PARTE I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Capítulo 3 - LEXICOGRAFIA: A CIÊNCIA DE ORGANIZAR E APRESENTAR O LÉXICO
3.2. A Lexicografia Bilíngue: colocando léxicos em contato
3.2.1 Origem e classificação geral dos dicionários
De acordo com Béjoint (2016, p. 29), a origem dos dicionários remonta ao ano de 3300 a.C., com as tabuletas ou tabuinhas nas quais os sumérios gravavam listas lexicais de diversos tipos: listas de palavras usadas em textos antigos, coleções de
75 Dictionary look-ups are usually prompted when language users are confronted with a deficit of some kind in
their own lexical knowledge of a language or languages. This deficit may pertain to any of the grammatical features of a lexical item in one language or to the relationship between two or more languages, no original.
palavras da língua corrente, nomes de coisas. Havia listas que descreviam o mundo e listas que descreviam a própria linguagem. Podiam ser organizadas por temas ou de acordo com o modo como eram escritas ou pronunciadas e podiam ser de ordem mais prática ou mais científica, descritivas ou prescritivas.
Segundo a cronologia mostrada por Welker (2004, p. 56), o primeiro “protodicionário” foi monolíngue, seguido por tabuletas bilíngues do sumério para o eblaíta e após para o acadiano, para o hurite e o ugarítico, a partir de 2400 a.C.
Conforme Biderman (1984, p. 2) “a verdadeira lexicografia [...] só se vai iniciar nos tempos modernos”, porém é relevante notar que as bases mais importantes da lexicografia estavam lançadas desde essa época: as listas eram abrangentes no sentido de registrar e categorizar as palavras segundo o tempo (caráter diacrônico ou sincrônico), descrever e nomear o mundo e os objetos e a própria língua. Também as noções de organização por temas (onomasiológica) ou por modo de escrita (semasiológica), estavam igualmente presentes. Do mesmo modo, os rudimentos das indicações do tipo de língua registrada podem ser percebidos: a inclusão de palavras científicas ou de ordem prática. E por último, a condição descritiva ou prescritiva dos dicionários. Relevante também é a observação de Boisson, Kirtchuk e Béjoint [(1991, p. 262-264)i apud76 Welker 2004, p. 61], de que a Lexicografia, na civilização mesopotâmica, parecia ser uma obsessão e ocupar uma grande parte da atividade intelectual, por causa do trabalho de aprendizagem necessário nas escolas dos escribas. Tais informações são relevantes pois se pode observar a importância tanto da tradução quanto da função de aprendizagem envolvidas nas questões de paleolexicografia. Tanto a tradução quanto o aprendizado são fatores relevantes na metodologia lexicográfica e se conservam até os dias atuais, especialmente se considerarmos a importância da Lexicografia Bilíngue para um mundo cada vez mais globalizado, que necessita de traduções em volumes cada vez maiores e, ao mesmo tempo, a contínua demanda de informações lexicográficas voltadas para os aprendizes de idiomas estrangeiros.
Nesta seção não será apresentada uma visão abrangente e pormenorizada sobre a história geral da Lexicografia. Serão mencionadas, contudo, algumas obras relevantes para a área relacionada a esta pesquisa, a Lexicografia Bilíngue
português. Welker (2004, p. 56) apresenta uma tabela na qual constam diversos dicionários, entre os quais destaca-se, após ter mencionado as origens dos protodicionários, o primeiro dicionário bilíngue da Europa medieval, do latim para o inglês, em torno do ano 1000 e elaborado por Aelfric, um monge beneditino inglês (c.955-c.1020) cujo trabalho inclui uma gramática anglo-saxã para ensinar latim, um glossário do latim para o anglo-saxão, com aproximadamente 1300 palavras, e um colloquium, uma espécie de manual de conversação em latim (Rosa, 1997, p. 121).
O primeiro dicionário bilíngue envolvendo a língua portuguesa, mais especificamente do latim para o português, surge no início do século XV. Trata-se de uma listagem quase alfabética de 3000 verbos latinos, transcritos no início do século XIV e acrescidos das formas equivalentes do português, por outra mão e já no século XV.
Em relação à língua italiana, o primeiro dicionário bilíngue foi o Introito e porta (Hüllen, 1999), um dicionário de 1477 entre a língua alemã e a italiana. Foi elaborado por Adam von Rottweil, e era ordenado tematicamente, isto é, tinha concepção onomasiológica. Este dicionário surgiu em Veneza em 1477. O nome que constava no colofão era “meistro Adamo de Roduila”, identificado como um tipógrafo alemão que vivia na região de Abruzzi, na Itália. Não se tem certeza se ele era o tipógrafo ou o autor do dicionário, mas é geralmente considerado como tendo sido os dois. O livro não tem um título propriamente dito, mas começa com a frase “Introito e porta de quele che voleno imparare e comprendere todescho o latino, cioè taliano” (Entrada e porta daqueles que querem aprender e compreender alemão ou latim, isto é, italiano). Na introdução se lê que “este é um vocabulário utilíssimo para ensinar como ler para aqueles que o quiserem, sem ter que ir à escola, como trabalhadores e mulheres”. Também há a informação de que o dicionário serve para aqueles que querem negociar em vários países. O título e a introdução apontam elementos interessantes: o aspecto prático, o público-alvo, e o fato de a obra servir tanto para aqueles que querem aprender alemão quanto para os que querem aprender italiano.
