Tendo feito na última seção uma análise a respeito da maneira como missionários podem ser classificados e estudados dentro da teoria de Relações Internacionais, nesta seção o presente estudo se concentra na análise do poder de influência dos missionários. Partindo da premissa de que os missionários não teriam acesso aos mesmos mecanismos de poder dos Estados, essa seção parte da
seguinte pergunta: qual autoridade os missionários poderiam exercer sobre os Estados, levando-os a defender questões de seu interesse?
Complementando a meu ver a análise de atores transnacionais da seção anterior temos a aproximação teórica de John Boli e George M. Thomas a respeito de INGOs1 que parece oferecer respostas para a pergunta do parágrafo anterior.
Assim como os atores transnacionais (e os TNAs ideológicos/culturais na taxonomia de Hill, mais especificamente), os INGOs na análise de Boli e Thomas não possuem a autoridade racional-legal dos Estados, baseada em recursos de poder convencionais, ou os recursos econômicos de corporações globais. Estes atores dispõem na verdade de recursos limitados para atingir seus objetivos: estabelecer padrões de comportamento, regular princípios e representar indivíduos diante dos Estados e outros atores internacionais.2
Conforme dito anteriormente, Estados possuem autoridade racional-legal. Os INGOs na análise de Boli e Thomas, assim como os TNAs ideológicos/culturais na análise de Hill, possuem por sua vez um tipo especial de autoridade, baseada em outro tipo de racionalidade, uma autoridade racional voluntarista.3 A atuação desses atores pode exercer, através dessa autoridade, profunda influência sobre Estados e outros atores, no limite cooperando na construção de uma cultura global.4
Em acordo com a análise da seção anterior (e com a taxonomia de Hill, mais especificamente), Boli e Thomas consideram INGOs um tipo de ator mais difícil de caracterizar do que os Estados, Organizações Internacionais (IGOs) ou Corporações Transnacionais (TNCs). No entanto, uma característica comum pode ser considerada: estes atores possuem como objetivo principal promulgar, codificar, modificar e propagar estruturas e princípios culturais globais.5
Praticamente todos os INGOs se originam e sobrevivem através de ação voluntária de indivíduos que os compõem. Possuem objetivos explícitos e racionalizados, e operam debaixo de normas rígidas de associação e execução de decisões. Buscam, de maneira geral, estender alguma forma de “progresso” ao
1 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture: International
Nongovernmental Organizations Since 1875. Stanford: Stanford University Press, 1999.
2 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 14.
3 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 14.
4 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 15.
5 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 19.
mundo. Para atingir seus objetivos enfatizam a comunicação, conhecimento, valores consensuais, execução de decisões e comprometimento individual.
De acordo com Boli e Thomas, INGOs refletem cinco temas culturais fundamentais.1 Em outras palavras, INGOS são a personificação desses temas:2 (i) universalismo – ou seja, qualquer pessoa interessada é convidada a tornar-se membro, sem acepção; (ii) individualismo – seus membros, em geral, são indivíduos; (iii) autoridade racional voluntarista – uma autoridade informal, cultural, e não organizacional, quer dizer, indivíduos responsáveis agindo coletivamente, sem submeter-se a autoridades externas ou requerê-las; (iv) progresso – não somente crescimento econômico, mas também satisfação pessoal, segurança coletiva e justiça; (v) cidadania global – a produção conjunta dos quatro princípios anteriores: “everyone has the right and the obligation to participate in the grand human project”.3
Em outro texto George M. Thomas define com maior clareza a cultura global e a autoridade racional voluntarista. Sobre o segundo conceito ele escreve:
Rational-legal authority monopolized by nation-states and their associated institutions are well analyzed; there is, however, an additional type of authority: rational-moral or rational-voluntaristic (Boli and Thomas 1999). Rational-voluntaristic authority morally obligates individuals and their associations to implement institutionalized principles: it is immoral to leave a people or type of person out of history, or to preclude their development, or to exclude them from education. Rational-voluntarism, moreover, endows individuals and their associations with agency to identify inequalities and
problems and to take collective action to solve them.4
Já o conceito de cultura global pode ser observado no trecho a seguir:
The increasingly dense set of actors, actions, and institutions carry underlying assumptions about reality, some implicit and taken-for granted and others contested and thereby explicit. They thereby constitute a world culture which depicts one humanity in one place and with one time (Robertson 1992) and includes themes of universalism, individualism, and rationalistic progress (Meyer et al. 1997). In a sense, then, there is a
world proto-state that is cultural and organizationally decentralized (Steinmetz 1999).5
A descentralização da autoridade global entre os Estados ao mesmo tempo facilita a organização transnacional - uma vez que barreiras centralizadas contra o
1 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 35.
2 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 45.
3 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. pp. 35-40.
4 THOMAS, George M. “Religions in Global Civil Society” In: Sociology of Religion: A
Quarterly Review. Association for the Sociology of Religion , 2001.
