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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-EMPÍRICA

2.6 ATINGIMENTO DA META, EXPERIÊNCIA AFETIVA E AUTORREGULAÇÃO 55

2.6.2 Orgulho como Experiência Afetiva do Atingimento da Meta

O orgulho é a consequência de uma avaliação positiva em relação a uma ação específica (Lewis, 2008). Assim, a pessoa sente orgulho se avaliar que se saiu bem em alguma tarefa. Essa emoção positiva é relacionada a um comportamento específico. No caso do orgulho, assim como da culpa, o self e o objeto são separados.

Enquanto uma pessoa pode se sentir feliz simplesmente porque viu alguém de quem gosta muito, ou ficar triste porque perdeu alguém próximo, há outras emoções que dependem exclusivamente do indivíduo e não de fatores externos. Existem situações específicas que induzem vergonha, orgulho, culpa ou constrangimento. Estas quatro emoções são chamadas de autoconscientes (Roseman, 1991; Tangney,1999; Lewis, 2008), pois ocorrem em consequência de eventos que são identificados pelos próprios indivíduos e, portanto, concentram-se no self. O orgulho, por exemplo, ocorre quando fazemos uma comparação ou avaliação do nosso comportamento em relação a algum padrão definido, ou uma meta (Lewis, 2008). Caso tenhamos atingido as expectativas do self, ocorre o orgulho, enquanto a culpa e a vergonha tendem a ocorrer quando tal avaliação leva à conclusão de que houve uma falha.

O conceito de orgulho é bastante amplo para ser considerado um único construto e pode ser visto como pelo menos duas emoções distintas (Ekman, 2003; Tracy, Robins, & Tangney, 2007). Tracy e Robins (2007) propuseram um modelo de emoções autoconscientes no qual existem dois tipos de orgulho que surgem de diferentes processos cognitivos. De acordo com os autores, nesse modelo, as emoções auto-conscientes (orgulho, vergonha, culpa e constrangimento) surgem quando o indivíduo direciona a sua atenção para o self, ou seja, para o próprio indivíduo. No caso do orgulho, a sua causa deve ser congruente com as representações positivas do self. As demais ocorrem se houver uma representação negativa.

De fato, Roseman (1991) já havia enfatizado que o orgulho ocorre em resposta às atribuições internas, quando o self é visto como a causa do evento.

Neste sentido, se o indivíduo atinge uma meta, isso irá gerar atribuições positivas sobre si mesmo, caso o atingimento da meta tenha sido por mérito próprio e não apenas por sorte ou outro fator externo, por exemplo.

A primeira dimensão do orgulho é o chamado orgulho autêntico (authentic pride), e a segunda é o orgulho arrogante (hubristic pride) (Tracy &

Robins, 2007). O primeiro é resultado de atribuições às causas controláveis (“Me sinto orgulhoso pelo que eu fiz” ou “Eu ganhei porque me esforcei”) e está positivamente relacionado à autoestima. Já o segundo se refere exclusivamente às atribuições internas e não controláveis (“Tenho orgulho de

quem eu sou” ou “Eu ganhei porque sempre sou bom em tudo que faço”), sendo positivamente relacionado à vergonha e ao narcisismo.

Tracy e Robins (2007) criaram duas escalas para mensurar estes dois tipos de orgulho e, portanto, diferenciá-los. O orgulho autêntico, visto como um estado no qual o indivíduo pode se encontrar como resultado de algo que realizou, engloba os seguintes itens: realização, sucesso, tarefa cumprida, autoestima, confiança e produtividade (α = .88). Já o orgulho arrogante foi associado aos itens esnobe, arrogante, vaidoso, egoísta e presunçoso (α = .90).

O presente estudo concentra-se no orgulho autêntico, porque ele se baseia em realizações específicas. Já o orgulho arrogante é visto mais como uma característica pessoal crônica do que como resultado de uma situação contextual.

Ainda sobre as emoções autoconscientes, Lewis (2008) argumenta que diferentemente do orgulho (autêntico), que está relacionado à culpa, caso haja uma falha, o orgulho arrogante está diretamente relacionado à vergonha, caso a falha aconteça.

Mas embora a culpa seja resultado de algo errado, ela geralmente ocorre em função de um comportamento que viola algum aspecto moral, ético, religioso ou de conduta (Izard, 1991). Normalmente as pessoas se sentem culpadas quando estão cientes de que quebraram alguma regra. Essa regra pode ser imposta pelo próprio indivíduo para atingir uma meta de longo prazo.

Por exemplo, a meta de viajar nas férias pode implicar ter que economizar ao longo do ano. Caso o consumidor não consiga fazer pequenas economias, pode se sentir culpado por isso.

