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O PROBLEMA DA LEGITIMIDADE

5.1 ORIGENS DO TERMO LEGITIMIDADE

Etimologicamente, a palavra legitimidade provém do latim Legitimus-a-um que significava em conformidade com a lei.204

Na Grécia antiga, vê-se o poder legítimo como originário da faculdade para a ação política, propiciada pela liberdade, visto que o cidadão não tem senhor, e pela igualdade em relação aos seus pares. Adeodato205 expõe como características da legitimidade do poder político: a liberação das necessidades vitais e econômicas em geral, existência de outros na mesma situação e um espaço onde os cidadãos debatam suas alternativas de decisão que persuadam uns aos outros.

Platão,206 em crítica à persuasão e prestigiando a verdade racional como força legitimadora, apela ao mito do inferno e à crença em recompensas e punições em sua vida futura.

É em Roma que se consegue conceituar nitidamente um fundamento de legitimidade que assume a distinção entre governantes e governados sem determinar o espaço político da liberdade herdada da tradição grega.

203 ADEODATO, João Maurício Leitão.

O problema da legitimidade: no rastro do pensamento de Hannah Arendt. Prefácio de Tercio Sampaio Ferraz Júnior. Rio de Janeiro : Forense Universitária, 1989, p. IX.

204 ADEODATO, João Maurício Leitão. Legitimidade jurídico-política e crise: uma exposição do problema.

Revista Acadêmica da Faculdade de Direito do Recife. Universidade Federal de Pernambuco, Recife, LXXII, p. 135, 1985.

205 Ibid., p. 31-32.

Embora o termo legitimidade tenha origem romana ele não aparece no sentido de fundamentos da obrigatoriedade e do poder jurídico-político, pois o adjetivo

legitimus significava em conformidade com a lei.207O conceito de lei em Roma era mais

extenso do que a mera norma jurídica legislada, pois abrangia os diversos tipos de atos jurídicos que emanavam de autoridades. As leis, por excelência, nasciam de questões propostas pelos magistrados, as quais eram votadas em assembléia de cidadãos.

Com a participação direta dos governados na efetivação das grandes decisões, sob a vigilância do Senado, toda lei romana era legítima e legítimos eram todos os atos praticados de acordo com ela. Não se cogitava uma lei ilegítima ou injusta.

Assim, em Roma, sancionada a lei pela fonte do poder – o povo – e pela fonte de autoridade – o senado – toda lei era, por definição, legítima.

Contudo, observa Adeodato208 que não é na etimologia da palavra legitimidade, mas sim na autoridade, que se encontra a contribuição decisiva dos romanos ao tema da legitimidade, especialmente com a distinção que se estabeleceu entre autoridade e poder, sendo aquela concedida como instância da legitimidade deste.

Especial atenção também era dada à tradição, de modo que a autoridade dos fundadores de Roma orienta e fundamenta o poder exercido pelas novas gerações, que se expressa por meio da tradição. Quanto mais próximo ao passado mais legítimo.

O cristianismo, por sua vez, nos termos da filosofia grega, despolitiza a noção de liberdade e a identifica com livre arbítrio. A Igreja prega, assim, que a verdadeira liberdade nunca pode ser retirada de ninguém, pois que sempre restará ao cristão a opção de aderir à verdadeira religião. Essa liberdade cristã parte da vontade de

207 ADEODATO, João Maurício Leitão.

O problema da legitimidade: no rastro do pensamento de Hannah Arendt. Prefácio de Tercio Sampaio Ferraz Júnior. Rio de Janeiro : Forense Universitária, 1989, p. 35.

cada um. Não se trata mais da liberdade de poder agir em um contexto político que legitimamente o propicia, mas sim de um mero querer individual.

A Igreja mantém a separação entre o exercício do poder e a fonte da legitimidade, arvorando-se herdeira da tradição romana e, por consequência, imitindo-se no poder de legitimar os poderes seculares, vez que a Igreja é quem detém a autoridade de ser porta-voz de Deus no mundo.

Disto resulta que as regras humanas devem se curvar à lei natural estabelecida por Deus e transmitida aos homens através da Igreja.

Adeodato209 qualifica como jusnaturalistas os sistemas teóricos elaborados

pela Igreja e que se espraiaram por todo pensamento que atravessa a era medieval e penetra na idade moderna, pois têm como especificidade comum o caráter extrínseco do fundamento da legitimidade, já que tanto os mandamentos divinos como os ditames da razão são pilares incondicionais, externos, prévios e superiores. Além disso, verifica-se o conteúdo ético desse pensamento, pois o seu fundamento não é político. E, ainda, sob a noção de legitimidade na visão esclesiástica, surge a convicção de limitar o exercício do poder de fato e evitar sua tendência à auto-perpetuação, de modo que os governantes seculares são meros protetores e não donos da sociedade civil. Por fim, o direito natural se pretende imutável e universal.

Acontece que essa mesma forma imutável e axiomática da doutrina eclesiástica redundou em seu ocaso, ante a convicção da necessidade de algum outro princípio de legitimidade ligado à razão.

209ADEODATO, João Maurício Leitão. O problema da legitimidade: no rastro do pensamento de Hannah

Assim, a razão humana passa a nortear o pensamento humano. A legitimidade do sistema jurídico decorre de algo transcendente ao próprio ordenamento, embora não mais transcendente à condição humana mesma. Mas ainda há um direito natural, o que implicará a superação desse novo direito natural antropológico, mas, ainda, axiomático.

Surgem as doutrinas contratualistas que implicam, em regra, a transferência da legitimidade para o âmbito da comunidade e sua vontade, utilizando-se de um critério mais mundano do que a razão humana e a divindade de Deus. Tanto que o Contrato de Rousseau pressupõe que a vontade geral precisa legitimar o contrato social através da consulta de todos e de cada um dos membros da sociedade civil. Daí defender a democracia direta e sem representação.