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C 3 Fonte: O autor (2018).

6.3 ORIGEM DA MOP NO SERC

Esta seção discutirá a origem da MOP coletada no médio e baixo estuário do SERC por Moura e Yogui (2014). A discussão abordará os seguintes tópicos: 1) variação mareal dos parâmetros físico-químicos da coluna de água; 2) variação mareal das assinaturas elementar e isotópica da MOP; e 3) origem e mistura conservativa da MOP.

6.3.1 Variação mareal dos parâmetros físico-químicos

A altura de maré foi 1,13 e 1,78 m no médio estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia, respectivamente. No estuário do Rio Capibaribe (área ≈ 10 km2) (Schettini et al., 2016a), essas alturas indicam um influxo de água do mar equivalente a 11 x 106 e 18 x 106 m3 durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. No baixo estuário, a altura de maré foi 0,84 e 1,69 m durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. Esses valores indicam um influxo de água do mar na Bacia do Pina (área ≈ 2 km2;Feitosa et al. (1999)) equivalente a 1,7 x 106 e 3,4 x 106 m3 nas marés de quadratura e sizígia, respectivamente.

A coluna de água das estações inseridas no médio e baixo estuário apresentou características físico-químicas distintas ao longo do dia e dos ciclos de maré. A coluna de água foi mais rasa no médio estuário relativamente ao baixo estuário. No médio estuário, a temperatura da coluna de água aumentou ao longo do dia, porém apresentou diferentes perfis de variação com a profundidade durante os ciclos de maré (Figura 14). Durante o ciclo de maré de quadratura, a coluna de água se apresentou termicamente homogênea no começo da manhã e no final do dia (Figura 14a). Entre as 11 h e 17 h, a coluna de água apresentou estratificação térmica, com maior estratificação durante a estofa de baixamar (Figura 14a). Em contraste, durante o ciclo de maré de sizígia a coluna de água se apresentou termicamente homogênea ao longo de todo o dia (Figura 14b). No baixo estuário, a coluna de água apresentou estratificação térmica em ambos os ciclos de maré, com água superficial aquecida (> 28 ºC) e água de fundo mais fria (< 28 ºC) (Figura 14c, d). A profundidade da camada de água aquecida foi maior durante maré de quadratura relativamente à maré de sizígia (Figura 14c, d).

A salinidade da água variou consideravelmente ao longo do ciclo de maré, com maiores valores na preamar e na camada de fundo (Figura 15). No médio estuário, a estratificação vertical de sal na coluna de água foi máxima na estofa de baixamar da maré de quadratura (Figura 15a). Em contraste, a coluna de água no médio estuário não apresentou estratificação

vertical durante maré de sizígia (Figura 15b). No baixo estuário, a coluna de água apresentou estratificação vertical de sal menos intensa relativamente ao observado no médio estuário. Na maré de quadratura, a camada de água superficial apresentou maior variação na salinidade ao longo do ciclo de maré, enquanto a camada abaixo dessa profundidade exibiu valores praticamente constantes (salinidade > 30) (Figura 15c). Na maré de sizígia, uma estratificação vertical de salinidade foi observada apenas durante a estofa de baixamar e maré enchente (Figura 15d).

Figura 14 – Seção temporal de temperatura (ºC) da coluna de água no médio e baixo estuário do Sistema Estuarino do Rio Capibaribe durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

Figura 15 – Seção temporal de salinidade na coluna de água no médio e baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

A concentração de MPS no médio estuário variou de 8,90 a 37,2 mg L-1 (média: 18,4 mg L-1) e de 8,50 a 94,3 mg L-1 (média: 33,4 mg L-1) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. Na maré de quadratura, a concentração de MPS na camada superficial (≤ 1 m) foi máxima na estofa de baixamar e reduziu com a profundidade (Figura 16a). Em contraste, na maré de sizígia a concentração de MPS foi máxima na camada de fundo durante a maré enchente (Figura 16b). No baixo estuário, a concentração de MPS variou de 0,23 a 53,0 mg L-1 (média: 15,8 mg L-1) e de 6,09 a 191 mg L-1 (média: 24,7 mg L-1) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. De forma geral, a concentração de MPS aumentou da superfície para o fundo em ambos os ciclos de maré (Figura 16). Na maré de quadratura, concentrações elevadas de MPS foram observadas nas camadas superficial e de fundo na estofa de baixamar (Figura 16c). Na maré de sizígia, concentrações elevadas foram observadas na camada de fundo durante a maré enchente (Figura 16d).

