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2. A JUSTIÇA ELEITORAL BRASILEIRA

2.1. Origem e desenvolvimento da Justiça Eleitoral

Vários fatores conjugaram a criação da Justiça Eleitoral Brasileira em 1932. O pano de fundo dessas alterações foi a Revolução de 1930. Segundo Gomes (1998, p. 49-54), o distanciamento da Constituição de 1891 da realidade política e social vigente naqueles tempos, o incômodo causado pela política do café-com-leite no revezamento dos Presidentes, o desejo de legitimidade constitucional e o respeito à autonomia dos Estados foram alguns dos fatores que fizeram eclodir a Revolução de 1930 e puseram fim ao período chamado de República Velha. A crise final desse período ocorreu quando o Presidente Washington Luís indicou outro paulista, Julio Prestes, como candidato a sua sucessão, quebrando o revezamento com Minas Gerais.

Para Sadek (1995, p. 20), até a década de 1930 as eleições demonstravam, na prática, bem mais o predomínio do poder central do que a vontade do eleitorado, como sugeria a propaganda do estado democrático; não que esta situação tenha sido plenamente resolvida após esse período, mas os frutos colhidos após a Revolução de 1930 têm rendido melhorias gradativas ao povo brasileiro. O combate ao coronelismo, expressão que sintetiza os principais fenômenos do período, que nada mais era que o compromisso entre o poder privado decadente e um poder público que progressivamente se fortalecia, foi um dos primeiros resultados da Revolução.

De acordo com a autora (idem, p. 2):

O movimento de 1930 pretendeu alterar esta realidade, introduzindo importantes modificações tanto no sistema eleitoral como no grau de poder das oligarquias regionais. Esse movimento tinha como algumas de suas bandeiras, o aprimoramento da competitividade política e a lisura das eleições.

Ilustração 1 - Governo Revolucionário de 1930 / Getúlio Vargas assina seu primeiro decreto

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Ainda para Sadek (1995, p. 30):

“[...] o voto secreto e a criação da Justiça Eleitoral, em 1932, representaram um importante passo na tentativa de reduzir a violência nas disputas eleitorais e de atingir a verdade eleitoral”. O Código Eleitoral de 24 de fevereiro de 1932 criou a Justiça Eleitoral, transformando-a no ramo do Judiciário responsável pelo planejamento, execução e julgamento dos conflitos de natureza eleitoral. Para muitos autores, a idéia de posicionar a Justiça Eleitoral acima dos interesses partidários teve como finalidade aperfeiçoar e moralizar o sistema eleitoral brasileiro. O código Eleitoral de 1932 retirou das assembléias legislativas as atribuições concernentes ao julgamento da validade das eleições e a proclamação dos eleitos, passando-as à Justiça Eleitoral, fato que pôs fim à política dos governadores e às oligarquias que dominavam por meio do processo de verificação dos poderes.

Esse Código instituiu mudanças importantes e significativas, como o voto secreto, o voto feminino e o sistema de representação proporcional; regulou em todo o País o alistamento eleitoral e as eleições federais, estaduais e municipais. Pela primeira vez, a legislação eleitoral fez referência aos partidos, admitida a candidatura avulsa, a votação em dois turnos simultâneos e em cédula única, encimada ou não de legenda.

Ilustração 2 - Maria Luiza Bittencourt / Deputada Estadual eleita pela Bahia, em 1933.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Ilustração 3 - Carlota Pereira Queiroz / 1ª Deputada do Brasil eleita por São Paulo.

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O Código, apesar de haver pretensamente instituído a representação proporcional, na realidade estabeleceu um sistema misto, que funcionava de modo proporcional no primeiro turno e majoritário no segundo. Mesmo com algumas incongruências, não se pode dizer que era um código conservador. Ele previa inclusive o uso da máquina de votar, quase como um presságio do que viria a se tornar o sistema eleitoral no futuro.

A Constituição de 1934 abre a segunda República no Brasil, sustentando o federalismo e mesmo alargando a competência privativa da União, com reserva para os Estados membros da competência residual. Essa Constituição confirmou o compromisso estabelecido pelo Código Eleitoral de 1932 com a criação da Justiça Eleitoral, mantendo-a e confirmando a sua competência privativa para o processo de eleições federais, estaduais e municipais.

O texto de 1934 confirmou a organização da Justiça Eleitoral nos moldes da Justiça Comum, ou seja, com um Tribunal Superior, na capital da República, e Tribunais Regionais, nas capitais dos estados. Além da criação dos tribunais, impôs em cada circunscrição judiciária um juiz eleitoral de primeira instância. A Justiça Eleitoral passou também a possuir um ministério público próprio, exercido por um procurador-geral perante o Tribunal Superior, e procuradores regionais frente a cada um dos vinte e dois Tribunais estaduais existentes na época.

