1.1 ESTADO: ORIGEM, CONCEITO E ABORDAGENS
1.1.1 Origem do Estado: Revisitando os Clássicos
A vida em Sociedade traz vantagens, contudo, pode implicar também em uma série de limitações à liberdade dos Cidadãos decorrente do convívio social e da organização do Estado. Assim, a Sociedade natural é fruto da própria natureza humana. A teoria naturalista parte da análise de uma Sociedade natural, a qual sustenta que a Sociedade é consequência de um ato de escolha.
No século IV a.C. Aristóteles em sua obra “A Política” afirma que “o homem é naturalmente um animal político”. Este filósofo observa que, “o Estado pela sua função tem mais importância do que a família e o indivíduo, uma vez que o conjunto é necessariamente mais importante do que as partes.” Diferente dos animais (irracionais) para Aristóteles o homem é o único que possui a razão, o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto. 37
Em outro sentido, a Sociedade é um produto de acordo de vontades, ou seja, de um contrato hipotético celebrado entre os homens. Portanto, é justamente em posição contrária à corrente que defende a “Sociedade Natural”, encontramos os contratualistas, que adotam a tese de que somente a vontade humana justifica a existência da Sociedade.
Cícero, na obra “Da República”, já no século I a.C., por influência de Aristóteles afirma que a “primeira causa da agregação dos homens é menos a sua debilidade do que certo instinto de sociabilidade. A espécie humana não nasceu
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ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Título original: La Politique
para o isolamento e para a vida errante, mas com uma disposição que mesmo na abundância de todos os bens, a leva a procurar apoio comum.”38
Por outro lado, São Tomás de Aquino que se situa no período da Idade Média, o mais expressivo cultor de Aristóteles, sintetiza que “o homem é, por natureza, animal social e político, vivendo em grupos, mais que todos os outros animais, o que se evidência pela sua natural necessidade”.39
Afirma ainda São Tomás que,
a vida solitária é a exceção, só os homens de natureza vil ou superior procuram viver isolados. Esta convivência leva o homem a atingir os fins de sua existência desenvolvendo o seu potencial de aperfeiçoamento, no campo intelectual, moral ou técnico.40
Desde a Idade Antiga, notadamente, na “República” de Platão, passando pelos utopistas do século XVI, como Thomas Moore, na sua, “Utopia”, ou em Tommaso Campanella e “A Cidade do Sol”, já havia referências à organização social criada racionalmente pelo homem e não em razão de simples impulso natural.
O contratualismo aparece claramente proposto, com sistematização doutrinária, nas obras de Thomas Hobbes, sobretudo no “Leviatã”, publicado em 1651. Para Hobbes o homem vive inicialmente em estado de natureza, no qual não é egoísta e com tendências à agressão mais do que a Solidariedade. Aponta, ainda, que a igualdade natural de todos os homens gera a guerra de todos contra todos. Hobbes conclui que “mesmo um mau governo é melhor do que o estado de natureza absolutista”.41
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CÍCERO. Tratado da República. Círculo de Leitores/Temas e Debates, tradução, introdução e notas de Francisco de Oliveira, 2008. Titulo original: De Re Publica; também PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Estudos de História da Cultura Clássica – Cultura Romana. 3. ed. Vol II. Lisboa: FCG: 2002;
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TOMÁS DE AQUINO. Verdade e Conhecimento. Tradução, estudos introdutório e notas Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Título original: Quaestiones
Disputatae De Veritate e De Diferentia Verbi Divini Et Humani.
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TOMÁS DE AQUINO. Verdade e Conhecimento. Tradução, estudos introdutório e notas Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Título original: Quaestiones
Disputatae De Veritate e De Diferentia Verbi Divini Et Humani.
