração infinitiva complemento de preposição
Em relação às ocorrências com custar – verbo que, no alçamento padrão, pode apresentar como complemento oracional um InfP ou um PP –, temos um ponto convergente entre o Português Brasileiro e o Português Europeu. Com base nos dados levantados, observamos que, quando o argumento interno de custar é uma oração infinitiva complemento de preposição (um PP), o movimento de um argumento da encaixada para Spec de IP se mostra categórico. Foram encontrados 5 dados ilustrativos de tal construção, no PB, e 3 dados, no PE. Alguns desses dados se encontram em (29):
(29) a. Pronto! [IP [ø]i Custei [PP a ti achar a faca]]! (PB, Lauro César Muniz, 1963,
Período V)
b. Há porém coisasi [IP quei mek custam [PP a [ø]k acreditar ti]]. (PE, Teixeira e
Vasconcelos, 1871, Período II)45
4.2.3 O alçamento clítico
A tabela a seguir revela, em números, a trajetória do alçamento clítico no PB e no PE ao longo dos séculos XIX e XX.
I II III IV V VI VII Total
PB PE PB PE PB PE PB PE PB PE PB PE PB PE PB PE Alçamento clítico 5 (20%) 5 (38%) 1 (14%) 3 (24%) 3 (11%) 1 (17%) - - - 10 (21%) - 7 (39%) - 1 (10%) 9 27
Tabela 4.10 Alçamento clítico com os outros verbos no PB e no PE
No Português Brasileiro, temos 9 dados distribuídos em três sincronias, ao passo que, no Português Europeu, temos 27 ao longo de seis períodos de tempo.
11% 14% 20% 10% 39% 21% 17% 24% 38% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% I II III IV V VI VII
Português Brasileiro Português Europeu
Gráfico 4.11 Alçamento clítico com os outros verbos nas duas gramáticas
45
Como podemos observar, o elemento movido para Spec de IP é argumento interno do verbo da encaixada. Tal construção será discutida em momento oportuno, na seção 4.2.4.
O gráfico a seguir revela que o alçamento clítico, à semelhança do que vimos com o verbo parecer, está restrito às três primeiras sincronias no PB – os índices diminuem progressivamente (de 20%, no Período I, chegamos a apenas 11%, no Período III). No Português Europeu, os percentuais revelam uma variação estável, com exceção do Período IV. Até o último Período a construção é atestada, com 10% de ocorrências.
Em (30), encontramos outros dados que ilustram a ocorrência de alçamento clítico nas amostras brasileira e portuguesa.
(30) a. Eu é que sei o [IP quanto [øexpl] mei custa [InfP ti dar conta de tudo]]. (PB,
Gastão Tojeiro, 1920, Período III)
b. [IP [øexpl] Não tei convém [InfP ti ficar aqui]]. (PB, Gastão Tojeiro, 1918,
Período III)
c. A luta para ti já acabou. Compreendo [IP que [øexpl] tei custe [InfP ti aceitar a
derrota]]. Mas é assim mesmo. (PE, Luiz Francisco Rebello, 1954, Período V)
d. Por amor de Deus não me obrigues a recordar tudo aquilo [IP que tanto
[øexpl] mei custou [PP a ti esquecer]]! (PE, Luiz Francisco Rebello, 1957,
Período V)
A observação cuidadosa dos dados encontrados aponta uma diferença qualitativa entre as duas gramáticas. Por um lado, no PE, há dados de alçamento clítico com diferentes pronomes, ‘me’: ‘lhe’, ‘nos’, ‘te’, ‘vos’; por outro, no PB, apenas duas ocorrências não são com o dativo ‘me’: uma com ‘lhe’ e outra com ‘te’, ambas no Período II.
No Português Brasileiro, 7 dos 9 dados com alçamento clítico são com o verbo custar. As outras duas ocorrências são com convir e faltar. No sistema do PE, vemos também que custar é o que mais favorece o alçamento clítico, representando 70% do total das ocorrências (19 dos 27 dados). Há, ainda, dados com bastar (4 dados), convir (3 dados) e faltar (2 dados).
