4. SEÇÕES ESTRUTURAIS DA NARRATIVA
4.1. Caracterização do bloco narrativo formado pelas
4.1.1. Orientação
Para classificar as orações de Orienta ção o modelo adotado leva em conta critérios que talvez não se jam compatíveis entre si: semântico e formal. São orações de Orientação por conterem informações de circunstancialidad^ re^ ponsáveis pelas informações de tempo, de lugar, sobre persona gens e seus hábitos, mas são também por virem no início do tex
/ to narrativo e por terem conjunto livre de deslocamento.
Os textos coletados na pesquisa, tanto os de experiên cia pessoal quanto os de experiência vicária, confirmaram as observações dos autores sobre esta seção estrutural, porém, le vando-se em conta a afirmação de Labov de que quando uma oração de Orientação vem em outros pontos da narrativa ela passa a ser oração de Avaliação é que se analisará uma oração que apre^ senta informação de orientação, embora não esteja localizada no
início do texto narrativo. Observe-se parte desta narrativa: EP A 5M;
c Quando eu ia atravessar a rua d estava distraído
e e não olhei
se vinha algum carro f e o carro que um fusca
freiou próximo de mim,
h Neste momento eu fiquei paralizado.
R i o carro quase me atropela
j Este foi um dos maiores sustos da minha vida, 1 eu tinha apenas sete anos,
Tem.se na oração 1_ "eu tinha apenas sete anos", uma ora ção que se poderia classificar como de Orientação, já que pode ser considerada como resposta ã questão subjacente "quando"?, cuja resposta, segundo o modelo de análise adotado, é considera da como informação de orientação (pelo critério semântico) so bre o tempo em que a ação aconteceu e formalmente caracteriza-se como uma oração livre, uma vez que pode ser deslocada para quajL quer ponto desta narrativa e continuar sendo verdade que o nar- dor tinha sete anos quando o fato aconteceu. No entanto, esta
oração (oração 1) foi produzida efetivamente pelo narrador na seção estrutural Coda, e apresenta-se al estrategicamente, na narrativa, para ressaltar a importância que o narrador quer im primir ao fato de ter apenas sete anos na época em que a ação se desenvolve, o que aponta para o caráter avaliativo desta oração, e este caráter avaliativo é ressaltado pelo intensifi- cador apenas, já que que marca o contraste com a idade atual do narrador. Apreendido o sentido desta oração no processo nar rativo, nota-se a intenção do narrador em atuar sobre o narra- tário, mudando a sua opinião em relação ao narrador. Se o nar rador não passasse esta informação (apenas sete anos), a imagem do narrador estaria em desvantagem em relação ã sua idade a- tual, pois distração deste tipo não combina cum um adolescente mas o narrador ao apresentar estrategicamente esta informação causa impacto no narratário, que automaticamente aceita a di£ tração como natural para a idade em que a ação efetivamente a conteceu. Apresentados estes argumentos resta a dúvida: será a oração 1, um a oração de orientação ou de avaliação?
Se for considerada de Orientação, pelo critério semãn tico, pois é uma oração que dá informação de orientação, não pode ser considerada de Orientação pelo critério formal, pois não ocorre no início do texto narrativo. Parece que o critério semântico é mais forte e ela não seria classificada de Orienta ção apenas por estar noutra posição no texto narrativo, por que não se pensar, então, em sobreposição de funções? Pensa-se que orações deste tipo atuam no texto narrativo como orienta ção ao mesmo tempo que avaliam, e esta posição está apoiada na afirmação do próprio Labov (1972):
"Of course there are complex chainings and em beddings of theses elements, but here we are dealing whith the sirapler forras." , (Labov,1972; 372T Entende-se que a aceitação da sobreposição de funções por lima mesma oração, num texto narrativo, pode acontecer em alguns casos e que a oração _1 da narrativa EP A 5M pode ser um exemplo desta sobreposição de funções, já que esta oração incorpora simultaneamente as funções de orientar e avaliar ne^ ta narrativa.
Outros exemplos desta sobreposição de funções ' podem ser observados nas orações abaixo;
EP A 16F:
m tinha bastante gente EP A 20F:
q Confesso
que naquele intante senti medo.