Cronologicamente, conforme Welker (2004, p. 57) seguiram-se vários dicionários multilíngues envolvendo o italiano e, posteriormente, o português: um dicionário pentalíngue em 1531, de Philipp Ulhart, do latim para o italiano, francês, espanhol e alemão; um dicionário hexalíngue, de antes de 1541, de autoria
desconhecida, do latim para o francês, espanhol, italiano, inglês e alemão e outro octalíngue, o primeiro do latim para o português, e também para o francês, holandês, alemão, espanhol, italiano e inglês, de 1546, de autoria desconhecida. Em 1567, de autoria de Hadrianus Junius, foi elaborado um thesaurus temático de 85 capítulos, que foi editado 40 vezes em 150 anos e tinha o latim como língua-fonte e o grego, alemão, flamengo, francês, italiano, espanhol e inglês como línguas-alvo.
Em relação aos monolíngues relevantes para esta pesquisa, surge em 1612 o primeiro dicionário nacional compilado por um grupo de acadêmicos, justamente o de língua italiana, denominado de Vocabolario degli Accademici della Crusca77, uma instituição cultural fundada em Florença em 1583. Não foi o primeiro monolíngue (o Tesoro de la lengua castellana o española, de 1611, o antecedeu por um ano), mas foi o primeiro a ser elaborado por acadêmicos, os quais tinham como objetivo “mostrar e conservar a beleza do florentino do século XIV”78. Os trabalhos começaram em torno de 1590, com 35 acadêmicos que analisavam as obras de Dante (Divina Commedia), de Boccaccio (Decameron) e Petrarca (Canzoniere). Além de textos florentinos do século XIV, foram analisadas também as obras de Lorenzo de’ Medici, Berni, Machiavelli e Salviati, e autores não florentinos, como Bembo e Ariosto. É relevante observar a atenção aos métodos lexicográficos adotados, como o tratamento do vocabulário de uso que não apresentava abonações antigas e o modo de inserir a etimologia. As questões e decisões mais problemáticas eram enviadas aos “Deputati per il Vocabolario”, uma comissão de quatro acadêmicos, composta por Carlo Macinghi, Francesco Marinozzi, Piero Segni e Francesco Sanleoni, os quais foram nomeados em 1597 para apressar e facilitar o trabalho de redação do Vocabolario. Como o objetivo era valorizar a língua florentina, na elaboração do dicionário escolheu-se citar primeiramente os escritores florentinos do século XIV, com uma abonação retirada da prosa ou da poesia; daqueles que não eram florentinos foram escolhidas as palavras mais bonitas e de origem florentina e, por último, dos autores contemporâneos da época foram escolhidos os vocábulos em uso. O Vocabolario foi impresso em Veneza em 1612 e despertou grande interesse por ocasião da sua publicação. Como ocorre com muitas obras lexicográficas, foi duramente criticado, especialmente pela escolha explícita de propor um vocabulário florentino arcaizante
77 As edições do Vocabolario della Crusca podem ser consultadas aqui: https://goo.gl/xjBmRg Último acesso em 23/05/2018.
que, entretanto, figurou como modelo da boa língua italiana durante séculos. Apesar das críticas, o Vocabolario della Crusca se tornou um modelo de método lexicográfico para a elaboração de dicionários monolíngues de outros idiomas.
O primeiro dicionário do português foi o de Rafael Bluteau, elaborado de 1712 a 1728. Chamado de Vocabulario Portuguez e Latino, situava-se entre os bilíngues renascentistas e os monolíngues modernos e, com seus dez volumes, recolhia “um abundantíssimo corpus lexical português, com uma pormenorizada explicitação referencial e semântica” (Verdelho, 2000, p. 7). Segundo Verdelho, a informação sobre o latim nessa obra é muito resumida e que, portanto, ela pode ser considerada, no seu conjunto, como um dicionário monolíngue. Rafael Bluteau nasceu em Londres, sua família era francesa e sua formação, francesa e italiana. Foi enviado para Portugal aos 30 anos como clérigo, e lá aprendeu rapidamente a língua portuguesa. Seu Vocabulario, assim como o Vocabolario della Crusca, privilegiava as variedades linguísticas consideradas nobres, abonadas pelos bons escritores e pelo prestígio da Corte (Verdelho, 2000, p. 7). No Suplemento, há “uma síntese crítica da teorização lexicográfica do tempo” e no dicionário constam “todas as terminologias técnicas e um leque amplo de variedades regionais cronológicas e sócio-profissionais” (Verdelho, 2007, p. 7).
Na seção 3.3. será tratada, de maneira mais aprofundada, a cronologia e a história dos dicionários bilíngues envolvendo a língua italiana e a portuguesa, desde os primeiros dicionários elaborados em Portugal ou para a variante lusitana do português, até os dicionários mais atuais, que compõem o corpus documental desta pesquisa.