O congado, como o conhecemos hoje em nossa sociedade, dançado e celebrado em todo o país, sofreu algumas transformações ao longo do tempo, resultado de mudanças políticas, sociais e geracionais. Os primórdios desta manifestação nos apresentam características outras que hoje não são encontradas ou sofreram modificações em cada região do país. Sendo atualmente vinculado à cultura de uma determinada comunidade, muitos não conhecem a origem desta manifestação que (sem desprezar os mitos de origem), está ligada a uma construção histórica que envolve não só fatores religiosos, mas também interesses de Estado. Neste sentido, este tópico tem por objetivo descrever a história desta manifestação que até hoje é tão “cara” aos seus participantes.
Devemos esclarecer, no entanto, que há uma defasagem deste conhecimento ligada à falta de uma bibliografia a respeito, já que a maioria dos trabalhos antropológicos e mesmo historiográficos preocupam-se em descrever e a relatar estas festividades no Brasil quando já adaptadas pelos escravos e seus descendentes. Os estudos acerca do congado ficam limitados ao âmbito da colônia, não se preocupando com a origem da presença desta manifestação em nosso país. Desta maneira, este tópico se limita basicamente às considerações de José Ramos Tinhorão, que nos proporcionou um excelente trabalho a respeito dos primórdios desta e outras manifestações sincréticas brasileiras.
Segundo Tinhorão, as primeiras manifestações africanas ligadas à coroação de reis congos, foram registradas em Portugal, nas confrarias de Nossa Senhora do Rosário, por volta do século XV. De acordo com autor, essas criações culturais africanas são consideradas as mais antigas, tendo sido realizadas por africanos subequatoriais que viviam em Lisboa. A documentação existente, todavia, registra a celebração dos reis africanos em princípios do século XVI, quando, ainda segundo Tinhorão, “na capela da Igreja de São Domingos de
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Lisboa, onde existia um altar de Nossa Senhora do Rosário, os negros (...) começaram a realizar a teatral solenidade da coroação de reis do Congo” (TINHORÃO, 2008, p. 107/108).
Dentro deste contexto, o autor nos revela que a coroação de reis do Congo em Portugal, em um primeiro momento, serviu como estratégia política e econômica por parte do Estado português que, ao permitir tal celebração, amenizava os conflitos entre africanos e europeus, facilitando assim as trocas comerciais entre ambos. Ao conquistar a confiança do rei do Congo “Muemba Nzinga”, batizando-o “com o nome de Afonso I”, Portugal garantiu a aliança com o reino africano, facilitando assim quaisquer transações econômicas pela via pacífica. Consentindo a celebração da coroação dos reis negros, Portugal despertou certa simpatia nos escravos em Lisboa que, através de encenações teatrais, passaram a realizar “um espetáculo simbólico destinado a traduzir (...) aquele reconhecimento da importância do reino do Congo por parte do poder português” (TINHORÃO, 2008, p. 110).
As coroações de reis do Congo constituíram, em verdade, uma projeção simbólica da política missionária desenvolvida em comum pelo poder real e a igreja portugueses na África e, como tal, representaram apenas um reflexo da nova política posta em prática por D. João II (e depois continuada por D. Manuel e D. João III) em relação aos negócios da África, e que tinham no tráfico de escravos sua atração principal (TINHORÃO, 2008, p. 108). Posteriormente, essa tradição ganhou o Brasil em finais do século XVI, quando datam as primeiras coroações em Pernambuco, adquirindo, mais adiante, uma aparência popular e festiva, integrando-se à cultura nacional nos séculos XVIII e XIX (TINHORÃO, 2008, p. 110). 18 A partir de então, as festas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário ganham novos adereços e novas significações: “do primitivo auto da coroação de reis do Congo” a uma alegre celebração festiva do povo. Através do movimento das danças ao som de instrumentos africanos, essas festas evoluíram, segundo Tinhorão, para festividades autônomas, onde até o nome congo ganhou nova conotação, passando a simbolizar os grupos de dançadores bem como suas coreografias (TINHORÃO, 2008, p. 119).
18 Segu do Botelho, a g a de a eita ilidade dessa devoç o e te it io asilei o se deve a seu conhecimento anterior tanto em Portugal quanto na África. Sabe-se que, em 1550, perto de 10% da população de Lisboa era composta de escravos negros. Nessa nova terra foram incorporadas as práticas religiosas portuguesas (BASTIDE apud BOTELHO, 2009, p. 117). Ainda na África, a colonização portuguesa introduziu seus santos e imagens, além das práticas católicas, como o batismo. Provavelmente, muitas das identificações feitas posteriormente, no Brasil, entre os santos da Igreja Católica e as divindades das religiões africanas, forma percebidas e gestadas ainda em continente africano, partindo dos primeiros contatos com a religião dos po tugueses BOTELHO, , p. 117).
