• Nenhum resultado encontrado

Origem sociofamiliar e percursos escolares

2 CONECTANDO OS FIOS DA TRAMA: EMBATE ENTRE PIONEIROS E CATÓLICOS NO CAMPO EDUCACIONAL BRASILEIRO

2.2 ESTRATÉGIAS ESCOLANOVISTAS CATÓLICAS

2.3.1 Origem sociofamiliar e percursos escolares

Everardo Adolpho Backheuser nasceu na cidade de Niterói no Estado do Rio de Janeiro, em 23 de maio de 1879 e viveu até o ano de 1951. Faleceu aos 72 anos de idade. A viúva conta que “até às vésperas do falecimento, ele leu, escreveu e meditou ainda que fosse torturado por dores reumáticas” (BACKHEUSER, 1954, p. 25)24.

O seu avô paterno, Gustavo Backheuser, comerciante e fundador do Clube Germânico de Santos, era de origem alemã enquanto que a sua avó, Leonor Catala Backheuser, era francesa. Os avós maternos eram brasileiros, Ana Gouvêa e José Feliciano de Gouvêa que era funcionário público. Os seus pais eram o santista João Carlos Backheuser, negociante educado na Alemanha, e a carioca Joaquina Eugênia de Gouveia Gonçalves.

Everardo Backheuser passou a infância e a mocidade no local em que nasceu, a Chácara Santa Rosa, a qual nas suas lembranças, “era larga e comprida. Em uma palavra, era ampla vivenda patriarcal. Legítimo solar” (BACKHEUSER, 1994, p. 16). Perdeu o pai aos dois anos de idade e foi criado pela mãe e por sua tia D. Lala a quem chamava de Tijá (Figura 2).

24 Neste livro, datilografado e não publicado, datado de 1954, a viúva Alcina Moreira de Souza conta sobre a

Figura 2 - As duas mães (Dona Quininha - à direita - e Tijá - à esquerda)

Criado num ambiente de economia e de trabalho, não tendo conhecido o pai a quem perdera com menos de dois anos, a sua infância dependera do esforço de duas mulheres: sua mãe e sua tia, a meiga Tijá. Bem pouco rendosa era a tarefa das bondosas senhoras para proporcionar ao filho e sobrinho querido conforto e abastança. A mesa da família - Deus louvado! - sempre se conservou farta, a casa - a “Chácara” - era a mesma antiga mansão paterna, ampla, clara, saudável, mas os recursos escasseavam (BACKHEUSER, 1954, p. 11).

Conta que o pai fora educado na Alemanha, e, frequentou um curso de humanidades. Muito esmerado, era entusiasta da história natural. Já com muita antecedência pensava na educação do filho, o qual havia preconcebidamente, destinado à Engenharia, uma das carreiras mais próximas das ciências puras. Não o viu se tornar engenheiro e catedrático de ciências naturais na Escola Politécnica. Sobre a mãe, conta que sorria mesmo diante de necessidades e amarguras. Com um sorriso inigualável contagiava de alegria as crianças que estudavam na escola da chácara e frequentavam a sua casa (BACKHEUSER, 1994).

A neta define Everardo Backheuser como um homem alegre e brincalhão, muito dedicado à ciência, ao saber e à cultura, sempre mergulhado nos livros e nos estudos:

[...] os olhos azuis, a pele clara, o cavanhaque branco de kaiser, o sentido do dever e o desinteresse por futilidades pertenciam à herança alemã, consolidada pelo sobrenome que ninguém sabia pronunciar e precisa ser soletrado. [...] Reconhecidamente um grande professor e uma inteligência aberta e polimorfa. (MAMBRINI, 2008, p. 29).

