CAMPO CONTEXTO INTERNACIONAL 1946-1967 CONTEXTO INTERNACIONAL 1968-
1.3. ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS
Antes de iniciar os argumentos relativos às orientações metodológicos, julgo relevante colocar que não fiz um trabalho de campo na ONU, assistindo uma reunião da Assembleia Geral, do Conselho de Segurança e nem do ECOSOC. Porém, fui observadora em reuniões de Ministros da Educação nos anos 90 na América Latina.15
As três conferências finais e uma reunião preparatória possibilitaram-me uma fértil aproximação exploratória acerca do cerne das relações de poder que perpassam as Conferências dos Organismos Internacionais e da complexidade do mundo do “Itamaraty” (Ministério das Relações Exteriores). Neste, os ritos de acesso não favorecem a inserção de quem é estranho (outsider) a teia de relacionamentos da diplomacia.
15 Em 1994, Conferência de Ministros de Educação da Organização dos Estados Ibero americanos (OEI), em
Buenos Aires. Em 2000, na cidade de Brasília, da reunião preparatória dos Ministros de Educação do Mercosul, bem como da Conferência realizada em Gramado. Em 2001, da Reunião de Ministros de Educação da América Latina, organizada pela Oficina Regional de Educação para a América Latina (OREALC) da UNESCO/ONU, em Cochabamba, Bolívia, sobre o Projeto Principal de Educação (PPE).
1.3.1. Recorte temporal
A delimitação do estudo entre 1968-1978 fundamenta-se em dois argumentos. O primeiro deles diz respeito ao fato de nesse período ter se localizado o primeiro conjunto de Conferências Mundiais sobre temas afins à cultura de bem estar social, ou seja, aos campos de ação de uma política social: direitos humanos; meio ambiente e desenvolvimento; população; mulher; assentamentos humanos; discriminação social e racismo. Ao lado disso, essas Conferências sugerem uma resposta parcial aos rumos do desenvolvimento do capitalismo frente ao socialismo, ainda vigente no período.
O segundo se refere à demanda de pesquisas acerca dessa periodização levando em conta os vários estudos sobre a denominada Agenda Social: a terceira rodada de Conferências Mundiais realizadas na década de 90, com o término da Guerra Fria e o desmonte do socialismo no leste Europeu e na União Soviética. Essas são apresentadas na tabela a seguir: Quadro 3. Conferências da ONU dos anos 90 – “Agenda Social”
ANO TEMA DA CONFERÊNCIA LUGAR ORGANIZADOR
1992 Meio Ambiente e Desenvolvimento Rio de Janeiro, Brasil ONU
1993 Direitos Humanos Viena, Áustria ONU
1994 População e Desenvolvimento Cairo, Egito ONU
1995 Desenvolvimento Social Copenhague, Dinamarca ONU
1995 A mulher Pequim, China ONU
1996 Assentamentos Humanos Istambul, Turquia ONU
Elaborada por Elisabete Cruvello Fonte: Nações Unidas
Esta terceira rodada foi considerada um marco de referência no campo das Relações Internacionais, pois internacionalistas, como Lindgren Alves, Gelson Fonseca Júnior e Otto Rubarth, atribuem a elas a conformação da agenda social da ONU. Na avaliação de Alves,
A expressão é nova, conformada já no período pós Guerra Fria, e designa fundamentalmente o esforço normativo nos diversos campos da esfera social realizado pelo conjunto de grandes conferências da década de 90.
Ainda que a convocação, a realização e o seguimento desses grandes encontros no âmbito das Nações Unidas envolvam necessariamente o ECOSOC e suas comissões, a Agenda Social na acepção ora corrente, extrapola aqueles órgãos. Isto porque, embora quase todas tivessem tido individualmente algum precedente no passado, as conferências atuais, diferentemente das anteriores, independentes e fragmentárias, além de terem intensidade sequencial inusitada, formam um conjunto de configuração quase sistêmica, que aborda as questões de maneira abrangente e integrada, como temas globais, a envolver toda a humanidade. [...] apenas as seis
conferências acima indicadas são sempre referidas como componentes da Agenda Social da ONU. (ALVES, 1996)
A apologia concernente à Agenda Social da década de 1990, sublinhada por Alves, e, a escassez de pesquisas sobre as primeiras conferências confirmaram o significado da presente tese. No início da pesquisa de campo uma indagação me inquietava: Por que as primeiras conferências foram esquecidas? Um dos argumentos destacados por Alves se refere a sua independência e natureza fragmentária, que parece não atentar para o sentido das primeiras conferências.
1.3.2. História Cultural: Debates sobre afinidade eletiva
A História Cultural constitui um campo teórico-metodológico definido como o estudo dos processos, dos contextos e das práticas discursivas como modo de construir e representar uma dada realidade. Esta pesquisa se alinha a este campo, buscando dar voz aos sujeitos sociais esquecidos em uma dada conjuntura. Assim também, visa trazer à tona processos singulares, implícitos e subjetivos. Trata-se de uma perspectiva qualitativa, que se distancia de uma lógica causal e de cunho determinista.
É importante colocar que o método da história cultural se contrapõe à história narrativa, factual e oficial dos acontecimentos, tão comum e recorrente nas publicações oficiais dos Organismos Internacionais. Chomsky adverte a respeito da necessidade de fazer uma leitura epistemológica e hermenêutica especialmente, no uso da história cultural:
Não confie apenas na história convencional dos livros e textos de ciência política. Volte às fontes originais e às monografias de especialistas: de segurança nacional e outros documentos semelhantes. [...] A maior partedo material é lixo descartável e há que ler uma tonelada de coisa inútil até encontrar alguma coisa boa. Há guias que fornecem indícios onde melhor procurar, e algumas vezes encontrar-se-á referências intrigantes em fontes secundárias; elas são mal interpretadas, mas sugerem lugares onde pesquisar (1999, 129-130).
