CAPÍTULO VII DAS DISPOSIÇÕES GERAIS
81organizar suas lutas e necessidades pela conquista dos seus direitos construídos com seus pares, em
conjunto com os outros grupos sociais e governo.”. Mas é importante não ficar somente na
Conferência; outros espaços de participação constante serão favoráveis ao seu desenvolvimento integral.
Investir em formação mais coerente com essas demandas, que busque informar as crianças e os adolescentes sobre direitos, deveres e mecanismos de participação é uma das ações que pode ser empregada nesse processo.
Vale destacar que a participação ativa e qualificada das pessoas na comunidade fiscalizando, controlando e tomando iniciativas nos assuntos que lhes dizem respeito promove o desenvolvimento da sociedade e define uma relação de respeito entre o governo e os cidadãos. Situações de violação de direitos poderão ser, se não evitadas, minimizadas se houver mais participação e cidadania em nossos espaços públicos e privados de convivência.
Para reflexão:
1) Em nosso município, os projetos sociais, educacionais, ambientais e outros realmente criam espaços para a participação das crianças e/ou dos adolescentes desde a fase de planejamento? Ou “entregamos” tudo pronto aos meninos e meninas, sem que eles/elas possam opinar e avaliar o que está acontecendo?
2) Como é a participação de crianças e adolescentes na vida escolar? Participam das discussões? Têm representação junto ao colegiado da escola? É estimulada a criação de grêmios?
3) Existem propostas/projetos que ajudam a preparar as meninas e os meninos para entenderem, por exemplo, de orçamento público, com linguagem e técnicas apropriadas e atraentes? Que contribuem para que eles/elas entendam o “funcionamento” da cidade e como as decisões que afetam suas vidas são tomadas? São criadas oportunidades para que se manifestem e as manifestações sejam acolhidas?
4) O CMDCA ou os outros Conselhos criam espaços e oportunidades para que, por exemplo, os adolescentes entendam e acompanhem suas plenárias? Existe algum projeto, de escola ou entidade social, que se preocupe em incluir esse tipo de vivência na formação cidadã desse público?
Eixo 5 – Gestão da Política
Dentre os vários ganhos advindos com a Constituição Federal de 1988, a descentralização político- administrativa e a participação da população na formulação e controle das políticas públicas são muito importantes. O Estatuto da Criança e do Adolescente considera tais referências em seu texto e ainda determina que a política de atendimento dos direitos aconteça através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais. As resoluções 113 e 117 do CONANDA ampliam o entendimento sobre tal política ao dispor sobre os parâmetros para a institucionalização e fortalecimento do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente.
No que tange aos princípios para a política nacional (já mencionados neste texto à página 11), convém lembrar de alguns mais diretamente relacionados à gestão, além da descentralização e da municipalização e da participação social:
Articulação das várias esferas de poder e entre governo e sociedade civil, que pressupõe, ainda, a integração com os poderes legislativo e judiciário.
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A articulação, integração e intersetorialidade das políticas, programas e serviços.
A transparência da Gestão do Estado. A Política Nacional de Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente deve ser pautada no respeito aos princípios da administração pública: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, com transparência na gestão e controle social.
Mas, o que se entende por gestão?
Palavra originária do latim gestione, gerere, que significa gerir, gerenciar, administrar, carregar, chamar a si. Gerenciar diz respeito à ação de estabelecer ou interpretar objetivos (finalidades) e de alocar recursos para atingir um propósito previamente determinado.
A gestão democrática é entendida como uma cadeia de processos, procedimentos, instrumentos e mecanismos de ação que envolve, também, a concepção e a formulação de políticas e seu o planejamento. Constitui-se como um conjunto de procedimentos que inclui todas as fases do processo de administração, desde a concepção de diretrizes de política, o planejamento, com a definição de programas, projetos e metas, sua execução e seus procedimentos avaliativos. (A gestão democrática e
o desafio da construção da participação coletiva. In: Revista da Faculdade de Educação da UNB – Volume 10, N.º 18, jan./jun. 2004.).
O que observar na gestão da política?