O MPS é uma mistura de partículas biogênicas e minerais, cujo transporte, deposição e ressuspensão ocorrem em função das características das partículas (e.g., tamanho) e da coluna de água (e.g., velocidade das correntes) (Bianchi, 2007; Legendre, 1999). Na camada fótica, fontes biogênicas (e.g., fitoplâncton) contribuem para a composição do MPS e são reguladas por fatores como turbidez da água, concentração de nutrientes e insolação (Colijn, 1982). No médio e baixo estuário do SERC, variações na concentração de MPS na água superficial provavelmente estão relacionados à dinâmica de crescimento populacional do fitoplâncton. Na camada de fundo, a concentração de MPS reflete a deposição de partículas da superfície e a ressuspensão de partículas finas do sedimento. No médio estuário, esses dois fatores parecem influenciar a concentração de MPS na camada de fundo (Figura 16a, b). Em contraste, no baixo estuário a ressuspensão de sedimento parece ser o processo predominante visto que a concentração superficial manteve-se baixa ao longo dos ciclos de maré (Figura 16c, d).

Figura 16 – Seção temporal de concentração (mg L-1) de material particulado em suspensão no médio e baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

A contribuição de produtores fitoplanctônicos foi avaliada através da concentração de clorofila. No médio estuário, a concentração de clorofila variou de 12,5 a 128 µg L-1 (média: 54,1 µg L-1) e de 9,69 a 84,5 µg L-1 (média: 34,5 µg L-1) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. Na coluna de água dessa região, a concentração de clorofila foi maior que 20 µg L-1 durante 79% e 68% do período de amostragem dos ciclos de maré de quadratura e sizígia, respectivamente (Figura 17a,b). Essas concentrações elevadas refletem uma condição eutrófica no médio estuário (USEPA, 2005). Em contraste, a concentração de clorofila variou de 1,18 a 24,2 µg L-1 (média: 3,76 µg L-1) e de 1,80 a 23,5 µg L-1 (média: 5,39 µg L-1) no baixo estuário durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. Em apenas 1% do período de amostragem dos ciclos de maré de quadratura e sizígia, a concentração de clorofila nessa região foi maior que 20 µg L-1 (Figura 17c,d). Dessa forma, o baixo estuário não reflete as condições eutróficas encontradas à montante.

No médio estuário, a concentração de clorofila aumentou durante a maré vazante e foi máxima na camada de água superficial durante a maré de quadratura (Figura 18a). Na estofa de baixamar e início da maré enchente, a concentração de clorofila apresentou os maiores valores (Figura 18a). Isso reflete o aporte fluvial de nutrientes, que favorece a produção primária no estuário (Flores-Montes, dados não publicados). A coluna de água apresentou um gradiente de concentração de clorofila, com valores reduzindo com a profundidade (Figura 18a). Esse gradiente reflete a estratificação da coluna de água em virtude dos processos de mistura condicionados pela velocidade das correntes. Na maré de sizígia, a concentração de clorofila foi reduzida na maior parte do ciclo de maré e a coluna de água não apresentou um acentuado gradiente de variação da concentração com a profundidade (Figura 18b). Apenas no início da noite, concentrações elevadas de clorofila foram observadas na coluna de água e refletem o transporte de biomassa fitoplanctônica produzida durante o dia à montante do ponto de amostragem (Figura 18b). Na camada de fundo, a concentração de clorofila foi relativamente baixa durante a maré enchente. Isso indica que a concentração máxima de MPS observada nessa região (ver Figura 16b) decorre da ressuspensão de sedimentos. No baixo estuário, a concentração de clorofila foi elevada (> 6 µg L-1) apenas na camada superficial, com valores menores que 4 µg L-1 predominando na camada de fundo (Figura 18c, d). Na maré de quadratura, as concentrações máximas foram observadas na maré enchente (Figura 18c). Na maré de sizígia, as concentrações máximas foram observadas na maré enchente e na preamar (Figura 18d).