Esta recomendação de Chomsky foi essencial para o levantamento das fontes e da leitura crítica dos materiais encontrados no trabalho de campo realizado. Por vezes, as leituras realizadas sugeriam pistas interessantes, que possibilitaram ir articulando ideias e mapeando outras fontes.
Os estudos de Michel Löwy sobre o conceito de afinidade eletiva serviram como uma aproximação metodológica pertinente ao campo da história cultural, pois este conceito traduz as ações de reciprocidade. As principais obras de Löwy examinadas: Redenção e Utopia (1989); Romantismo e Messianismo (1990); Romantismo e Política (1993) publicada com
Robert Sayre e sobre o conceito de afinidade eletiva em Max Weber (2011). Além dessas, outras referências a respeito do conceito em tela foram fundamentais para a discussão.16
A primeira consideração metodológica relevante diz respeito ao significado equivocado de afinidade eletiva na tradução de Talcott Parsons17 relativa à obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” de Max Weber. Segundo Löwy, não pertence à acepção do conceito de afinidade eletiva a mera relação causal, como esposa a teoria positivista e funcionalista. Da mesma forma, afinidade eletiva não significa determinismo de qualquer tipo (histórico, econômico, político, cultural, outro), ou simplesmente influência. Em virtude da tradução equivocada do pensamento weberiano na década de 1930, produziu-se a interpretação de simples causalidade ou correlação, evidenciada nesta passagem:
Não é de se estranhar que a expressão “afinidade eletiva” não tenha sido entendida devidamente pela recepção de Max Weber pela tradição anglo-saxônica positivista. Um exemplo caricatural disso é a tradução americana de A ética protestante por Talcott Parsons (em 1930): Wahlxerwandtschanften tornou-se ora certain correlations, ora those relationships. Embora o conceito Weberiano aluda a uma relação interna, rica e significativa entre duas configurações, a tradução de Parsons o substituiu por uma correlação banal, externa e vazia de sentido (LÖWY, 2011, p.132).
A segunda sublinha as potencialidades do pensamento weberiano, baseado no emprego do método histórico comparativo plural, iniciando os estudos concernentes à abordagem de pesquisa qualitativa. Adotar uma abordagem qualitativa significa levar em conta outras características da perspectiva weberiana: valorização da subjetividade (sentido e motivo) e dos significados da ação social humana; ênfase nas configurações singulares e peculiares. Neste sentido, Weber instituiu uma Sociologia Compreensiva. O conceito de afinidade eletiva somente pode ser compreendido levando-se em conta a sua metodologia histórica.
O exemplo clássico do emprego de afinidade eletiva em Weber constitui sua obra A
Ética Protestante e o Espírito do Capitalista, onde estuda as relações entre o moderno ethos econômico e a ética racional do protestantismo ascético. Duas formações culturais distintas se aproximam, estabelecendo uma seleção de valores e interesses. O principal ponto de contato dessas formações culturais em Weber é o princípio da conduta ascética que constitui a
16 Outras referências: Afinidades eletivas e pensamento econômico: 1870-1914 de João Antonio de Paula,
Kriterion, Belo Horizonte, nº 111, Jun/2005, p.70/90 e Aspectos da metodologia de Michel Löwy de Mateus Zeferino, Dissertação de Mestrado, UNICAMP, IFCH, 2010.
motivação para o trabalho disciplinado e árduo, visando à acumulação e ao progresso. Nas palavras de Weber,
À medida que se foi estendendo a influência da concepção da vida puritana – e isto, naturalmente, é muito mais importante do que simples fomento da acumulação do capital – ela favoreceu o desenvolvimento de uma vida econômica racional e burguesa. Era a sua mais importante, e antes de mais nada, a sua única orientação consciente, nisto tendo sido o berço do moderno homem econômico. (1999, p.125)
Weber não definiu precisamente afinidade eletiva, mas Löwy elaborou esse conceito, apropriando-se do legado Weberiano:
[...] é o processo pelo qual duas formas culturais – religiosas, intelectuais, políticas ou econômicas – entram, a partir de determinadas analogias significativas, determinados parentescos íntimos ou afinidades de sentido, em relação de atração e influência recíprocas, seleção e reforço mútuos e convergência ativa. (LÖWY, 2011, p.142)
A obra Romantismo e Messianismo de Löwy (1990) traduz uma ilustração precisa do emprego do conceito de afinidade eletiva entre as “tradições messiânicas judias e as utopias revolucionárias modernas, principalmente libertárias” (p.137). Uma passagem extraída do livro em foco comenta a formação desse processo de afinidade eletiva:
Ora, durante os anos 1905-1923, em um certo número de intelectuais judeus de cultura alemã, essa homologia torna-se dinâmica e toma a forma de uma verdadeira
afinidade eletiva, no sentido goethiano wahlverwandschaft: dois seres ou elementos
que ‘se procuram um ao outro, se atraem, se assenhoreiam [...] um do outro, e em seguida ressurgem dessa união íntima de uma forma renovada, nova e imprevista’. Desdobra-se, na Weltanschauung desses intelectuais, um processo de simbiose
cultural, de estimulação recíproca e, mesmo, em certos casos, de articulação, de
combinação ou fusão (ao menos parcial) dessas duas correntes de ideias. (LÖWY, 1990, p.137)
Para Löwy, o termo afinidade eletiva tem uma longa história, a qual é bem anterior aos escritos de Weber. Suas principais metamorfoses foram sintetizadas a seguir:
Quadro 4. Metamorfoses do conceito de afinidade eletiva