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Origem e discurso dos gurus da auto-ajuda

1.3. A auto-ajuda nas novas estratégias de gestão do trabalho

1.3.2. Origem e discurso dos gurus da auto-ajuda

De certa forma a auto-ajuda mobiliza um público que se tornou tão importante quanto os que consomem esses materiais: aqueles que escrevem os livros de auto-ajuda. Pensando em intervir de alguma forma nas relações de trabalho, vários personagens entraram em cena procurando assumir no palco o papel de um guru da auto-ajuda.Empresários como José Augusto Minarelli, Luiz Marins, médicos como Roberto Shinyashiki, Lair Ribeiro, aventureiros do mar a exemplo de Amyr Klink38 e da Família Schürmann e desportistas como Nuno Cobra, são apresentados na mídia como exemplos de superação de obstáculos e como pessoas que têm muito a dizer sobre como lidar com os desafios, ainda que falem de um outro espaço que não o mundo do trabalho. Esses profissionais apóiam-se no sucesso de suas empresas ou conquistas como exemplo de realização pessoal e profissional, usando-o para estimular os 'colaboradores', ou vender sua fórmula vencedora às empresas, valendo-se de um conjunto de características, das quais a oratória é uma das que mais chama a atenção do público quando se trata de palestras, e uma linguagem palatável quando se trata das publicações.

Assim, as palestras motivacionais são utilizadas mais correntemente pelos empresários39, que se colocam à disposição como ‘recursos’ para motivar e elevar a auto-estima dos indivíduos, tendo como premissa básica que o investimento em cursos e palestras se reverte em aumento da produtividade, mas principalmente que se está investimento na ‘qualificação’ de seus trabalhadores. A hipótese é a de que a relação seria proporcional: aumentando a motivação e a auto-estima, os índices de rendimento no trabalho aumentariam na mesma proporção. Nesse sentido, profissionais como os psicólogos exercem um importante papel nas organizações na medida em que identificam as necessidades dos trabalhadores, buscando nos gurus da auto-ajuda mediações para supri-las.

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Amyr Klink destaca que “a solução da maior parte dos problemas está em nós. Às vezes nós mesmos é que fazemos o inferno, não necessariamente os outros” (Almeida, 2000, p. 54), o que reporta à visão sartriana de que “o inferno são os outros”. Vale frisar que a observação de Klink pode ser considerada mera repetição de um conjunto de frases que os gurus vêm popularizando em seminários, palestras e mesmo em livros de auto-ajuda.

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Não é à toa que a maioria das empresas de renome no mercado nacional e internacional convida para abertura de seminários e congressos empresários bem-sucedidos para proferir palestras ou aulas inaugurais. Hoje, o atual presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é um exemplo de palestrante requisitado. No IX Seminário de Recursos Humanos, realizado em Florianópolis, falou para um público de 2.200 pessoas, entre administradores e educadores, sobre o seu desempenho frente ao BanKBoston e outras empresas pelas quais passou, mostrando como foi possível aumentar o montante financeiro do banco.

Além da ênfase nas necessidades humanas, principalmente aquelas identificadas pela Escola de Relações Humanas, em especial as de Maslow e McGregor – necessidades de manutenção do emprego, de participação e identificação com um grupo, de reconhecimento pelo outro, de auto-realização e de auto-gestão –, as transformações no mundo do trabalho também servem de argumento discursivo na literatura de auto-ajuda. São esses argumentos que ajudam a construir “o trabalhador que coopera e se ajuda”, o novo ‘colaborador’ da gestão do trabalho flexível e que será discutido mais enfaticamente no terceiro capítulo.

