1. INTRODUÇÃO
1.2 O OBJETO DA PESQUISA
1.2.1 Origens do termo
O termo empoderamento nem sempre existiu, sendo que foi uma necessidade construída no interior de uma cultura. Cabe-nos, então, fazer uma discussão a respeito de como foi criado, em que contexto se fez essa necessidade e como foi apropriado pela Saúde.
14 Aqui, nossa intenção foi trazer um panorama da construção do termo, mas apontamos a necessidade
39 INTRODUÇÃO
Conhecer de fato a origem do termo empoderamento merece um estudo genealógico, pois não há clareza quanto ao seu surgimento. Essa construção está circunscrita em um contexto histórico e, assim como outros termos, é um vocábulo construído no tempo. Quem o estuda no campo dos Direitos Humanos, remete a filiação ao movimento feminista ou ao movimento negro, entre os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos da América - EUA - (IORIO, 2002). Os que circulam pelo campo da Psicologia dizem que a autoria é deles, que nasceu nos anos 1970 também nos EUA (MUSITU OCHOA ET al., 2004). Já o grupo que caminha no campo da Educação, defende que quem adaptou o termo ao seu caráter transformador é o brasileiro Paulo Freire, entre os anos 1970 e 1980 (VALOURA, 2006).
A década de 1960 foi marcada por grandes transformações e movimentos: os protestos estudantis na França; as lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos; os protestos contra a guerra do Vietnã; os da contracultura; do feminismo; da luta contra ditaduras na América Latina, entre outros. Como aponta SILVA (2010), por coincidência neste período, cresceram as críticas aos modelos tradicionais de educação e, também, de outras disciplinas. Destarte, a partir deste cenário de contestações que emergiu o termo empoderamento.
O que é comum na literatura é que nasceu dentro do discurso americano por volta dos anos 1970 e que as diferentes concepções compreendem que é um termo polissêmico, com múltiplos usos e várias interpretações, o que segundo ROMANO (2002) é uma das explicações para seu uso indiscriminado, apropriado como forma de legitimação de práticas diversas.
No campo dos Direitos Humanos, as discussões de empoderamento, proveniente do movimento feminista foram originadas das ciências sociais, mais especificamente das ciências políticas. Esta concepção entende que um grupo é capaz de controlar de alguma forma as ações de outros, assim, as mulheres devem ser empoderadas para que conquistem espaço nas diferentes estruturas sociais, ocupando posições de poder. Dessa discussão, nos anos 1970 e 1980, grupos de mulheres desenvolveram trabalhos de conceituação e elaboração de estratégias de empoderamento para que elas pudessem assumir posições de poder, romper
40 INTRODUÇÃO
diferenças de gênero e exercer sua participação e cidadania na sociedade (IORIO, 2002).
A partir de 1990, o termo foi expandido para outras áreas dos Direitos Humanos, assumindo um lugar de importância na condução de estratégias de combate à pobreza e à exclusão social. A intenção passou a ser empoderar os pobres para que fossem capazes de enfrentar as causas dessas situações que vivem. A partir do empoderamento, os indivíduos assumem a centralidade dos processos de desenvolvimento, sendo que as instituições econômicas ficam a serviço dessas pessoas.
O reconhecimento da necessidade de se empoderar as pessoas e grupos que vivem na pobreza passa a ser percebida, com maior ou menor ênfase, como uma condição para o sucesso de políticas, programas, ou mesmo projetos (IORIO, 2002, p. 22).
No campo da Psicologia, o primeiro uso do termo empoderamento foi creditado ao psicólogo americano Julián Rappaport nos anos 1970 (MUSITU OCHOA ET al., 2004).
Nos anos 1950, foi realizado nos EUA, um censo sobre a saúde mental do país, e como resposta, o governo de então lança o Plano Nacional de Saúde Mental (AMARANTE, 1995). Por isso, os anos 1960 e 1970 foram marcados por um forte movimento de reformas, pois os pesquisadores envolvidos constataram que as instituições psiquiátricas eram mais causadoras do que resolutivas dos problemas mentais e “que as pessoas que tinham mais necessidade eram as que menos ajuda
recebiam” (RAPPAPORT 1990, p. 143).
Simultaneamente, ocorria uma reforma econômica no país. Esses dois movimentos se juntaram e criaram um forte processo de desinstitucionalização que “poderia reduzir a estigmatização, bem como os efeitos secundários do tratamento e
possibilitar ao mesmo tempo poupar fundos” (RAPPAPORT 1990, p. 143).
Entretanto, essa desinstitucionalização esvaziou os hospitais psiquiátricos, mas não criou alternativas suficientes de prestação de cuidados para seus novos ex-internos a nível nacional. Para evitar a nova clausura no hospital psiquiátrico, surgiram
41 INTRODUÇÃO
propostas locais como alternativas de apoio, mas não suficientes para a nova demanda.
É nesse cenário que Rappaport defende como alternativa a criação de grupos e organizações de auto e interajuda. Baseiam-se na ideia de que indivíduos com problemas similares se ajudam uns aos outros. Assim em 1977 introduz o termo empoderamento que então é considerado “o mecanismo pelo qual as pessoas, a
organização e a comunidade ganham domínio sobre as suas vidas” (MUSITU
OCHOA ET al., 2004, p. 3).
