O processo de implementação da proposta curricular, partiu de um conjunto de decisões coletivas entre as escolas e teve duas ações basilares, que foram indicadas como necessárias a sua implementação: a) necessária apropriação do Plano de Estudos pelas escolas, adequando os complexos à realidade da escola; b) realização de um planejamento local de desenvolvimento da proposta curricular de acordo com as condições e realidade de cada escola.
Em 2013, deu-se início à implementação dos Complexos de Estudo, e foram envolvidas um total de onze escolas no experimento, sendo nove Escolas Itinerantes: Escola Itinerante Paulo Freire (Paula Freitas), Escola Itinerante Caminhos do Saber (Ortigueira), Escola Itinerante Herdeiros da Luta de Porecatú (Porecatú), Escola Itinerante Valmir Motta de Oliveira (Jacarezinho), Escola Itinerante Sementes do Amanhã (Matelândia), Escola Itinerante Carlos Mariguella (Carlópolis), Escola Itinerante Maria Aparecida Rosignol Franciosi (Londrina), Escola Itinerante Egídio Brunetto (Londrina), Escola Itinerante Construtores do Futuro (Rio Branco do Ivaí). E envolveu duas escolas de assentamentos sendo elas: Colégio Estadual do campo Aprendendo com a Terra e com a Vida (Cascavel), Colégio Estadual Iraci Salete Strozak (Rio Bonito do Iguaçu). (MARIANO, 2015)
Foram envolvidas outras escolas em 2014, o Colégio Estadual do Campo Contestado (Lapa) e duas novas Escolas Itinerantes - Escola Itinerante Herdeiros da Luta do Primeiro de Maio (Rio Bonito do Iguaçu), Escola Itinerante
70 Uma síntese da Proposta Curricular dos Complexos de Estudo encontra-se em Sapelli (2013
166 Semeando o Saber (Florestópolis), essas foram inseridas no processo e se encontram atualmente, ainda no processo de estudo e assimilação da proposta. O processo de inserção das escolas, foi por adesão e afinidade à proposta curricular e por corroborar com os objetivos da proposta, bem como se desafiar a fazer o experimento curricular. Convém assinalar, que as escolas tem graus diferentes de apropriação e desenvolvimento da proposta a depender de suas condições.
Como primeira atividade de implementação da proposta, em 2013, foi realizada a reunião do Coletivo Pedagógico das Escolas Itinerantes do Paraná, nos dias 28/01 a 01/02 de 2013, na Escola Itinerante Maria Aparecida Rosignol Franciosi, localizada no município de Londrina-PR, quando foram tomadas decisões sobre a implementação dos Complexos de Estudo, registradas em seis estratégias de ação (MST, 2014b): a) o aumento de uma hora em cada turno de funcionamento, passando de 4, para 5 horas diárias, para desenvolver os tempos educativos e os núcleos setoriais71; b) Inclusão do tempo trabalho no quadro de horário semanal72; Inclusão do tempo leitura no horário semanal73; c) a implementação da Gestão Coletiva de forma processual na Escola74; a organização do coletivo pedagógico75responsável pela experimentação na
71 Indicava-se que as escolas que dependem do transporte escolar, deveriam ampliar o tempo
na medida em que o transporte escolar possibilitasse. Nos espaços onde houvesse limite, deveria ser previsto tempo para mais uma hora de trabalho no contra turno. (MST, 2013b, p.1)
72 Indicava-se a previsão mínima de 3h20 minutos semanal para o tempo trabalho nos chamados
Núcleos Setoriais, nos quais os Educadores(as) fizessem aporte com conhecimentos específicos demandado pelo caráter do núcleo setorial. (MST, 2013b, p.1)
73 Indicava-se que esse tempo se desenvolvesse na biblioteca da Escola Itinerante ou sala de
Leitura, e deveria ser acompanhado por professores incumbidos desta tarefa. Os títulos e obras a serem lidas no semestre seriam previstos no plano de ensino, de acordo com os Complexos em Estudo no semestre. Neste tempo, os(as) educandos(as) leriam livros e realizariam seminários de leitura conforme o planejamento da Escola. (MST, 2013b)
74No referido documento, em relação à Gestão da Escola, afirmava-se que, inicialmente, seria
organizada de maneira processual, começando por dois espaços de instância: a) Coordenação da Escola, que seria composta pelos coordenadores dos Núcleos Setoriais (que seriam educandos/as), pelos coordenadores pedagógicos, por representantes do Setor de Educação e por representantes dos Educadores(as). b) Núcleos setoriais que seriam espaços de planejamento e organização das atividades a serem conduzidas pelos núcleos setoriais, no cotidiano das atividades pedagógicas para melhor funcionamento da escola, bem como, seriam espaços de participação efetiva e propositiva dos(as) educandos(as), em seu processo de ensino e aprendizagem, e também contribuiriam na execução das tarefas decididas pelo coletivo.
