2.2 TEORIA DO ESTADO EM FRANCISCO DE VITORIA
2.2.2 Origem do poder político
Como Aristóteles, Vitoria separa o micro do macrocosmo social. Para ele a distância entre a família e a sociedade se dá porque a primeira não pode bastar-se a si mesma141, principalmente com relação ao quesito da segurança dos membros perante outros, enquanto que a segunda sim. Aqui identifica-se um princípio daquilo que será desenvolvido mais tarde por Vitoria como direito de defesa em diferentes esferas, desde a segurança dos súditos dentro do Estado até a defesa do Estado contra inimigos externos. Logo, o poder civil terá para Vitoria “a mesma finalidade e a mesma necessidade da cidade”142, ou seja, será constituído de maneira natural para
139 De potestate civili, 4: “Además la palabra es nuncio del entendimiento y para eso sólo fue dada,
como Aristóteles dice […]”. VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones teológicas. Tradução de Teofilo Urdanoz, O. P. Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 1960, p.155.
140De potestate civili, 4: “Por lo cual Aristóteles, en el libro primero de sus Políticos, demuestra que el
hombre es naturalmente civil e social”. VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones teológicas. Tradução de Teofilo Urdanoz, O. P. Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 1960, p.155. Tendo em vista a concepção aristotélica, Bertelloni afirma que Vitoria interpreta a sociedade da seguinte forma: “[...] Vitoria considera a la república no como una suma de individuos, sino como un corpus unitario, es decir, como una totalidad integral de ciudadanos”. BERTELLONI, Francisco. Hacia la superación de la tolerância: los derechos de los índios en las relectiones de Francisco de Vitoria. In: RIVAS, R. Peretó. (Org.).Tolerancia: teoría y práctica en la Edad Media. Actas del Coloquio de Mendoza (15-18 de junio de 2011). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012, p.35.
141 Também neste ponto Vitoria está de acordo com Aristóteles e sua Política: “A sociedade que se formou da reunião de várias aldeias constitui a Cidade, que tem a faculdade de se bastar a si mesma, sendo organizada não apenas para conservar a existência, mas também para buscar o bem-estar”. ARISTÓTELES. A política. Tradução de R. L. Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.4.
142 De potestate civili, 5. Cf: VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones
governar e prover em favor de seus governados. Portanto, o teólogo justifica a necessidade da sujeição do indivíduo ao poder civil como um modo de união entre os cidadãos. Para ele, se todos os indivíduos fossem tratados de maneira igual, dentro de uma ausência de poder civil, não haveria quem se responsabilizasse pelo bem da comunidade em geral, o que acabaria por dissolver a cidade143.
Ao defender o direito natural como a base do direito civil, Vitoria retorna à conclusão pela qual iniciou a relectio e adiciona um novo elemento ao declarar categoricamente que “é provado que o poder público vem de Deus e não está contido em nenhuma condição humana nem em nenhum direito positivo”144. À primeira vista, esse trecho que pode ser confundido com a defesa de um governo teocrático, nada mais é do que a conclusão tirada na premissa de que o direito natural é superior ao direito positivo. Em outras palavras, o que Vitoria defende nessa afirmação é que como foi Deus que ordenou as coisas da forma que elas são, também foi Ele que fez os seres humanos racionais e impôs a eles a necessidade de viver em sociedade. Logo, o poder exercido dentro do poder público tem Deus como autor, e, portanto, por Deus é concedido. No entanto, o Frei Dominicano entende que os seres humanos nascem iguais, ou seja, não há superioridade entre humanos, mas da necessidade de organizarem-se em comunidade origina a autoridade alicerçada no direito natural de que alguém cumpra as funções de zelar e proteger145 os demais. Para o Frei Dominicano o poder régio é concedido por Deus, não de maneira direta, mas através das causas naturais que fazem com que os seres humanos tenham a necessidade de viver sob a condução do Estado. Existe, portanto, poder político porque Deus fez criaturas racionais (seres humanos) que necessitam de lideranças políticas para que possam desdobrar suas capacidades racionais ao máximo. O que, em termo práticos, concede ao rei o poder de legislar em favor da recta ratio e o bem comum. Assim
143 Vitoria compara a cidade com o organismo humano. Para ele, a ordenação da sociedade pelo poder civil é tão natural quanto a ordenação do corpo por aquilo que ele chama de força ordenadora (algo que hoje poderíamos comparar com as funções do cérebro), conforme De potestate civili, 5: “Así como el cuerpo del hombre no se puede conservar en su integridad si no hubiera alguna fuerza ordenadora que compusiese todos los miembros, los uno en provecho de los otros v. sobre todo, en provecho del hombre entero, así ocurriría en la ciudad si cada uno estuviese solícito de sus propias utilidades y todos descuidasen el bien público”. VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones teológicas. Tradução de Teofilo Urdanoz, O. P. Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 1960, p.157.
