CAPÍTULO I – A UNIVERSIDADE: ORIGEM, MODELOS E CONCEITO(S)
1.1 Origens e modelos clássicos de Universidade
Tomando por base os estudos de Charle e Verger (1996) e Schwartzmann (2006), temos que as primeiras universidades surgem na Europa, no período medieval e foram, essencialmente, corporações de estudantes e professores que buscavam o direito ao trabalho intelectual independente, a autonomia administrativa e mesmo o direito a foro especial para seus membros, em relação às autoridades eclesiásticas e políticas de então. Para esse autor, essas instituições se dedicavam ao ensino das profissões liberais da época (teologia, direito canônico, medicina), precedido pelas chamadas disciplinas propedêuticas, o trivium (gramática, retórica e lógica) e o quatrivium (geometria, aritmética, música e astronomia), que em conjunto formavam as sete artes liberais.
Dentre as primeiras universidades, conforme Charle e Verger (1996), estão a de Bolonha, cujo desenvolvimento remonta ao início do século XII. Em 1155, as escolas de Direito bolonhesas já detinham grande importância, mas tratava-se ainda apenas de escolas privadas independentes, assim como de pequenas societates, cada uma delas agrupada ao redor de seu mestre. Somente por volta de 1230, a Universidade de Bolonha, no que diz respeito aos direitos Civil e Canônico, estava solidamente constituída. Em Paris, foi pouco depois de 1200 que os mestres (mestres independentes que ensinavam principalmente as Artes Liberais) começaram a se associar. Em Oxford, uma primeira associação de mestres nasce por volta de 1200; em 1214 foram-lhe concedidos os privilégios pontificiais, imediatamente confirmados e definidos pelo rei, que faziam desta uma verdadeira universidade, autônoma, representada por um chanceler escolhido entre os doutores. Em Montpellier, que possui escolas de medicina desde os anos de 1130, a transformação em universidade foi conquistada em 1220 graças aos estatutos outorgados por um legado pontificial. Nesse período, novas universidades nasceram, ainda, por desmembramento – como foi o caso de Cambridge, desde 1209, nascida de uma migração da universidade de Oxford; e de Pádua, fundada em 1222 pelos doutores e estudantes foragidos de Bolonha.
Analisando aquele momento fundacional das universidades, Charle e Verger (1996) assinalam alguns pontos em comum: as comunidades universitárias eram, antes de tudo, associações de mestres e/ou estudantes, que se reuniam para constituir uma “universidade” juramentada. Estabeleceram seus próprios estatutos, representantes
38 Algumas idéias desse item foram desenvolvidas no Seminário de Educação da UNISINOS, durante o
eleitos, organizaram-se para garantir entre eles o auxílio mútuo, garantir sua proteção diante das ameaças possíveis da população e das autoridades locais e regulamentar o exercício autônomo da atividade, que era a própria razão de ser de sua associação; a saber, o estudo e o ensino. Além disso, as universidades saíram deliberadamente do estreito quadro diocesano que era o das escolas anteriores. Com forte proteção pontificial, consolidaram sua capacidade de recrutamento em toda a cristandade, sem outro limite além de seu renome próprio, reivindicando uma autoridade intelectual de grandes dimensões.
Em torno de 1230, ainda não havia muitas universidades, mas seu prestígio já era considerável e estas permanecem até hoje entre as mais famosas. Suas instituições, tão singelas no começo, foram pouco a pouco se tornando mais complexas e os estatutos definitivos em geral datam apenas do início do século XIV. Isso demonstra que a universidade foi se modificando ao longo de sua existência, acompanhando as transformações históricas do pensamento universal e também resistindo a elas, podendo-se, de modo bastante genérico, identificar como seus “ciclos”: a universidade medieval; a universidade renascentista; a universidade iluminista e a universidade moderna. Poder-se-ia tentar encontrar um nexo comum a todos esses modelos de universidade em cada um desses períodos históricos, independentemente das características das instituições universitárias; por exemplo: a idéia de que a Universidade é uma instituição voltada para o saber, para o conhecimento e para a preparação do homem para a vida social e produtiva.