A elevada frequência de alçamento clítico com custar, tanto no PB quanto no PE, talvez se justifique pelos dois tipos possíveis de estrutura com “custar + clítico
dativo”. A professora Ana Maria Martins, da Universidade de Lisboa, em comunicação pessoal, sinaliza que são permitidos dois tipos de construção com “custar + clítico dativo”, a depender da estrutura do complemento oracional do verbo de alçamento (se um InfP ou um PP). Atente-se para os exemplos fornecidos por ela:
(31) a. [IP [øexpl] Custou-me(i) [InfP ti reprovar / ø reprovarmos o aluno]]. (“Fiquei
triste por reprovar / reprovarmos o aluno”)
b. [IP [øexpl] Custou-mei [PP a ti reprovar o aluno]]. (“Foi difícil conseguir
reprovar o aluno”)
Na primeira sentença, o infinitivo pode vir ou não flexionado. Se não houver flexão, podemos interpretar que o clítico ‘me’ corresponde a um argumento do verbo da encaixada, no caso, ao seu argumento externo, ilustrando o alçamento clítico. Note-se que, neste caso, custar exibe como complemento oracional um InfP. Em (31b), em função da presença da preposição ‘a’ introduzindo o argumento interno de
custar, o infinitivo não é flexionado. Vemos também que o clítico ‘me’ corresponde
ao argumento externo do verbo da encaixada – o que caracteriza o alçamento clítico. Entre parênteses, encontramos as interpretações atribuídas a casa frase no Português Europeu, segundo Ana Maria Martins.
Os dados levantados nas peças revelam que o alçamento clítico com custar não ocorre somente quando o seu argumento interno é uma oração infinitiva complemento de preposição (um PP); há alçamento clítico também quando o argumento interno de custar é um InfP. Destaque-se que, no Português Europeu, dos 19 dados de alçamento clítico com tal verbo, em apenas 6 a oração encaixada é um PP – o que corresponde a 32% dos dados. Na gramática brasileira, o índice é ainda menor: 29% (2 dos 7 dados encontrados).
4.2.4 A representação do sujeito
As tabelas 4.11 e 4.12, que reúnem os DPs pronominais de 1ª, 2ª e 3ª pessoas, os DPs lexicais e os sujeitos de referência indeterminada, apresentam os resultados relativos ao preenchimento da posição do sujeito do verbo da oração encaixada (plenos versus nulos).
I II III IV V VI VII Pronomes 1ª e 2ª pessoas 1/10 (10%) 0/1 (0%) 6/15 (40%) 1/5 (20%) 3/7 (43%) (100%) 4/4 (47%) 9/19 Referência arbitrária 0/1 (0%) 0/3 (0%) 0/2 (0%) 0/2 (0%) 0/1 (0%) 0/3 (0%) 4/4 (100%) Pronomes 3ª pessoa 1/5 (20%) - 0/2 (0%) 1/3 (33%) 0/3 (0%) 1/2 (50%) 1/6 (17%) DPS lexicais 4/4 (100%) 2/2 (100%) 6/6 (100%) 5/5 (100%) 8/8 (100%) 2/2 (100%) 2/2 (100%)
Tabela 4.11 Sujeito pleno (vs. nulo) nas estruturas com e sem alçamento com os demais verbos no PB I II III IV V VI VII Pronomes 1ª e 2ª pessoas 0/3 (0%) 0/4 (0%) 0/2 (0%) 0/2 (0%) 4/19 (21%) 0/3 (0%) 1/4 (25%) Referência arbitrária 0/3 (0%) 0/3 (0%) 0/3 (0%) 0/3 (0%) 0/3 (0%) (0%) 0/2 (0%) 0/2 Pronomes de 3ª pessoa - 1/2 (50%) - - 2/7 (29%) 1/4 (25%) 0/2 (0%) DPs lexicais 2/2 (100%) 1/1 (100%) - - 9/9 (100%) 2/2 (100%) 1/1 (100%)
Tabela 4.12 Sujeito pleno (vs. nulo) nas estruturas com e sem alçamento com os demais verbos no PE
Os resultados acima revelam um comportamento diferenciado entre as duas gramáticas: os índices de pronomes de 1ª e 2ª pessoas são significativamente mais altos no PB. Os sujeitos de referência arbitrária, em geral nulos, apresentam um comportamento que merece destaque na última sincronia do PB: os 4 dados com sujeito de referência indeterminada – todos em construção de alçamento padrão e com o verbo acabar – exibem o sujeito expresso46
:
(32) a. Pode até parecer mentira, [IP mas a gentei acaba [GerP ti acostumando]].
