• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2 – A Escola e uma pedagogia dos valores

4. Programas educativos e desenvolvimento de valores

4.1. Orientações e Políticas acerca do desenvolvimento de

Em 2001, iniciou-se um processo de reorganização curricular do Ensino Básico que reafirmou o carácter transversal obrigatório da inclusão da “educação para a cidadania” em todas as áreas curriculares do Ensino Básico. Criou ainda uma área curricular não disciplinar de “Formação cívica” como espaço privilegiado para o “desenvolvimento da educação para a cidadania”, visando o desenvolvimento da “consciência cívica” dos alunos e preconizando a formação de cidadãos “responsáveis, críticos, activos e intervenientes”. Assim sendo, o currículo passou a incluir três áreas curriculares não disciplinares que, pelo seu carácter integrador são particularmente adequadas ao desenvolvimento de uma educação para a cidadania: Estudo Acompanhado, Área de Projecto e Formação Cívica.

A institucionalização da Área Curricular Não Disciplinar de Formação Cívica procura potenciar a participação dos alunos na vida da turma, da Escola e da comunidade, sendo fundamental a concepção do aluno enquanto cidadão. Um dos objectivos passa por criar um espaço aberto ao diálogo e ao debate na sala de aula, abordando temas como a política, a sexualidade, a família, a cultura ou a cidadania (Abrantes, 2002). A Escola assume a responsabilidade de incutir nos seus alunos uma consciência cívica e um espírito crítico perante a sociedade. De facto, prevalece a ideia de que os docentes desta área devem desenvolver nos alunos competências para a intervenção na sociedade.

O Decreto-Lei N.º 6/2001, de 18 de Janeiro, determina as directrizes referentes à organização e à gestão curricular do Ensino Básico, instituindo um conjunto de conhecimentos, competências, atitudes e valores que devem ser desenvolvidos pelos alunos e que estão de acordo com as metas traçadas pela Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) para este nível de ensino. Para além disso, determina também a criação das três áreas curriculares não disciplinares referidas anteriormente, as quais apresentam uma frequência obrigatória.

No artigo 5.º do Capítulo II, assume a Formação Cívica enquanto:

Espaço privilegiado para o desenvolvimento da educação para a cidadania, visando o desenvolvimento da consciência cívica dos alunos como elemento fundamental no processo de formação de cidadãos responsáveis, críticos, activos e intervenientes, com recurso, nomeadamente, ao intercâmbio de experiências vividas pelos alunos e à sua participação, individual e colectiva, na vida da turma, da escola e da comunidade.

56

Esta perspectiva é corroborada por Monterroso (2008, p.8), ao afirmar que “de facto, adquirir valores humanos e desenvolver a ética moral do indivíduo é o grande mote da Formação Cívica”.

Estão expressos no Decreto-Lei 6/2001 princípios que, de acordo com Almeida (2006):

Manifestam enfoques no aluno, na transversalidade curricular da educação para a cidadania e no reconhecimento da autonomia da escola que permita, de forma sustentada, definir, desenvolver e avaliar um projecto de desenvolvimento do currículo adequado às situações reais, atribuindo à educação e às escolas uma nova função: uma educação mais virada para as preocupações de ordem social e uma escola a quem é dado um maior protagonismo na pessoa dos professores e dos alunos, uma escola que preconiza a recontextualização do currículo nacional e que valoriza a diversidade de metodologias e estratégias, tendo em conta a criação de condições que favoreçam a formação integral dos alunos. Estes princípios apontam para uma organização da acção pedagógica e escolar sustentada no trabalho colaborativo entre todos os intervenientes no processo educativo e apontam para situações de aprendizagem significativas. (p.51)

A cidadania é, por conseguinte, considerada fundamental, na medida em que é abordada nos âmbitos transdisciplinar (ao permear as várias disciplinas), interdisciplinar (Área de Projecto) e simultaneamente disciplinar (Formação Cívica), para além de que abrange os Ensinos Básico e Secundário (Martins & Mogarro, 2010). Para Almeida (2006), isto significa que apesar de persistir um desenho curricular muito próximo dos anteriores ao organizar os saberes por disciplinas, simultaneamente, a Escola ganhou um maior espaço de autonomia curricular que a submete a repensar as suas práticas.

A Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei N.º 49/2005, 30 de Agosto) pressupõe a organização do sistema educativo com vista ao “pleno desenvolvimento da personalidade, da formação do carácter e da cidadania” no aluno, “preparando-o para uma reflexão consciente sobre os valores espirituais, estéticos, morais e cívicos” (Artigo 3.º).

Para além da valorização da finalidade socializadora e da orientação explícita no sentido da criação de uma área curricular de formação pessoal e social, a Lei de Bases do Sistema Educativo faz referência a um núcleo de valores consensuais da “solidariedade social” e reconhece o direito à diferença e a uma pluralidade de valores, quando aponta para a “valorização dos diferentes saberes e culturas”.

57

Especificamente no que diz respeito aos objectivos para o Ensino Básico, a Lei de Bases do Sistema Educativo preconiza que a Escola tem responsabilidades na “formação de cidadãos civicamente responsáveis e democraticamente intervenientes na vida comunitária”, devendo proporcionar aos seus alunos “experiências que favoreçam a sua maturidade cívica e sócio-afectiva, criando neles atitudes e hábitos positivos de relação e cooperação”.