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HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de Um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de Rosina D´Angina. São Paulo: Martin Claret, 2009. Título original: Leviathan, or Matter,
Por outro lado, a análise que John Locke faz do homem é bem mais condescendente do que a de Thomas Hobbes. Em virtude da sua formação religiosa era impossível que sustentasse o contratualismo puro. Para John Locke os homens, são livres, iguais e independentes. Na sua concepção quanto ao “estado de natureza”, os homens já eram dotados de razão e usufruiam a propriedade, que significava a vida, a liberdade e os bens como Direitos naturais do ser humano.42
Jean-Jacques Rousseau, em sua obra “O Contrato Social”, também defende a ideia de que o homem em seu estado primitivo encontra-se sob o domínio da bondade. Este filósofo retomou as linhas de pensamento de Thomas Hobbes, mas adotou posição semelhante à de Montesquieu no tocante à predominância da bondade humana no estado de natureza. Para ele é a vontade e não a natureza humana o fundamento da Sociedade, sendo a ordem social um Direito Sagrado. A afirmação do povo como soberano, no reconhecimento da igualdade constitui um dos objetivos fundamentais da Sociedade. As idéias de Jean-Jacques Rousseau baseadas na igualdade e na liberdade são consideradas fundamentos para a Democracia.43
Por seu lado, Montesquieu refere que existem leis naturais que levam o homem a escolher a vida em Sociedade. De acordo com a sua obra “Do Espírito das Leis” os motivos pelos quais o homem prefere a vida em Sociedade são: o desejo de paz; necessidade de suprir suas necessidades, principalmente a procura por alimentos; atração natural entre os sexos opostos; o próprio desejo natural de viver em Sociedade.44
Em seu tempo Nicolau Maquiavel (século XV-XVI) considerado por muitos o pai do pensamento e da ciência política moderna, pregava a conquista da fortuna (honra, riqueza, glória e poder) pelo príncipe, mediante um comportamento de virtude (virilidade e coragem) que garantisse por fim a segurança aos seus governados. Para ele, os homens por natureza são ingratos, volúveis, simuladores,
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LOCKE. John. Segundo Tratado Sobre o Governo. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martins Claret, 2011. Título original: Two Treatises of Government.
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ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. Tradução de António de Padua Danesi. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Título original: Du Contrat Social. Principes du droit politique.
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MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. Tradução de Cristina Murachco. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Título original: L´Esprit des lois
covardes, ávidos por lucro. A qualidade e a inteligência de um príncipe eram observadas na escolha de ministros capazes e fiéis. Maquiavel visava à unificação dos territórios e a formação de uma Itália forte, capaz de garantir Desenvolvimento e Bem Estar da população. Através da obra “O Principe”, Maquiavel aborda o Estado, afirmando que “Todos os Estados, que existem e já existiram são e foram sempre repúblicas ou principados”.45
Para Thomas Hobbes (século XVII), o Estado era essencial para garantir segurança aos povos que por índole viviam se digladiando. Thomas Hobbes vivia em insegurança e temia os conflitos, as guerras e as invasões e pregava a necessidade de um Estado forte e soberano, capaz de controlar e organizar os desejos individuais, permitindo o desenvolvimento social. Para ele, a Sociedade só se faz possível com o Estado. Na sua concepção, sem o Poder do Estado, o Direito Natural já mais teria eficácia, pois ficaria apenas na consciência de cada homem, uma vez que não haveria obrigatoriedade de cumprimento. Portanto, Thomas Hobbes vislumbra que o Estado é o único detentor do poder e o único capaz de garantir a eficácia dos Direitos, e como tal, possui monopólio do poder normativo, cabendo unicamente a ele produzir leis.46
Por sua vez John Locke (século XVII), individualista e liberal, defendia na Inglaterra o Direito de Resistência, de Liberdade e de Tolerância Religiosa. Afirmava ainda que só o consentimento expresso dos governantes era fonte legítima do poder político. Colocava o homem como centro do universo, dotado de razão e com Direito Natural à vida, à liberdade e à propriedade como fruto de seu trabalho. Como jusnaturalista John Locke pugna pela existência de um Direito Natural alheio à vontade estatal, tido como absoluto, perfeito e imutável.47
O jusnaturalismo destaca-se com o surgimento das teorias contratualistas do Estado, que partem do pressuposto de que os homens se reúnem
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MAQUIAVEL. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Título original: Il Principe; MAQUIAVEL. O Príncipe. Tradução de Elias Davidovich. Rio de Janeiro: Calvino Filho, 1933. Título original: Il Principe
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HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de Um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de Rosina D´Angina. São Paulo: Martin Claret, 2009. Título original: Leviathan, or Matter,
Form and Power of a Commenweath Eclesianstical and Civil (1651).