Se as primeiras universidades não obedecem a um modelo único, o que dizer das instituições que vão surgindo no decorrer da história? Aqueles que se debruçam sobre a história das universidades e tentam conceituar as suas várias formas de estruturação nem sempre convergem; dessa forma, o consenso não é regra. Em um instrutivo artigo publicado em 1964, Anísio Teixeira (1964, p.3), por exemplo, traz alguns dados que nos desencorajam a formular uma função universal válida para as universidades de todos os tempos. Ao descrever a característica da Universidade de Oxford, ele afirma que ela teria sido, até início do século XX, essencialmente de ensino, não vocacional, isto é, não profissional. Para confirmar tal modelo, cita um professor formado nessa instituição, que descreve o seu ideal educativo da seguinte forma:
Nessa universidade, segundo Gallie, postulava-se, de modo geral sem discussão, que um jovem que tivesse aprendido a escrever em elegantes versos ou cortante
prosa nas duas línguas clássicas - grego e Latim - e possuísse conhecimento particularizado de dois importantes períodos da civilização pré-cristã e de algumas doutrinas de Platão, Aristóteles, Kant e Mill, estaria qualificado para começar sua carreira como administrador, político, diplomata, crítico social ou educador. O ideal universitário consubstanciado por Oxford representava, assim, a forma mais radical de formação não-utilitária. A universidade não era sequer um centro de transmissão do saber, mas de exercício mental, capaz de formar intelectualmente o jovem como um centro atlético o formaria para a vida esportiva.
Voltada para o passado, com ensino quase individual, centrado em tutores e com freqüência em modalidade de internatos, destinava-se a formar as elites, em geral oriundas da aristocracia e, posteriormente, instaurando-se seleção de alunos baseada na meritocracia. Só esse exemplo já revela que, examinadas de perto, as universidades não se encaixam em categorias tão definidas.
No que tange à universidade moderna, três modelos principais39 costumam ser descritos pelos especialistas na temática. Constituíram-se na Europa, a partir do século XIX, sob a denominação de modelo francês (napoleônico), modelo alemão (humboldtiano) e modelo anglo-saxão. De acordo com Goergen (2006), o modelo francês dá ênfase ao caráter instrumental, concebendo a universidade como provedora de profissionais capacitados para a produção, em oposição à tradição britânica, que busca o saber pelo saber, sem, no entanto, baseá-lo na pesquisa. O modelo alemão enfatiza a autonomia especulativa do saber, tendo a noção de investigação científica como centro, isto é, a formação científico-humanista, porém, de caráter não-pragmático, o que significa pesquisa pura e recusa da pesquisa aplicada, que sofreria ingerências do meio, o que feriria a autonomia do cientista. Poderíamos dizer que os modelos francês e alemão consideram, mais o primeiro do que o segundo, e cada um à sua maneira, que a Universidade contribui, direta ou indiretamente, com a sociedade ou para o avanço da civilização.
A universidade moderna, de vertente francesa, considera Goergen (2006), estava ligada por um duplo vínculo ao Estado moderno: era sua servidora técnico-profissional
39 Sabemos que essa categorização não contempla todas as iniciativas e modelos de universidade que
surgiram ao longo dos séculos de existência da universidade no ocidente. Certamente há outros modelos clássicos, que não são tão citados, como é o caso, por exemplo, da universidade de Harvard. A Universidade de Harvard foi criada em 1636 e é a mais antiga instituição de ensino superior dos EUA. Recebeu o nome de seu primeiro doador, John Harvard of Charlestown, um pastor protestante que deixou de herança sua biblioteca e metade de todo seu patrimônio à instituição. Inicialmente foi criado um colégio – o New College – que depois passou a se chamar Harvard College, à imagem dos colégios
universitários ingleses da época. (Disponível em
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=37009;http://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_Harva rd, acesso em 26/07/08).
e seu guia crítico-espiritual (sendo este aspecto mais enfatizado e claro no modelo alemão). São funções contraditórias, uma vez que, como criadora de saber e formadora de profissionais, estará umbilicalmente ligada aos interesses econômicos do Estado ilustrado, e, como guia reflexivo preserva sua autonomia para manter o distanciamento crítico das ações do Estado.
