CAPÍTULO 1 – DO “HOMEM FRACO”: NIETZSCHE E A
1.4 O fundamento moral dos sujeitos: a moral nobre e a moral de
1.4.1 Origens da moral de ressentimento e seu contraste à moral
Para Nietzsche, primitivamente a palavra “bom” não significa a- ção altruísta. Ao contrário, sua origem pertence ao reino dos “nobres”, que definiram arbitrariamente que as suas condutas eram as boas e que eram ruins aquelas dos espíritos mais inferiores, os espíritos fracos. Com isso, aludida ideia se desenvolveu a partir da concepção aristocrá- tica dos nobres.
De acordo com o autor, esses nobres “se tinham como homens de uma classe superior” e eram os puros. “Desse modo, a oposição ‘puro’ e ‘impuro’ serviu primeiramente para distinguir as castas e ali se desen- volveu mais tarde uma diferença entre ‘bom’ e ‘mau’, numa alusão já não limitada à casta”. Importante registrar a constatação de Nietzsche, no sentido de que os “nobres”, no que tange ao social, seria o conceito básico a partir do qual se desenvolveu “bom”, no sentido de “espiritu- almente nobre”, “aristocrático”. Paralelamente a esse desenvolvimento sempre perfilha-se aquele outro que faz “plebeu”, “comum”, “baixo” transmutar-se finalmente em “ruim”, segundo o autor. Afinal, para Nietzsche “os juízos da aristocracia fundem-se numa boa musculatura, numa saúde florescente e no que para isso contribui: a guerra, as aventu- ranças, a caça, a dança, os jogos e os exercícios físicos em geral: tudo o que implica uma atividade robusta, livre e alegre”, enquanto os plebeus sempre rastejaram pelos cantos, sem força para reafirmar seus valores. 64
No tocante à classe sacerdotal, que o autor caracteriza por um sentimento de impotência, como não pôde impor os seus valores mes- quinhos, passou a se utilizar da vingança como a sua arma mais podero- sa, de modo que tal sutileza aliada à vontade de vingança fez com que o ideal ascético se tornasse dominante. Defende Nietzsche que o povo de sacerdotes judeus “com uma lógica formidável, atirou por terra a aristo- crática equação dos valores ‘bom’, ‘nobre’, ‘poderoso’, ‘formoso’, ‘feliz’, ‘amado de Deus” e “com o encarniçamento do ódio afirmaram: ‘só os desgraçados são os bons” e assinala que “com os judeus começou a emancipação dos escravos na moral, esta emancipação que já tem vinte séculos de história e que já hoje perdemos de vista por ter triunfa- do completamente.” 65
64 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução: Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 17-20.
Desse modo, por meio da negação de um externo houve a inver- são dos valores, ou seja, através da oposição entre nobre e plebeu, estes, negando aqueles, conceberam seu inimigo mau e, a partir dele, desen- volveram o conceito de bom. Assim, o ato de formação da moral escra- va é um não, “este não é o seu ato criador”, uma reação, ou seja, nasce a moral do ressentimento, uma moral que, por não possuir substrato suficiente para se afirmar em si mesma, necessita de outro externo para negar e condenar, usando o oposto deste outro como afirmação de si. Nessa fragilização e interiorização do animal humano, o asceticismo encontrou o momento ideal de adentrar no homem e manobrá-lo como rebanho para dizer um sonoro não à vida.
A partir dessa concepção, estavam lançadas as bases para um “novo amor”: segundo Nietzsche, o mais profundo e sublime de todos os tipos de amor, advindo do pior ódio que já pairou sobre a terra, o ódio judeu. Esse novo amor não se desenvolveu sobre este tronco, como antítese, mas “ao contrário, o amor brotou dele como sua coroa, triun- fante, estendendo-se sempre mais na mais pura claridade e plenitude solar.” Assim sendo, “Jesus de Nazaré, esse evangelho vivo do amor”, é para Nietzsche precisamente a sedução na sua forma mais irresistível, a sedução que, por um rodeio, havia de conduzir os homens a adaptar os valores judaicos, ou seja, a isca mais funesta e perigosa, a isca da cruz: um meio perfeito de Israel acionar sua política de vingança contra seus adversários, portadores dos ideais mais nobres. Afinal, nada poderia ser mais sedutor do que “este símbolo da santa cruz, esse horrível paradoxo de um Deus na cruz”. 66
Esta degeneração dos valores nobres empreendida pelos judeus possibilitou a vitória da moral do homem fraco – a moral escrava. Trata- se da moral do homem do ressentimento contrariamente ao homem nobre. Este homem fraco, ou escravo, reativo por natureza, concebe seu inimigo como “o mau”, com o que ele constrói posterior e equivalente- mente um “bom”, que seria ele mesmo.
O “mau” dessa moral do ressentimento seria justamente o “bom” da moral nobre, porém, interpretado pelos olhos rancorosos dos homens fracos e ressentidos. Não obstante, Nietzsche aponta que se trata de um equívoco cair na fraqueza da moral do homem comum ao identificar o homem nobre como “mau”. E arremata: “se admitir que o sentido de toda cultura é amestrar o animal de rapina ‘homem’, reduzi-lo a um
66 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução: Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 26-27.
animal manso e civilizado, doméstico, então deveríamos, sem dúvida, tomar aqueles instintos de reação e ressentimento, com cujo auxílio foram finalmente liquidadas e vencidas as estirpes nobres e os seus ideais, como autênticos instrumentos da cultura; com o que, no entanto, não se estaria dizendo que os seus portadores representem eles mesmos a cultura”. 67
O “bom”, criado pela moral do ressentimento é concebido como subterfúgio do homem do ressentimento. Este crê, enganado por si mesmo, ser um sujeito livre capaz de escolher as virtudes ascéticas às virtudes fortes, como se a força pudesse ser controlada por algo que não ela mesma; como se o forte fosse livre para ser fraco; como se existisse um ser por trás de um fazer; como se a ação não fosse tudo. Nas pala- vras de Nietzsche, “estes fracos querem ser, algum dia, fortes, “o seu reino” chegará um dia; e são tão humildes que o chamam de “Reino de Deus.” Para ver este reino, é necessário viver muito, viver além da morte; “é preciso a vida eterna para ser eternamente recompensado no “Reino de Deus” por essa existência terrena “no amor, na fé, na espe- rança.” A bem-aventurança desse paraíso consiste pois, como dizem os padres da Igreja, em “alegrias bem diversas; em lugar dos atletas, temos nossos mártires; se queremos sangue, ora, temos o sangue de Cristo”. É justamente na vida eterna e no paraíso, que reside a eterna graça aos fracos: a possibilidade de vingança aos nobres e aos fortes, o que reflete, exatamente, a moral do ressentimento. 68
1.4.2 A importância da má consciência na formação da moral de