CAPÍTULO 2 – ESTUDOS SOBRE A SINTAXE DA LIBRAS
2.2. Ordem dos constituintes em Libras
Os termos ordem básica, canônica ou subjacente são amplamente utilizados nos estudos da descrição de diferentes ordens das línguas. Segundo Quadros e Karnopp (2004), os termos mencionados anteriormente são observados desde estudos tipológicos aos estudos formais. As autoras também afirmam que “básica” e “canônica” são termos
relacionados à ordem de superfície. Enquanto “subjacente” relaciona-se à estrutura profunda das frases. Essa é uma nítida referência aos princípios gerativos.
Para as autoras, Libras apresenta uma ordenação mais básica que as demais:
A ordem Sujeito-Verbo-Objeto é mais básica e são os tipos de construção mais apresentados na língua de sinais brasileira. Exemplos que utilizam a construção SVO são sempre considerados gramaticais. (QUADROS E KARNOPP, 2004 p.140)
Teria sido essa generalização sobre Libras baseada em estudos sobre a Língua de Sinais Americana (ASL)? Pesquisadores de ASL postularam a ordem básica como Sujeito-Verbo-Objeto. Sobre essa ordem em ASL, Fisher (1973, p. 15) afirmou que “se o verbo for transitivo e o sujeito ou o objeto forem reversíveis (isto é, poderiam ser o sujeito ou o objeto e ainda ser semanticamente plausíveis), as ordens permissíveis são mais restritas (…)”.
Sobre o assunto em Libras, Quadros, Pizzio e Rezende (2009, p. 16) fazem uso de glosas (não há ilustrações ou imagens em Libras) para exemplificar as categorias de sujeito e objeto reversíveis12:
A. Sentenças com argumentos reversíveis JOÃO GOSTA MARIA
MARIA GOSTA JOÃO
B. Sentenças com argumentos não-reversíveis JOÃO COMPRAR CARRO
*CARRO COMPRAR JOÃO
Outra observação interessante é que, na obra, algumas glosas que aparecem em português são oriundas do inglês, as autoras fazem a referência e apresentam os exemplos,
12 As autoras consideram como categorias de sujeito e objeto reversíveis quando sujeito e objeto são
nomes próprios e apresentam a mesma escala de agentividade; assim, os dois argumentos podem exercer a função sintática de sujeito ou objeto da sentença. Sobre o assunto, ler Quadros e Karnopp (2004).
em inglês, entre parênteses, ou seja, a língua de sinais americana foi traduzida para o inglês e posteriormente para o português, para que então fosse ilustrado em Libras.
Figura 8: Sentença com argumentos reversíveis (QUADROS e KARNOPP, 2004, p. 159)
Segundo Fisher (1973) apud Quadros e Karnopp (2004), a ordem básica em ASL é SVO. As autoras, apesar de considerarem a mesma ordem básica, para Libras (SVO), reconhecem a flexibilidade em outras possíveis combinações OSV, VOS e SOV e, ressaltam sobre a topicalização de objeto em sentenças OSV.
Observemos alguns exemplos:
(9)
(10)
Leite, Maria gosta.
Apesar de expressar o mesmo conteúdo semântico, os dois enunciados apresentam diferentes combinações sintáticas dos constituintes. Em (9), a ordem é SVO, considerada básica e mais frequente na Libras, segundo Quadros e Karnopp (2004). Em (10), a ordem OSV é observada como mais natural entre os surdos, conforme será apresentado no capítulo referente a análise de dados. A topicalização na sentença (10) é possível por apresentar argumentos que não são reversíveis, diferentemente do enunciado da Figura 8 (João gosta da Maria)
Quadros e Karnopp (2004) consideram que a sentença, ao trazer verbos simples, aqueles sem concordância (assunto de nossa próxima seção) ao apresentar verbos reversíveis necessita ordenar os constituintes em SVO, afinal, os argumentos possuem propriedades semânticas capazes de exercer tanto a função sintática de sujeito quanto de objeto. Ao tentar, por exemplo, topicalizar o enunciado da Figura 8 “João gosta da Maria”, teríamos uma sentença agramatical. Particularmente nessa sentença, a topicalização não é uma possibilidade em Libras, para as autoras. Observaremos situação semelhantes no capítulo de análise dos dados.
A topicalização, processo para identificar explicitamente um tópico, é um recurso bastante frequente em Libras. Para Quadros e Karnopp (2004, p. 148),
A ordem de algumas construções é alterada pela presença do tópico. O tópico é o tema do discurso que apresenta uma ênfase especial posicionado no início da frase e seguido de comentários a respeito desse tema. Esse recurso gramatical é muito comum na língua de sinais brasileira.
Para as pesquisadoras, uma sentença topicalizada, é constituída com alteração da ordem básica da Libras SVO, apresenta o tópico com ênfase especial e posição de
destaque, no início da frase e principalmente, com a presença de expressões-não-manuais. Entretanto, nossos dados não revelaram a topicalização associada a marcas não-manuais, (retomaremos o assunto no capítulo 5 – análise dos dados)
Por fim, a obra de Quadros e Karnopp (2004) destaca ainda as construções com foco:
As construções com foco são aquelas que apresentam constituintes duplicados dentro da mesma oração. Essas “cópias” ocorrem quando o constituinte é enfatizado, mas de forma diferente da ênfase dada aos tópicos [...] O foco é gerado quando há uma informação interpretada com entonação mais marcada, ou seja, focalizada. (QUADROS e KARNOPP, 2004, P. 152)
Embora, não haja uma explicação na obra de como diferir a ênfase do tópico para a ênfase do foco, é possível perceber o foco nos elementos duplicados, como no exemplo apresentado pelas autoras:
Figura 9: EU PERDER LIVRO PERDER (QUADROS e KARNOPP, 2004, p. 152)
Essa “cópia” de alguns constituintes da sentença, trazida pela literatura como
elementos duplicados (QUADROS e KARNOPP, 2004, p. 150) é muito observada nas
construções da Libras, como também revelam nossos dados. Na figura 9, é possível perceber a cópia (ou duplicação) do verbo perder, elemento focalizado na sentença.
Outra possibilidade de ordem é a VOS que, para Quadros e Karnopp (2004), ocorre sobretudo em contextos de foco contrastivo, como em:
(11)
“Quem passou no concurso Maria ou João?”
(12)
“Passou no concurso Maria” Maria é apresentada como foco.
A ordem SVO seria de fato a ordem básica da língua brasileira de sinais? Ou a influência de estudos sobre o português ou demais línguas orais e outras línguas de sinais levou a essa afirmação? Importante ressaltar que esses estudos não apresentam pesquisa etnográfica ou amostragem. Quem seriam os colaboradores que contribuíram para que se chegasse à tal conclusão? Porém, o objetivo aqui não é comprovar qual a ordem ou como se dá a construção de frases em Libras, mas sim fazer uma reflexão sobre o que vem sendo postulado pela literatura sobre a sintaxe em Libras. Cada vez mais, percebe-se a necessidade de revisarmos as perspectivas da sintaxe da Libras com novas pesquisas, novas observações e principalmente novas coletas de dados a partir de registros interativos e comunicativos.
Para compreender um pouco mais sobre a ordem em Libras, é relevante perceber a importância do verbo na sentença. A forma como a Libras o categoriza é algo merecedor de destaque, assim, dedicaremos a próxima seção para apresentar um estudo sobre os verbos em Libras.