5.1. Representação Social
5.1.1. Origens do Conceito de Representação Social
O conceito de representação social surge da tradição europeia e, sobretudo, da sociologia. É, de facto, Durkheim quem utilizou primeiro o conceito de «representação colectiva», pretendendo com isso sublinhar a especificidade do pensamento colectivo em relação ao pensamento individual. Durkheim tem como objectivo demonstrar a primazia do social em relação ao individual através do conceito de representação colectiva e tornar este campo de estudo autónomo, o qual viria a ser explorado pela psicologia social. Ele sublinha que a representação colectiva não se reduz ao conjunto das representações dos indivíduos que compõem a sociedade - «qu’y a-t-il de surprenante à ce que les représentations collectives produites par les actions et réactions échangées entre les consciences élémentaires dont est faites la société ne dérivent pas directement de ces dernières et, par suite, les débordent?» (Durkheim,1967a:27)
Durkheim
A origem teórica do conceito de representação social encontra-se em Durkheim, contudo, é no domínio da antropologia que se encontra a tradição de estudo de fenómenos como os mitos, os repertórios linguísticos, etc. Só posteriormente, mesmo tardiamente, é que o estudo das representações sociais começou a ter lugar no âmbito da psicologia social. Encontra-se justificação para que a representação social não tenha sido estudada mais cedo, no facto da psicologia durante muito tempo se ter conduzido pela tradição behaviorista, que apenas considerava como objecto de estudo os comportamentos observáveis, tais como actividade motora e verbal. Deste modo, no âmbito da psicologia social apenas foram tidos em consideração fenómenos como a opinião e a atitude, que embora tendo ligação com a representação social são diferentes. Isto porque estes dois fenómenos eram passíveis de serem analisados de acordo com a corrente behaviorista, dado que a opinião é uma resposta verbalizada, manifesta, logo, observável e
mensurável e a atitude permite estabelecer laços entre o estímulo e a resposta e medir o tempo de reacção.
Contudo, uma outra corrente teórica saída da obra de G.H. Mead – o interaccionismo simbólico – concorrente da tradição behaviorista e que se opõe à ideia de um determinismo social estrito, no sentido durkheimiano, veio sublinhar a primazia dos processos sociais na conduta individual. O interaccionismo simbólico considerou os aspectos implícitos do comportamento e sublinhou os aspectos simbólicos da linguagem e o seu papel na definição da realidade social63.
Interaccionismo simbólico
«O interaccionismo tende a pôr sobretudo em relevo as interpretações que os agentes individuais e as instituições sociais fazem dos media e das suas mensagens, para a elaboração das significações do mundo e das suas interacções sociais.» (Rodrigues,2000:72)
Actualmente, em psicologia social é consensual o estudo de aspectos implícitos do comportamento, nomeadamente, com um interesse específico pelos fenómenos cognitivos e, propriamente, psicossociológicos.
A psicologia social surge da necessidade de reflexão sobre o lugar do homem na sociedade, o que faz com que se tenham realizado vários estudos sobre as modalidades de interacção. Neste contexto a noção de representação social surge como um novo interface para colocar o problema das ligações do campo psicológico com o campo social. A noção de representação social veio sublinhar que o pensamento social não é apenas uma variedade de pensamento individual.
Perspectiva Psicossociológica da Representação Social
Para a psicossociologia investigar as representações sociais significa estudar uma modalidade de conhecimento particular e a expressão específica de um pensamento social.
A representação social enquanto modalidade de conhecimento envolve a reprodução das propriedades do objecto, ou seja, uma construção mental do objecto. Daí que o objecto não tenha uma existência separada da actividade simbólica do sujeito, ela própria dependente da inserção do sujeito no seu campo social.
Apesar da representação ser uma construção mental do objecto, não se deve identificar imagem, enquanto conteúdo mental fenomenológico associado a um objecto, e representação social. No estudo de uma representação, enquanto construção do real, deve-se ter em consideração a linguagem, as categorias, as metáforas, etc. através das quais os sujeitos a exprimem. Na medida em que, a representação surge ao sujeito como um dado perceptivo, poder-se-á perspectivar um papel de «mediação» à representação social entre actividades perceptivas e cognitivas.