Desta forma, o termo americano nasceu em um cenário de assistência, de luta por inclusão, de superação, de desinstitucionalização, com forte teor, até religioso, de compadecimento com pessoas sem poder que precisam ser incluídas, pois era preciso “compadecer-se com os que estão no fundo da hierarquia social” (RAPPAPORT 1990, p. 145), em sintonia com um sistema econômico, político e social excludente.
Desde sua concepção, é possível perceber a preocupação centrada no sujeito, por isso carrega um teor individualista. Por mais que refiram ao empoderamento social, sua forte pretensão é fortalecer indivíduos para adequar-se ao modelo hegemônico.
Quanto ao compadecimento proposto por Rappaport, há o risco de cairmos em um falso discurso de benevolência, como FUGANTI (2009, p. 670) lembra-nos: práticas piedosas podem ser consideradas um dos piores venenos da atualidade, pois se tratam de uma velha forma de disfarçar o ódio e a vontade de poder sob fórmula de amor e ironiza: “continuaremos ‘piedosos’ pós-modernos neste século XXI, que se desenha como século da inclusão, do pertencimento, do empoderamento, da pró-atividade?”.
Quando essas discussões, tanto dos direitos humanos quanto da psicologia, chegaram ao Brasil, no final dos anos 1970, encontraram-se com a força dos Movimentos Sociais, da Educação Popular, da Teologia da Libertação e da Reforma Sanitária. Um período marcado pelo interesse comum, principalmente dos
42 INTRODUÇÃO
moradores das periferias das grandes cidades e regiões metropolitanas, por melhorias sociais.
Nesse período, fortaleceu-se a proposta de Paulo Freire ao defender a Pedagogia libertadora, com a preocupação em libertar os sujeitos a partir da conscientização, da vida de opressão e, neste intuito, a educação é compreendida como prática libertária. A libertação é entendida como um parto onde nasce um novo homem quando se conscientiza da opressão (FREIRE, 2003).
Logo nos anos 1980, SHOR e FREIRE (1986) discutiram a compreensão americana de empoderamento e as possibilidades de reproduzi-la na América Latina. Para Freire, tendo a educação como foco, o empoderamento gera a sensação de liberdade e desenvolvimento crítico, mas sem mudança social, não será o empoderamento como ele o compreende.
Uma prática pode até ativar a potencialidade do sujeito e gerar certa independência e liberdade, mas pode não ser suficiente para torna-lo apto a realizar transformações políticas necessárias. Uma ação de empoderamento que não compreenda a liberdade como um ato social não funciona. Se não consegue usar a liberdade para a transformação social, então está só exercitando uma atitude individualista (SHOR e FREIRE, 1986).
Os autores deixam clara essa distinção afirmando que, pelo fato de a sociedade norte americana ter raízes no individualismo, em que sua cultura e seu dinamismo econômico sempre deram ênfase ao aumento de poder individual, à autoajuda, não há a preocupação com transformação social como na América Latina. Por isso, o termo empoderamento, em contexto americano, tem sido usado como fomento ao individualismo (SHOR e FREIRE, 1986).
Além disso, sob toda a influência do discurso marxista, compreendem que empoderamento na América Latina é diferente da cultura norte americana porque a discussão sobre classes sociais é outra.
43 INTRODUÇÃO
Compreendo o empowerment como o empowerment de classe social. Não individual, nem comunitário, nem meramente social, mas um conceito de empowerment ligado à classe social [...]. A questão do empowerment da classe social envolve a questão de como a classe trabalhadora, através de suas próprias experiências, sua própria construção de cultura, se empenha na obtenção do poder político. Isto faz do empowerment muito mais do que um invento individual ou psicológico. Indica um processo político das classes dominadas que busca a própria liberdade da dominação, um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta (SHOR e FREIRE 1986, p. 72).
Depois dos anos 1980, vivemos o que OAKLEY e CLAYTON (2003) chamaram de “era do empoderamento”. Nesse período, tivemos a forte influência histórica da “cultura do empreendedorismo”, presente até hoje, com a imagem de ‘eu empreendedor’, que aspira por sua autonomia, luta por realização pessoal, que entende sua realidade e destino como responsabilidade individual e que precisa encontrar significados para sua vida através de suas escolhas (ROSE, 2011).
A partir de então, organizações e pessoas são problematizadas pela sua falta de empreendedorismo, caso não alcancem a imagem proposta, evidenciam seu fracasso e fraqueza. Por isso, são estimulados a comportar-se com rigor e ousadia, a se esforçar para alcançar seus objetivos. O sujeito empreendedor é aquele que torna sua vida um empreendimento, maximizando seu potencial, projetando seu futuro e se moldando para ser aquilo que deseja, como uma forma de autogoverno, ou seja, o governo de si próprio.
Essa cultura empreendedora gera o que ROSE (2011) chamou de ‘ilusão capitalista’, na crença de que indivíduos são soberanos e livres, uma vez que seu desejo de liberdade não é mais compreendido como o contrário do poder político, mas, este é um de seus objetivos. Deste modo, governar os sujeitos não é mais governar apesar da liberdade, mas governar por meio da liberdade. Uma liberdade regulada.
44 INTRODUÇÃO