CAPÍTULO II: POPULAÇÃO ESCRAVA NO SÉCULO XIX
II. 3. 3 Plantel com 1 a 4 escravos
II. 4 Origem dos escravos
II. 4 Origem dos escravos
A falta de registros referentes às origens dos escravos no ano de 1828 nos fez cruzar as informações com os dados da lista de 1835, mais completa nesse sentido. Assim, foi possível determinar a origem de alguns escravos. É importante ressaltar nesta etapa do trabalho que, no período analisado, houve muitas migrações para Guarapuava
por parte da população escrava, que acompanha seus proprietários – exceção feita aos infantes que nasceram na localidade e a alguns escravos adquiridos na região por diversos motivos.
Essa população era formada basicamente por crioulos, característica predominante para o Paraná e outras regiões com economia voltada para o mercado interno113. A hipótese para esse tipo de aquisição por parte dos proprietários num período em que ainda era forte a oferta de africanos pelo mercado e com preços bastante acessíveis para os compradores é de que a lógica econômica pressupunha algumas questões importantes já visualizadas pelos proprietários de escravos.
Primeiramente, as condições de inserção no mercado de escravos eram possivelmente inferiores àqueles que detinham as maiores riquezas e, portanto, condições para oferecer melhores negociações aos comerciantes de escravos. Em segundo lugar, o mercado já estava sentindo os efeitos de políticas restritivas com relação ao tráfico internacional, mesmo porque o Paraná nunca foi um entreposto importante de desembarque de escravos, o que restringia em muito seu acesso a esses indivíduos. Em terceiro, as condições financeiras desses proprietários não eram iguais às dos proprietários mais abastados, o que dificultava as aquisições de escravos, inserindo nessa análise as possíveis regalias que porventura faziam parte do comércio negreiro. Em quarto, as dificuldades de se obterem novos escravos sem o custo adicional de seu translado facilitavam o propósito de se fomentar a produção endógena dos escravos, além disso, o tráfico interprovincial e intraprovincial de crioulos era mais viável face às perdas possíveis que poderiam ocorrer no caminho. Finalmente, havia maior facilidade de inserção do crioulo na sociedade local, uma vez que fatores como costume, língua, raça, poderiam estar fazendo parte das análises dos proprietários na aquisição dos escravos.
113
A população escrava no Paraná sempre foi determinada pela preponderância de crioulos. Ver quanto à isso os trabalhos de GUTIERREZ, Horácio. “Crioulos e africanos no Paraná, 1798-1830”. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.8, nº16, p.161-188, mar/ago, 1988. Um outro trabalho é de PENA, Eduardo Spiller. “O jogo da face; a astúcia escrava frente aos senhores e à Lei na Curitiba provincial”. Curitiba, Aos Quatro Ventos, 1999. Também temos o trabalho de LIMA, Carlos A M. LIMA, Carlos Alberto Medeiros. “Sobre posses de cativos e o mercado de escravos em Castro (1824-1835):
perspectivas a partir da análise de listas nominativas”. Anais do V Congresso Brasileiro de História
Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas. ABPHE, Caxambu, Minas Gerais, 2003. CD-ROM. Estudando a região de Capivari no interior do Rio de Janeiro, Hebe Mattos também encontra esses padrões para os escravos. CASTRO, Hebe M. Mattos de. “Ao sul da história”. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1987. Esses padrões também se encontram no estudo para o agreste e o sertão de Pernambuco realizado por VERSIANI, Flávio Rabelo & VERGOLINO, José R. Oliveira. “Posse de
escravos e estrutura da riqueza no agreste e sertão de Pernambuco: 1777-1887”. Brasília, UNB, Deptº
Entretanto, os registros de 1835 são completos quanto à origem dos escravos (o que não ocorre com as listas de 1828 e de 1840), ou seja, todos os registros de escravos discriminam a naturalidade de cada um deles. Dos 82 registros levantados naquele ano, 70 apontam origem crioula, ou seja, escravos nascidos no Brasil, e os 12 restantes apontam origem africana. Isso quer dizer que 85% dessa população eram de origem brasileira, enquanto 15% era de origem africana. Portanto, para a lista de 1835, a população escrava era predominantemente formada por crioulos, o que demonstra as especificidades de uma área de fronteira voltada para as atividades de abastecimento interno.