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A bibliografia a respeito desta manifestação popular somente ganha evidencia quando referencia estudos sobre o congado a partir dessa nova roupagem. A gama de trabalhos oferecidos sobre os rituais desde o cativeiro no Brasil às comunidades rurais atuais contribui para o entendimento da importância desta manifestação que, usada como forma de “resistência” pelos escravos, ainda hoje é símbolo de identidade para muitas pessoas em nosso país.
Partindo então desta perspectiva, as pesquisas sobre o congado colonial nos trazem importantíssimas contribuições, sendo ele descrito por diversos autores como uma herança africana adaptada pelos escravos à realidade da colônia. A maior parte dos documentos disponíveis acerca dessas festividades contribui para que conheçamos mais e melhor a sua conformação nacional, já que a descrição do funcionamento destes festejos de santos encontra-se disponível principalmente nos relatos de viajantes que passaram pela colônia nos século XVIII e XIX.
Com base nesta documentação pode-se afirmar que, a origem do congado é reconhecidamente luso-afro-brasileira. De acordo com Lucas, “o catolicismo de Portugal forneceu os elementos europeus da devoção à Senhora do Rosário” e “a igreja no Brasil reforçou essa crença, enquanto os negros, de posse desses ingredientes, deram forma ao culto e à festa” (LUCAS, 2002, p. 47). A coroação de reis congos, por sua vez, permitia aos negros alcançar maior visibilidade expressando por meio dos festejos esse sincrético ritual. Esta manifestação atuava ainda como forma de resgatar a memória de seus antepassados que, apesar das modificações sofridas, expressava a cultura natal dos escravos através da dança, da música e das devoções. Representaria, “o que Antonil um dia chamara de “folguedo honesto” ”(REIS apud PRIORE, 2000, p. 85). Segundo Mary Del Priore:
é, no entanto, da Bahia – mais precisamente de Santo Amaro, em 1760 – que vem o registro mais completo das festas de reis Congo, sublinhando a importância e a função que tais comemorações tinham para a comunidade negra. Aparato, luxo e riquezas jamais sonhadas para esses segmentos, considerados tradicionalmente pela historiografia como subalternos, enfatizam (...) sua capacidade de acumulação. Seu potencial político frente à comunidade reafirmava-se, nesse momento, pela apresentação do que poderia parecer uma inversão completa: a sagração de um rei negro. Mas é justamente essa capacidade de expor outras realidades que devolvia a festiva dignidade aos negros e à sua cultura (PRIORE, 2000, p. 83).
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As festas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário eram, neste período, realizadas pelas irmandades dos homens pretos, sendo elas uma das únicas formas de socialização de negros escravos e forros no Brasil. Segundo Miranda, desde o século XVI, a principal função destas confrarias eram divulgar a fé e a devoção na Virgem do Rosário por ocasião das festas em sua homenagem realizadas, normalmente, no mês de outubro. Estes festejos, por sua vez, misturavam as culturas portuguesa, brasileira e africana, configurando uma das formas mais simbólicas dos povos de cor, escravos ou livres, de se auto congregarem (MIRANDA, 1994, p. 40/41).
Segundo Marina de Mello e Souza, “escolher reis e capitães foi uma das formas encontradas pelos africanos escravizados para recriarem uma organização comunitária”. Neste sentido, a eleição de autoridades negras era uma forma de identificação de determinados grupos com as suas nações e representou no século XVIII, no caso de Minas Gerais, a consagração das festas de coroação de reis do Congo (SOUZA, 2001, p. 249/251). A realização deste tipo de festejo representava assim o resgate de tradições “maternas”, que imbricadas à cultura local, não deixaram de exprimir a identidade africana dos grupos de reinado.
Ao se converterem ao catolicismo e ingressarem em irmandades, no processo de construção de novas identidades, os africanos e seus descendentes recriaram miticamente aspectos de sua história e desenvolveram rituais que reafirmavam algumas características da comunidade envolvida. A coroação de rei congo no âmbito da celebração festiva do santo padroeiro, na qual o grupo representava danças que dramatizavam episódios de sua história, remetia a um passado africano, resgatado pela vivência do catolicismo (SOUZA, 2001, p. 254).
