Os organismos internacionais intergovernamentais28 (OII) são um fenômeno da modernidade, resultado de um longo processo de tentativas diplomáticas das relações internacionais entre os Estados. Conforme já nos referimos anteriormente, esse processo iniciou-se após a I Guerra Mundial, devido à necessidade de se restabelecer a ordem, tornar estável o sistema internacional e garantir a paz. Os países centrais, na tentativa de formar um organismo internacional, constituíram a Liga das Nações, em 28 de abril de 1919, na Conferência de Versalhes. Este organismo tinha o objetivo de solucionar as disputas internacionais mediante a constituição de um arbítrio multilateral, retirando a tensão da disputa militar entre as potências como ocorrera na Europa antes da Paz de Vestfália.
A pujança do modelo realista de Estado (ápice da exaltação nacionalista entre os Estados) que vigorava neste período e a disputa de poder entre os Estados engessou esta organização, que teve pouca eficácia no cumprimento de sua missão. A ausência das principais potências na conferência (Estados Unidos e a União Soviética) colaborou decisivamente para seu enfraquecimento.
Frustrada a tentativa de conter a corrida imperialista, este modelo de expansionismo deflagrou a II Guerra Mundial. No interregno desta guerra, várias foram as tentativas de estabelecer o quadro geral de convivência entre os países, buscando uma união no sentido de alcançar a paz e dirimir os conflitos entre as potências. O primeiro documento internacional para a cooperação pacífica foi a Carta do Atlântico, de agosto de 1941, em que os Estados Unidos e o Reino Unido
se comprometiam, entre outras coisas, a renunciar às conquistas territoriais e a favorecer o comércio e as navegações mundiais. Em seguida, Franklin Roosevelt, presidente norte-americano, reuniu em Washington, em 1942, americanos, ingleses, soviéticos e chineses para a elaboração da Declaração das Nações Unidas, que ao final, contou com a adesão de 26 países. Criou-se o bloco dos aliados contra Itália, Japão e Alemanha.
Não só na busca de um consenso pela paz, mas também pela necessidade de estruturação de uma nova ordem econômica, os delegados de 44 países, tanto os aliados, como os neutros, reuniram-se em Bretton Woods. A proposta inicial era a criação de uma organização permanente e de caráter supranacional, que regulasse o sistema financeiro internacional de modo a evitar crises graves na economia internacional; pretendiam, também, oferecer assistência técnica e financeira e orientar as economias dos seus países membros.
Como já mencionamos, foi ainda necessário criar outras instituições que pudessem atuar em outras áreas e que possibilitassem as relações comerciais e de finanças internacionais. Assim, surgiram o FMI, o Banco Mundial, e o GATT.
Após a II Guerra Mundial, em 1945, foi instituída a Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de manter a paz e a segurança internacional, instituição que poderia intervir para restaurar a paz e para prevenir conflitos. A Liga das Nações dissolveu-se formalmente em 18 de abril de 1946, quando cedeu seus organismos à ONU.
Após a constituição e estruturação da ONU, surgiram também suas agências setoriais, como a Organização internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura (UNESCO), dentre outras, todas com os mesmos princípios da ONU, contribuir para a paz e para a efetivação dos direitos humanos, por meio da educação, ciência e cultura, objetivando uma atuação multilateral e exercendo uma regulação na esfera internacional.
1.2.
Definição e características dos Organismos
Internacionais intergovernamentais
Definição
De acordo com Mazzuoli (2007:498) não existe no Direito Internacional positivo uma definição satisfatória e precisa de organização internacional. Mas, para fins de Direito Internacional Público ele as conceitua da seguinte forma:
[...] uma associação voluntária de Estados, criada por um convênio constitutivo e com finalidades pré-determinadas, regida pelas normas do Direito Internacional, dotada de personalidade jurídica distinta da dos seus membros, que se realiza em um organismo próprio, dotado de autonomia e especificidade, possuindo ordenamento jurídico interno e órgãos auxiliares, por meio dos quais realiza os propósitos comuns dos seus membros, mediante os poderes que lhes são atribuídos por estes.
Observa-se que, de acordo com a definição supra citada, as OII são dotadas de autonomia e não de soberania, atributo exclusivo dos Estados. Além disso, as OII se distinguem das outras organizações de âmbito internacional: as organizações privadas e as não-governamentais. No caso destas duas espécies de organizações, o ato constitutivo se dá por vontade de particulares, com ou sem a intervenção de órgãos públicos e, dessa forma, não gozam de personalidade jurídica de direito internacional público, não podendo assim celebrar tratados internacionais, nem manter relações diplomáticas com os Estados.