Neste sentido, os planos curriculares do Ensino Básico incluem em todos os ciclos e de forma adequada uma área de Formação Pessoal e Social que pode ter como componentes a educação ecológica, a educação do consumidor, a educação familiar, a educação sexual, a prevenção de acidentes, a educação para a saúde, entre outros do mesmo âmbito (Fernandes, 2001). É, portanto, perceptível que a área da Formação Pessoal e Social contempla diversas componentes, algumas delas pressupondo o desenvolvimento de valores, atitudes e comportamentos que são muito importantes para uma sociedade democrática: o desenvolvimento do “espírito crítico”, do “civismo”, do “sentido moral”, da tolerância e do respeito pela diferença, do espírito democrático e pluralista, a valorização de diferentes culturas, a solidariedade social e a cooperação e solidariedade.

O documento intitulado “Objectivos estratégicos e recomendações para um plano de acção de Educação para a Cidadania”, elaborado pela comissão de redacção do Fórum Educação para a Cidadania em 2008 esclarece que:

A Cidadania não é apenas o conjunto de direitos e deveres que os cidadãos devem exercer e cumprir. O exercício da Cidadania é sobretudo um comportamento, uma atitude e uma certa forma de ser, de estar e de fazer, em que cada um encara os problemas da sociedade em que se insere com a mesma prioridade com que aborda as suas questões individuais, atendendo aos direitos dos outros e em particular no respeito pela diversidade e pelas diferenças que caracterizam as sociedades em que vivemos nesta primeira década do século XXI. (p. 9)

Segundo Monterroso (2008), a análise da Lei de Bases do Sistema Educativo pode colocar um dilema que consiste em determinar se a Escola deve reproduzir o estado actual das coisas ou alterá-lo, nomeadamente no que diz respeito a contribuir para a continuidade dos valores ou para modificá-los. Para o autor, a Escola:

Pode e deve contribuir para as duas coisas, isto é, deve viver, também ela, esse dilema, e deve fazê-lo de uma forma racional. E pode e deve fazê-lo porque os indivíduos (ou do ponto de vista político, os cidadãos) não são simples reflexos, efeitos ou consequências passivas da sociedade em que

58

vivem, pois, através do conhecimento que vão tendo das circunstâncias da vida e da análise racional dos valores nelas implícitos, podem agir sobre ela. (p.14)

Esta visão do cidadão como um sujeito activo e interveniente numa sociedade em mudança, está também presente na Constituição da República Portuguesa. No Artigo 1.º pode ler-se que “Portugal é uma República (…) empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária” e constatar que “a República Portuguesa é um Estado de Direito democrático (…) que tem por objectivo a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa” (Artigo 2.º).

O Artigo 73.º da VII Revisão Constitucional da Constituição da República Portuguesa, datada de 2005, estabelece que:

O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva.

Para além disso, no Artigo 74.º determina-se que o sistema de ensino português deve “contribuir para (…) habilitar os cidadãos a participar democraticamente numa sociedade livre e promover a compreensão mútua, a tolerância e o espírito de solidariedade.”

Na opinião de Martins e Mogarro (2010), os crescentes desafios da sociedade contemporânea justificam a importância da educação para e na cidadania, nomeadamente uma necessidade premente de nos relacionarmos num contexto progressivamente mais multicultural e heterogéneo, e simultaneamente existe uma pressão para a homogeneidade e o aumento das incertezas sobre a identidade individual e colectiva. Para além disso, para os autores, manifesta-se um reaparecimento de formas de intolerância e de violência que se pensava estarem já ultrapassadas, designadamente de tráfico de seres humanos, xenofobia ou violência doméstica.

Neste sentido, o documento “Objectivos estratégicos e recomendações para um plano de acção de Educação para a Cidadania”, organizado pela comissão de redacção do Fórum Educação para a Cidadania, admite que:

59

O elemento essencial da sociedade e o centro, quer do processo educativo quer do processo formativo, é um ser humano livre, responsável, autónomo, solidário, sujeito de direitos, respeitador das outras pessoas e das suas ideias, aberto ao diálogo e à livre troca de opiniões, com um espírito crítico, democrático, pluralista, criativo e interventivo face à sociedade (…) Propõe-se uma educação e uma formação transformadoras e comprometidas com os valores da igualdade, da democracia, da justiça social e económica, baseadas em processos activos, participativos, de diálogo, de construção de projectos comuns e de democracia como prática vivenciada. (p. 17)

Por conseguinte, o documento prevê também que um Plano de Acção de Educação e de Formação para a Cidadania deverá possibilitar aos alunos um “desenvolvimento pessoal e social com base em experiências diversificadas de vida democrática”, contribuindo para “uma progressiva tomada de consciência da sua responsabilidade enquanto membros da sociedade, fomentando a participação, a co- responsabilidade e o compromisso na construção de um mundo mais justo, mais livre e mais solidário”, que os torne “agentes activas/os da eliminação dos mecanismos sociais que constroem e reproduzem a desigualdade e as discriminações, bem como a valorizar as diversidades como fonte de enriquecimento humano” (p.21).

Segundo Campos (1997, cit. por Almeida, 2006), a inclusão da formação pessoal e social como objectivo da educação escolar está relacionada com transformações no processo de socialização das novas gerações, daí resultando três preocupações: capacitar os alunos para a resolução de problemas de vida, promover o seu desenvolvimento psicológico e educar para os valores. Especificamente no que diz respeito à educação para os valores no contexto da formação pessoal e social, pretende-se que esta represente um factor facilitador que permita “capacitar os alunos para darem um contributo pessoal no processo permanente de transformação e construção social e pessoal dos valores” (Campos, 1997, cit. por Almeida, 2006, p.78).

4.2. Desenvolvimento de valores no Programa do 1.º Ciclo do Ensino