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Muitas das escolas de magistratura brasileiras surgiram nos anos de 1970, em contexto político por demais desfavorável ao livre debate de ideias, já que nasceriam em plena Ditadura Civil-Militar. Seu surgimento, no entanto, tem relação direta com a crise do ensino jurídico e a baixa qualidade da formação dos bacharéis que ingressavam nos quadros da magistratura, oriundos das faculdades de Direito.

Os juristas vêm de uma tradição não muito afeita a questionamentos, sendo incomum o desenvolvimento de uma atividade reflexiva e efetivamente crítica sobre o fazer profissional e seus fundamentos. Roma conheceu a Ciência do Direito, como jurisprudência, deixando de questionar, entretanto, acerca da natureza desse modo de saber e de seus pressupostos, haja vista o pragmatismo das formulações do Direito Romano. Essa herança acrítica chegou até aqui, às vezes impossibilitando os juristas de indagarem acerca dos pressupostos epistemológicos do Direito.

Cabe aos juristas da atualidade, no entanto, a tarefa quase hercúlea de reconstituir os caminhos de seu pensamento científico acerca do Direito para constituir a Epistemologia que lhe há de ser própria, não tomada de empréstimo às

Ciências Lógico-Matemáticas, às Ciências Naturais ou a qualquer das Ciências Humanas. Sem estas últimas, entretanto, é importante ressaltar que se faz impossível pensar a totalidade dos problemas jurídicos.

Não se cogita aqui, portanto, em adotar o modelo kelseniano de Ciência Jurídica, cuja ingênua tentativa de assepsia político-ideológica inviabilizara avançar em termos crítico-reflexivos, mas de procurar estabelecer uma epistemologia jurídica com suporte em Kelsen, tendo, porém, a coragem de ir além dele.

Não há, a rigor, uma Epistemologia Jurídica já edificada, pronta e amadurecida, do ponto de vista crítico. Na verdade, é uma disciplina in fieri, havendo inúmeros óbices à sua formulação, obstáculos epistemológicos que vão da dificuldade em identificar o objeto específico da Ciência do Direito ao predomínio do positivismo, do dogmatismo e do argumento de autoridade. Mesmo em tempos de pós-positivismo e neoconstitucionalismo, tais dificuldades ainda subsistem e produzem reflexos diretos do ensino jurídico e nas práticas docentes dos professores das faculdades de Direito e das escolas de magistratura.

A Ciência do Direito precisa abandonar a tese da neutralidade, cuja impossibilidade é evidente até mesmo nas Ciências Naturais, para se transformar num saber engajado, comprometido com as transformações sociais, afastando-se dos preconceitos que a distanciaram do conhecimento e da produção popular do Direito, pois níveis de conhecimento não representam diferença substancial de conteúdo, tampouco há superioridade ou inferioridade de determinada modalidade de conhecimento. Eles são apenas níveis de linguagem, sendo o senso comum, representado por uma maneira de pensamento mágico, muitas vezes dotado de uma acuidade invejável, sob o ponto de vista antropológico.

A própria Carta da Transdisciplinaridade (1994), adotada no Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, realizado no Convento de Arrábida (Setúbal/Portugal) e redigida por Lima de Freitas, Edgar Morin e Barasab Nicolescu, contém expressa orientação neste sentido, de aproximação entre os saberes, ao afirmar que “a visão transdisciplinar está resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas por seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual”. (Anexo A).

Precisam os juristas reconhecer, como já faz a Nova Hermenêutica, que inexiste norma jurídica antes da atividade interpretativa. A norma é um produto da

interpretação e não um dado a priori. Não é possível interpretar textos normativos ignorando o âmbito e o programa normativo. Ademais, durante a interpretação das normas jurídicas, inúmeros são os sentidos possíveis que ela pode assumir. A escolha do sentido que irá prevalecer como resultado da interpretação pressupõe a admissão de fins, de valores. A interpretação é, portanto, ato cognitivo e volitivo. Exigindo a vontade, que elege o sentido a prevalecer, a interpretação jurídica é essencialmente política, sendo absolutamente descabida a tentativa de separação entre as esferas política e jurídica.