Para o modelo da universidade humboldtiana40, ainda de acordo com Goergen (2006), a plenitude da verdade não era sua desembocadura técnico-experimental, mas espiritual-especulativa. A ciência teria a sua finalidade na verdade e a verdade bastaria a si mesma. Privada desse centro especulativo desinteressado, a universidade correria o risco de dissolução, e os diversos interesses ao seu redor colocariam a perder a sua identidade, autonomia e unidade. Seguindo essa forma de pensar, a universidade alemã seria, antes de tudo, a universidade da ciência, que descansa sobre si mesma e não uma universidade do saber aplicado e das profissões. O saber não se inclina ante a instrumentalização. A principal tarefa da universidade seria investigar a verdade por meio da busca desinteressada do conhecimento. Enquanto no modelo francês a universidade se submete aos interesses do Estado, no modelo alemão é o Estado que deve orientar-se pelas verdades estabelecidas nos caminhos reflexivos da razão. Nos dois modelos, aqui paradigmaticamente citados, Razão e Estado se revelam como os princípios norteadores da universidade moderna; modelos estes que influenciaram a formação tardia da universidade brasileira, no século XX.
Na universidade brasileira de nossos dias o jogo de forças entre esses dois modelos está presente de várias maneiras: as pressões que os intelectuais (pesquisadores) exercem sobre o Estado, no sentido de influenciar as políticas educacionais, e a regulação que o Estado exerce sobre as instituições. Certamente as relações entre Estado, sociedade e Universidade se dão com intensidade e complexidade crescente. Estamos longe do isolamento elitizado, da caricatural “torre de marfim de uma cultura fora do tempo”, do “mandarinato de eruditos e pesquisadores”, da “forma leiga de convento” ou “do espírito de segregação” que imperou até o início do século XX, usando algumas expressões marcantes de Anísio Teixeira (1964, p.1-2). Hoje é
40 Wilhelm von Humboldt (1767–1835) promoveu uma reforma das universidades alemãs, a partir da qual
passaram a ser citadas e utilizadas como modelo de uma determinada perspectiva de universidade. A concepção humboldtiana de universidade era a de um lugar onde a busca do conhecimento realizava-se de forma independente. Seu modelo implicava na unidade entre pesquisa e ensino, ou seja, só podiam lecionar aqueles professores que, paralelamente ao ensinar, também faziam pesquisas na sua área. Além disso, professores e estudantes dedicavam-se à ciência, livres de qualquer tipo de censura por parte do Estado. (Disponível em http://www.magazine-deutschland.de/issue/Umbruch_1-05_POR_P.php, acessado em 25/01/06).
difícil discernir quem influencia mais quem, uma vez que “o Estado” é feito de pessoas e, com freqüência são os profissionais oriundos das Universidades os que pensam, formulam e legislam sobre as políticas educacionais que incidem sobre os modelos de Universidade.
O terceiro modelo de universidade é o anglo-saxão. Conforme Hortale e Mora (2004), no Reino Unido, que no início do século XIX contava com apenas seis universidades, o Estado não interveio, respeitando suas características medievais. Isso pode explicar o fato de as universidades “públicas” britânicas, irlandesas e canadenses continuarem sendo “privadas” do ponto de vista jurídico. Como a Revolução Industrial demandou a formação de indivíduos mais qualificados, a nobreza e as autoridades municipais em diversas cidades criaram as chamadas “universidades civis”, que se expandiram por todo o Reino Unido durante o século XIX. A tradição das antigas universidades, associada ao processo de criação dessas novas universidades, possibilitou que, desde o início, nelas se instaurassem Conselhos de Administração formados por não-acadêmicos (cidadãos que haviam organizado as universidades). Esses conselhos, presididos por um chanceler, nomeavam o vice-chanceler, ao qual se delegavam todas as decisões da gestão direta das instituições.
As universidades britânicas nunca deixaram de ser autônomas, uma vez que sempre foram de natureza privada. Ao contrário, no modelo europeu continental é tradicionalmente muito grande o poder do Estado sobre a educação superior41, uma vez que ele controla os recursos financeiros, os currículos e a nomeação do quadro docente permanente, que geralmente passa à condição de servidor público. A autonomia institucional nunca existiu ou ficou reduzida ao respeito à liberdade acadêmica. Nesses sistemas, a oligarquia acadêmica (que ocupa o nível mais elevado da pirâmide) detém um grande poder na instituição. É também alto seu poder de influência nos círculos governamentais, pois foram eles que, de algum modo, conceberam a maior parte das políticas universitárias. Em sua lenta evolução, as funções da universidade e suas relações internas e externas foram tomando distâncias distintas desde o isolamento, como mostra bem Teixeira (1964, p.1), a propósito de Oxford, que o autor considera a mais fiel à tradição dentre as instituições européias:
41 É preciso relembrar, contudo, que na Europa Continental não existia um modelo único, mas sim, dois
grandes modelos de universidade, quais sejam: o modelo francês, marcado pelo caráter profissionalizante, e o modelo alemão ou humboldtiano, marcado pelo caráter da pesquisa e da autonomia universitária.
