4 FUNCIONAMENTO DO SISTEMA LEXICAL NO TEXTO: A
4.4 Funcionamento textual-interativo do léxico
4.4.2 Orientação argumentativa
Entendemos como orientação argumentativa os aspectos sociais e ideológicos que o enunciador de um texto imprime na superfície linguística e na situação comunicativa, deixando-se perceber, ou não, pelo interlocutor suas concepções a respeito dos conteúdos enunciados, ou seja, sua perspectiva a respeito dos fatos e dos temas do mundo.
A orientação argumentativa é revelada nas escolhas linguísticas do enunciador. Koch (2005; 2007) nos explica que, em toda forma de comunicação estabelecida nos textos, subjaz alguma intenção pragmática. A adesão a essa intenção, por parte do enunciatário, é o objetivo central do enunciador, que vai construir seu texto para obter sucesso em sua meta. Nesse sentido, a seleção lexical é um instrumento relevante para explicar a argumentatividade do texto.
Teóricos como Ducrot (1987), Anscombre (1995) e Anscombre e Ducrot (1988) percebem essa propriedade da orientação argumentativa como intrínseca à linguagem humana. Para eles, a argumentatividade é traço constitutivo de todo e qualquer texto. Os interlocutores estão, a todo momento, interessados em expressar suas concepções e, às vezes, propô-las. Partindo desse entendimento, Plantin
(2008) explica que a orientação argumentativa é definida, naturalmente, na seleção de enunciados realizada pelo enunciador para construir um discurso comunicativamente encadeado. Ainda nessa linha, Fiorin (2015, p. 15) define: “[...] a argumentação é o estudo das orientações semânticas dos enunciados e dos encadeamentos que as expressam”. Todas essas noções nos levam a perceber a orientação argumentativa como a expressão semântica organizada na superfície textual, ideia que, para nós, é ainda reducionista, por não levar em conta a dimensão sociointeracional da linguagem.
Tais estudos creditam a percepção da orientação argumentativa principalmente ao arranjo gramatical do texto, como explicita Koch (2011, p. 31):
[...] a maioria das relações existentes entre os enunciados componentes de um texto podem ser detectadas por meio de uma gramática textual ou macrossintaxe do discurso. Encadeando-se uns sobre os outros, de acordo com as intenções do falante e, por consequência, com o sentido que se pretende dar ao discurso, os enunciados trazem em seu bojo relações de ordem pragmática, que se revelam, na maioria das vezes, através dos operadores do discurso – ou operadores argumentativos – os quais, por meio desse encadeamento, estruturam os enunciados em um texto verbal linear.
Nosso entendimento de orientação argumentativa continua ligado à percepção dessas intenções do enunciador (que Koch denomina de falante), mas com um peso maior no léxico, e não na gramática, embora não deixemos de reconhecer o papel desse sistema na argumentatividade do texto.
Afastando-nos dessas visões fundadoras do estudo da argumentação em linguística, nossa atenção se volta, aqui, para o papel da seleção vocabular na percepção da orientação argumentativa. Acreditamos que, mais que o arranjo sintático do texto, é a escolha das palavras lexicais e suas nuances de significado que marcam mais expressamente a perspectiva do enunciador do texto. Esse enunciador “[...] opera sobre o material linguístico que tem à sua disposição, realizando escolhas significativas para representar estados de coisas, com vistas à concretização de sua proposta de sentido” (KOCH, 2005, p. 34-35). Logo, os processos de referenciação e predicação estão alinhados, também, à orientação argumentativa do texto, e as escolhas dos interlocutores para a interpretação das palavras são centrais para a delimitação da construção semântica da argumentatividade.
Está, dessa forma, a noção de orientação argumentativa interligada à força ilocucionária do texto, percebida pela pressuposta intenção dos interlocutores na situação comunicativa, que é múltipla e pode representar funções inclusive desconhecidas pelo analista do texto, que trabalha com hipóteses dessas intenções. Koch (2011, p. 22) resume bem essa questão:
Já que cada enunciação pode ter uma multiplicidade de significações, visto que as intenções dos falantes, ao produzir um enunciado, podem ser as mais variadas, não teria sentido a pretensão de atribuir-lhes uma interpretação única e verdadeira. O conceito de intenção é, assim, fundamental para uma concepção de linguagem como atividade convencional: toda atividade de interpretação presente no cotidiano da linguagem fundamenta-se na suposição de que quem fala tem certas intenções ao comunicar-se. Compreender uma enunciação é, nesse sentido, apreender essas intenções. A noção de intenção não tem, aqui, nenhuma realidade psicológica: ela é puramente linguística, determinada pelo sentido do enunciado, portanto linguisticamente constituída. Ela se deixa representar de uma certa forma no enunciado, por meio do qual se estabelece entre os interlocutores num jogo de representações, que pode corresponder ou não a uma realidade psicológica ou social.
Entretanto, no texto de comentário, nosso campo de investigação, as intenções dos interlocutores, muitas vezes, são explicitadas na própria superfície textual, tendo em vista serem esses textos deliberadamente persuasivos. Artigos de opinião e editoriais são gêneros textuais argumentativos, no sentido de que apresentam uma tese, um ponto de vista e articulam ideias e informações com vistas à defesa dessa tese acerca da realidade social. Fica mais evidente, dessa forma, a intenção dos enunciadores ao produzirem seu texto, o que não significa que ela é totalmente explícita. A evidência maior para o entendimento das intenções comunicativas e dos posicionamentos defendidos pelos enunciadores está, para nós, na escolha dos itens lexicais que compõem o texto. Os sentidos que eles associam ao texto são peça central para entendemos, pelo menos hipoteticamente, o ponto de vista que esse texto permite estabelecer para seus interlocutores.
Partindo desses pressupostos, Marcuschi (2007b) realizou estudo sobre como os verbos, itens lexicais, introduzem a opinião do enunciador em textos jornalísticos. O autor parte da premissa de que
[...] toda informação é fruto de uma certa compreensão do fenômeno apresentado. E esta compreensão funda-se nas estruturas sócio-
político-culturais daquele que informa, seja ele um indivíduo, o jornalista, ou uma entidade, a agência noticiosa ou linha editorial do órgão jornalístico (MARCUSCHI, 2007b, p. 146, grifos do autor).
Resumidamente, ele percebeu que a escolha dos verbos indicadores de ação, ao relatar-se uma opinião alheia, estava atrelada à orientação argumentativa pretendida no texto. “[...] as estratégias jornalísticas para relatar opiniões não são uma mera questão de estilo, pois as palavras são instrumentos de ação e não apenas de comunicação” (MARCUSCHI, 2007b, p. 168). Esse estudo funda-se, pois, em uma visão de léxico como a que propomos, que o entende no plano interacional da linguagem, pelo fato de perceber que a escolha das palavras obedece a elementos como a orientação argumentativa revelada no texto.