Antes é bom lembrar como se dá a construção, a formulação de uma política pública. Em linhas gerais, pode-se dizer que corresponde ao processo mediante o qual são estabelecidos os objetivos gerais que pretende alcançar e os meios através dos quais se deverá atuar para atingi-los, assim como a enunciação de ambos em termos claros e precisos. De um conhecimento da realidade, parte-se para a definição dos objetivos (que vão orientar as metas e as ações), a seleção das prioridades, a elaboração de um plano de ação. Também devem ser considerados os mecanismos de monitoramento e avaliação, com os indicadores apropriados.
Toda essa construção deve ser pautada por diretrizes consistentes.
Telma Menicucci destaca, dentre outros, dois aspectos, inicialmente, relevantes para a gestão:
Intersetorialidade. Tem sido definida como uma nova maneira de abordar os problemas sociais, enxergando o cidadão na sua totalidade e estabelecendo uma nova lógica para a gestão da cidade, superando a forma segmentada e desarticulada em que usualmente são elaboradas e implementadas as políticas públicas, fracionadas em diferentes setores. Particularmente nas políticas voltadas para a inclusão social (um dos eixos estruturadores de uma nova agenda de políticas sociais), buscam atuar sobre a muldimensionalidade dos processos de exclusão, configurando-se mudanças nas formas de produção de políticas de inclusão social, com vistas à sua maior efetividade, por meio da articulação Intersetorial e da incorporação da dimensão da territorialidade.
Ainda segundo a autora, além da articulação de atores individuais e institucionais, de organizações públicas e privadas, torna-se necessário produzir tanto uma síntese dos diversos conhecimentos especializados quanto a articulação de práticas por meio do estabelecimento de uma nova maneira de planejar, executar e controlar a prestação de serviços, quando o objetivo é garantir acesso igual aos desiguais. A proposta coloca desafios para a gestão e para os gestores, dada a necessidade de se obter uma compreensão compartilhada de finalidades, objetivos, ações, indicadores e práticas articuladas. Enfim, demanda a construção coletiva dos objetivos e o compromisso de superar os problemas de maneira integrada. Como estratégias de ação, pressupõem valores de cooperação e
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parceria e a construção de redes como meio para articular atores, produzir conhecimento e intervir na realidade.
Ampliação da participação da população. É importante destacar a importância do envolvimento da população no processo decisório e na gestão das políticas sociais, como forma de garantir legitimidade e sustentabilidade das políticas, bem como maior eficácia das ações. Isso se justifica na medida em que as políticas, sobretudo as sociais, afetam diretamente a vida das pessoas e envolvem muitas vezes mudanças de comportamentos e de atitudes do público-alvo. A atribuição de um papel ativo da população na identificação dos problemas e soluções a partir de suas necessidades específicas pode levá-la a tornar-se parceira nas ações públicas e na construção de objetivos coletivos.
Cabe reforçar que a participação e o controle social incorporados na normativa nacional pela Constituição de 1988, inauguram uma concepção de Estado amplo em que a sociedade civil organizada também é parte integrante. E a participação da sociedade civil nos conselhos dos direitos é importante instrumento de controle social e garantia de transparência dos atos do poder público que precisa ser mais bem apropriado, potencializado e fortalecido.
Outros itens a considerar:
Informação sobre a realidade/a situação que justificou a proposição da política (de modo a ter parâmetros para verificar o que está sendo alterado ou não com a execução da política) e a atual. Referência nas diretrizes, objetivos, prioridades, ações planejadas, indicadores.
Pessoas (vai além das questões trabalhistas; de recrutamento, seleção, “treinamento”; cargos e salários; benefícios; concurso; contratação; relações sindicais; considera, sobretudo, o trabalho em equipe, o sentido de “pertencimento” e a integração entre as pessoas/a valorização das habilidades e competências/formação continuada).
Qualidade, continuidade e efetividade no planejamento e na execução das políticas.
Transparência: correta aplicação dos recursos públicos; prestação de contas, responsabilização. Orçamento público/financiamento da política: a prioridade absoluta traduz-se em prioridade orçamentária (Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 4.º); participação e atuação efetiva nas etapas do ciclo orçamentário (Plano Plurianual – PPA; Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO; Lei Orçamentária Anual – LOA); execução orçamentári (acompanhamento; verificação junto aos gestores; atuação dos Conselhos); controle social.