75O Coletivo Pedagógico teria as seguintes tarefas: a) preocupar-se com a formação dos
educadores(as), dando aporte ao que for necessário; b) acompanhar a implantação dos Núcleos Setoriais intencionalizando a auto-organização dos educandos/as. c) fazer o registro e a memória da experimentação, intencionalizando o núcleo de registro e memória junto com educadores(as).
167 escola, composto pelos coordenadores pedagógicos, pedagogo(a) e estudantes de pedagogia e licenciatura com a função de acompanhar o processo pedagógico da escola. (MST,2014b)
Da decisão de aumentar tempo, foi proposto no documento um exemplo de cronograma semanal dos anos finais do Ensino Fundamental e ensino médio:
Quadro 18 – Organização cronograma Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio
HORAS SEG TER QUA QUI SEX
7h30 às 7h40
T.Abertura T.Abertura T.Abertura T.Abertura T.Abertura 7h40 às
8h30
Aula Aula Aula Aula Aula
8h30 às 9h20
Aula Aula Aula Aula Aula
9h20 às 10h10
Aula Aula Aula Aula Aula
10h10 às 10h30
Recreio Recreio Recreio Recreio Recreio 10h30 às
11h20
Aula Aula Aula Aula Aula
11h20 às 12h00
Trabalho Aula Aula Leitura Aula
12h00 às 12h30
Trabalho Trabalho Trabalho Leitura Aula
Fonte: (MST, 2013b, p.2)
No referido documento, este exemplo de horário é acompanhado de sugestões de táticas para a criação do tempo trabalho nas escolas como: acoplamento de duas aulas de 50 min, somando um total de 1h40min. E que as turmas possam trabalhar conjuntamente no começo da semana e outra durante a semana, indica realização de rodízios que garantam as diversas ações e práticas no cotidiano da Escola.
Sobre os núcleos setoriais, também foi elaborado um documento específico de orientação intitulado “Documento base de organização dos núcleos setoriais”. Nele, os núcleos setoriais, são apresentados como espaço de exercitar a auto-organização, o trabalho. As orientações foram: a) a coordenação pedagógica deve coordenar esse processo de organização dos núcleos,
c) Acompanhar e contribuir no planejamento por complexos estudos bem como a execução dele no cotidiano da escola. Este coletivo deveria se reunir semanalmente para avaliação e planejamento do processo de experimentação. (MST, 2013b)
168 planejando uma formação para todos os alunos, sobre da função do núcleo setoriais; b) a definição de quais núcleos setoriais devem envolver todos, por isso, indica a construção de uma comissão com representação de estudantes, educadores(as) e comunidade para contribuir nas definições e implantação dos mesmos; c) o núcleo setorial deve ser composto por educandos(as) de todas as turmas em cada turno (a depender da organização de cada escola); e) a participação nos núcleos setoriais pode ser por escolha de tarefa ou indicação nos coletivos das turmas; e) a quantidade de educandos(as) por turma que comporá o núcleo setorial dependerá da quantidade de tarefas e a necessidade de pessoas; f) o núcleo setorial deverá ter um plano de estudos para compreender as tarefas e organização, cabendo aos educadores(as) responsáveis elaborar um plano e submeter para aprovação e sugestão da coletividade; g) a partir da constituição dos núcleos setoriais, compor a coordenação da Escola com a dupla de coordenação de cada núcleo setorial, representantes do coletivo de educadores(as) e comunidade. (MST, 2014b)
O quadro a seguir apresenta os principais núcleos setoriais propostos e a relação com o conhecimento:
Quadro 19 - Núcleos Setoriais e suas funções na escola
Núcleo Setorial
Funções que estudantes exercem Conhecimentos relacionados
Memória
São responsáveis em guardar a memória da escola, produzem registros escritos da vida coletiva da escola, através de três instrumentos: a) Diário da Escola, b) Pasta de Acompanhamento das Práticas Pedagógicas dos Complexos, c) Arquivo Fotográfico e Audiovisual.
Ortografia, redação, tipologias de textos, organização e arquivamentos de documentos, leitura com entonação, etc.