[...] a Universidade, misto de claustro e de guilda medieval, procurou mais isolar-se do que participar do tumulto dos tempos. Seu espírito de segregação ainda era manifestamente acentuado nos meados do século XIX [...] A casa do intelecto partia do saber do passado para o saber do futuro, mas conservava o objetivo da harmoniosa cultura clássica, a coroar-se com o prazer supremo de buscar o saber nele deleitar-se em olímpica contemplação. O saber aplicado e utilitário era olhado com desdém e considerado um abastardamento dos objetivos da instituição42, que visava antes de tudo à vida do espírito. Não percamos de vista que a universidade de preparo de profissionais, ou mesmo de cultura geral para a formação da elite, já seria uma universidade de certo modo prática. Com a pesquisa, como foi inicialmente concebida, voltou-se à preocupação da busca do saber pelo saber, pela torre de marfim, pelo mandarinato de eruditos e pesquisadores.
Inspirado na Universidade de Oxford, o Cardeal Newman43 fundou a Universidade de Dublin, em 1852, centrada na busca do saber pelo saber, na exclusão da pesquisa e na condenação de qualquer caráter utilitário no seu ensino. Tanto o modelo de Humboldt como o de Newman desprezam a dimensão utilitarista da Universidade; porém, o primeiro centra-se na pesquisa e o segundo não considera que ela seja de sua alçada.
No entanto, o modelo inglês também foi se modificando ao longo do século XX, sofrendo rápidas e notórias transformações na sua aplicação nos Estados Unidos. Mais tarde e diferentemente, em 1910, o educador norte-americano Abraham Flexner (1866- 1925) fez uma avaliação do ensino médico nos Estados Unidos e Canadá, e concluiu que, das 155 faculdades de medicina existentes, 120 apresentavam condições péssimas de funcionamento. Os alunos eram admitidos sem nenhum preparo, não existiam laboratórios, não havia relação entre a formação científica e o trabalho clínico, e os professores não tinham controle sobre os hospitais universitários. Ele publicou um relatório, Medical Education in the United States and Canada, que teve o efeito de um terremoto. Nos anos seguintes a quase totalidade das instituições por ele criticadas
42 Reedições dessa tensão são experimentadas na atualidade, relativamente às parcerias entre centros de
pesquisa ou universidade e setores produtivos, por exemplo, quando empresas financiam pesquisas, desde que determinem seus focos, de acordo com os seus interesses. Há controvérsias quanto à autonomia que seria lesada nesses casos, a Universidade se transformando em prestadora de serviços e não podendo exercer a sua liberdade de buscar o saber pelo saber, ou a busca da verdade, como classicamente se propõe.
43 John Henry Newman (1801-1890), bispo anglicano inglês, convertido ao catolicismo, foi
posteriormente nomeado cardeal pelo Papa Leão XIII, em 1879. Fundou a universidade de Dublin (Irlanda), em 1851/2. Defensor do modelo inglês de universidade propôs que esta fosse o lugar do ensino do saber universal e a concebeu como centro de criação e difusão do saber e da cultura. Em seu livro A idéia de uma Universidade – da qual a pesquisa estava excluída – afirmou que se o objetivo da Universidade fosse a descoberta científica e filosófica (ou seja, a pesquisa), não saberia porque teria ela estudantes. (Disponível em http://www.prossiga.br/anisioteixeira/artigos/ontem.html, acessado em 25/01/06).
fechou suas portas. Alguns anos mais tarde, Flexner escreveria um livro comparando as universidades americanas, inglesas e alemãs, no qual pregaria a superioridade do modelo da universidade humboldtiana, alemã, sobre o dos demais países. De acordo com Schwartzman (2007, p. 1), para Flexner as universidades modernas
[...] devem ser instituições dedicadas à cultura, à ciência e às profissões cultas – tudo aquilo que a expressão alemã Wissenschaft (ciência, científico) significava. Elas devem ser as guardiãs da tradição, e o centro das formas mais avançadas de reflexão e conhecimento. Elas devem evitar a especialização excessiva, e não abrir espaço para a educação secundária, técnica, popular, ou meramente profissional.