(PB, Miguel Falabella, 1992, Período VII)
b. Seu problema, mãe, é que você fica muito sozinha. Não dá pra ficar sozinho. [IP A gentei acaba [GerP ti pensando besteira]]. (PB, Miguel Falabella,
1992, Período VII)
46
O preenchimento se dá por meio de estratégias contempladas em estudos anteriores sobre os sujeitos referenciais indeterminados: os pronomes ‘a gente’ e ‘você’. Note-se, em (32c), além do sujeito indeterminado preenchido, a realização fonética de todos os sujeitos pronominais na sentença por meio do pronome ‘você’.
c. Se vocêi não se importar, [IP vocêi acaba [GerP ti dormindo]]. Mas vocêi
precisa não se importar de verdade. (PB, Miguel Falabella, 1992, Período VII)
Quanto aos pronomes de 3ª pessoa, devemos mencionar a distribuição muito irregular dos dados do PE, mas é possível notar uma tendência ao maior preenchimento no PB. O gráfico 4.12 representa reunidos os índices de preenchimento dos DPs pronominais de 1ª, 2ª e 3ª pessoas no Português Brasileiro e no Português Europeu ao longo do tempo, nas construções com e sem alçamento (pronomes plenos versus pronomes nulos).
40% 83% 30% 25% 35% 13% 17% 14% 23% 17% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% I II III IV V VI VII
Português Brasileiro Português Europeu
Gráfico 4.12 DP pronominal pleno (vs. nulo) nas construções com e sem alçamento com os outros verbos no PB e no PE
As duas linhas representativas das duas gramáticas sinalizam que, à exceção do Período VI, o DPs pronominais aparecem preferencialmente nulos na amostra brasileira, com índices que oscilam entre 13%, numa extremidade, e 40%, na outra, o que não é uma diferença a ser desconsiderada. No Português Europeu, tal preferência se dá em todas as sincronias e se mostra categórica nos Períodos I, III e IV – o maior índice encontrado para o sujeito pleno aparece no Período V, com 23%, ou seja, estamos diante de um sistema que privilegia o sujeito nulo.
Em função do reduzido número de dados de preenchimento com DPs pronominais de 3ª pessoa – apenas 4 tanto no PB quanto no PE –, não é possível
testar a atuação da hierarquia referencial proposta por Cyrino, Duarte e Kato (2000). Em relação ao verbo parecer, como vimos, os traços [+humano, + específico] aparecem como os mais favoráveis ao preenchimento dos pronomes de 3ª pessoa.
Com base apenas nas sentenças que ilustram a construção sem alçamento, a tabela a seguir revela que, independentemente da estrutura do argumento interno oracional dos outros verbos de alçamento, os DPs pronominais (1ª, 2ª e 3ª pessoas) do verbo da encaixada aparecem preferencialmente nulos, tanto no PB quanto no PE. InfP CP PP Total Português Brasileiro 3/15 (25%) 2/9 (22%) 0/2 (0%) 5/26 (19%) Português Europeu 0/12 (0%) 2/9 (22%) 0/1 (0%) 2/22 (9%)
Tabela 4.13 DPs pronominais plenos (vs. nulos) nas construções sem alçamento de acordo com o tipo de oração no PB e PE
Como podemos notar, nas orações introduzidas por preposição, o sujeito da encaixada aparece sempre nulo em ambas as gramáticas47. No Português Europeu, o mesmo ocorre nas orações infinitivas, diferentemente do que observamos no Português Brasileiro, em que 25% das ocorrências são de sujeito pleno. PB e PE também apresentam comportamento semelhante quando o complemento oracional do verbo de alçamento é um CP: os sujeitos nulos são a forma preferencial, correspondendo a 78% dos dados.
Nas sentenças em (33), temos o alçamento padrão com custar. Diferentemente dos dados de alçamento padrão com todos os outros verbos analisados neste trabalho, percebemos que os elementos movidos para Spec de IP
47
A depender da preposição que rege o PP oracional, o sujeito nulo na encaixada é a única opção. Como vemos em (i), este parece ser o caso da preposição ‘a’:
(i) a. [IP [øexpl] Demorou muito [PP a ø fazer]]. b. *Demorou muito a ele fazer.
c. [IP [øexpl] Levou meses [PP a ø fazer]]. d. *Levou muito a ele fazer.