Os 12 escravos de origem africana estavam distribuídos por sete propriedades e possuíam algumas características interessantes com relação a idade, sexo, razão de sexo e razão de dependência ao serem comparados com os das demais propriedades. Por exemplo, a razão de sexo dessas propriedades com africanos nos plantéis é de 260, índice mais elevado que o das propriedades formadas por crioulos. Esse indicador é importante uma vez que comprova a hipótese de que a população africana era composta, em sua maioria, por homens, o que determina razões de sexo mais altas. Estudos recentes relacionam essa característica como sendo resultado de estratégias quanto à oferta de braços por parte dos países africanos, que reteriam a principal fonte de mão-de-obra escrava, representada pelas mulheres114.
A distribuição das propriedades com africanos em seus plantéis, levando-se em conta o tamanho dos plantéis, o número de propriedades, a idade média da escravaria e a razão de sexo, apresenta a seguinte configuração:
114
Herbert Klein em seu trabalho sobre a escravidão africana na América Latina e no Caribe entende que
“o equilíbrio entre os sexos dos africanos embarcados era determinado mais pelas condições africanas de oferta que pela demanda americana. (...) As mulheres africanas, tanto as livres quanto as escravas, eram muito procuradas localmente – e esta contrademanda explica por que um número menor de mulheres ingressava no tráfico atlântico de escravos. Em algumas sociedades africanas as mulheres tinham um alto valor por serem o meio de se adquirir status de parentesco e família”. KLEIN, Herbert. “Escravidão africana: América Latina e Caribe”. Tradução de José Eduardo de Mendonça. São Paulo,
Ed. Brasiliense, 1987, p. 166. Já Manolo Florentino estudando sobre o tráfico de escravos para o Rio de Janeiro, demonstra que o fator empresa era determinante na demografia do tráfico isto porque ao analisar os inventários post mortem no meio rural do Rio de Janeiro entre os anos de 1790 e 1835 “constata-se
que os homens africanos tendiam a ser de 9% a 25% mais caros do que as africanas (...) isso significa que as empresas escravistas se beneficiavam dos baixos preços pagos pelos africanos, o que as permitia centrar suas estratégias de reprodução econômica no encurtamento do intervalo entre o dispêndio da compra do escravo e sua amortização”. FLORENTINO, Manolo. “Em costas negras: uma história do
tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e XIX”. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 60.
Quadro 4. Algumas características dos plantéis com africanos – Guarapuava 1835.
Tamanho do Plantel Número de
Propriedades Idade Média do Plantel Razão de Sexo 1 a 4 6 18 300 5 a 9 1 23 200 10 + - - Total 7 20 260
Fonte: Listas Nominativas de Habitantes – Guarapuava 1835. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Verifica-se a predominância dos plantéis menores para as propriedades que possuíam escravos de origem africana, pois, das sete propriedades, seis possuíam entre 1 a 4 escravos e apenas uma apresenta posse acima de cinco escravos.
A idade média dos escravos mostra uma população muito jovem, o que é normal para uma população que se concentrava numa idade altamente produtiva face às estratégias de seus proprietários com relação às atividades econômicas.
Entretanto, existem diferenças quanto à idade média dos escravos quando verificamos o tamanho dos plantéis, pois aqueles com 1 a 4 escravos aparecem com idades mais jovens do que aquele com tamanho maior. Isso talvez seja explicado pela idade de dois escravos africanos neste plantel, Francisco, com 37 anos, e Maria, com 31 anos, que tornam a idade média desse plantel mais avançada do que a dos demais.
A razão de sexo apresentada pela população escrava desses plantéis se apresenta bastante elevada, característica predominante das populações formadas por africanos. É importante lembrarmos que nesses plantéis também havia população crioula, porém, se a retirarmos da análise e considerarmos apenas os africanos, a razão de sexo é de 1.100, visto que, dos 12 escravos africanos, apenas 1 era do sexo feminino. Encontramos apenas duas propriedades que possuíam somente africanos em seu plantel, cada qual com apenas um cativo.
Das 30 propriedades com cativos que aparecem na lista de 1835, 29 possuíam escravos crioulos em seus plantéis, confirmando, assim, a tendência de participação majoritária dessa população nas propriedades. A razão de sexo apresentada por sua população crioula é muito inferior àquela apresentada pela população africana, mas, no total de sua população, a razão é de 118.