Representação: construção mental do objecto
A representação social é uma forma de pensamento social na medida em que contribui para definir a especificidade de um grupo social e é simultaneamente fruto dessa especificidade, logo, existe uma “reciprocidade de relações” entre o grupo e a sua representação social. Por outro lado, a representação social é um instrumento pelo qual o sujeito e o grupo apreendem o seu contexto social, logo, a representação social é o lugar de possibilidade de geração da comunicação e dos comportamentos sociais, ou seja, é o lugar de partilha, de identidade.
A representação social é uma organização psicológica partilhada, o que lhe confere o seu estatuto social, daí que seja importante estudar a sua função na elaboração dos comportamentos, ou seja, a relação entre as representações e as condutas (práticas sociais).
Representação social e práticas sociais
Em 1961 Serge Moscovici publica a investigação que realizou sobre a apropriação da teoria psicanalítica pelos diferentes grupos sociais. O seu estudo teve como motivação o facto de na década de 50 um aceso debate sobre a psicanálise ter mobilizado intelectuais e estudante universitários, em Paris. Em termos metodológicos Moscovici utilizou
Serge Moscovici
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Para desenvolver o conceito de interaccionismo simbólico ver: LÓS, Maria (s/d), “Interaccionismo simbólico”, in: PODGÓRECKI, Adam e LÓS, Maria (s/d), Sociologia
questionários e análise de conteúdos das publicações sobre a psicanálise, que saíram em jornais e revistas não especializadas. O autor propõe o conceito de representação social para abordar a problemática da construção da realidade pelo homem e, especificamente, como é que as pessoas consomem e transformam uma teoria científica.
Moscovici estava interessado em compreender como é que os indivíduos em interacção social constroem representações/teorias sobre os objectos sociais (Moscovici,1969), na medida em que, é esta teorização partilhada sobre o real que permite a comunicação e a organização consensual dos comportamentos. A representação social apresenta-se como um veículo de construção do sentido partilhado por uma comunidade.
Teorização partilhada do real
Moscovici preferiu deixar a definição de representação social algo em aberto, para não cristalizar a teoria logo à nascença. «Moscovici sempre resistiu a apresentar uma definição precisa das representações sociais, por julgar que uma tentativa nesse sentido poderia acabar resultando na redução do seu alcance conceitual.» (Sá,1996:30)
Contudo, Moscovici (1988) ao justificar a sua preferência pelo adjectivo social em relação ao de colectivo distingue três tipos de representações: i) representações hegemónicas, representações que podem ser partilhadas por todos os elementos de um grupo bem estruturado, como por exemplo um partido, uma cidade, um estado, mas que não foram produzidas por esse grupo. Essas representações apresentam homogeneidade e estabilidade e subjazem de modo latente a todas as práticas simbólicas ou afectivas do grupo; ii) representações emancipadas que são fruto da circulação de ideias e conhecimentos que pertencem a grupos que se encontram em contacto mais ou menos estreito uns com o outros o que faz com que partilhem a sua representação com os outros. Essas representações têm assim uma certa autonomia em relação ao grupo que as produziu; iii) representações polémicas que são elaboradas no decorrer de conflitos e/ou controvérsias sociais, o que faz com que não sejam partilhadas por todos os elementos da sociedade e, normalmente, existem representações antagónicas sobre um mesmo objecto que são mutuamente exclusivas (Sá,1996:39-40)
Três tipos de representação segundo S. Moscovici
Outros estudos sobre as representações sociais, a que se pode fazer rapidamente alusão, são os trabalhos de Herzlich (1969) sobre a saúde e a doença e os de Jodelet (1989b) sobre a doença mental64.