Por outro lado, se a preposição ‘para’ introduzir o PP, pode haver variação entre as formas nula e plena, ainda que Martins (comunicação pessoal) considere que o preenchimento em (iia) tornaria, a seu ver, a frase “muito marginal”, no PE. Além disso, a autora considera que a preposição ‘para’ regendo o complemento oracional é característico do Português Brasileiro. Observe:
(ii) a. [IP [øexpl] Demorou muito [PP para ø/ele fazer]]. b. [IP [øexpl] Levou meses [PP para ø/ele fazer]].
de custar não são argumento externo do verbo da oração encaixada; eles são argumentos internos. Observe:
(33) a. [IP [As verdades]i custam sempre [PP a [øarb] ouvir ti]]… (PE, Luiz Francisco
Rebello, 1954, Período V)
b. Isso. Falai, Leonor. [IP [As mágoas]i, compartilhadas, custam menos [PP a
[øarb] sofrer ti]]. (PE, Dom João no jardim das delícias, 1985, Período VI)
c. Há porém coisasi [IP quei mek custam [PP a [ø]k acreditar ti]]. (PE, Teixeira e
Vasconcelos, 1871, Período II)
Embora a posição de base dos DPs movidos não seja a de argumento externo, é inquestionável a ocorrência de alçamento se levamos em conta a flexão do verbo custar, nos três casos. Assim, os DPs alçados recebem Caso nominativo – função diferente daquela que exerciam em sua posição de origem. Temos, diante desse quadro, uma questão: podemos considerar as três sentenças em (33) como instâncias de alçamento padrão se os DPs movidos não são argumento externo do verbo da encaixada?
A professora Ana Maria Martins, em comunicação pessoal, defende que em tais dados há alçamento e justifica com dois argumentos: (1) o alçamento de argumento interno com verbo na forma não finita é possível e (2) custar é um verbo que pode ter sujeito nominativo, como fica atestado nos exemplos fornecidos pela própria professora, em (34).
(34) a. [IP Eui custei [PP a ti comer essas batatas cozinhadas em água salgada]].
b. Tomei vários medicamentos e [as dores de cabeça]i não passavam. [IP [ø]i
Custaram imenso [PP a ti passar]].
c. [IP Elesi custaram [PP a ti resolver os problemas de matemática]].
Martins ainda sinaliza que em algumas sentenças com alçamento padrão o clítico dativo pode vir junto ao verbo de alçamento, como em "Os problemas de
matemática custaram-me a resolver". Temos em (33c), um dado que ilustra tal possibilidade.
Os resultados encontrados para os demais verbos de alçamento revelam que (a) embora o PB e o PE apresentem ampla preferência pelo alçamento padrão, na gramática brasileira, tal preferência é quase categórica; (b) alguns verbos se mostram amplamente favoráveis ao movimento do DP sujeito da encaixada para Spec de IP, mas acabar é o único cujos dados exibem categoricamente o alçamento padrão, em ambas os sistemas; (c) o alçamento clítico é mais frequente no Português Europeu devido ao seu produtivo sistema de clíticos, ao passo que, no PB, ele fica restrito aos Períodos I, II e III.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta seção, procuraremos retomar os pontos levantados nesta Tese e as respostas a que conseguimos chegar. A análise dos resultados para os oito verbos de alçamento investigados neste trabalho, com base em duas amostras de peças de teatro brasileiras e portuguesas, escritas ao longo dos séculos XIX e XX, revela que, embora o Português Brasileiro e o Português Europeu apresentem pontos convergentes, há imensas diferenças entre eles, o que fornece mais indícios para a hipótese de que as duas gramáticas constituem Línguas-I distintas, conforme Galves (1998). As diferenças, como (re)veremos brevemente a seguir, estão estreitamente ligadas à produtividade do sistema de clíticos no PE, à representação (se nulo ou pleno) da posição do sujeito pronominal na oração encaixada, se temos uma sentença sem alçamento, ou em Spec de IP, nas construções com alçamento, e à ocorrência de alçamento de tópico, uma clara evidência do “encaixamento” da mudança paramétrica em curso no Português Brasileiro.