5 THOMAS, George M. “Religions in Global Civil Society”
voluntarismo racional são fracas – e força organizações transnacionais a focar sua atenção nos Estados. INGOs tornam-se grupos de interesse junto de legisladores (lobby) e através do discurso procuram convencer o Estado a agir dentro de seus princípios. Em certos setores e dentro de determinados assuntos, INGOs claramente obtém sucesso nisto, convencendo os Estados a usar seu aparelho burocrático e sua autoridade a favor de si e de seus princípios e regras.1
Colocando de maneira simples, ONGs internacionais e atores transnacionais em geral procuram disseminar determinados valores, e para isso sua estratégia consiste em persuadir os Estados. Ou, menos comumente ao que parece, entrar em choque com eles.
Em seu texto “Development INGOs” (uma aplicação da aproximação teórica de Boli e Thomas), Colette Chabbott faz uma análise sobre como INGOs preocupados com desenvolvimento desempenham um papel em institucionalizar uma cultura global sobre desenvolvimento internacional e sobre ampliar o exercício de autoridade voluntarista racional.2 Segundo a autora, INGOs cooperaram de forma decisiva no desenvolvimento através dos últimos séculos de uma noção de desenvolvimento baseada em direitos humanos aliada a progresso científico. Esse movimento pode ser observado em ascensão durante o período de Guerra Fria.3
O conceito de desenvolvimento internacional (International Development) se caracteriza pela noção de que países mais desenvolvidos devem ajudar os países mais pobres a se desenvolver. Esta regra segundo Chabbott foi instituída a partir de dois fatores: a legitimação do Estado Ativista e o crescimento do internacionalismo. Ambos os fatores tiveram influência decisiva da atuação de INGOs.4
O poder desempenhado por INGOs desenvolvimentistas pode ser exemplificado pela soma dos recursos financeiros por elas movimentado. De acordo com os dados analisados por Chabbott, durante a década de 1990 INGOs desenvolvimentistas movimentaram mais dinheiro do que a ONU em prol de programas desenvolvimentistas. Chabbott tem em seu artigo o objetivo de
1 BOLI, John & THOMAS, George M. Constructing World Culture. p. 46.
2 Os conceitos utilizados por Chabbott são os mesmos de Boli e Thomas. CHABBOTT, Colette.
“Development INGOs”, p. 222.
3 CHABBOTT, Colette. “Development INGOs”, pp. 222-223.
4 CHABBOTT, Colette. “Development INGOs”, p. 224.
compreender de que forma atores sem os mesmos recursos de poder que os Estados ou que organizações internacionais como a ONU podem exercer tal influência, a ponto de criarem uma cultura global de desenvolvimento.1 Para isso, a autora faz uma retrospectiva histórica sobre o desenvolvimento deste tipo de ator internacional.
De acordo com a retrospectiva histórica de Chabbott, anteriormente à Primeira Guerra Mundial, as INGOs anteciparam-se aos conceitos modernos de “desenvolvimento internacional” e “assistência para desenvolvimento internacional”. As INGOs desse período pré-primeira guerra eram de modo geral orientadas por programas de ação baseados em princípios morais e religiosos (vale dizer, cristãos e protestantes). Exemplos primitivos desse tipo de organização citados por Chabbott incluem os Irmãos Morávios (de 1734) e a
British and Foreign Anti-Slavery Society (1839):
One of the oldest INGOs that does not mention religion in its name was nonetheless crated by individuals, many of them Quakers, motivated by a common moral framework. The British and Foreign Anti-Slavery Society (founded 1839), now known as Anti- Slavery International (ASI), is the oldest INGO to focus on a specialized humanitarian
task.2
E assim foi até a Primeira Guerra Mundial. As INGOs desse período eram em geral total ou parcialmente cristãs (um exemplo de INGO parcialmente cristã em sua fundação citado por Chabbott é a Cruz Vermelha). Somente após esse período cresce a participação de filantropos e instituições não-missionárias.3
Embora Chabbott não coloque de forma explícita, fica claro em sua análise que grupos missionários protestantes foram ao menos em parte responsáveis pelo surgimento dos conceitos de universalismo, individualismo, autoridade racional voluntarista, progresso e cidadania global identificados por Boli e Thomas.4 Ao longo do século 20, os valores desenvolvimentistas desses grupos tornaram-se uma cultura global.5
1 CHABBOTT, Colette. “Development INGOs”, p. 226.
2 CHABBOTT, Colette. “Development INGOs”, p. 228. Williams Gonçalves considera esta a
INGO mais antiga, contrariando a classificação feita por Chabbott a respeito dos Irmãos Morávios. GONÇALVES, Williams. Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. p. 22.
3 CHABBOTT, Colette. “Development INGOs”, p. 228-229.
4 CHABBOTT, Colette. “Development INGOs”, p. 228.
5 Escrevendo com Jackie Smith, Kathryn Sikkink faz algumas observações relevantes a respeito do
papel de grupos religiosos em transformações sociais transnacionais. As autoras classificam a Anti-Slavery Society for the Protection of Human Rights (1839) como a mais antiga ONG
Concluindo essa seção, pode-se afirmar que atores transnacionais podem exercer importante influência sobre outros atores nos níveis transnacional e internacional. Parece estar empiricamente embasado que grupos religiosos agindo através de fronteiras estatais são capazes de, a médio e longo prazo, moldar até mesmo o comportamento dos Estados, ao menos em relação a assuntos específicos. E fazem isso com base em um poder de características distintas daquele possuído prioritariamente por Estados.
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