Correta aplicação dos recursos do fundo dos direitos da criança e do adolescente (e também dos demais fundos) – deliberação; procedimentos; fiscalização.
Sociedade civil: atuação em fóruns/frentes, redes, movimentos, grupos; participação nos Conselhos e outros espaços (audiências públicas, Conferências); formação para participação qualificada; mobilização capaz de influenciar a agenda governamental e indicar prioridades.
Processos de monitoramento e avaliação a fim de verificar a efetividade do atendimento dos direitos das crianças e dos adolescentes, o nível de articulação dos atores, a abrangência e o alcance das políticas e dos programas, o impacto das ações nas vidas das crianças, dos adolescentes bem como suas famílias.
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Já foi esclarecido que o controle das ações públicas de promoção e defesa dos direitos humanos da criança e do adolescente se fará através das instâncias públicas colegiadas próprias, onde se assegure a paridade da participação de órgãos governamentais e de entidades sociais (...) e que o controle social é exercido soberanamente pela sociedade civil, através das suas organizações e articulações representativas (CONANDA, Resolução 113).
Esse assunto já foi tratado no eixo 3 deste texto, contudo, é conveniente complementar com o que segue (conforme PEDRINI e outros):
“O controle social é compreendido como processo (conjunto de mecanismos e instrumentos) de participação popular na gestão (formulação, planejamento, gerenciamento financeiro, monitoramento e avaliação) das diversas políticas públicas e das instâncias estatais e governamentais. É, também, a responsabilização dos gestores públicos.”.
(...) “o exercício do controle social ultrapassa a dimensão da questão financeira. Além de fiscalizar, o controle social significa propor, monitorar, acompanhar, participar conjuntamente dos critérios de formulação das políticas públicas, as estratégias de viabilização dessas políticas, enfim, ter acesso à construção desse processo.”.
(...) “implica o acesso aos processos que informam decisões da sociedade política, que devem viabilizar a participação da sociedade civil organizada na formulação e na revisão das regras que conduzem as negociações e arbitragens sobre os interesses em jogo, além da fiscalização daquelas decisões, segundo critérios pactuados.”.
(...) “o controle social é um exercício de trazer as questões e decisões referentes à elaboração, operação e gestão das políticas públicas para mais interlocutores, extrapolar os espaços de fiscalização e construir espaços de negociação.”.
E o CNAS ainda considera que controle social “é a participação da população na gestão pública, possibilitando aos cidadãos meios e canais de fiscalização e controle das instituições e organizações governamentais, de modo a verificar o bom andamento das decisões tomadas em seu nome.” e também “é o exercício de democratização da gestão pública, que permite à sociedade organizada intervir nas políticas públicas, interagindo com o Estado para a definição de prioridades e na elaboração dos planos de ação dos Municípios, Estados ou do governo Federal.”. (Orientações para as Conferências Municipais de Assistência Social Passo - a- Passo, 2009).
Para reflexão:
1) Em nossa localidade, as ações dos programas, projetos e serviços são desenvolvidas de maneira integrada? As Secretarias atuam de modo articulado, por exemplo, a Saúde, Educação, Assistência Social, no mesmo território, e com olhar especial para as condições de vida das crianças e dos adolescentes?
2) A população em geral, os representantes das entidades, os Conselheiros participam das etapas do ciclo orçamentário? A divulgação é ampla? São realizadas audiências públicas, por iniciativa do executivo ou do legislativo? O Conselho dos Direitos exerce seu papel articulador junto a outros atores para influir na destinação de recursos no orçamento?
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IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS
A guisa de conclusão, é bom estar atento: é preciso ficar claro que a solução dos problemas afetos à área infanto-juvenil é de responsabilidade de todos, que assim devem unir esforços, trocar idéias e experiências, estabelecer rotinas de atendimento e encaminhamento e desenvolver estratégias voltadas à prevenção e ao atendimento especializado de crianças e adolescentes.
A construção e sistematização de uma Política Nacional e de um Plano para 10 anos é um desafio e um compromisso com as crianças e os adolescentes brasileiros, que vivem em todas as regiões (não somente nos centros urbanos) e, certamente, confiam que as gerações adultas têm condições e capacidades para fazer valer o princípio da Prioridade Absoluta junto com eles.