Figura 17 – Curva do percentual de excedância (frequência acumulada) para a concentração de clorofila (µg L-1) na coluna de água no médio (a, b) e baixo estuário (c, d)

durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia, respectivamente. As linhas tracejadas e o ponto em destaque representam a concentração acima da qual se observa uma condição eutrófica (> 20 µg L-1) e a proporção (%) de tempo em que essa condição foi observada.

Fonte: O autor (2018). 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110 120 130 140 0% 25% 50% 75% 100% [C lo ro fi la , µ g L -1] Percentual de Excedância a Condição eutrófica 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 0% 25% 50% 75% 100% Percentual de Excedância b Condição eutrófica 0 5 10 15 20 25 0% 25% 50% 75% 100% [C lo ro fi la , µ g L -1] c 0 5 10 15 20 25 0% 25% 50% 75% 100% d

Figura 18 – Seção temporal da concentração de clorofila (µg L-1) no médio e baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

A concentração de oxigênio dissolvido (OD) na coluna de água no médio estuário variou de 0,04 a 10,1 mg L-1 (média: 2,89 mg L-1) e de 0,06 a 6,52 mg L-1 (média: 2,01 mg L-

1) nas marés de quadratura e sizígia, respectivamente. Nessa região, a concentração de OD foi

menor que 2,8 mg L-1 durante 55% e 65% do período de amostragem dos ciclos de maré de quadratura e sizígia, respectivamente (Figura 19a,b). Isso indica condição prolongada de hipoxia ([OD] < 2,8 mg L-1; Diaz et al. (1995)) na coluna de água no médio estuário. Em contraste, no baixo estuário a concentração de OD não foi menor que 2,8 mg L-1 durante a maré de quadratura (Figura 19c). Na maré de sizígia, durante 16% do período de amostragem a concentração foi menor que 2,8 mg L-1 (Figura 19d).

A concentração de OD reduziu com a profundidade no médio e baixo estuário (Figura 20). No médio estuário, a camada de fundo apresentou condição quase anóxica (OD < 0,50 mg L-1) durante 50% do período de amostragem de ambos os ciclos de maré. Na maré de quadratura, a concentração de OD na camada superficial foi elevada (> 4 mg L-1) durante a maré enchente (Figura 20a) e coincidiu com o período de máxima concentração de clorofila nessa região (ver Figura 18a). Isso ocorre porque o oxigênio molecular é um produto da fotossíntese dos produtores fitoplanctônicos. Na maré de sizígia, a concentração de OD aumentou em toda a coluna de água durante a maré enchente (Figura 20b). Esse aumento está relacionado ao influxo de água do mar com concentrações relativamente elevadas de oxigênio dissolvido. Na maré vazante, a concentração de OD reduziu em toda a coluna de água (Figura 20b), refletindo o aporte fluvial de MO. No baixo estuário, a concentração de OD na camada superficial aumentou durante a maré vazante e foi máxima na maré enchente, coincidindo com o período de máxima produção primária (Figura 20c). Na maré de sizígia, a concentração de OD aumentou em toda a coluna de água durante a maré enchente e alcançou valores máximos na camada superficial logo após a preamar. Essa oxigenação decorreu do aumento na produção primária planctônica e do influxo de água do mar.

Figura 19 – Curva do percentual de excedância (frequência acumulada) para a concentração de oxigênio dissolvido (OD, mg L-1) na coluna de água no médio (a, b) e baixo

estuário (c, d) durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia, respectivamente. As linhas tracejadas e o ponto em destaque representam a concentração abaixo da qual se observa uma condição de hipoxia (< 2,8 mg L-1) e a proporção (%) de tempo em que essa condição foi observada.