A análise foi dividida em duas partes: a primeira leva em conta apenas os dados com o verbo parecer – o único nas amostras de peças teatrais que exibe a ocorrência das cinco possibilidades estruturais de alçamento investigadas (a construção sem alçamento, o alçamento padrão, o alçamento clítico, o deslocamento e o alçamento de tópico) – e a segunda abarca as sentenças com os demais verbos de alçamento (acabar, bastar, convir, custar, demorar, faltar e levar), que apresentam um menor número de possibilidades. Em linhas gerais, quanto à construção de alçamento preferencial, parecer e os demais verbos divergem tanto no PB quanto no PE. Contudo, quando observamos a presença de clíticos (argumentais e não argumentais) na gramática brasileira, vemos que todos os verbos se distanciam dos dados encontrados no Português Europeu.
Em relação ao verbo parecer, observamos que nas duas gramáticas a construção sem alçamento é a preferencial em todos os períodos de tempo. Na última sincronia (Período VII, década de 90 do século XX), vemos 56% de ocorrências de tal estrutura, no PB, ao passo que, no PE, o percentual atinge 73% - uma diferença significativa. Ressalte-se que as sentenças sem alçamento, no sistema brasileiro, concorrem com o alçamento de tópico, que alcança 44% no Período VII. Como se trata de uma construção que surgiu na gramática do PB (já a partir do primeiro quartel do século XX, com 15%) e tem sua ocorrência
implementada como possível reflexo da remarcação do Parâmetro do Sujeito Nulo, a sua não ocorrência no Português Europeu é justificável.
Devido às sentenças ambíguas, os índices relativos ao deslocamento são maiores no Português Europeu (no PB, há apenas 3 dados nos Períodos IV e V). As ocorrências de alçamento clítico, estrutura em que o DP sujeito da encaixada é alçado em forma de clítico, que se cliticiza ao verbo parecer, na oração matriz, são restritas em ambas as gramáticas. No PE, as únicas 4 ocorrências ilustrativas desta construção se encontram distribuídas ao longo dos Períodos I, V, VI e VII (representando, respectivamente, 6%, 5%, 4% e 3% do total de dados em cada sincronia). Por outro lado, no Português Brasileiro, foram encontrados 5 dados, que se restringem aos Períodos I e III (respectivamente, 17% e 4% do total de ocorrências em cada sincronia), portanto, às peças escritas no século XIX e nos anos 1920.
A redução do quadro de clíticos no PB reflete tanto na diminuição do seu uso nas construções sem alçamento (parece-me que ele me enganou) quanto nas construções de alçamento clítico (parece-me ter sido enganado), em que o sujeito da encaixada se cliticiza ao verbo parecer. Tanto no primeiro caso quanto no segundo, atestamos o desparecimento desses clíticos no PB – os primeiros desaparecem a partir dos anos 1950, enquanto os segundos só são atestados em apenas duas sincronias, primeira metade do século XIX e anos 1920. Em contrapartida, na gramática lusitana, encontramos, na última sincronia, 40% dos dados sem alçamento com a presença do clítico dativo – um resultado que se opõe claramente ao observado no PB. Isso acontece porque, no Português Europeu, temos um sistema de clíticos mais produtivo.
Um outro ponto divergente entre o PB e o PE quanto aos resultados com
parecer está relacionado à expressão dos DPs pronominais de 1ª, 2ª e 3ª pessoas.
No Português Brasileiro, vemos que o sujeito pleno aparece em 70% das dados na última sincronia – seja na oração encaixada ou em Spec de IP –, percentual que corrobora os resultados do estudo diacrônico de Duarte (1993), que aponta a preferência pelo preenchimento da posição do sujeito pronominal referencial no Período VII. Ao contrário do observado no PB, a gramática lusitana prefere o sujeito nulo – basta atentarmos para o índice de preenchimento nas peças do último período de tempo, apenas 5%.