Toda decisão pressupõe a interpretação e se estabelece num horizonte histórico específico. A decisão jurídica é, também e sobretudo, decisão política. Notadamente quando envolve conflito de valores ou de interesses e classes, como no caso dos conflitos fundiários no Brasil dos anos 1990 ou nas questões que envolvem os interesses das grandes corporações, as decisões jurídicas não conseguem mascarar seu caráter ideológico e político, tampouco solucionar de modo definitivo os conflitos estruturais da sociedade brasileira.

O papel do Poder Judiciário numa sociedade aberta, consciente da conflituosidade que existe em seu seio, é inteiramente diferente da propalada “eliminação de conflitos”, como se estes fossem uma doença. Esse papel não pode ser o de mero aplicador cego da legislação infraconstitucional, mas há de se transformar, sobretudo, na função, reconhecidamente política, de assumir a vanguarda ou a retaguarda nos conflitos de valores e interesses de classes que permeiam as estruturas sociais, com suporte na própria compreensão sociológica do conflito como instrumento de crise e transformação social.

Esse vanguardismo não se limita a se mostrar como a instância solucionadora de conflitos ou pacificadora. O papel de regulamentador político da velocidade e profundidade dos conflitos sociais impõe ao Judiciário uma posição crítica que, fugindo aos cânones do positivismo, desponte na adoção e aplicação dos princípios e valores fundamentais, consagrados na Constituição Cidadã.

Essa é a atitude adequada, não para solucionar os conflitos sociais, pois eles são insolúveis, sobretudo no modo de produção sob a égide do qual vivemos, mas para administrá-los evitando seu agravamento, com a transformação destes em expressão da violência e da violação aos direitos humanos.

Para isto, é preciso que se compreenda o conflito em toda a sua complexidade. Não basta decidir. É preciso conhecer além dos fundamentos lógico-

jurídicos da decisão, suas motivações ideológicas e as consequências político- sociais e ambientais daquilo que foi decidido. Mesmo em sendo conflitos mais simples, é necessário conhecer a sua causa, o conflito real, a lide sociológica. Neste sentido, há toda uma produção científica que procura compreender o papel mais amplo dos juízes, não somente como intérpretes e aplicadores da lei ao caso concreto, mas também como gestores e mediadores aptos a entenderem como se formam e desenvolvem os conflitos, a preveni-los e tratá-los de modo adequado, não se limitando a decidir a lide processual.

Sob este aspecto e neste panorama de grandes incertezas e novas exigências para os membros do Poder Judiciário, como acentua Bacellar ( 2013, p. 151), há necessidade de que o Judiciário se profissionalize cada vez mais, abandonando suas características de organização caracterizada pela centralização do poder e com peculiaridade de baixa aprendizagem. Ressalta ainda Bacellar (2013, p. 151):

Até mesmo organismos internacionais, sem a visão de conjunto que nós outros brasileiros temos – em um país de dimensões continentais como o Brasil -, passaram a opinar sobre a administração judiciária brasileira. São oriundas do Banco Mundial (BIRD), maior financiador das reformas operadas nos sistemas judiciários de outros países, as propostas de súmula vinculante, medidas avocatórias, controle externo, escola oficial da magistratura centralizada, concentração de poderes nas cúpulas e subtração da autonomia dos juízes, juizados arbitrais como alternativa ao Poder Judiciáio, dentre outras. Algumas dessas propostas, inclusive, já foram implementadas pela Emenda Constitucional nº 45/2004 e integram nossa ordem constitucional.

Mister se faz que o Poder Judiciário, como instância “terminal” das demandas sociais esteja sensível à nova realidade da sociedade e sintonizado com os novos paradigmas jurídico-políticos do tempo corrente, esquecendo um pouco a dualidade público-privado para compreender a imensa gama de valores e interesses que desabrocham no meio social.

Todas essas considerações revelam, sobretudo, o caráter instrumental do Direito e de suas normas. São estes últimos um poderoso instrumento a serviço das classes menos favorecidas, da transformação social ou da manutenção de um odiável status quo, padrão de uma sociedade excludente e opressora.

É preciso entender que as leis foram feitas para o homem, e não o homem para as leis. Dessa perspectiva, o Judiciário poderia se transformar na vanguarda das grandes transformações sociais, aplicando os valores fundamentais da

Constituição e realizando os preceitos consagradores dos direitos humanos que constituem o núcleo essencial da ordem jurídica atual.