Fonte: O autor (2018). 0 2 4 6 8 10 12 14 0% 25% 50% 75% 100% [O D , m g L -1] c 0 2 4 6 8 10 12 14 0% 25% 50% 75% 100% d Hipoxia 0 2 4 6 8 10 0% 25% 50% 75% 100% [O D , m g L -1] Percentual de Excedância a Hipoxia 0 2 4 6 8 10 0% 25% 50% 75% 100% Percentual de Excedância b Hipoxia

Figura 20 – Seção temporal da concentração de oxigênio dissolvido (mg L-1) no médio e

baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

6.3.2 Variação mareal das assinaturas elementar e isotópica

A MOP no médio e baixo estuário do SERC foi caracterizada pelos percentuais elementares de NT e CO e pelas razões COP:Clorofila, (C:N)a, δ15N e δ13C. No médio

estuário (n = 36), os percentuais de NT e CO variaram de 1,38 a 4,27% (média: 2,74%) e de 7,81 a 23,2% (média: 15,6%), respectivamente, durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. No baixo estuário (n = 36), os percentuais de NT e CO variaram de 0,27 a 2,42% (média: 0,93%) e de 2,22 a 14,2% (média: 5,51%), respectivamente, durante ambos os ciclos de maré. O percentual de NT esteve significativamente relacionado ao percentual de CO (F1,34

> 2000, p < 0,0001) nas camadas superficial (NT (%) = 0,07 +0,17*CO (%), R2 = 0,98) e de fundo (NT (%) = -0,14 +0,18*CO (%), R2 = 0,99), com interceptos aproximadamente iguais a zero. Dessa forma, espécies químicas com NO predominaram na composição de NT em ambas as camadas de água. A ANOVA bifatorial indicou que os percentuais elementares foram significativamente maiores no médio estuário relativamente ao baixo estuário e na camada de fundo relativamente à camada superficial (Tabela 19). Os maiores percentuais elementares no médio estuário refletem a condição eutrófica dessa região e sugerem MO predominantemente proveniente de fontes biológicas e/ou esgoto doméstico, que exibem percentuais elevados de MO (Hedges et al., 2002; Hedges e Mann, 1979). Em contraste, detritos parecem ser a fonte predominante de MO no baixo estuário e na camada de fundo.

No médio estuário, a razão COP:Clorofila variou de 49,7 a 118 (média: 79,3) e de 72,1 a 193 (média: 114) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. Em ambos os ciclos de maré, não foram observados gradientes de variação da razão COP:Clorofila com a profundidade (Figura 21a, b). Na maré de quadratura, a razão COP:Clorofila reduziu durante a maré vazante, com razões menores que 70 na estofa de baixamar (Figura 21a). Na maré enchente, a razão COP:Clorofila aumentou novamente, porém não se observaram razões COP:Clorofila maiores que 120 (Figura 21a). Isso sugere que em toda a coluna de água no médio estuário a MOP é composta predominantemente de MO proveniente de produtores fitoplanctônicos (Wang et al., 2011). No baixo estuário, a razão COP:Clorofila aumentou de forma homogênea com a profundidade ao longo de ambos os ciclos de maré (Figura 21c, d). Na camada de fundo, a razão COP:Clorofila foi maior que 300, indicando predominância de detritos na MOP (Rezende et al., 2010). Na maré de quadratura, a razão COP:Clorofila na camada de fundo aumentou durante a maré vazante (Figura 21c). Na maré de sizígia, razões elevadas foram observadas na maré enchente e vazante (Figura 21d). Isso está relacionado à ressupensão de sedimentos (ver Figura 16d), que contém predominantemente MO degradada.

Tabela 19 – Resultados das análises de variância bifatorial (localização (L) - médio e baixo estuário - e profundidade (P) - superfície e fundo) para os percentuais de nitrogênio total (NT) e carbono orgânico (CO),

razão entre as concentrações de CO particulado e clorofila (COP:Clorofila), razão (C:N)a, δ15N e δ13C do

material particulado em suspensão. A coluna “Maior” indica o local onde se encontrou a média

significativamente mais alta. Legenda: gl = grau de liberdade; QM = quadrado médio; F = resultado do teste F; p = probabilidade associada ao valor F, com nível de significância (α) igual a 0,05; ME = médio estuário; BE =

baixo estuário; Sup = superfície; F = fundo.