Entretanto, no caso de uma falha em que o indivíduo não viola nenhum tipo de regra ou que a avaliação das razões da falha ainda não esteja evidente, é provável que a primeira emoção sentida seja a frustração. Quando a meta não é alcançada, a auto-avaliação gera primeiro a frustração, pois está relacionada com a falha em atingir a meta. Em seguida, o indivíduo provavelmente irá avaliar quais foram as razões para o resultado negativo e, aí sim, ele pode se sentir culpado, mas isso só irá acontecer se ele perceber que

alguma regra (pessoal, moral, ética, religiosa ou de conduta) tenha sido violada. Isso significa que, apesar de a culpa ser uma emoção autoconsciente, ela é muito mais complexa do que a emoção de frustração.

Neste estudo, a emoção negativa oposta ao orgulho (emoção positiva) é a frustração, pois ela é a primeira reação do indivíduo ao não atingir uma meta e não de avaliações sobre as razões para que tal falha tenha ocorrido.

Alguns pesquisadores (e.g., Heckhausen, 1984) já haviam relacionado o orgulho à motivação para a realização, pois esta emoção é associada a uma ação específica. Além disso, conforme a discussão sobre autorregulação, a motivação para realizar algo se caracteriza como um foco regulatório voltado para promoção, e a motivação para a evitação (evitar algo negativo) se caracteriza pelo foco em prevenção. Ao sentir orgulho, é provável que o indivíduo passe a adotar uma motivação para a realização, voltando seu foco regulatório para a promoção.

Williams e DeSteno (2008) comprovaram que, ao sentir orgulho, o indivíduo sente-se motivado a buscar o sucesso (resultados positivos), mesmo com custos de curto prazo, como, por exemplo, ter que se esforçar mais. Isso significa que, quando sentimos orgulho por alguma realização, podemos relacionar o orgulho como um incentivo para buscar metas futuras. Os autores chamam esse comportamento de Hipótese do Orgulho Motivacional (Motivational Hypothesis of Pride). Os autores argumentam que essa motivação resultante do orgulho pode ser reforçada quando ela é socialmente reconhecida, pois dá ao indivíduo certo status social.

De fato, Fredrickson e Branigan (2001) já haviam sugerido que o orgulho tende a incentivar o indivíduo a buscar mais realizações e, conforme argumentam Williams e DeSteno (2008), isso tende a ocorrer mesmo quando a busca por uma meta está sujeita a custos de curto prazo. Diferentemente de outras emoções positivas, o orgulho faz com que o indivíduo permaneça motivado na busca da meta, apesar dos custos incorridos.

Assim, essa é mais uma evidência de que o orgulho, por ser uma experiência afetiva relacionada ao self, pode induzir o foco em promoção. O impacto do atingimento de uma meta (feedback positivo ou negativo) sobre a

autorregulação (promoção ou prevenção) é resultado de uma experiência afetiva, e tal experiência faz com que esse fenômeno seja diferente da manipulação para induzir a autorregulação. Espeficamente, sugere-se que, ao atingir uma meta, a emoção que primeiro se destaca é o orgulho, pois é uma emoção autoconsciente e que, portanto, se centra no self. Assim, o indivíduo irá atribuir o sucesso ao seu bom desempenho na tarefa. Além disso, o orgulho é uma emoção fortemente relacionada à motivação para a realização, indo influenciar o indivíduo em suas avaliações e situações de consumo subsequentes ao sucesso em atingir a meta.

Por outro lado, quando a meta não é alcançada, a emoção que primeiro aparece é a frustração, pois é uma emoção que pode surgir tanto da falha em evitar um resultado negativo quanto da falha em atingir um resultado positivo.

Além disso, ela se diferencia das demais emoções negativas (raiva, desapontamento, arrependimento, tristeza, culpa e vergolha) por estas terem antecedentes específicos, como no caso da culpa, por exemplo, ou por serem relacionadas específicamente à falha em atingir um resultado positivo, como a tristeza e o desapontamento, ou à falha em evitar um resultado negativo, como no caso do arrependimento. Neste contexto, sugere-se a seguinte hipótese:

H4: A autorregulação (promoção ou prevenção) advinda do atingimento de uma meta (atingir vs. não atingir) é explicada pela experiência afetiva (orgulho ou frustração) que o resultado da meta gera no indivíduo, de modo que:

H4a: O foco em promoção resultante do atingimento da meta é explicado pela experiência afetiva positiva (orgulho) advinda de atingir a meta;

H4b: O foco em prevenção resultante da falha em atingir a meta é explicado pela experiência afetiva negativa (frustração) advinda da falha em atingir a meta.