Cultura e Comunica ção
Atuam no processo de socialização de informações na escola e acampamento/assentamento, proporcionando a todos a conexão com os fatos na escola, na comunidade e no entorno. Organizam a rádio escolar, jornal e murais. Realizam leitura do diário no tempo formatura para toda comunidade escolar.
Diversas linguagens como: escritas, faladas e o domínio das diversas tecnologias como: rádio, internet, jornal, mural. Apoio ao
Ensino
Organizam-se em torno da dimensão do ensino na escola e o acesso ao conhecimento científico, desde o planejamento de ensino ao cronograma de tempos educativos; organizam materiais e equipamentos de suporte ao ensino (televisor, o rádio, aparelho de DVD), e os materiais didáticos, a organização da biblioteca, secretaria escolar. Recebem visitas na escola e apresentam a Proposta político-pedagógica e organização no cotidiano escolar.
O processo de organização e controle de equipamentos, catalogação de livros e informações. Recepção de pessoas externas, compreensão da Proposta político-pedagógica da escola, lógica dos planos de ensino, etc.
169
Finanças e estrutura
Exercem e acompanham o planejamento financeiro e administrativo da estrutura da escola. Organizam os processos de finanças da escola, entradas de recursos, saídas, planejamento financeiro, prestações de contas. Fazem controle do patrimônio da escola e da merenda escolar. Cálculos, planilha eletrônica, planejamento e gestão financeira. Embeleza mento
Organizam os espaços, possibilitando a primazia do belo na escola. Proporcionam que os espaços da escola, mesmo improvisado, sejam acolhedores em harmonia com a natureza e a produção humana. Auto organizam-se através de três atividades: plantio de flores, árvores, arbustos, ou seja, o ajardinamento da escola; a organização estética da escola: identificação dos espaços, exposição de trabalhos; e a valorização dos símbolos na escola.
Estética, organização de ambientes, plantio e cuidado com plantas e flores ornamentais. Os símbolos, bandeiras na escola, exposição e artes na escola.
Saúde e Bem-Estar
Responsabilizam-se pelo bem-estar da coletividade, que se preocupa com as diversas questões da vida humana: desde a alimentação, a limpeza, higiene e saúde. Além de executarem tarefas práticas de limpeza, fazem orientações em relação à boa alimentação, cuidado com higiene e espaços limpos, organizados.
Procedimentos práticos de limpeza e higiene, bem como a preparação de alimentos saudáveis.
Agrícola São responsáveis pelas práticas agrícolas na escola e possibilitam a vivência do cuidado com a terra e com o meio ambiente. Planejam a produção de alimentos para consumo na escola e na comunidade através das hortas agroecológicas, pomar e plantios de outros alimentos, também a criação de animais.
Práticas da vida no campo, desde o planejar o plantio a colheita, com base em conhecimento em científicos
Fonte: MST (2013b).
A partir dessas orientações cada escola estabeleceu um caminho para reconstrução, reformulação do Plano de Estudo, a começar pelos inventários e tentativas de estabelecer maior relação com a vida, nos planejamentos de ensino, elaborados coletivamente a cada início de semestre.
Como instrumento, nessa reconstrução, foi indicado o roteiro para o planejamento de ensino, que deve ser feito pelo coletivo de educadores(as) na Escola, e socializado no início de cada semestre com os educandos(as), com as seguintes especificações:
Quadro 20- Roteiro de Planejamento de ensino semestral I – NOME DA ESCOLA ITINERANTE:
Descrição de nome da escola, acampamento, município e modalidades da escola. II- EDUCADORES ENVOLVIDOS:
Descreve o nome completo e a formação dos educadores(as) III - DISCIPLINAS ENVOLVIDAS:
170
IV- OBJETIVOS FORMATIVOS/ÊXITOS
Aqui os educadores(as) fazem dois movimentos: 1) buscam no plano de estudos, os objetivos e êxitos já elaborados; 2) O processo de acréscimos ou adequação de acordo com as intencionalidades formativas que os(as) educadores(as) avaliam necessário.
Objetivos formativos:
Descrição do objetivo de acordo com o ano ou modalidade de ensino.
Êxitos
Detalhamento do êxito, a partir do objetivo determinado.
V- DETALHAMENTO (UM QUADRO DESSES PARA CADA PORÇÃO DA REALIDADE DO SEMESTRE)
Desse ponto em diante os(as) educadores(as) vão especificar o planejamento para o semestre, tendo por base os objetivos e êxitos, apontados anteriormente. Porém, os educadores(as) buscam a porção da realidade, conteúdos, objetivos de ensino desde a elaboração no plano de estudos, mas fazendo o processo de alteração, adequação que considerarem necessário.