No entanto, não parece que tenha sido este o modelo de universidade ‘moderna’ que prevaleceu nos Estados Unidos e nem mesmo entre nós. Para Anísio Teixeira, a universidade moderna é aquela que não se isola, que não resiste às influências de sua época, mas que “ao contrário, é uma expressão da época, tanto quanto uma influência a operar em seu presente e em seu futuro” (Teixeira, 1964, p. 4). Transformações sucessivas levam a universidade a realizar serviços de valor para o país, devotar-se à solução de problemas da nação, à apreciação crítica das conquistas realizadas, ganhando cada vez mais terreno a pesquisa aplicada ao desenvolvimento e à defesa nacional, sobretudo a partir da segunda guerra mundial.
O modelo de universidade norte-americano desenvolve então um caráter pragmático e utilitarista. Nesse modelo, afirma Paula (2006), a instituição universitária procura associar estreitamente os aspectos ideais (ensino e pesquisa) aos funcionais (serviços), estruturando-se de tal maneira que possa ajustar-se às necessidades da massificação da educação superior e da sociedade de consumo (decorrências da democracia, da universalização da educação, perpassadas pelo modelo econômico capitalista etc.). Ao adotar a forma empresarial, boa parte das universidades procura atender aos interesses imediatos do setor produtivo, do Estado e da sociedade, produzindo especialistas, conhecimento tecnológico e aplicado, pesquisas de interesse utilitário, assim como serviços de uma maneira geral. Essa diversidade de funções que a universidade foi tomando nos Estados Unidos mereceu a denominação Multiversidade, atribuída por Klark Kerr (Presidente da Universidade de Califórnia) na década de 1960 (TEIXEIRA, 1964, p.5).
Dessa forma, o ideal da concepção alemã de Universidade, voltada para a formação humanista, integral e ‘desinteressada’ do homem, foi sendo deixado de lado
pela racionalização e pela fragmentação do trabalho intelectual. A concepção norte- americana acabou influenciando não apenas as universidades européias, como a alemã, mas também as universidades latino-americanas, como as brasileiras. No Brasil, essa concepção será amplamente difundida a partir da Reforma Universitária de 196844, atingindo a estrutura organizacional e as finalidades de todas as universidades.
Teixeira (1964, p. 5) mostra em detalhes como a instituição universidade vai se metamorfoseando e, com muitas resistências, saindo progressivamente de seu isolamento para misturar-se com a vida presente. Nesse movimento, há perdas e ganhos. A polarização entre a ‘universidade para as elites’ e a ‘universidade popular’, de certa maneira vai perdendo a sua radicalidade. Porém, como afirma Teixeira (1964, p. 5):
[...] são inúmeras as vozes a chorar pela antiga unidade, pela antiga homogeneidade, pela antiga qualidade, mas a força do tempo é maior e a universidade fez-se não a torre de marfim, mas talvez a de Babel, com atividades intelectuais dos mais diversos níveis, com a mais extrema mistura de cultura teórica e prática e com tamanha população de professores e alunos que já não é mais uma comunidade, mas várias e contraditórias comunidades, lembrando mais a cidade que o antigo claustro conventual da velha Oxford.
Podemos observar, nas políticas nacionais recentes, esse saudosismo gerar diretrizes que procuram preservar um reduto elitista da universidade. Questão bastante
44 De acordo com Schwartzman (2007), o conceito de qualidade utilizado por Flexner, no início do século
XX, perpassou a legislação da reforma universitária brasileira. No artigo primeiro da Lei n. 5.540, de 1968, que organizou o ensino superior no país, está expresso que "o ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das ciências, letras e artes e a formação de profissionais de nível universitário". O artigo 2º diz que "o ensino superior, indissociável da pesquisa, será ministrado em universidades e, excepcionalmente, em estabelecimentos isolados". Contudo, afirma Schwartzman (2007), naquela época o mundo já não era o mesmo. A Universidade alemã, demasiado amarrada ao Estado, não soube resistir à ascensão do nazismo, e perdeu, com ele, muito do brilho e do prestígio de que gozava até então. Não houve uma nova reforma (Flexner) para o ensino superior americano, mas, na segunda metade do século XX, os Estados Unidos desenvolveram o sistema de educação superior de