Débora Schiffrin, analisando a Variação Temporal na narrativa, verificou que:
"orientation clauses can be embedded in complica ting action to add Information which the hearer needs in order to understand or interpret the significance of adjacently reported events" ~
(Schiffrin, 1981: 48j Assim, constatou-se que informações de orientação são passadas pelo narrador durante o desenrolar da ação narrativa, em pontos estratégicos do texto, e que estas informações de or_i entação são localizadas de tal modo que fazem avançar o proce^ so narrativo. Observou-se através da análise, que, além da sobre posição das funções de orientar e avaliar desempenhadas por uma única oração, são frequentemente usadas pelos narradores o rações com funções sobrepostas de orientar e fazer progredir o
processo narrativo, conforme pode ser verificado nos exemplos abaixo;
EPB 23M:
j Andei alguns metros ....
EPA 20F:
0 Após tentativas frustradas ...
EPB 22M:
m Naquelas alturas, não tendo ninguém por perto ...
EVA 13F:
De repente Trapper ouviu alguns ruídos
EVA 7M.
Trapper correu na frente
EPA 14F:
Quando ele seguiu em frente a moça já estava' seguran do no ferro para subir no ônibus,
EPA 17F.
a Essa noite era noite de natal
EPA 18F;
1 Agora o ônibus está no conserto.
Estes exemplos apresentam orações das quais não se po de afirmar que sejam orações de Orientação, segundo o modelo de Labov; no entanto não parece restar dúvidas quanto a sua
interpretação, enquanto também veiculadoras de tal função. A questão é que, nestes casos, a Orientação se dá em referência a momentos particulares da narrativa.
É fácil verificar que as orações acima são orações re^ ponsáveis pela recuperação lingüística do evento narrado em sua seqüência temporal, e ao mesmo tempo, são responsáveis pela in formação de plano de fundo para a ação que está se desenrolan do, ficando mais uma vez caracterizada a sobreposição de fun ções por uma mesma oração no texto narrativo.
Do levantamento das marcas formais recorrentes na Se ção Orientação, registrou-se o uso freqüente de verbos no Pre^ térito Imperfeito e locuções verbais formadas por estar + ge •rúndio, projetando como secundárias as ações desta seção que se constituem em Plano de Fundo para a ação que vai se desenro lar. Freqüentemente esta seção cumpre a função de introduzir o processo narrativo. Apresenta as personagens, instala-os num lugar preciso e os situa numa cronologia, correspondendo ao que é estático ou equilibrado numa determinada realidade, como po de ser observado no exemplo abaixo:
EVB 22M:
O
a Trapper era um homem que vivia no Alaska. b Era um garimpeiro
que morava nas montanhas c e amava os animais, d Conversava com eles e e os alimentava
f Estava sempre admirando o caçador solitário - o Lobo g Ficava horas observando o destemido
h Certo dia, o garimpeiro desceu ...
Pode-se constatar claramente que o narrador não está narrando um acontecimento, mas descrevendo um hábito, onde pre dominam os verbos no Pretérito Imperfeito e os Verbos de esta do, denotando o caráter estático desta seção e seu papel de Plano de Fundo para o processo narrativo.
Somente a partir da oração h é que se tem o início propriamente do acontecimento. Toda essa parte inicial (a - g) cobre a função referencial de fornecer elementos de orienta ção de pessoa, lugar e hábitos.
Estas constatações podem ser observadas também nos e xemplos abaixo:
EVB 29M:
a Trapper tinha o dom de falar com os animais b Gostava muito de andar
pelas montanhas.
EVB 28M:
f Trapper era garimpeiro g e pagava tudo com ouro.
EPA 4M:
a Eu estava no ponto do ônibus b esperando o ônibus
EPA lOM;
b Eu estava levando
umas compras para uma freguesa do super-mercado
onde trabalho
c Eu ia pedalando pelo acostamento.
EPB 22M;
a Num dia ensolarado, calmo e tranqüilo parecia estar tudo ocorrendo muito bem,
b eu estava vagando num campo de propriedade de meu pai. c pensando sobre o futuro que parecia obscuro e incom
preensível numa fase importante de minha vida a ado lescência.
Além dos aspectos já descritos, pode-se verificar que elementos de orientação vêm muitas vezes constituindo a subor dinada relativa introduzida pelos pronomes que e onde; e com
alguma freqüência a subordinada adverbial introduzida por conjunções como
I ^
porque e quando, oonforme pode se exenplificar oan as oraçoes a seguir: EVA 3M;
a Trapper era um homem que vivia com a natureza b e gostava dos bichos
que moravam nela.
EVA 6M;
1 Na saída do lugar onde ele fazia suas compras ...
d Eu vinha rápido porque estava frio
EPA 17F:
h Quando era detardezinha ...
EVA 12F:
i Quando estava saindo : tinha um homem ...
EPB 24M:
a Era um dia muito quente porque era época de verão.
EPB 25M:
c Nós iamos depressa
porque já estavamos atrazados,