PORÇÃO DA REALIDADE Busca indicações, proposição do plano de estudo, mas faz adequação de acordo com o inventário da realidade.
DISCIPLINA(S) Busca as indicações de disciplinas do plano de estudos.
CONTEÚDOS Se referência nas indicações de conteúdos sugeridos no plano de estudos e faz acréscimos de acordo com as indicações dos(as) educadores(as).
OBJETIVOS DE ENSINO Descreve a partir das indicações do plano de estudo.
METODOLOGIAS Nesse ponto os(as) educadores(as) tem que pensar desde sua prática e formação, no plano de estudo esta parte está em branco, justamente para que os educadores(as) possam fazer com autonomia.
AVALIAÇÃO Também fica a critério dos(as) educadores(as).
VI – REFERÊNCIAS
Aqui faz a descrição de todas as referências bibliográficas ou diversas fontes que utilizaram para fazerem o planejamento.
Fonte: MST (2014b)
Para fortalecer a implementação da proposta, em 2013 foi organizado um programa de formação dos Complexos de Estudo, com cinco ações articuladas:
1- Formação do Coletivo Pedagógico das Escolas Itinerantes: consistiu na realização de três etapas anuais de formação reunindo o coletivo pedagógico das escolas. A perspectiva dessa formação foi municiar os participantes, para atuar como formadores locais com conteúdos e as concepções de ensino e de aprendizagem que orientam os complexos, bem como o desenvolvimento de procedimentos de trabalho – desde a organização dos materiais e a preparação dos temas a trabalhar na
171 formação local, até a sistematização das anotações e o registro, análise do experimento. Após a etapa de formação, os responsáveis retornavam para as escolas e organizavam a formação dos educadores(as), educandos(as) e comunidade.
2- Formação do Coletivo de Educadores(as) na Escola: Após a etapa de formação do Coletivo pedagógico, ao retornar a sua escola organizavam a formação dos educadores(as) local, que ocorreriam no início do 1º semestre (Fevereiro), início do 2º semestre (Agosto), final do ano (novembro), em média cada com a duração de 2 a 3 dias, momento de estudo das bases teóricas e do Plano de Estudos (2013) e também elaboração do planejamento semestral.
3- Interfaces com a Comunidade e Educandos(as): também os Coletivos pedagógicos, tinham a responsabilidade de organizar atividades de formação com a comunidade, e com os educandos(as), a realização de seminários na Escola, para eles conhecerem a proposta curricular e estudos de temas sobre os núcleos setoriais entre outros.
4- Encontro dos Educadores(as) das Escolas Itinerantes: momento de estudo, aprofundamento teórico e metodológico com aporte de assessorias em mesas de debates, com a participação de todos os educadores das escolas, a nível estadual. Também espaço de socialização das práticas docentes e outros aspectos da experimentação dos complexos, para isso previa a organização de mesas nas quais os educadores(as) a partir de uma escrita sistemática apresentariam suas práticas. Também, participaram desse encontro os educados(as), coordenadores dos núcleos setoriais com atividades específicas de formação.
5- Registro e memória da experiência: também foi prevista a organização de uma equipe responsável em organizar a memória do experimento, bem como a sistematização da experiência dos complexos de estudo envolvendo todos os sujeitos e as etapas de formação.
A proposta Curricular em Complexos de Estudo expressa
172
coerentes com a matriz formadora, mas também a proposição de conteúdos e formas de conexão com a vida e os núcleos setoriais.
O processo de implementação em 2013, segundo Bahniuk (2014) foi um exercício parcial, em função das condições inexistentes nas escolas, tais como: estrutura, tempo, disponibilidade e formação dos educadores(as), entre outros, que condicionou as escolas a realizarem adaptações das relações existentes no Plano de Estudo geral, com a realidade local, por meio dos inventários e também exercícios de pensar o conteúdo em conexão com a vida.
Segundo Mariano (2015), nesse processo de replanejar os
educadores(as) tiveram dificuldades de compreensão do conjunto da Proposta Curricular desde a nova forma de organização escolar, mas também dos fundamentos teórico-metodológicos, porém desde o processo de formação continuada, os(as) educadores(as), no ano de 2013, foram se familiarizando com a proposta e definindo os aspectos de implementação na escola, como constatamos a seguir na Escola Itinerante Caminhos do Saber.
3.4 A Proposta dos Ciclos de Formação Humana com Complexos de