Se separarmos a população por faixas etárias, encontram-se os seguintes valores para cada uma delas: de 0 a 14 o valor é de 243, elevado, se considerarmos mais uma vez que tradicionalmente esse indicador para a faixa dos infantes tendia para o
equilíbrio entre os sexos; para a faixa etária de 15 a 39, o número é 100, ou seja, havia um total equilíbrio entre os sexos, seguindo os estudos já produzidos no Paraná; na faixa a partir de 40 anos, optamos por aglutinar todas as idades, pois a amostra é muito pequena para que obtenhamos uma análise mais acurada dos dados. A razão de sexo a partir dessa faixa é de 20, portanto, considerando as faixas etárias mais idosas, as mulheres tinham maioria nos plantéis.
Pela pirâmide etária da população crioula e africana, podemos tirar algumas conclusões quanto às características de sua população.
Gráfico 23: Pirâmide Etária - Crioulos - 1835
-12 -9 -6 -3 0 3 6 9 12 0-4 anos 5-9 anos 10-14 anos 15-19 anos 20-24 anos 25-29 anos 30-34 anos 35-39 anos 40-44 anos 45-49 anos 50-54 anos 55-59 anos 60 + homens mulheres
Fonte: Listas Nominativas de Habitantes – Guarapuava 1835. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Gráfico 24: Pirâmide Etária - Africanos - 1835
-8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 0-4 anos 5-9 anos 10-14 anos 15-19 anos 20-24 anos 25-29 anos 30-34 anos 35-39 anos 40-44 anos 45-49 anos 50-54 anos 55-59 anos 60 +
africanos homens africanos mulheres
Fonte: Listas Nominativas de Habitantes – Guarapuava 1835. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Gráfico 25: Pirâmide Etária - Plantel Crioulos - 1840 -20 -15 -10 -5 0 5 10 15 20 0-4 anos 5-9 anos 10-14 anos 15-19 anos 20-24 anos 25-29 anos 30-34 anos 35-39 anos 40-44 anos 45-49 anos 50-54 anos 55-59 anos 60 + homens mulheres
Fonte: Listas Nominativas de Habitantes – Guarapuava 1840. Museu do Tropeiro em Castro, PR.
Gráfico 26: Pirâmide Etária - Plantel Africanos - 1840
-3,5 -2,5 -1,5 -0,5 0,5 1,5 2,5 3,5 0-4 anos 5-9 anos 10-14 anos 15-19 anos 20-24 anos 25-29 anos 30-34 anos 35-39 anos 40-44 anos 45-49 anos 50-54 anos 55-59 anos 60 + homens mulheres Fonte: Listas Nominativas de Habitantes – Guarapuava 1840. Museu do Tropeiro em Castro, PR.
Quanto à população crioula, observa-se que sua base é mais alargada do que a base da população africana, pelo menos para o ano de 1835. Ao mesmo tempo, há forte incremento na faixa etária de 15 a 19 tanto para crioulos como para africanos, confirmando a tendência já levantada anteriormente de fortes migrações ocorrendo na população escrava entre a lista de 1828 e de 1835.
A população africana se concentra na faixa etária de 15 a 24 e seu plantel é formado apenas por homens. Apesar de a amostra ser pequena, não deixa de ser um indicador importante quanto às suas características demográficas, uma vez que esse era o padrão predominante no tráfico de escravos.
Com relação à população crioula, identificamos também forte preponderância na faixa etária de 15 a 29, cuja população representa 51% de sua população total, com total equilíbrio entre os sexos, pois sua razão é 100. Entretanto, é importante tecermos alguns comentários sobre essa faixa etária, pois, além de ser a faixa com a maior concentração de escravos e com forte influência das migrações de seus proprietários, tem a peculiaridade de possuir um plantel predominantemente feminino, apresentando razão de sexo de 50. Talvez tenhamos aqui possíveis variáveis que possam explicar ou mesmo nos ajudar a entender um pouco mais as possibilidades de escravos constituírem família. Pela pirâmide etária da população crioula, observa-se também a intensa participação dos infantes em seus plantéis. Essa faixa representa 34% de sua população, o que indica possibilidades quanto ao crescimento endógeno, fortalecendo a hipótese de que a família escrava poderia estar presente nas estratégias tanto dos proprietários como para os escravos crioulos. Entretanto, considerando a pirâmide exclusivamente, não se pode falar sobre reprodução endógena das escravarias em Guarapuava, apesar da alta razão criança/mulher e da alta participação de crioulos na população.
