6. Tecnologias Intelectuais
6.1. Oralidade Primária
Na oralidade primária, utiliza-se a palavra antes que a escrita tenha sido adotada. Nela, a palavra tem como função básica a construção da memória social, e não apenas a comunicação cotidiana das pessoas.
Numa sociedade oral primária, a cultura está fundada nas lembranças dos indivíduos. A inteligência, nessas sociedades, está identificada com a memória, principalmente, auditiva.
Segundo o autor, quando uma nova informação ou um novo fato surge diante de nós, devemos, para gravá-lo, construir uma representação para ele. No momento em que a criamos, essa representação encontra-se em estado de ativação no sistema cognitivo, ou seja, está em nossa zona de atenção. Não se tem, portanto, nenhuma dificuldade em encontrá-la instantaneamente. Já na memória de longo prazo têm-se dificuldades de encontrar um fato, uma proposição ou uma imagem que se ache muito longe de nossa zona de atenção, uma informação que há muito tempo não esteja em estado ativo.
Na procura de lembranças ou informações, a ativação se propaga dos fatos atuais até os fatos que desejamos encontrar. Para isso, uma representação do fato que se procura deve ter sido conservada. Deve existir um caminho de associações possíveis que leve a essa representação.
A memória humana está longe de ter a performance de um equipamento de armazenamento e recuperação de informações, é extremamente sensível aos processos elaborativos e à intensidade dos processamentos que determinam a codificação das representações.
Segundo o autor, as representações que têm mais chance de sobreviver nas ecologias cognitivas, terão que atender aos seguintes critérios:
1. As representações serão ricamente interconectadas, o que exclui listas e todos os modos de apresentação em que a informação se encontra disposta de forma modular, muito recortada.
2. As conexões entre representações envolverão relações de causa e efeito.
3. As proposições farão referência a domínios do conhecimento concretos familiares para os membros das sociedades em questão, de forma que poderão ligá-los a esquemas preestabelecidos.
4. Finalmente, essas representações deverão manter laços estreitos com “problemas de vida”, envolvendo diretamente o sujeito e fortemente carregadas de emoção.
Nas sociedades orais primárias, qualquer proposição que não seja periodicamente retomada e repetida, estará condenada a desaparecer. Não existindo nenhum processo de armazenamento das representações verbais para reutilização. As narrativas e os ritos fazem parte das formas de transmissão da informação, como gêneros de organização das representações que possibilitam essa transmissão de forma duradoura.
A oralidade primária persiste nas sociedades modernas. Grande parte das informações em uso atualmente nos foi transmitido oralmente, e principalmente, na forma de narrativa. Tradições e conhecimentos empíricos ainda são transmitidos oralmente.
6.2. A Escrita
O surgimento da escrita gera uma nova situação de comunicação. Pela primeira vez, os discursos podem ser separados das circunstâncias em que foram produzidos. A comunicação escrita elimina a mediação humana no contexto que adaptava ou traduzia as mensagens vindas de outros lugares.
Segundo o autor, nas sociedades orais primárias, o contador adaptava a narrativa às circunstâncias de sua enunciação, bem como aos interesses e conhecimentos de audiência. A transmissão oral era sempre, simultaneamente, uma tradução e uma adaptação. A mensagem escrita por estar restrita a uma fidelidade, a uma rigidez absoluta, pode ser obscura para o leitor.
Na escrita, a distância entre o autor e o leitor pode ser muito grande, no tempo e no espaço, exigindo-se uma universalidade e objetividade por parte do autor. A cada geração, a distância entre o autor e o leitor cresce continuamente, sendo necessário reduzi-la, diminuindo a problemática da semântica através de um processo de atribuição de sentido, a hermenêutica, passa a ter um papel central na comunicação.
O autor enfatiza que a persistência de textos por várias gerações de leitores já constitui um agenciamento produtivo extraordinário. Uma rede de comentários, de debates e de notas ramifica-se a partir dos textos originais.
A leitura leva a conflitos, a interpretação produz diferenças que a escrita desejava anular. A separação do autor e do leitor e a impossibilidade de interagir no contexto, para construir um hipertexto comum, são os principais obstáculos da comunicação escrita.
A escrita permitiu o aparecimento das teorias. A escrita também suscitou o aparecimento de saberes cujos autores geralmente pretenderam que fossem independentes das situações particulares em que foram elaborados e utilizados.
Os textos começaram a ser impressos a partir do século XV. A impressão transformou profundamente o modo de transmissão dos textos, permitindo que as diferentes variantes de um texto fossem facilmente comparadas.
O matemático e filósofo francês Pierre de la Ramée apresentou a impressão como um novo gênero de saber: o método de exposição analítica. A matéria a ser ensinada passa a ser espacializada, projetada sobre uma tabela, uma árvore ou uma rede, cortada em frações e depois distribuída pelo livro em função de um plano geral. Essas apresentações apóiam-se sobre interfaces tais como: paginação regular, sumário, cabeçalhos, índice, tabelas, esquemas e tabelas.
A memória humana, característica das sociedades orais, é transformada por meio da escrita em memória objetiva. A partir de então, a memória é tomada como um todo. O saber está lá, disponível, estocado, consultável, comparável. Esse tipo de memória objetiva, morta e impessoal favorece uma preocupação que, decerto, não é totalmente nova, mas que a partir de agora irá tomar os especialistas do saber com uma acuidade peculiar: a de uma verdade independente dos sujeitos que a comunicam.
A memória objetiva separa o conhecimento da identidade pessoal ou coletiva. O saber deixa de ser aquilo que se utiliza no cotidiano, tornando-se um objeto passível de análise e exame, surgindo, então, a preocupação com a verdade. O surgimento da escrita, enquanto tecnologia intelectual, condiciona a existência dessas formas de pensamento, permitindo o surgimento de um novo processo cognitivo.
Segundo o autor, passamos da discussão verbal à representação visual; mais do que nunca em uso atualmente em artigos científicos e na prática cotidiana dos laboratórios, graças a novos instrumentos de visualização: os computadores.