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2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.3 TRATAMENTO DE EFLUENTES

2.3.1 Águas residuárias domésticas

2.3.1.1 Alguns problemas oriundos das águas residuárias domésticas

2.3.1.1.2 Organismos patogênicos e riscos à saúde humana

A transmissão de doenças a pessoas sadias através de indivíduos doentes, mediante lançamento de águas residuárias domésticas não tratadas ou insuficientemente tratadas, em corpos d’água que fornecem água bruta para o abastecimento humano, ainda é um problema de ordem mundial, agravado em países menos desenvolvidos. Parte-se do princípio de que há um risco assumido ao captar água bruta contaminada, mesmo considerando os possíveis tratamentos. Há de se considerar que há dois elementos na execução de uma Estação de Tratamento de Água (ETA), a saber o humano e o mecânico, ambos falhos.

Segundo Gonçalves et al. (2003), a transmissão de organismos patogênicos ao homem pode ocorrer por ingestão direta de água não

tratada; ingestão direta de água tratada de má qualidade; ingestão de alimentos contaminados; ou pela infecção resultante do contato da pele com água ou solo contaminados. Essas rotas de transmissão evidenciam a necessidade de controle da qualidade das águas utilizadas para recreação, das fontes de abastecimento de água para consumo humano e irrigação, assim como dos alimentos e do solo. Em todos os casos citados, os excretas e, em especial, os esgotos sanitários são as principais fontes de contaminação dos corpos d’água e do solo, transmitindo grande quantidade de bactérias, vírus, protozoários e helmintos patogênicos aos seres humanos. Mais recentemente entram em foco as chamadas doenças “emergentes”, na forma de zoonoses, estabelecendo vínculos de transmissão importantes entre esgotos sanitários e dejetos de animais.

Segundo a WHO (2004), as rotas de patógenos para afetar a saúde por meio da água são muitas e diversas. São distinguidas cinco vias diferentes de infecção para doenças relacionadas com a água: doenças transmitidas pela água (por exemplo, cólera, febre tifóide), doenças provocadas pela água (por exemplo tracoma), doenças de base aquosa (por exemplo, esquistossomíase), doenças transmitidas por vetores (por exemplo, malária, filariose e dengue) e infecções dispersas pela água (por exemplo, legionelose).

Segundo Abdel-Raouf, Al-Homaidan & Ibraheem (2012), o ambiente de águas residuais é um meio ideal para uma ampla gama de microrganismos, especialmente bactérias, vírus e protozoários. A maioria é inofensiva e pode ser usada no tratamento de esgoto biológico, mas também contém microorganismos patogênicos, que são excretados em grande número por indivíduos doentes, portadores de sintomas.

Algumas pesquisas trazem informações preocupantes sobre o caminho que a humanidade vem percorrendo.

Segundo Osuolale & Okoh (2017), os vírus entéricos humanos estão atualmente na Lista de Candidatos a Contaminantes da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA) como contaminantes emergentes. Até o momento, nenhum regulamento foi implementado para monitorar as concentrações virais nas águas residuais antes de serem lançadas em um corpo de água. Enterovírus humanos, adenovírus humanos, norovírus, rotavírus e vírus da hepatite A são alguns dos vírus entéricos que causam as principais infecções. Essas infecções estão associadas a várias doenças transmitidas pela água, incluindo gastroenterites graves, conjuntivites e doenças respiratórias, tanto em nações desenvolvidas quanto em desenvolvimento em todo o mundo.

Segundo Osuolale & Okoh (2017), “como os sistemas de águas residuais são uma via importante para a transmissão de patógenos entéricos humanos transmitidos pela água, o estudo de rotavírus, enterovírus e bactérias indicadoras fecais em águas residuais tratadas é importante para a saúde pública, especialmente em regiões onde não há vigilância desses organismos. Os autores realizaram um estudo de um ano de

duração da qualidade do efluente descarregado por cinco ETE’s na Província do Cabo Oriental da África do Sul”.