Em novembro de 1937, Getúlio Vargas dissolve o Congresso e suspende as liberdades políticas no País. A Constituição outorgada por Vargas extingue a Justiça Eleitoral e atribui à União, privativamente, o poder de legislar sobre matéria eleitoral da União, dos Estados e dos Municípios.

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O Estado Novo, segundo alguns autores, foi um período de trevas para o desenvolvimento do processo eleitoral brasileiro, um retrocesso; aliás, um golpe fatal nos ideais alvejados pela Revolução de 1930, que proporcionou a ascensão desse Governo ao Poder. O Estado Novo põe fim ao curtíssimo período denominado de primeira fase da Justiça Eleitoral – 1932 a 1937.

Ainda sob o domínio do Estado Novo, a luta pela redemocratização do País conseguiu uma importante vitória com a publicação da Lei Constitucional n 9, de 28 de fevereiro de 1945, que deu nova redação a vários artigos da constituição vigente, dentre eles os que estabeleciam eleições. O seu artigo 4 estipulava que dentro de noventa dias seriam fixadas as datas das eleições e dispunha ao final: “[...] considerar-se-ão eleitos e habilitados a exercer o mandato, independente de outro reconhecimento, os cidadãos diplomados pelos órgãos incumbidos de apurar as eleições”. Eram os primeiros indícios de que a Justiça Eleitoral retornaria para restabelecer a ordem.

A Justiça Eleitoral ressurge com o Decreto-Lei n 7.586, de 28 de maio de 1945. Juntamente com ela foram criados o Tribunal Superior Eleitoral, um Tribunal Regional Eleitoral em cada um dos Estados e no Distrito Federal e juízes nas comarcas.

Ilustração 4 - Hermenegil Rodrigues de Barros / 1 Presidente do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral - 1932 a 1937.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Ilustração 5 - José Linhares / Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, quando da reinstalação da Justiça Eleitoral, em 1945.

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Com a instalação do Tribunal Superior Eleitoral em 28 de maio de 1945, a sua Resolução n 1, publicada em 7 de junho de 1945, fixou o dia 2 de julho para o início do alistamento eleitoral e providenciou sobre a rápida instalação dos Tribunais Regionais.

Com a queda do Estado Novo, veio a Lei Constitucional n 13, em 12 de novembro de 1945, dispondo sobre os poderes constituintes do Parlamento que seria eleito em 2 de dezembro daquele ano. Esse foi um período de grande importância e intensa atividade para a Justiça Eleitoral, que contribui de forma eficaz para o restabelecimento do sistema democrático, com base em eleições livres e no voto secreto.

Mas, ainda de acordo com Sadek (1995) e Gomes (1998), apesar dessa louvável contribuição e com a redemocratização do País as manipulações continuaram a existir. O grande casuísmo foi a eleição dos membros da Assembléia Constituinte de 1946 ter sido realizada conforme Decreto-Lei baixado pela ditadura. A Lei Agamenon garantia que o mínimo de deputados não podia ser superior a trinta e cinco nem inferior a cinco por estado, e as cadeiras não preenchidas com a aplicação do quociente eleitoral partidário, isto é, as sobras, eram atribuídas ao partido que obtivesse o maior número de votos.

Essa manipulação favorecia os maiores partidos, principalmente o PSD. E a conseqüência disso foi que, apesar de as eleições terem sido realizadas após a deposição de Getúlio Vargas, a ditadura do Estado Novo manteve o controle da Assembléia Constituinte, conservando as desigualdades do sistema de reformulação proporcional, sub-representando os estados mais populosos, mais desenvolvidos e mais industrializados, e super-representando os estados menos populosos, menos desenvolvidos e menos industrializados. Como conseqüência desse sistema, o voto de um cidadão dos estados mais populosos tinha menor valor que o de um cidadão dos estados menos populosos.

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Mesmo com os diversos avanços obtidos a partir de 1932, algumas restrições ao direito de voto foram mantidas; os analfabetos e praças continuaram impedidos de votar. Essa situação perdurou sem grandes alterações até o ano de 1964, quando a crise, que teve inicio em 1961, com a renúncia do Presidente Jânio Quadros, atingiu seu ápice, culminando no Golpe Militar.

Na ditadura militar, as liberdades democráticas foram reduzidas e as eleições diretas para Presidente da República, governadores e prefeitos das capitais, passaram a ocorrer de forma indireta por meio do Legislativo. A outra alteração importante ocorrida nesse período foi a instalação do sistema bipartidário, em contraposição ao sistema pluripartidário vigente até então.