Quando analisado pelo ponto de vista das desigualdades e a situação a que negros escravos e pobres viviam no Brasil, podemos entender que a formação identitária proporcionada pela apresentação do ritual de coroação negra funcionava, também, como uma fuga da rotina de trabalho forçado a que esta classe estava submetida e dava sentido as suas vidas, a despeito da condição de escravizados. A realização destes festejos religiosos populares era uma das únicas formas que esta sociedade excluída tinha para se “libertar”. A fé em Nossa Senhora do Rosário auxiliava a vida dos negros a partir de um suporte devocional capaz de tornar o seu dia-dia menos árduo. É esta uma das principais funções da festa herdadas por nossa sociedade - a busca por um breve instante da redenção do cotidiano. Vale ressaltar ainda que elas significaram para os administradores coloniais uma forma de
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relaxamento da rotina diária dos escravos e permitiam, quando encerradas, “que a ordem fosse retomada com mais tranqüilidade” (SOUZA, 2001, p. 256).
Assim, as festas patrocinadas pelas irmandades negras no Brasil irrompiam como forma de libertação para os escravos e negros pobres que uma vez por ano podiam se aliviar das pressões do cativeiro. Se desde Portugal as festas do Rosário foram, por diferentes motivos, admitidas pela coroa, na colônia ela foi uma “vitória contra a escravidão”, pois permitia aos excluídos “reencontrar laços étnicos e tribais, tecer redes de solidariedade” (MIRANDA, 1994, p. 45). A sua construção singular devolvia aos negros e pobres da colônia a dignidade que lhes era tirada todos os dias, pois revelava a opressão e o sofrimento em que viviam, permitindo-os se libertarem, pelo instante festivo, das amarras da exclusão. 19
Desta maneira, o congado nos dias de hoje é celebrado em muitos lugares do Brasil como a rememoração dos tempos de cativeiro, atualizando todos os anos o mito fundador por ocasião das festas de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. As comemorações variam de um local para o outro, mas mantêm os fundamentos dos ritos, mesclados entre litúrgicos e profanos, refletindo uma manifestação católica popular que, desde os primeiros anos de sua formação, foi marcada pelo sincretismo religioso afro- brasileiro-português. A festa do Rosário no país é um dos maiores exemplos de manutenção de tradições ancestrais e validam por meio de várias gerações, através também das inovações incorporadas em função das mudanças na sociedade, a história do povo brasileiro, por meio das diversas classes sociais que compõem este festejo hoje, impregnando-o de novos significados.
O próximo capítulo abordará, justamente, os embates entre tradições e inovações na sociedade contemporânea, levando em consideração as mudanças sociais e a inserção de novos padrões culturais que podem comprometer a manifestação de algumas festas tradicionais, principalmente, aquelas ligadas à religião. A participação de jovens e velhos portadores de cultura mostra-se fundamental para a manutenção e a renovação destes festejos, demonstrando a força da religião dos novos tempos para todas as gerações. A responsabilidade de todos na reapresentação de crenças passadas apresenta novos sentidos, diferentes dos da época colonial, mas permanecem ligados a ele, pela expressão das danças e
19 Pa a Ma i a de Mello e Souza , apesa dos es avos te e iado a festa, os itos e os itos a ela relacionados, no contexto da sociedade colonial, associavam o cristianismo ao mundo dos ancestrais e a um passado anterior a escravização. No momento da festa, a comunidade negra se afirmava como portadora de ultu a e hist ias p p ias, es o te do adotado fo as po tuguesas pa a e p essa valo es af i a os (SOUZA, 2001, p. 258/259).
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reafirmação dos mitos, que fazem da festa em nosso país, um modo brasileiro de celebrar a vida.
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4- TRADIÇÃO E INOVAÇÃO NAS MANIFESTAÇÕES POPULARES
NACIONAIS: PROCESSOS EDUCATIVOS E O PROBLEMA DAS
GERAÇÕES
Vimos nos capítulos 2 e 3 uma descrição histórica a respeito do surgimento dos principais festejos populares nacionais, evidenciando suas conformações iniciais e adaptações proporcionadas pelas mudanças sociais ao longo do tempo. Esses festejos, frutos de tradições populares antigas que sobreviveram com passar dos séculos, sofreram adaptações que permitiram essa manutenção, refletindo ideais sociais propriamente delimitados no tempo e no espaço.
Dentro deste contexto, o presente capítulo tem por objetivo analisar o significado das tradições festivas na sociedade atual levando em consideração os moldes em que estas foram criadas em contraste com o surgimento da sociedade moderna e o nascimento de uma pós- modernidade. O debate acerca do problema das gerações encontra-se embutido nesta análise a fim de percebermos o papel da mudança geracional dentro do processo de manutenção e/ou desaparecimento de tradições. Este debate é importante também na medida em que se apregoa o surgimento de novas estruturas sociais em detrimento das velhas conformações sociais na nova era.