Apesar desta necessidade social de que os magistrados sejam capazes de compreender melhor as múltiplas dimensões dos conflitos que se propõem a decidir, o ensino jurídico não os preparava para estes desafios, sendo recorrentes as críticas feitas à baixa qualidade da formação recebida e ao próprio recrutamento de magistrados. Conforme ressalta Leite (2004, p. 22),

Desde a década de 1970 que a literatura jurídica registra reclamações de membros do Poder Judiciário, especialmente dos tribunais superiores, sobre o despreparo dos candidatos à magistratura e, não raro, de sua atuação nos tribunais. Para superar a defasagem observada na formação e atualização de magistrados, surgiu a ideia de colocar a preparação dos magistrados como uma condição opcional para ingresso na carreira, quando da reforma do Judiciário realizada em 1977, por inspiração de um diagnóstico feito pelo Supremo Tribunal Federal, no qual são apontados os principais problemas enfrentados pelo Poder Judiciário brasileiro à época.

Em relatório apresentado pelo Presidente do STF à época, ao então ministro da Justiça, Djacy Alves Falcão, várias providências foram sugeridas para melhorar os critérios de recrutamento dos juízes, ocasião em que foi proposta, pela primeira vez no País, a criação de um centro nacional de estudos judiciários, embrião daquilo que viriam a se tornar as escolas de magistratura brasileiras. No referido relatório, destaca Falcão (1975, p. 11):

(…) quanto ao segundo aspecto – melhores critérios de recrutamento -, a par da conveniência do concurso de ingresso em duas fases, permitindo que entre elas se insira estágio probatório, mencione-se a ideia da criação de cursos ou institutos de preparação para a magistratura, semelhantes ao “Centro Nacional de Estudos Judiciários”, com desejável intercâmbio entre universidades e Tribunais, para a seleção dos melhores alunos.

Atualmente, a existência das escolas judiciais e de magistratura auferiu status constitucional, haja vista aquilo que foi estabelecido com a Emenda Constitucional nº 45/2004, quando tais escolas foram alçadas à condição de instituições imprescindíveis à formação inicial e continuada dos juízes. Como destaca Nalini (2011, p. 453),

O constituinte continua a mostrar ao juiz como é que ele tem de se aperfeiçoar: exige-lhe frequência a cursos reconhecidos de aperfeiçoamento. A escolaridade convencional é estimulada, ao lado da inevitável formação continuada sob a forma de autodidatismo.

Convém ressaltar, entretanto, que fato de que o surgimento das primeiras escolas de magistratura é fenômeno ligado, sobretudo, ao associativismo, surgindo das entidades que congregavam magistrados em torno de ideias mais democráticas e progressistas. A semente de criação de tais escolas germinou, mormente, no Segundo Pós-Guerra, após a realização do I Congresso Internacional de Magistrados, em Roma (1958), quando os juízes dos países participantes recomendaram a criação de estruturas destinadas à formação inicial e continuada de magistrados.

Hoje, há de se destacar o fato de que, embora as primeiras escolas tenham surgido como resultado do associativismo judicial, existem diferenciações entre as escolas judiciais – ligadas às associações de juízes e as escolas judiciárias, vinculadas aos tribunais, como unidades administrativas descentralizadas do Poder Judiciário, terminologia que se adota neste relatório de pesquisa.

No Brasil, entretanto, consoante Oliveira (2014, p. 61), a primeira obra que se referiu à importância da educação judicial continuada é de autoria de Edgard de Moura Bittencourt. Mencionado livro, intitulado O Juiz, cuja primeira edição vindo a lume em 1966. Nesta obra, Bittencourt já ressaltava a necessidade de cursos específicos voltados aos candidatos interessados na magistratura, fazendo-o nos seguintes termos:

A instituição de um curso preparatório das profissões judiciárias, especialmente a de magistrado, nada tem de irrealizável. Oferece aos jovens que deixam a Universidade ampla oportunidade de se encontrarem com sua verdadeira vocação, através dos conselhos e da aptidão de colegas mais experimentados e que se revelaram inteiramente vitoriosos em seu mister profissional. (1966, p. 61).