Características
Os OII são tidos como sujeitos derivados porque são oriundos dos Estados, os sujeitos originários. Como características temos a interestatalidade, por serem criadas por Estados, daí a sua natureza pública; a forma de constituição, sempre por meio de tratados internacionais multilaterais que além de as instituírem, estabelecem suas regras e competências; a associação livre dos Estados, que pelo menos em tese, não podem ser coagidos a ingressar no organismo; a personalidade
independente dos membros que as instituíram; o gozo de privilégios e imunidades
necessárias ao exercício de suas funções e a permanência, característica que lhe confere independência e autonomia frente aos Estados-membros.
1.3. Sujeitos de direito internacional e personalidade
jurídica
Conforme foi observado, na contemporaneidade os arranjos e disputas entre os Estados propiciaram o surgimento de novas entidades no contexto internacional. Notadamente, estes novos sujeitos (entes) de direito internacional, não só participam, mas, muitas vezes, centralizam e conduzem ativamente expressiva parcela das políticas mundiais.
Na verdade são muito poucos os autores que, na atualidade, ainda defendem ser os Estados os únicos sujeitos de Direito Internacional, querendo parecer que só os juristas soviéticos manifestam-se fiéis a esta doutrina (Rolin, 1950 apud Mazzuoli, 2007:332).
A sociedade de pessoas (sujeitos) internacionais é formada tão somente pelos Estados, pelas Organizações Internacionais intergovernamentais e pelos indivíduos.
Conforme já mencionamos, uma organização internacional intergovernamental é uma associação voluntária de sujeitos de Direito Internacional (necessariamente Estados-nação), constituída mediante tratado internacional, dotada de regulamento e órgãos de direção próprios, cuja finalidade é atingir os objetivos comuns determinados por seus membros constituintes. O paradoxo é que ao mesmo tempo em que os Estados constituem estes organismos, também passam a reconhecer não só a personalidade jurídica de direito internacional destes organismos, mas a pactuar com as cláusulas dispostas por eles. De acordo com Mazzuoli (2007:504) [...] os Estado cedem parcela de sua soberania para a criação de uma organização com vontade própria, distinta da vontade dos seus criadores.
O surgimento das Organizações Internacionais se contrapõe à idéia de Estado soberano. Fica a indagação: É possível ceder parcela de soberania, ou ela é absoluta? O entendimento que vigora é o de que a existência destes organismos se justifica, porque eles são instituídos com a finalidade e a prerrogativa de promover a aproximação, a paz e a cooperação entre seus países membros. A questão fundamental, que nos interessa neste tema, é que, uma vez constituídos, estes organismos adquirem personalidade jurídica internacional, independente da pessoa
jurídica de seus membros constituintes, podendo, portanto, adquirir direitos e contrair obrigações em seu nome e por sua conta, inclusive por intermédio da celebração de tratados com outras organizações internacionais e com os Estados- nação, nos termos do seu ato constitutivo.
O termo organização internacional intergovernamental aplica-se apenas às organizações constituídas por Estados-nação. Outras organizações, como as formadas pela sociedade civil (associações de direito privado), embora possam ser reconhecidas pela atuação no contexto internacional, não podem firmar tratados com outros Estados, já que possuem um regime jurídico distinto, bem como a terminologia de organização não governamental, ONG. Algumas ONGs, apesar de conquistarem, cada vez mais, importância e respeito da opinião pública internacional, promovendo debates sobre temas de interesse mundial e fazendo pressão sobre Estados e organismos internacionais nas questões ambientais e de direitos humanos, não são reconhecidas, pelo menos por enquanto, como sujeitos de direito internacional.
Os OII são altamente institucionalizados, possuindo um estatuto rígido (ato constitutivo) com suas próprias diretrizes. A adesão dos países-membros se faz por ato voluntário e soberano, o que implica na aceitação das regras e procedimentos do respectivo organismo. Uma das classificações dos OII é quanto à finalidade. Eles podem ser subdivididos entre os fins gerais e específicos. As de fins gerais possuem objetivos bem amplos, como a paz, a segurança, a solução de conflitos e a cooperação internacional (ONU, OEA), já as de fins específicos destinam suas atuações para um determinado setor. Exemplificando: Quando se dedicam à cooperação econômica (Fundo Monetário Internacional, Bancos Multilaterais), à cooperação social, cultural, humanitária (UNESCO, UNICEF) ou à cooperação técnica (PNUD) e etc.
A contratação de financiamento externo, em especial o seu processo, objeto de investigação deste trabalho, acontece entre o Estado Brasileiro e Organismos Internacionais intergovernamentais, em especial, aqueles com fins de cooperação econômica, notadamente denominados Instituições Financeiras Multilaterais.