Outras investigações
«De há trinta anos a esta parte, o conceito de representação social interessou um vasto número de psicólogos sociais, sociólogos e antropólogos. Tomando este conceito mais como um estímulo heurístico do que como um espaço conceptual bem delimitado e inserido numa teoria com contornos bem definidos, tem-se procedido à interrogação das teorias do homem comum sobre problemas tão salientes como saúde/doença (Herzlich,1969), a doença mental (Ayestaran,1985; De Rosa,1987; Jodelet,1989), a violência (Vala,1981), a justiça (Faugeron e Robert,1976; Marques et al.,1986), o grupo e a amizade (Flament,1982; Kaes,1976); ou sobre o trabalho (Duveen e Shields,1985), o desemprego (Marques,1983), os sistemas tecnológicos (Grize et al.,1988; Elejabarrieta,1987), os sistemas económicos e as relações económicas (Emler e Dickinson,1985; Belleli et al.,1983¸Vergès,1987¸Bertie et
al.,1982), os conflitos sociais e as relações intergrupais (DiGiacomo,1980;
Litton e Potter,1985); e ainda sobre os grupos ou categorias sociais como a criança (Chombart de Lauwe,1971; Vala,1978), a mulher (Aebisher,1985; Amâncio e Soczka,1986), os quadros (Bolstanski,1982), os psicólogos e a psicologia (Soczka,1988; Palmorari et al., 1987), etc.» (Vala,1993:358-359)
O termo representação social designa, simultaneamente, um processo e um conteúdo. Estes dois aspectos têm sido estudados com a ajuda de material verbal constituído, sobretudo por respostas a
Representação social: um processo e um conteúdo
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Para uma bibliografia muito completa sobre as várias temáticas estudadas consultar Jodelet,1989a.
questionários estandardizados ou por discursos emitido no curso de entrevistas. Em todos os casos, a representação é mediatizada pela linguagem. Isto coloca vários problemas, nomeadamente, de ordem metodológica mas, também teóricos, ou seja, em que medida existe uma correspondência entre a representação social e a sua exteriorização através da verbalização. Logo, coloca-se o problema das condições que afectam a formação e a emergência de uma representação social.
Moscovici apresenta três condições que afectam a formação e emergência da representação social:
Condições de emergência de uma representação social
? a acessibilidade do objecto e a sua significação para o sujeito, individual ou colectivo. É necessário ter em consideração a potencial dispersão da informação e o desfasamento quantitativo e qualitativo entre a informação efectivamente presente e a que será necessária para constituir o fundamento sólido do conhecimento;
? a focalização do indivíduo e do grupo sobre o objecto da representação. O indivíduo e o grupo estão diferentemente
focalizados sobre certos objectos ou certos problemas, o seu grau
de interesse e de implicação é variado;
? a pressão de inferência (à l’inference) que existe em todo o grupo social: «les circunstances et les rapports sociaux exigent que l’individu ou le groupe social soit capable, à chaque instant, d’agir, de fournir une estimation ou de communiquer. Les informations doivent pouvoir devenir, sans délai, fondement de conduite, instrument d’orientation (…). L’existence de cette pression, la préparation constante à répondre aux incitations du groupe, du milieu, accélèrent le processus de passage du constat à l’inférence.» (Moscovici,1976:361)
A interacção destas condições vai-se reflectir, necessariamente, na organização cognitiva que é uma representação social, essencialmente, no seu estilo e qualidades formais, segundo Moscovici. Logo, a existência e estruturação de uma representação é reflexo da situação social na qual ela se forma.
No grupo social que se pretende estudar, a Comunidade Científica Portuguesa, a utilização da Internet corresponde a um uso/experiência efectivo, deste modo, as representações da Rede e dos seus usos corresponde simultaneamente a esta «universalidade» e a esta diferenciação. Enquanto, por exemplo, os estudos sobre a psicanálise (Moscovici,1976, Doise,1973) se baseiam numa experiência sobretudo indirecta será, essencialmente, a assimilação do discurso, a partilha de uma experiência estranha. No presente estudo, ao seleccionar-se os investigadores que têm endereços electrónico garante-se que esses sujeitos estão envolvidos no processo. E, deste modo, a sua representação das implicações da Rede e serviços telemáticos na estrutura e dinâmica da Comunidade Científica Portuguesa é construída a partir de dentro, ou seja, do envolvimento nessa nova realidade comunicacional.
A representação social é um mecanismo de apropriação do mundo exterior, de procura de um sentido no qual se poderá inscrever a acção. Este processo é influenciado pela dispersão da informação, pela desigualdade de focalização e pela maior ou menor pressão de inferência, o que se traduz na disparidade de posições face a um objecto socialmente significativo, o qual é apreendido num contexto social que se caracteriza por estar sempre em mutação e, por ser marcado pelo carácter conflitual das relações sociais.