Osuolale & Okoh (2017), identificaram em seus estudos a prevalência de rotavírus em diferentes ETE’s. Os autores complementam que os resultados demonstram o impacto da descarga de águas residuais mal tratadas na qualidade da água superficial receptora em termos da propagação potencial de doenças infecciosas causadas por rotavírus e bactérias entéricas.

Os resultados as pesquisas de Fuhrimann et al. (2017) em Hanói, norte do Vietnã - corroboraram os resultados da pesquisa de Osuolale & Okoh (2017), realizada na Província do Cabo Oriental da África do Sul, quanto aos riscos assumidos pelo lançamento de águas residuárias domésticas contendo organismos patogênicos.

Fuhrimann et al. (2017) realizaram uma avaliação quantitativa dos riscos microbianos (QMRA) focando quatro grupos populacionais caracterizados por diferentes níveis de exposição a águas residuais em Hanói, Norte do Vietnã: (i) trabalhadores que mantiveram os sistemas de transporte e tratamento de águas residuais; (ii) agricultores urbanos que usam águas residuais do rio To Lich; (iii) membros da comunidade em áreas urbanas expostas a inundações nos distritos de Hoang Mai e Thanh Tri; e (iv) agricultores peri-urbanos no distrito de Thanh Tri, onde a água do rio Vermelho é utilizada para agricultura e aquicultura.

Fuhrimann et al. (2017) concluíram, dentre outros resultados que:

Os agricultores urbanos que usam águas residuais do Rio Lich têm uma alta carga de doenças gastrointestinais, que é cerca de 100 vezes maior do que as metas de saúde para o uso de águas residuais estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde. Esses resultados são de relevância direta para a saúde pública e exigem a modernização do sistema de águas residuais de Hanói para reduzir a contaminação microbiana. Finalmente, este estudo apresenta um primeiro exemplo de como vincular a avaliação quantitativa do risco microbiológico (QMRA) a uma abordagem de planejamento de segurança de saneamento (SSP) em um contexto asiático e suas descobertas são interessantes no contexto do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável.

Fuhrimann et al. (2017), complementam que a exposição a águas residuais em torno de Hanói tem implicações consideráveis na saúde pública para esses três grupos populacionais e exigem ações, especialmente para reduzir o ônus causado por infecções de Escherichia coli, rotavírus e Campylobacter spp.

O estudo de Frerichs et al. (2012), nos relata um triste episódio ocorrido no Haiti causado pela negligência humana.

Segundo Frerichs et al. (2012), a cólera apareceu no Haiti em outubro de 2010 pela primeira vez na história registrada. O agente causal foi rapidamente identificado pelo Laboratório Nacional de Saúde Pública do Haiti e pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos como o sorogrupo O1 do Vibrio cholerae. Desde então, mais de 500.000 casos de cólera reconhecidos pelo governo e mais de 7.000 mortes ocorreram, a maior epidemia de cólera no mundo, com o número real de mortes provavelmente muito maior.

Ocorreram então várias investigações com a finalidade de descobrir a origem desta epidemia.

Segundo Frerichs et al. (2012), o Painel da ONU designado para investigar a origem da epidemia de cólera no Haiti escreveu em seu relatório de maio de 2011, “a evidência apoia esmagadoramente a conclusão de que a fonte do surto de cólera no Haiti foi devido à contaminação do Tributário Meye do Rio Artibonite com um patógeno estirpe do atual Sul da Ásia tipo Vibrio cholerae como resultado da atividade humana”.

Infelizmente, caminhamos rapidamente para vivermos novamente as grandes epidemias ocorridas logo após a reforma de Chadwick, que em 1847, introduziu o uso generalizado da descarga hidráulica dos vasos sanitários, ligando-os aos sistemas de águas residuárias e consequente lançamento em rios, resultando na trágica página da história humana onde milhões de pessoas morreram vitimadas pelas doenças de veiculação hídrica.