CAPÍTULO 3: BERT HELLINGER TERAPEUTA
3.15 Ordens da Ajuda
também os tornam possíveis, tanto por refletir quanto por facilitar a necessidade humana fundamental por intimidade que existe nos relacionamentos (HELLINGER, 2006a, p. 18).
Os relacionamentos são bem-sucedidos quando conseguimos atender a essas necessidades e equilibrá-las; mas passam a ser problemáticos e destrutivos quando não o conseguimos. A cada ato que praticamos que afeta os outros, sentimo-nos culpados ou inocentes. Assim como o olho distingue continuamente a luz das trevas, um órgão interno discrimina a cada passo o que convém ou não convém aos nossos relacionamentos. (HELLINGER, 2006a, p. 18).
em dois níveis:
O primeiro, que ocorre entre pessoas equiparadas, permanece no mesmo nível e exige reciprocidade. No outro, entre pais e filhos ou entre superiores e necessitados, existe um desnível. Tomar e dar se assemelha aqui a um rio que leva adiante o que recebe em si. Este tomar e dar é maior. Tem em vista o que vem depois”. (HELLINGER, 2005, p. 11).
Uma boa metáfora para esse movimento descendente, do segundo nível, é visualmente descrita no poema de Conrad Ferdinand Meyer:
A fonte romana: O jato d’água se ergue e se derrama em cheio sobre a taça de mármore; que, enchendo-se, transborda para a segunda taça; esta se enriquece e verte para a terceira taça; e cada uma, ao mesmo tempo, recebe e dá, flui e repousa. (HELLINGER, 2009, p. 33).
Hellinger destrincha essa ajuda oriunda de uma hierarquia superior (pai para o filho ou filha, mestre para aluno ou aluna), explicando que o ajudar dessa maneira aumenta o que foi presenteado, ao concluir que, desta forma, aquele que ajuda é tomado e inserido em algo maior, mais rico e duradouro, uma vez que sua ajuda, embora possa não ter sido diretamente retribuída, é perpetuada e segue adiante:
Essa ajuda pressupõe que, primeiro, nós próprios tenhamos recebido e tomado. Somente assim teremos a necessidade e a força de ajudar outros [...]. Ao mesmo tempo, pressupõe que aqueles que queremos ajudar também necessitam e desejam aquilo que podemos e queremos dar a eles. Caso contrário, a nossa ajuda se perde no vazio. Separa, ao invés de unir. (HELLINGER, 2005, p. 11).
Hellinger sintetiza das cinco Ordens da Ajuda da seguinte maneira:
Um resumo das cinco Ordens da Ajuda: A primeira ordem da ajuda consiste em dar apenas o que se tem e somente esperar e tomar o que se necessita. A segunda ordem da ajuda é nos submetermos às circunstâncias e somente interferir e apoiar à medida que elas o permitirem. A terceira ordem da ajuda seria, portanto, que o ajudante também se colocasse como adulto perante um adulto que procura ajuda. Com isso, ele recusaria as tentativas do cliente de forçá-lo a fazer o papel de seus pais. A quarta ordem da ajuda: sob a influência da psicoterapia clássica, muitos ajudantes frequentemente encaram seu cliente como um indivíduo isolado. Com isso, também ficam facilmente em perigo de uma transferência da relação entre pais e filhos. O indivíduo é parte de uma família. Somente quando o ajudante o percebe como uma parte de sua família é que ele percebe de quem o cliente precisa e a quem ele talvez deva algo. Logo que o ajudante o vê junto com seus pais e ancestrais e talvez, também, com o seu
parceiro e seus filhos, ele o percebe realmente. A quinta ordem da ajuda: as Constelações Familiares unem o que antes estava separado.
Neste sentido, está a serviço da reconciliação, sobretudo com os pais.
O que impede essa reconciliação é a diferenciação entre os bons e maus membros da família, tal como fazem muitos ajudantes, sob a influência de sua própria consciência e sob a influência de uma opinião pública que está presa nesses limites dessa consciência.
(HELLINGER, 2005, pp. 11-14).
Nas Ordens da Ajuda, Bert Hellinger estabelece ao menos duas razões pelas quais as Constelações Familiares se diferenciam da psicoterapia clássica.
A primeira é seu método: para que não haja transferência e contratransferência na relação terapêutica, como citado na terceira ordem da ajuda, é dada ênfase para que o facilitador em Constelação Familiar sempre se coloque como um adulto perante outro adulto (o cliente) e, desta forma, possa se proteger das tentativas do cliente de forçá-lo a assumir o papel de seus pais:
A desordem da ajuda aqui é permitir que um adulto faça reivindicações ao ajudante como uma criança aos seus pais, e que o ajudante trate o cliente como uma criança, para poupá-lo de algo que ele mesmo precisa e deve carregar — a responsabilidade e as consequências.
(HELLINGER, 2005, p. 13).
A segunda diferença básica entre as Constelações Familiares e as psicoterapias tradicionais é a inclusão da ancestralidade do cliente na busca das soluções dos problemas, já que o cliente nunca é visto como um indivíduo isolado, mas como parte de um contexto familiar amplo, conforme visto na quarta ordem da ajuda:
A desordem da ajuda seria, aqui, se outras pessoas essenciais que, por assim dizer, têm nas mãos a chave para a solução, não fossem olhadas e honradas. A elas pertencem sobretudo as pessoas que foram excluídas da família, por exemplo, porque os outros se envergonharam delas. (HELLINGER, 2005, p. 13).
Bert Hellinger esclarece que outro cuidado crucial que deve ser tomado é que o ajudante nunca se aproprie da visão que seu cliente tem acerca das queixas sobre seus próprios pais, pois o ajudante que se deixa contaminar pela visão muitas vezes limitada que os clientes têm de seus pais está mais a serviço do conflito e da separação do que da reconciliação (HELLINGER, 2005, p. 14).
Fato que vem a ser parte, também, da quinta ordem da ajuda: “O amor a cada um como ele é, por mais que ele seja diferente de mim. Dessa forma, o
ajudante abre-lhe seu coração, tornando-se parte dele. Aquilo que se reconciliou em seu coração, também pode se reconciliar no sistema do cliente”
(HELLINGER, 2005, p. 14).
E a desordem dessa quinta ordem da ajuda, no caso, seria o julgamento sobre outros e sua provável condenação, além da indignação moral relacionada a isto: “Quem realmente ajuda, não julga” (HELLINGER, 2005, p. 14).
Além das cinco ordens da ajuda, Bert Hellinger também destaca cinco formas de conhecimento que considera úteis para o facilitador em Constelação Familiar: observação, percepção, compreensão, intuição e sintonia (HELLINGER, 2005, p. 14).
3.16 A cura, a alma coletiva e os campos morfogenéticos de Rupert