144 De potestate civili, 6. Cf: VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones
teológicas. Tradução de Teofilo Urdanoz, O. P. Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 1960, p.158.
145 De potestate civili, 7. Cf: VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones
sendo, a formação do Estado tem como origem e finalidade a manutenção do direito oriundo da lei natural146, o que significa que a causa final do Estado é a sua utilidade para o bem de seus cidadãos. Sendo essa a principal tese que ele desenvolve ao longo da De potestate civili.
Todo e qualquer ser humano é reconhecido por natureza como alguém amparado pelo direito natural, e, por isso, tem direito à liberdade e à segurança. Por esse motivo, o Mestre de Salamanca admite a pena de morte como meio de manter a segurança e o bem comum. De acordo com ele, os seres humanos, por direito natural, têm a prerrogativa da autodefesa em caso de necessidade. Essa autodefesa passa a ser responsabilidade do Estado uma vez que este é responsável pela ordem, a segurança e o bem-estar dos seus cidadãos. Então, somente por intermédio do poder divino ficaria então justificado que qualquer ser humano agisse em defesa de outro ser humano que estivesse sendo ameaçado, até mesmo com a morte147. Esse precedente é um dos quais, de acordo com Vitoria, é possível matar e não pecar contra o quinto mandamento. Sendo assim, fora a legítima defesa, somente ao Estado (por concessão divina) está justificado executar a morte de um ser humano em nome da defesa de seus cidadãos.
Contudo, quando Vitoria determina que o poder régio é concedido por Deus, ele defende que mesmo quando os cidadãos elegem um soberano, estes não lhes conferem poder, mas sim autoridade. Aqui apresenta-se a distinção do Frei Dominicano sobre poder e autoridade: para ele, enquanto cidadão, o ser humano tem condições apenas de autorizar, ou não, que o soberano exerça o poder; já o poder é concedido não pela autorização dos súditos, mas pela necessidade que estes súditos têm, através da lei natural, de se organizar em grupo sob a condução régia do Estado.
146 Assim como assinala Marcondes e Toledo, o ius naturale “abrange um conjunto de regras inatas na natureza humana, que permitem ao homem agir com retidão; seus preceitos advêm da razão pura, sendo universais e imutáveis no tempo e no espaço – ou da razão prática, que adapta o universal às circunstancias particulares”. MARCONDES, Marilene Paula; TOLEDO, Ferreira de. O direito romano e seu contributo para a construção da Europa. In: OLIVEIRA, Francisco de. (Org.). Gênese e a consolidação da ideia de Europa: o mundo romano. v.3. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005, p.243.
147 De potestate civili, 7. Cf: VITORIA, Francisco de. Obras de Francisco de Vitoria: relecciones
Portanto, somente Deus concede o poder, enquanto os cidadãos apenas têm condições de autorizar (através da razão e liberdade) o rei como líder civil148.