Marcador Fator gl QM F (p) Maior média

NT (%) Localização 1 59,1 157 (< 0,0001) ME Profundidade 1 11,1 29,5 (< 0,0001) Sup L x P 1 2,73 7,25 (0,009) Resíduo 68 0,38 CO (%) Localização 1 1837 152 (< 0,0001) ME Profundidade 1 243 20,2 (< 0,0001) Sup L x P 1 57,1 4,74 (0,03) Resíduo 68 12,01 COP:Clorofila Localização 1 520319 119 (< 0,0001) BE Profundidade 1 468173 107 (< 0,0001) Fundo L x P 1 455042 104 (< 0,0001) Resíduo 68 4355 Razão (C:N)a Localização 1 31,7 81,7 (< 0,0001) BE Profundidade 1 51,2 132 (< 0,0001) Fundo L x P 1 43,4 112 (< 0,0001) Resíduo 68 0,39 δ15N Localização 1 515 114 (< 0,0001) BE Profundidade 1 37,5 8,31 (0,005) Fundo L x P 1 50,4 11,2 (0,001) Resíduo 68 4,51 δ13C Localização 1 187 97,7 (< 0,0001) BE Profundidade 1 15,5 8,10 (0,006) Sup L x P 1 24,0 12,5 (0,001) Resíduo 68 1,92 Fonte: O autor (2018).

Figura 21 – Seção temporal da razão entre as concentrações de carbono orgânico particulado e clorofila no médio e baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

A razão (C:N)a da MOP variou de 6,13 a 7,30 (média: 6,66) e de 5,97 a 7,36 (média:

6,68) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente, no médio estuário. No baixo estuário, essa razão variou de 5,95 a 9,79 (média: 7,66) e de 5,66 a 11,5 (média: 8,33) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. No médio estuário, observou-se um gradiente de variação da razão (C:N)a com a profundidade durante o ciclo de maré de

quadratura (Figura 22a). Esse gradiente foi mais acentuado durante a maré vazante, porém se atenuou durante a baixamar e na preamar (Figura 22a). Nesses períodos, a razão (C:N)a se

aproximou das razões reportadas para o fitoplâncton ((C:N)a = 6,6) (Middelburg e

Nieuwenhuize, 1998). Na maré de sizígia, a razão (C:N)a aumentou durante a maré enchente,

reduzindo em seguida durante a maré vazante (Figura 22b). No baixo estuário, a razão (C:N)a

da MOP nas camadas superficial e de fundo se manteve constante ao longo de ambos os ciclos de maré (Figura 22c, d). Apesar disso, observou-se uma tendência de aumento nesse marcador com a profundidade em ambos os ciclos de maré (Figura 22c, d).

O δ15N variou de -5,06 a +1,75‰ (média: -1,41‰) e de -3,11 a +1,22‰ (média: - 1,39‰) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente, no médio estuário. No baixo estuário, o δ15N variou de -4,35 a +6,90‰ (média: +2,26‰) e de +2,15 a +9,43‰ (média: +5,64‰) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. No médio estuário, não se observou gradiente de variação do δ15N com a profundidade durante maré de quadratura (Figura 23a). Apesar disso, o δ15N reduziu ao longo do dia e desse ciclo de maré (Figura 23a). Na maré de sizígia, o δ15N reduziu durante maré enchente, aumentando durante a maré vazante seguinte (Figura 23b). No baixo estuário, observou-se um gradiente de aumento do δ15N com a profundidade na baixamar da maré de quadratura e da maré de sizígia (Figura 23c, d). Na maré de sizígia, o δ15N aumentou durante maré enchente, com maiores razões observadas na camada superficial (Figura 23d). Visto que o NO predominou na composição de NT da MOP, a variação mareal do δ15N reflete a assimilação das diferentes espécies químicas de NID pelo fitoplâncton (ver seção 6.2) e o efeito dos processos diagenéticos da MOP.

Figura 22 – Seção temporal da razão (C:N)a no médio e

baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

Figura 23 – Seção temporal da razão isotópica do nitrogênio (δ15N, ‰) no médio e baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

O δ13C da MOP variou de -27,43 a -24,56‰ (média: -25,94‰) e de -29,05 a -23,34‰ (média: -26,30‰) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente, no médio estuário. No baixo estuário, o δ13C variou de -24,47 a -21,01‰ (média: -22,84‰) e de -24,94 a -18,47‰ (média: -22,94‰) durante as marés de quadratura e sizígia, respectivamente. No médio estuário, o δ13C reduziu durante a maré vazante do ciclo de quadratura (Figura 24a) e aumentou durante a maré enchente de sizígia (Figura 24b). Não se observaram gradientes de variação do δ13C com a profundidade em ambos os ciclos de maré (Figura 24a, b). No baixo estuário, um gradiente de redução do δ13C com a profundidade foi observado na baixamar da maré de quadratura (Figura 24d) e na maré enchente do ciclo de sizígia (Figura 24d).