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LOCK, John. Dois Tratados Sobre o Governo. Tradução de Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Título original: Two Treatises of Government.
em Sociedade para preservar a própria vida, a liberdade e a propriedade. E defende que esses bens (vida, liberdade e propriedade) são conteúdos dos Direitos oponíveis ao próprio Estado. Conforme John Locke
a única maneira pela qual uma pessoa qualquer pode abdicar de sua liberdade natural e revestir-se dos elos da Sociedade civil é concordando com outros homens em juntar-se e unir-se em uma comunidade, para o gozo seguro de suas propriedades e com maior segurança contra aqueles que dela não fazem parte.48
Jean Bodin, nos “Seis Livros da República”, concebeu a formulação jurídica da Soberania, não empregando necessariamente o termo Estado, mas sim República. Com teses que refutavam Maquiavel, Jean Bodin via o Estado como um governo embasado nas leis da natureza, e o soberano estaria subordinado somente a essas leis, com o poder de alvitrar o que deva ser lei superior. Portanto, o soberano não estaria submisso nem às leis de seu antecessor nem às próprias leis, pois, não se submete a nenhum julgamento, sob pena de destruição da Soberania, a base da estrutura do Estado.49
Por seu turno Immanuel Kant caracteriza o Estado como “a reunião de uma multidão de homens vivendo sob as leis do Direito”.50
Já Hegel definia o Estado como “totalidade Ética”.51
Para Kelsen o Estado é “a ordem normativa da conduta humana”.52
O pensamento sobre o Estado, em sua defesa ou oposição, vem permeando ao longo dos últimos três séculos a doutrina de cientistas políticos e juristas como Karl Marx (1818-1883) que pregava a abolição do trabalho assalariado, da propriedade privada e por fim do próprio Estado;53 de Carl Schimitt
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LOCK, John. Dois Tratados Sobre o Governo. Tradução de Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 468. Título original: Two Treatises of Government.
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BODIN, Jean. Les six livres de la République. Reimpr da 12. ed. Paris: Fayard, 1986. 50
KANT, Immanuel. A paz Perpétua. Tradução de Artur Morão. Lisboa-Portugal: Edições 70, 2004. Título original: Zum ewigen Frieden.
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HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da Filosofia do Direito. Tradução de Orlando Vitorino. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Título original: Grundlinien der Philosophie der Rechts. 52
KELSEN, Hans. Teoria Geral do Direito e do Estado. Tradução de Luis Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Título original: General Theory Of Law and State.
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MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Tradução de Luis Cláudio de Castro e Costa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Título original: Die Deutsche Ideologie
(1888-1985) para o qual, “soberano é quem decide sobre o estado de excessão” e defendia o primado do político sobre o jurídico, na busca da unidade política e da estabilidade”.54
Hannah Arendt (1906-1975), vítima do nazismo, exprimia em seus textos a ideia de que o totalitarismo é a degeneração da política e traçava um paralelo entre o poder e o uso da violência e a liberdade e a ordem política. Para ela a “banalização do mal é a expansão do terror.”55
Norberto Bobbio pauta pela defesa do Estado fundamentado no regime democrático, resultado da inspiração em uma moral baseada na responsabilidade individual, que reivindica uma Economia antimonopolista, avessa aos privilégios dos grupos, que necessita de uma estrutura não monista, mas pluralista do Direito.56
Mais recentemente, Amartya Sen justificou que há uma estreita ligação entre a Democracia e a ideia de Justiça e que certamente a Justiça é o fim primeiro e último a ser alcançada pelo Estado.57
A partir dessa regressão histórica anteriormente feita, é que se pode construir um conceito de Estado mais próximo ao que pretendemos – Estado Contemporâneo.