Assim, a proporção de homens entre os africanos era muito mais alta que a vigente nos barcos negreiros e entre os africanos de populações escravas plantacionistas.115 Mesmo considerando que são poucos os africanos em Guarapuava, isso tudo é importante, haja vista que mostra o quanto os senhores locais estavam voltados para fazer com que suas escravarias crescessem rapidamente, mas só quanto ao número de homens. Isso tudo indicando a lógica de fronteira.
Na lista de 1840, a classificação referente à origem dos escravos não é completa. Os registros classificam apenas os escravos de origem africana novos nos plantéis, isto
115
Ao estudar a demografia do tráfico, Manolo Florentino chegou a uma proporção por volta de 3 homens para cada mulher para os cativos desembarcados no porto do Rio de Janeiro. O autor descreve que “Os Cativos recém-desembarcados eram definitivamente marcados por um enorme desequilíbrio
sexual e etário: cerca de 3,2 homens para cada mulher, proporção que, contados somente os adultos, chegava a 3,4/1”. FLORENTINO, Manolo. “Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre
a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e XIX”. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 59. A proporção de homens e mulheres cativas para os engenhos e fazendas de cana na Bahia, no período 1710 e 1827 foi de aproximadamente 2,6 e 1,3 respectivamente. SCHWARTZ, Stuart B. “Segredos internos:
engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835”. Tradução de Laura Teixeira Motta, São Paulo,
Cia das Letras, 1988. p. 287.
é, não registram a origem daqueles escravos que já haviam sido listados em 1835. Os novos africanos são seis, no total, os quais, somados aos escravos já existentes em 1835, totalizam doze escravos. Isso significa que, do total de escravos registrados, 12% eram africanos – número inferior em termos relativos àquele apresentado em 1835, entretanto, em termos absolutos, ele se mantém.
Esses escravos estão distribuídos por sete propriedades, sendo que três (as de José Siqueira Cortes, de Manoel Mendes de Araújo e de Jacó Dias de Siqueira) já possuíam escravos em 1835, inclusive africanos; uma (a de Joaquim Batista dos Santos) possuía escravos apenas no registro de 1828; uma (a de Elias José do Espírito Santo), que já possuía escravos em 1835, todos crioulos, adquire dois escravos africanos no período; uma outra (a de Silvério Antonio de Oliveira) também adquire dois escravos africanos no período e, finalmente, a última (de Domingos Floriano Machado) recebe dois escravos, sendo um deles de origem africana, que migram para Guarapuava com seu proprietário.
Esses resultados mostram que as propriedades, em sua maioria, já estavam fixadas em Guarapuava antes de 1840. Também mostram que, dos doze escravos africanos registrados, cinco já estavam nas propriedades na lista de 1835; seis são novas aquisições e um é resultado de migração. Ao avaliarmos o tamanho das propriedades com escravos africanos, encontramos apenas uma com o total de seis escravos no plantel, sendo que, destes, quatro eram africanos e dois eram crioulos.As demais propriedades são compostas por plantel de 1 a 4 escravos.
A maioria da população é composta por homens. Entretanto, sua configuração se altera em relação à apresentada pelos dados de 1835, pois há um incremento importante de mulheres africanas nos plantéis – como descrito acima com relação às características das propriedades, dos cinco escravos que permanecem nas propriedades, quatro são do sexo masculino e um do sexo feminino; das seis novas aquisições, duas são do sexo masculino e quatro do sexo feminino e, finalmente, há um escravo do sexo masculino que migrou com o proprietário. Não sabemos do paradeiro de cinco escravos africanos registrados em 1835, pois não aparecem mais na lista de 1840. Portanto, a razão de sexo da população escrava africana se reduz para 140, bem diferente daquela registrada em 1835.
