CAPÍTULO 3: HIPÓTESE E PREVISÕES
3.2 Delineamento da hipótese
3.2.4 Orações infinitivas preposicionadas com tópico-sujeito
Um ponto positivo da análise proposta nas seções anteriores é o fato de ela captar não apenas o fato de sujeitos argumentais ocorrerem no Spec-T da infinitiva encaixada, mas também de permitir encaminhar uma explicação, ainda que parcial, para a ocorrência de tópicos-sujeitos locativos no interior da encaixada, como se vê em (43a), derivada de (43b).
(43) a. É difícil dessas casas entrarem ladrão. b. É difícil de entrar ladrão nessas casas. c. É difícil de entrar nessas casas.
d. *É difícil dessas casas entrarem.
O contraste entre as sentenças anteriores mostra que são gramaticais as tough-
constructions com locativos adjuntos ou com tópicos-sujeitos locativos acompanhados
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(43c), em que o locativo se apresenta como adjunto preposicionado e não como tópico, todos os requerimentos são atendidos caso se pressuponha uma estrutura tal como aquela proposta no item 3.2.1, em que a posição de sujeito da oração encaixada é ocupada por uma categoria vazia de referência genérica ou arbitrária. O problema passa a ser quando, em (43d), está explícito apenas o tópico-sujeito da estrutura inacusativa, o que sugere ser o item “essas casas”, na verdade, simples tópico, correferente a um pronome lembrete nulo no Spec-T mais próximo a T, aos moldes do sistema de compartilhamento de traços-uϕ no domínio C-T. É viável supor que o pronome lembrete é primeiro concatenado como complemento de V (e não em Spec-v, neste caso, por se tratar de uma estrutura inacusativa), para satisfazer os requerimentos temáticos de V — a correferência, portanto, acaba por produzir a interpretação segundo a qual “essas casas” é agente70 de “entrar”, o que se trata, obviamente, de uma leitura inapropriada, que remeteria à ideia de que “é difícil de essas casas executarem a ação de entrar em algum lugar”.
Em linhas gerais, a referência indesejada é esta:
(44) ... é [AP difícil [CP de [TP [DP essas casas]i [TP proi [T’ T[VP V proi]]]]]]]]]
A inserção do argumento do verbo, “ladrão”, modifica completamente a interpretação da sentença, uma vez que é esse elemento que satisfaz os requerimentos temáticos do verbo como complemento de V, o que impede a leitura indesejada. Essa é a explicação para a gramaticalidade de uma sentença como (43a), cuja derivação se dá,
grosso modo para a presente proposta, da seguinte maneira:
70 Não são de fato claros nem estáveis os papeis temáticos atribuídos aos argumentos do verbo “entrar”
nos exemplos aqui em evidência. O papel de agente, em específico, é ainda mais questionável, na medida em que é largamente assumida na literatura sua associação com Spec-v, presente em estruturas transitivas. Talvez uma classificação mais precisa para o constituinte “essas casas” seja a de “desencadeador de processo” em (43d) e a de “afetado pelo processo” em (43a) (cf. classificação de Cançado, 2005).
118 (45) CP qp ’ C-de[uφ] TP rp Essas casas [iφ, K:Nom] T’ 3 pro [iϕ, K: Nom] T’ 3 T[EPP + uϕ] VP
rp
V ladrão [iφ, K: inerente]
Foge do escopo deste trabalho o detalhamento dos processos que tornam o locativo tópico-sujeito no PB71. O que é de interesse aqui é o fato de que, ainda nesse contexto, é possível assumir que o tópico-sujeito locativo ocupa o Spec-T mais alto da oração encaixada (na linha do proposto em Avelar e Galves, 2011), checando Caso Nominativo por meio dos traços mantidos em C durante o compartilhamento, conforme foi anteriormente proposto no item 3.2.2 deste capítulo. No Spec-T mais baixo, admite- se um pro que atua como pronome lembrete do tópico-sujeito e que estabelece relação de concordância com os traços herdados por T, o que é visível pela flexão verbal.
Uma saída que pode ser experimentada para lidar com o constituinte nominal que permanece em V sem valorar Caso é explorar a ideia de que verbos inacusativos atribuem Caso inerente ao complemento (Belletti, 1988; Nunes, 2012; Toniette, 2013)72.
71 Alguns trabalhos que tratam mais profundamente de termos não argumentais em posição de sujeito,
entre eles os locativos, são Avelar e Cyrino (2008), Munhoz e Naves (2012) e Toniette (2013).
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A princípio, outra saída seria adotar a hipótese de Avelar e Galves (2011) acerca da valoração do Caso nas línguas naturais. Os autores assumem dois tipos de língua no que tange à necessidade de seus constituintes nominais valorarem Caso: aquelas em que esses constituintes sempre apresentam um traço de Caso a ser valorado (denominadas [+K]), e aquelas que podem ou não apresentá-lo (podem ser [+K] ou [-K]). O PB seria uma língua do segundo tipo. Sob esta perspectiva, o constituinte nominal que permanece sem Caso em posição de complemento seria marcado como [-K], característica que garante sua realização sob a forma do Nominativo, o Caso default do PB.
No entanto, esta análise em específico não se mostra compatível com os demais pressupostos aqui considerados, e por isso não será adotada (ainda que o seja a proposta relacionada à ϕ-independência, cf. seção 2.4.3 do capítulo 2). Assumir que a presença do traço de Caso é opcional implica dispensar a necessidade de uma fonte atribuidora de Caso para Spec-T da encaixada, bem como, portanto, os sistemas de distribuição de traços-uϕ no complexo C-T. Além disso, conforme ressaltado por Nunes (2012), a proposta de Avelar e Galves também é problemática porque incorretamente prevê a gramaticalidade de, por exemplo, construções cujos constituintes dativos ocorrem sem preposição:
(i) a. Dei o livro a/para o João. b. * Dei o livro João.
Fase 1 Fase 2
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Outra sentença relevante relacionada a tópicos-sujeitos locativos no contexto das
tough-constructions está apresentada abaixo; nela, o sujeito da matriz é justamente o
próprio locativo. Percebe-se, aqui, que alocar o argumento “ladrão” em posição pré- verbal na encaixada impede a concordância entre “essas casas” e “entrar”, exatamente porque esse movimento preenche Spec-T da infinitiva73, cujos elementos terão valorados Caso Nominativo por meio da sonda C-de.
(46) a. Essas casas são difíceis de ladrão entrar(*em).
b. Essas casas são difíceis [CP de [TP ladrãoi [T’ proi entrar
Até o momento, então, foi possível constatar a importância do núcleo C no licenciamento dos especificadores da oração encaixada em tough-constructions. No entanto, conforme foi visto no início do capítulo, existem sentenças gramaticais tanto no PB quanto no PE, tais quais (47), que não contemplam a presença de um “de” introdutor. Tais construções serão abordadas a seguir.
(47) É difícil o João pagar. PB: ok / PE: ok