Embora redigida em pleno período de exceção, a Lei n 4.737, de 15 de julho de 1965, que instituiu o Código Eleitoral vigente, trouxe inúmeras inovações. O Código de 1965 contém as regras básicas permanentes para todas as eleições, mas originalmente também manteve algumas restrições e estabeleceu outras. Não podiam se alistar como eleitores os analfabetos, os que não sabiam exprimir-se na língua nacional e os que estivessem privados, temporária ou definitivamente, dos direitos políticos. Esse Código preservou as atribuições e funções da Justiça Eleitoral.

Ainda sob o regime militar, acontece, no final da década de 1970, o início do processo de retorno ao estado democrático, como o retorno do sistema pluripartidarista em 1979. Em 1982, a realização de eleições diretas para governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores marca o início de um novo período político.

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A Constituição promulgada em 1988, além de restabelecer as eleições diretas para Presidente da República, apresentou inovações no sistema eleitoral, com a instituição de dois turnos de votação para o cargo de Presidente da República e Governador, e o voto facultativo para os analfabetos e os maiores de dezesseis anos.

Como se pode observar, a Justiça Eleitoral, que surgiu em 1932, com propostas modestas, mas significativas para o período,

e que ressurgiu após golpe do Estado Novo, vem aperfeiçoando a cada dia o processo eleitoral no Brasil. Apesar dos períodos de suspensão ou redução das liberdades democráticas, a história do processo eleitoral brasileiro registra significativos avanços, tais como a instituição da cédula única; e da folha de votação; a admissão do acesso de candidatos ao rádio e à televisão; a realização do recadastramento geral de eleitores e a unificação dos cadastros; a ampliação da participação da população no processo eleitoral, que saltou de 15%, em 1932, para 65%, em 2002; e a introdução do uso da informática como ferramenta de apoio às atividades eleitorais.

O respeito e a confiança na Justiça Eleitoral pela sociedade brasileira e na comunidade internacional são elementos considerados polêmicos. Diversos artigos, entrevistas e reportagens questionam a confiabilidade do sistema eletrônico de votação desenvolvido pela Justiça Eleitoral e alguns especialistas contestam as afirmações da Justiça Eleitoral quanto à segurança do sistema de processamento e votação. No entanto, as dúvidas e críticas encontradas nos diversos periódicos eletrônicos e convencionais pontuam-se exclusivamente na confiabilidade e segurança do sistema eletrônico de votação. A instituição Justiça Eleitoral, ao que parece, goza de elevado prestígio na sociedade. Segundo pesquisa nacional realizada pelo

Instituto Nexus, a Justiça Eleitoral foi apontada como a instituição mais confiável do Brasil.

Ilustração 6 - Renata Cristina Rabelo Gomes / Primeiro eleitor

de 16 anos a votar nas eleições de 1994.

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De acordo com notícia veiculada no dia 20 de dezembro de 2005, em diversos periódicos eletrônicos e convencionais, dentre eles a Revista Eletrônica Par@ná Eleitoral, a pesquisa realizada pelo Instituto Nexus apresentou os seguintes resultados:

[...] No quesito credibilidade das instituições públicas, a análise dos resultados mostra que a crise política enfrentada pelo país provocou uma queda média de 35% na credibilidade das dez instituições avaliadas em relação à pesquisa realizada em 2004. A Justiça eleitoral foi a que menos perdeu (-16%) e continua liderando o ranking com 47,6% de aprovação, seguida pelo Ministério Público (33,2%), Poder Judiciário (29,8%), Governo Estadual (24%), Governo Federal (18,4%) e Prefeituras (12,1%). Câmaras de Vereadores (-8,4%), Senado Federal (-9,2%), Câmaras Legislativas (-11.5%) e Câmara dos Deputados (-18,3%) apresentaram dados negativos. Os números são resultados da soma dos que confiam totalmente com os que confiam em parte, menos os que não confiam...

Realizada entre os dias 29 de outubro e 11 de novembro, a pesquisa abrangeu 2024 eleitores maiores de 16 anos em todos os estados das regiões Norte (200 entrevistas), Nordeste (500), Centro-Oeste (200), Sul (324) e Sudeste (800 entrevistas), sendo 51,5% do sexo feminino e 48,5% do sexo masculino. A margem de erro da pesquisa para o conjunto do país é de 2,2%.

Do ponto de vista da Ciência da Informação, o aperfeiçoamento do processo eleitoral produziu diversos efeitos nos órgãos da Justiça Eleitoral, dentre eles a construção de uma estrutura organizacional complexa para dar cabo de tão variadas atividades. À medida que foi aperfeiçoando e desenvolvendo novas atividades, a Justiça Eleitoral transformou sua estrutura em uma poderosa máquina geradora e acumuladora de informações e documentos.

Para compreender melhor esse desenvolvimento, passamos a seguir à análise das funções, das atividades e da estrutura da Justiça Eleitoral.

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