Na propriedade com seis escravos, a razão de sexo é de 200, enquanto que a razão de sexo dos plantéis com 1 a 4 escravos é de 100. No total, os plantéis com africanos possuíam razão de sexo de 122. Como avaliamos um pequeno número de
propriedades, podemos estar enfrentando algumas dificuldades com relação a alguma configuração padrão tanto dos escravos como das propriedades, mas as configurações aqui apresentadas não deixam de ser uma tendência a ser analisada em função das possibilidades, em face das dificuldades do mercado de escravos bem como de algum tipo de estratégia futura de crescimento natural da escravaria
Com relação à população crioula de Guarapuava, das 26 propriedades registradas com escravos, apenas uma não possuía crioulos no plantel, a propriedade de Silvério Antonio de Oliveira, que tinha duas escravas de origem africana. A razão de sexo do plantel crioulo é de 183, mais elevado, portanto, do que a registrada para o plantel formado por africanos, o que é interessante e curioso, dadas as características de cada população116.
Ao analisarmos por faixas etárias, vamos encontrar as seguintes razões de sexo: 142 para a faixa etária de 0 a 14; 165 para a faixa etária de 15 a 39 e 75 para a faixa etária a partir de 40 anos.
A partir das análises realizadas na estrutura etária da população escrava, observamos as modificações que estavam ocorrendo dentro dos plantéis, as quais alteravam o indicador de razão de sexo, visto que a faixa etária de 15 a 39 passa a ter mais homens do que mulheres em relação à lista 1835.
A pirâmide etária dos plantéis de crioulos e africanos nos ajuda a compreender um pouco mais as características de cada população. A base da pirâmide é mais larga para a população crioula, apesar de pequenas alterações com relação à população africana, visto que encontramos nela dois escravos registrados como infantes e sem
116
Diversos são os estudos que demonstram que a razão de sexo da população escrava africana era maior do que da população de crioulos. Gorender mostra que em Pernambuco a partir dos Censos dos anos de 1829 e 1842, segundo Figueira de Mello, a razão de sexo dos africanos foi de 162 e 156 respectivamente, enquanto que esse indicador para os crioulos foi de 110. GORENDER, Jacob. “O escravismo colonial”. 6ª edição. São Paulo, Editora Ática, 1992, p. 337. A razão de sexo para os engenhos e as fazendas de cana na Bahia, conforme estudos de Schwartz, apresentou indicador de 257 e 126 respectivamente para os escravos de origem africana e de 123 e 126 para os escravos crioulos. SCHWARTZ, Stuart B. “Segredos
internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835”. Tradução de Laura Teixeira Motta,
São Paulo, Cia das Letras, 1988. p. 287. Florentino e Góes ao estudarem sobre as famílias escravas no Rio de Janeiro no período 1790 e 1850, e com base nos inventários post mortem, demonstra que a taxa de masculinidade entre os anos de 1826/1830 foi de 65,8% para aqueles plantéis de 1 a 9 escravos, enquanto que a taxa para os crioulos foi de 57,1%. FLORENTINO, Manolo & GÓES, José Roberto. “A paz das
senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico, Rio de Janeiro 1790-1850”. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1997, p. 66. Carlos Lima ao pesquisar sobre as razões de masculinidade entre os escravos de artesãos na cidade do Rio de Janeiro no período 1797 a 1845 foi muito mais elevada para os africanos do que para os crioulos. LIMA, Carlos A Medeiros. “Escravidão e famílias livres: o caso dos artesãos na
cidade do Rio de Janeiro, 1797-1845”. Cadernos do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em História
referência à origem de seus pais, logo, não sabemos se eram africanos ou não. De qualquer forma, a possibilidade de que tenham sido comprados no mercado é bastante reduzida, visto que o tráfico comercializava poucos infantes.
Apesar do pequeno incremento de crianças africanas nos plantéis, a faixa etária de 0 a 14 apresenta a predominância da população crioula, com maioria masculina.
Ao analisarmos os dois períodos, verificamos que a faixa etária de 15 a 19, que era predominante em 1835, com 21%, da população crioula, reduz sua participação tanto em termos absolutos como relativos. A faixa etária que passa a predominar é a de 20 a 24, com 28% da população crioula. Para o plantel de africanos, essa faixa etária também é a predominante.
Entre a população crioula, continua a preponderância da faixa etária de 15 a 29, com 52% de sua população. A razão de sexo é de 168, portanto, diferente daquela que ocorre em 1835, demonstrando que não era padrão o equilíbrio entre os sexos nessa população, muito menos na faixa etária considerada produtiva. Se verificarmos as outras faixas etárias consideradas como padrão metodológico, ou seja, as faixas de 0 a 14, de