A obra de Bittencourt colaborou para acender o debate sobre educação judicial no Brasil. Como já se ressaltou, entretanto, as primeiras escolas de magistratura no Brasil nasceram no século imediatamente passado e resultaram do próprio movimento associativista dos juízes ou de decisões institucionais alimentadas por este debate, como nos casos da Escola Superior de Magistratura da Associação de Juízes do Rio Grande do Sul (AJURIS) e da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (EJEF), de Minas Gerais.

Os Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul foram pioneiros, na década de 70, na implantação das respectivas escolas da magistratura. Na de 80, outros dezessete estados criaram suas escolas. Nos anos 90, surgiram mais seis; em 2000, outras duas. As escolas da magistratura federais, em sua maioria, foram criadas na década de 90. (BRASIL, 2008, p. 7)

Além do desembargador Bittencourt, outro personagem fundamental na consolidação da educação judicial em terras brasileiras foi o ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. Não por acaso, empresta seu nome à Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (ENFAM), vinculada ao Superior Tribunal de Justiça. Em artigo sobre o assunto, Teixeira assim já manifestava sua preocupação:

Os concursos públicos produziram entre nós um Judiciário digno e têm prestado serviço inestimável à causa da Justiça. Continuam a representar a alternativa mais adequada de recrutamento, a conciliar vertentes democrática e aristocrática. Mas é o momento de se substituir sua metodologia para a inserção de critérios mais consistentes de seleção, priorizando-se os aspectos éticos e vocacionais, até mesmo em detrimento do apuro técnico, sabido que uma pessoa destinada a julgar seu semelhante se automotivará ao estudo permanente, enquanto o intelectual aético nunca será um verdadeiro juiz. (1998, on line)

Em palestra proferida na Associação Brasileira de Ensino do Direito (ABEDi) em 12 de maio de 2014, posteriormente publicada no Consultor Jurídico, o ministro Humberto Martins assere a importância da criação da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (ENFAM), instituição vinculada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e destinada a estabelecer as diretrizes da formação inicial e continuada de magistrados no Brasil, congregando todas as escolas de formação com vistas a atingirem objetivos e metas comuns, objetivando a coordenação do sistema nacional de educação judicial.

A determinação para a criação da Escola Nacional é a evidência de um reconhecimento – por parte do poder constituinte derivado – da relevância dessas estruturas administrativas para o bom funcionamento do Poder Judiciário. O processo, contudo, tem origem em associações e fundações, usualmente ligadas às corporações da magistratura e do Ministério Público, sem esquecer das escolas superiores da advocacia, historicamente mais antigas e que se inserem nessa tradição. Daí se denominar que estas – criadas pela vida associativa – seriam “escolas judiciais”, ao passo que as outras – criadas no cerne da organização administrativa dos tribunais –

seriam “escolas judiciárias”, Essa distinção entre “escolas judiciais” e “escolas judiciárias”, que não é muito conhecida fora dos meios especializados, diz muito sobre esse processo, que, na verdade, foi uma etapa de amadurecimento das instituições. (MARTINS, 2014, on line).

Ressalte-se que, a par da ENFAM, existem outras escolas nacionais de magistratura, cuja missão é estabelecer diretrizes para a formação de magistrados da justiça especializada, como é o caso da ENAMAT, que coordena e orienta as atividades educacionais das escolas judiciais trabalhistas. Há também a ENM, ligada à Associação de Magistrados Brasileiros, criada há mais de 50 anos e que oferece vários cursos de aperfeiçoamento cultural, jurídico e humanístico.

A criação das primeiras escolas de magistratura no Brasil, como acentua Martins, decorreu “da percepção de que havia problemas de preparação ao concurso e à investidura na função judicante dos candidatos” (2014, on line), percepção esta reforçada pelas recomendações do I Congresso Internacional de Magistrados, sintetizadas a seguir:

1. A necessidade de melhor preparar os futuros magistrados, desde sua formação universitária (cabendo sublinhar que tal preocupação com a limitada preparação nos cursos de graduação era conhecida desde longa data), na qual deveriam ser incluídas disciplinas modernas indispensáveis ao futuro da missão da magistratura;

2. A implantação paralela nas escolas de magistratura de centros de preparação de juízes, assim como o desenvolvimento de pesquisa sobre o tema;

3. O aprimoramento permanente da cultura dos Magistrados e a sua indução para a pesquisa e o trabalho em equipe. (BRASIL, 2008, p. 10).