O gráfico MDS demonstrou que as assinaturas elementar e isotópica da MOP coletada no médio e baixo estuário formam grupos distintos (Figura 25a), indicando origens diferentes da MOP. A ANOVA indicou assinaturas significativamente mais altas no baixo estuário (Tabela 19). A variação longitudinal das assinaturas reflete a mistura de MO proveniente de fontes terrestres, aquáticas e antrópicas. Esse perfil de variação é frequentemente reportado para estuários (Gearing, 2013). Nos estuários, a contribuição do aporte de MO proveniente de plantas terrestres (relativamente mais empobrecidas em 13C e menos enriquecidas em 15N) diminui em direção à foz do estuário, enquanto a contribuição do aporte marinho (relativamente mais enriquecido em 13C e 15N) aumenta. Isso faz com que as misturas de MO exibam um aumento progressivo nas assinaturas isotópicas em direção à foz. Além disso, a variação longitudinal no δ15N e no δ13C da MOP também está relacionada às modificações na assinatura isotópica do fitoplâncton. Essa modificação reflete as diferenças na assinatura isotópica das fontes de NID e CID assimilados pelo fitoplâncton (ver seção 6.2; Bouillon et al., 2011; Montoya, 2007).

O gráfico MDS também demonstrou grupos distintos para a MOP coletada nas camadas superficial e de fundo (Figura 25b). A ANOVA indicou razão (C:N)a e δ15N

significativamente mais altos na MOP coletada no fundo, enquanto o δ13C exibiu um padrão inverso (Tabela 19). Isso indica que a MOP superficial é composta predominantemente pela biomassa do fitoplâncton, enquanto a MOP de fundo é composta por detritos. Em geral, a razão (C:N)a e o δ15N são os marcadores mais sensíveis às modificações diagenéticas

(Freudenthal et al., 2001). No SERC, a razão (C:N)a e o δ15N da MOP de fundo aumentou em

média 1,68 e 1,44‰, respectivamente, em relação à MOP superficial. Em contraste, o δ13C reduziu em média 0,93‰. A interação significativa entre os fatores localização e profundidade (Tabela 19) indica que a diferença entre as assinaturas da MOP na coluna de água depende da localização no estuário. A diferença nas assinaturas da MOP superficial e de

fundo no médio estuário foi menor relativamente ao observado no baixo estuário. Isso está relacionado aos processos de mistura no médio estuário devido à menor profundidade local. Essa mistura homogeniza a MOP ao longo da coluna de água.

Figura 24 – Seção temporal da razão isotópica do carbono (δ13C, ‰) no médio e

baixo estuário durante os ciclos de maré de quadratura e sizígia. Os pontos representam as profundidades de amostragem. Fonte: O autor (2018).

Figura 25 – Gráficos MDS apresentando os grupos da matéria orgânica particulada em suspensão coletada no médio (círculos cinzas) e baixo (círculos pretos) estuário (a) bem como nas camadas superficial (círculos cinzas)

e de fundo (círculos pretos) (b).

Fonte: O autor (2018).

6.3.3 Fatores que regulam as assinaturas da MOP

A análise de fatores foi utilizada para identificar os processos que regulam a variação nas assinaturas da MOP ao longo do ciclo de maré. Nessa análise, foram incluídos os parâmetros físico-químicos e bioquímicos medidos na coluna de água (temperatura, salinidade, concentração de OD, MPS e clorofila) junto com os percentuais de NT, CO, razão (C:N)a, razão COP:Clorofila, δ15N e δ13C da MOP (Tabela 20; Figura 26). A análise de fatores

extraiu dois componentes, que explicaram 77% da variância dos dados (Tabela 20; Figura 26). O componente principal 1 (PC1) explicou 47% da variância total e exibiu cargas elevadas para as seguintes variáveis: temperatura, NT, CO, razão (C:N)a, razão COP:Clorofila e δ15N

(Tabela 20; Figura 26). O PC2 explicou 30% da variância total e exibiu cargas elevadas para a salinidade, concentração de OD, MPS, clorofila e δ13C (Tabela 20; Figura 26). As variáveis