Os outros verbos de alçamento, que só exibem nas amostras 3 possibilidades estruturais (sem alçamento, alçamento padrão e alçamento clítico), apresentam, aparentemente, o mesmo comportamento no PB e no PE. Em ambas as gramáticas, observamos que o alçamento padrão é a estrutura mais recorrente na última sincronia. Note-se, porém, que os percentuais e a sua trajetória ao longo do tempo são distintos. Se, por um lado, no Português Brasileiro, temos 94% de ocorrências de alçamento padrão – uma preferência quase categórica –, por outro, no Português Europeu, encontramos um índice relativamente menor, 70%. Além disso, ainda que o alçamento padrão com os demais verbos se apresente como uma construção presente na gramática do PB e do PE desde a primeira sincronia, ela se torna a estrutura mais recorrente na gramática brasileira já a partir do Período III, ao passo que, na gramática lusitana, só observamos o seu predomínio no Período VII. Destaque-se que, tanto no Português Brasileiro quanto no Português Europeu, todos os dados com o verbo acabar são representativos do alçamento padrão.
É preciso ressaltar que o alçamento padrão, que, como vimos, está praticamente ausente no PB com o verbo parecer, mas é a estratégia preferencial com os outros verbos, não é exclusivo de línguas de sujeito nulo. Como partimos da hipótese de que o PB preferiria realizar a posição de sujeito com alçamento, verificamos que o alçamento padrão com parecer foi substituído pelo alçamento de tópico, enquanto com os demais verbos a única alternativa foi o alçamento padrão.
A produtividade dos clíticos dativos no PE também reflete nas estruturas de alçamento com os outros verbos. Em relação à construção sem alçamento, verificamos que não foram encontrados dados com clíticos dativos, no PB, e há apenas 1 dado com o verbo convir, no Português Europeu. No entanto, as diferenças quanto às ocorrências de alçamento clítico nas duas gramáticas são imensas. À exceção do Período IV, há dados ilustrativos de tal construção em todas as sincronias no PE; no Português Brasileiro, as ocorrências de alçamento clítico ficam restritas aos Períodos I, II e III, resultado semelhante ao encontrado para
parecer na gramática brasileira.
Notamos, ainda, divergências entre o PB e o PE no que diz respeito à expressão dos DPs pronominais de 1ª, 2ª e 3ª pessoas nas estruturas sem alçamento e de alçamento padrão com os demais verbos. No Português Brasileiro, temos 40% de dados com sujeito pleno no Período VII – índice inferior ao encontrado para parecer e que vai de encontro aos resultados encontrados por
Duarte (1993). O preenchimento é ainda menor no Português Europeu, 17%, mas está de acordo com o seu traço [ + sujeito nulo ].
Com base na leitura dos resultados levantados para o Português Brasileiro, em processo de remarcação do Parâmetro do Sujeito Nulo, podemos apontar, na escala a seguir, os verbos que mais favorecem o preenchimento de Spec de IP através do alçamento do DP sujeito do verbo da encaixada.
0% 26% 28% 71% 100%
(1)
bastar, custar demorar acabar convir e e levar faltar
parecer
Mesmo parecer sendo o único verbo que pode figurar nas cinco construções de alçamento contempladas nesta análise, percebemos que em apenas 28% do seu total de dados ocorre alçamento (42 de 149 ocorrências), seja o alçamento padrão ou o alçamento de tópico. Por outro lado, acabar e levar se mostram os mais favoráveis ao preenchimento de Spec de IP por meio do movimento do DP sujeito da encaixada – ambos com 100%. Em relação ao verbo acabar, o resultado é ainda mais relevante, pois, na amostra brasileira, foram encontrados 59 dados; com levar, apenas 13. Ao contrário, não há ocorrências de alçamento padrão, na amostra analisada, com bastar, convir e faltar (embora dados de fala e escrita contemporâneas apresentem ocorrências).
Diante dos resultados brevemente revistos, é possível concluir que: (a) de fato, o alçamento de tópico parece surgir no Português Brasileiro como um subproduto da mudança paramétrica em curso; (b) conforme o esperado, o alçamento padrão com parecer não se apresenta como uma construção muito produtiva em nenhuma das gramáticas, mas, enquanto está em distribuição regular no PE, está em extinção na nossa amostra, corroborando dados de fala e escrita atuais; (c) o alçamento clítico com todos os oito verbos de alçamento se mostra mais recorrente e mais bem distribuído ao longo do tempo no Português Europeu, confirmando a expectativa inicial de que tal construção ficaria restrita, no PB, às primeiras sincronias; (d) a presença de clítico dativo junto a parecer nas sentenças sem alçamento desaparece da gramática brasileira a partir do Período V, enquanto
se mantém presente nas últimas sincronias do PE, confirmando as expectativas; (e)