Como ressalta Oliveira (2014, p. 61), em dissertação de mestrado sustentada na Universidade de Brasília (UnB), na qual discute a formação docente no âmbito da magistratura e propõe um debate acerca dos currículos de cursos de formação dirigidos a este público específico,

(...) a trajetória da Educação Judicial no Brasil, além de ter uma forte relação com a herança do ensino dos bacharéis em Direito iniciando em Portugal, desde a época do Brasil Colônia, foi fortemente influenciada pelo processo de criação das Escolas de Magistratura no exterior

Neste aspecto, o movimento associativista de juízes, já referido por Garapon em sua obra Os Juízes na Mundialização, movimento que se acentua pela celebração de acordos e convênios entre os tribunais e escolas de magistratura com

objetivos de cooperação técnica e intercâmbio de experiências, contribuiu para a difusão das ideias acerca da criação de escolas desta natureza no Brasil.

Ressalte-se, ainda, que há atualmente a Red Iberoamericana de Escuelas Judiciales, a qual está ligada à própria ENFAM. Este sistema de cooperação, criada em 2001 na Espanha, aprovou a NCR1000:2011, uma norma com requisitos de qualidade para os programas de formação judicial nas escolas que fazem parte da Rede. Aprovado na VII Assembléia Geral, ocorrida em Cartagena das Índias (Colômbia) em outubro de 2011, o documento propõe uma série de requisitos genéricos que podem ser aplicáveis, de maneira voluntária, aos programas de formação judicial.

Na conceituação do que entende por programa de formação judicial, a RIAEJ entende ser de um “proceso de aprendizage integral orientado a fortalecer o desarrollar el compromisso ético y las competências que em las áreas del saber, del saber hacer y del saber ser, se requieren para el debido ejercicio de la función judicial”. (RIAEJ, 2011, p. 7).

Como destaca Prado (2005, p. 106-7),

Os concursos públicos têm sido alvo de fundadas críticas, muitas delas advindas até mesmo do Judiciário. É que, além de não ressaltarem o aspecto vocacional, nem valorizarem a seleção por critérios éticos e psicológicos, partiam da falsa premissa de que os candidatos, por serem bacharéis, podiam, após superada a prova, dedicar-se à prestação jurisdicional. Daí ter surgido a necessidade da criação das Escolas da Magistratura, a exemplo do que ocorre em vários países europeus, como França, Itália, Grécia e Espanha, onde se realiza a preparação de juízes e não o concurso.

Evidentemente, não se postula a adoção deste modelo no Brasil, o que exigiria a profissionalização das equipes de professores-formadores e a autonomia das escolas de magistratura em relação aos tribunais para que pudessem participar, de modo eficaz e efetivo, do recrutamento ou avaliação dos novos juízes. Como se infere, porém, das unidades de significado do depoimento dos magistrados entrevistados, há necessidade de manter o concurso público como maneira democrática e universal de acesso ao cargo de juiz, mas aprimorar o modo de seleção e recrutamento de juízes no Brasil para ampliar as exigências além dos aspectos meramente cognitivos.

Cada vez mais, entretanto, ganha força a ideia de intensificar o papel da escolas de magistratura na qualificação continuada daqueles que exercem a jurisdição, permitindo o desenvolvimento de estratégias de aprendizagem e de avaliação que se voltem à necessidade de fortalecer os compromissos éticos e a independência da magistratura, propiciando que as competências, habilidades e atitudes possam se desenvolver de modo satisfatório, atendendo às altas exigências sociais que cercam o exercício da difícil função de julgar, a qual se conjuga, necessariamente, com o mister de administrar.

A figura do juiz servidor, gestor e mediador, liderando sua equipe de servidores para planejar e alcançar objetivos, cumprindo metas previamente estabelecidas e prestando contas de suas atividades à sociedade já é hoje uma exigência constante. Para tanto, o magistrado precisa reunir qualidades pessoais e também morais tanto quanto as técnicas e profissionais que possui, estas últimas objeto de exigência no concurso a que se submeteu.