Backheuser cursou o primário na Chácara Santa Rosa que alojava o Colégio de D. Evelina e, mais tarde, o Colégio de F. Hermínia Ihmer. Entre 1890 e 1896 cursou os estudos secundários exclusivamente no externato do Colégio Pedro II então chamado de Ginásio Nacional, matriculando-se, em 1897 na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Quando o menino terminou os estudos primários e iniciou os preparatórios, partia para a sua viagem diária de Stª. Rosa - Niterói - ao Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, no Rio, com os livros, a merenda, três tostões para o bonde, mais os passes da Barca. No tocante à roupa, só duas mudas: uma no corpo outra na água. Por isso, mal o ginasiano se tornou adolescente - tratou logo de ajudar em casa. Ainda estudante de preparatórios, fez-se professor (BACKHEUSER, 1954, p. 12).

Dona Quininha primava pelos estudos do filho, acompanhava de perto e exigia dele comprometimento com a escola. Todos os dias, ao chegar em casa, a mãe o fazia contar como havia saído nas aulas, nos exames. Na primeira vez que soube de uma nota baixa do filho, conversou e ameaçou uma surra caso voltasse a acontecer. Acreditando que ela facilitaria para

ele, por ser o caçula e o único filho homem, conta que relaxou e teve uma segunda nota ruim. Daí, chegando em casa:

A mãe, que sempre coroava a chegada com um beijo e com um “Deus te abençoe” que fazia tanto bem à criança, desta vez não teve um momento de hesitação. - Já pra cá. E o foi puxando. Entraram no quarto. E a boa e querida velha, sempre meiga, desta vez desandou-lhe uma sova de bolos com as costas de uma escova. [...]. Não vadiei mais nesse resto de ano e no fim, como coroamento, alcancei três distinções, uma para cada matéria (BACKHEUSER, 1994, p. 31).

Entre 1890 e 1896 cursou os estudos secundários no Ginásio Nacional, sendo classificado entre os seis primeiros alunos da classe no primeiro ano. Sobre o percurso nesta instituição (ver Figura 3), onde se graduou bacharel em ciências e letras, conta:

Quase sem mudanças de hábitos foi o meu curso inteiro no Ginásio Nacional. O velho e conceituado Colégio Pedro II. Durante sete anos, a mesma monótona existência de idas e vindas com os mesmíssimos acidentes [...] durante sete anos a fio, que tantos foram os do meu curso, realizado, aliás, sem nenhuma repetição de ano, fato esse que não era muito frequente naqueles tempos de severidade escolar (BACKEHUSER, 1994, p. 187).

Figura 3 - Aluno do Colégio Pedro II

Em 1897, matriculou-se na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Em 1899 diplomou-se Engenheiro Geógrafo, em 1901 formou-se Engenheiro Civil e Bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas e, finalmente, em 1913, diplomou-se doutor em Ciências Físicas e Naturais (BARREIRA, 1999). Sobre a conclusão do curso de Engenharia, Alcina conta que:

E a turma de 39 alunos que em 1897 ingressara na Politécnica e de que fazia parte Everardo Backheuser, terminou, em 1901, reduzida apenas a 7 engenheirandos entre os quais esse estudante que, na declaração pública de seu colega Mario Valadares, foi, durante o curso, o verdadeiro líder na antiga Escola (BACKHEUSER, 1954, p. 43).

Considerando os títulos conquistados por ele, pode-se perceber a importância dada ao acúmulo de capital cultural e infere-se que sua maior herança tenha sido o interesse pelos estudos “um dos meus maiores orgulhos é ter tido a mãe que tive. E por ela me eduquei no culto a meu pai” (BACKHEUSER, 1994, p. 29).

Em 1903 casou-se pela primeira vez, com Ricarda Restier Gonçalves Backheuser, professora fluminense, com quem teve dois filhos. O primeiro que recebeu seu nome, nasceu e faleceu em 1904 e o segundo, João Carlos, que nasceu em 1905, formou-se engenheiro geógrafo e civil e foi professor secundário. Enviuvou da primeira mulher em 1928 e casou-se pela segunda vez em 1929, com Alcina Moreira de Souza Backheuser, professora carioca, com quem não teve filhos.