No discurso da auto-ajuda é preconizado um universo de hipercompetição, de riscos e desafios. Pode-se dizer que correr riscos não era considerada uma atitude saudável no mundo dos negócios, entretanto essa visão mudou a partir da expansão da literatura de auto-ajuda nesse setor. Os próprios empresários analisavam o risco com certa desconfiança, atribuindo a culpa por tal situação à falta de planejamento ou a planejamentos mal-elaborados. Em tempos de flexibilidade, o que era considerado aspecto negativo passou a ser visto como positivo. É este o universo que tem sido explorado pelos gurus em seus discursos. Aspectos negativos convertem-se em positivos, riscos em oportunidades e desafios em estímulo para o desenvolvimento. A ênfase nesses aspectos tem por objetivo preparar o trabalhador para lidar com a mudança, a aceitá-la com naturalidade, assim como perder o emprego precisa ser considerado natural ou, como frisa um dos gurus em uma de suas palestras, “a empresa está lhe dando a oportunidade de conseguir um emprego melhor. Essa é a sua chance”. É isso que lembra Minarelli (1995, p. 22) quando ressalta que “acabou o paternalismo empresarial. Antes, a empresa cuidava de sua carreira. Isso podia ser prático, econômico e confortável, mas você não era livre nem era o principal beneficiário do seu esforço e progresso”. Também Tom Morris (2000, p. 55) em um artigo à revista Você s.a apela à epopéia inglesa Beowulf40 para retratar a imagem de que se está vivendo um tempo de mudança e que o homem cotidianamente trava lutas ferrenhas, tal qual o guerreiro

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Beowulf, um guerreiro que “ao ouvir sobre o infortúnio que se abatia na Dinamarca, zarpou da Finlândia com destino à Dinamarca com firme propósito de libertar a terra do monstro Grendel. Junto com ele iam 14 guerreiros para colaborar. Assim que chegaram à costa da Dinamarca foram recebidos pelos servidores do rei. Beowulf foi levado ao castelo, sendo recebido com honras e teve um banquete em sua homenagem. Hrothgar contou a Beowulf todas as desgraças que Grendel os faziam passar: campos incendiados e destruídos, colheita aniquilada, até seu castelo era presa da cólera do ser; muitos haviam desaparecido sem deixar rastro. Era provável que o mostro os levasse à sua toca para lá devorá-los. Quando Beowulf perguntou qual o aspecto do monstro, Hrothgar [rei da Dinamarca] não teve como explicar, porque todos os que o tinham visto, estavam mortos ou desaparecidos”. Texto disponível em: <http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/beowulf.html>. Acesso em: 24 nov. 2004, 13:00h.

Beowulf, que lutou com um dragão mágico e “encontrou a morte porque não foi capaz de mudar quando era necessário”. A analogia de Morris dá margem para que se questione a motivação humana acerca de suas condições para manter-se no mercado de trabalho como se o indivíduo vivesse desconectado de seu contexto histórico-social. Morris não comenta que o herói venceu várias batalhas contra o dragão, mas nessas circunstâncias estava acompanhado por um exército de homens. Reza a lenda que passados alguns anos, quando o guerreiro, então um ancião, voltou a lutar contra o dragão que destruía sua aldeia foi vencido porque não possuía mais o vigor de um guerreiro e principalmente porque lutara sozinho.

Assim, o discurso dos gurus da auto-ajuda contribui para que o indivíduo absorva argumentos, em geral descontextualizados, convidando-o a conhecer um ambiente de mudança por meio de práticas arrojadas que demonstrem um perfil individual capaz de lidar com o inusitado, o perigo. É isso que esta pedagogia e seus ‘professores’ pretendem promover: a internalização e a aceitação de que ao se “vencer os adversários” demonstra-se sinal de crescimento e aperfeiçoamento pessoal. Os supostos inimigos não são monstros mágicos, à semelhança de Beowulf, mas em geral trabalhadores nas mesmas condições e que se tornam, por força da concorrência, os piores inimigos.

A linguagem da auto-ajuda pode ser caracterizada pelo apelo a uma mudança que é pessoal e por cultuar que o único modelo de conduta possível é aquele em que o indivíduo torna- se um guerreiro. Ao associar a necessidade de mudanças ao comportamento pessoal está-se promovendo uma mudança no comportamento do indivíduo na sua relação de trabalho. Shinyashiki (2001, p. 24), por exemplo, lança algumas proposições como “A competição não é uma realidade dos atletas, mas de todos nós” ou “O esforço não é suficiente. Apenas os melhores atingirão suas metas” (p. 24). O ambiente no qual os gurus se movimentam é complexo, instável e voltado para o descarte humano. Pelo discurso da auto-ajuda busca-se fazer com que o trabalhador use outras lentes e perceba na relação de trabalho mais os aspectos positivos, incorporando os negativos à sua responsabilidade. Os gurus da auto-ajuda são táticos, estratégicos e são, em grande parte, formadores de opinião.