O SenadO da Câmara da Vila nOVa dO prÍnCipe
25 No original: “A Capitania do Rio Grande do Norte ficará desmembrada da Comarca da Paraiba, e formará huma Comarca separada, que Sou Servido
Criar com a denominação da Comarca do Rio Grande do Norte, sendo por Cabeça a Cidade do Natal e os limites que se achão assinados para a mes- ma Capitania”. BRASIL. AN. RJ. Cód. 22.0.0.1957. Alvará pelo qual Vossa Magestade Há por bem Criar a nova Comarca do Rio Grande do Norte, desannexando-a da Comarca da Paraiba. [Rio de Janeiro], 18 de março de 1818.
26 JOFFILY, Irinêo. Notas sobre a Parahyba. 2.ed.fac-similar. Brasília: Thesau- rus Editora, 1977. p. 273.
Vila Nova do Príncipe expusessem essa desavença ao Rei em 1822, con- fiando à autoridade real a resolução do problema. Em vereação, os edis da Câmara da Vila do Príncipe, presididos pelo juiz ordinário Martinho de Medeiros Rocha, reclamaram ao Rei acerca do esbulho que a Vila de Pombal pretendia fazer,
com o que vem arrancar das entranhas desta Vila quase todo o território, e a maior parte dos Povos, que fazem o número das Almas desta Freguesia do Seridó sem apresentarem outro título e aquisição senão a sua arbitra- riedade, plantando por isto uma cizânia, e total dissabor dos Povos que satisfeitos com a sua antiga subordinação à esta Vila são ameaçados a in- cômodos de recorrerem a outra, que em parte lhe vem a ficar em distância de trinta a quarenta e mais léguas, transtornando o giro dos seus negócios judiciais, e estorvando a pronta execução da Justiça para salvar o direito individual de cada uma.27
Esse pedido de providências dirigido ao Rei nos indica o quanto os ânimos entre as autoridades das duas vilas – Príncipe e Pombal – estavam acirrados, em função “dos desassossegos”28 criados em torno da posse de territórios que, nos dias de hoje, correspondem à região do Seridó. Os vereadores da Vila do Príncipe defendiam, pelo que pudemos depreender da leitura da carta enviada ao Rei, que seria um transtorno e incômodo para os povos já subordinados a esta jurisdição ter que focar suas aten- 27 No original: “com o que vem arrancar das entranhas desta Villa quasi todo
o território, e a maior parte dos Povos, que fasem o numero das Almas desta Freguesia do Sirido sem apresentarem outro titulo, e acquisição senão a sua arbitrariedade, plantando por isto huma sizania, e total dissabor dos Povos que satisfeitos com a sua antiga subordinação á esta Villa são ameaçados a encomodos de recorrerem a outra, que em parte lhe vem a ficar em distancia de trinta a quarenta e mais legoas, transtornando o giro dos seus negócios judiciaes, e estorvando a prompta execução da Justiça para salvar o direito individual de cada huma”. BRASIL. AN. RJ. CODES. Fundo D9 – Vice-Rei- nado. Cx. 761. Cód. 029.0.78. Carta dos Vereadores da Villa do Principe ao Rei, de 3 jul 1822. (Manuscrito).
ções, no que concerne às questões da Justiça, para outra vila. Estamos nos referindo à Vila Nova de Pombal, cuja distância podia chegar a trinta ou quarenta léguas em relação à ribeira do Sabugi e à Serra do Cuité.
Na verdade, o estopim do esbulho já mencionado foi relatado pelos edis da Câmara da Vila do Príncipe cinco anos mais tarde (1827), na res- posta encaminhada ao Presidente da Província do Rio Grande do Norte, em face de um pedido de informações deste último. As querelas inicia- ram em 1822, quando o juiz ordinário e o escrivão da Vila do Príncipe procederam a eleições de paróquia na Matriz dos Patos em 1822. Nessa ocasião, “(...) o Povo tumultuariamente obstou as Eleições tomando por pretexto serem do Termo da Vila do Pombal”29, em consequência das de- terminações do Alvará de 18 de março de 1818.
Essa nova legislação havia provocado atos de desobediência em duas vilas da Paraíba: a de São João dos Cariris tomara posse da Serra do Teixeira e a de Pombal, posse de toda a Ribeira das Espinharas, ambas, lugares que faziam parte do termo da Vila Nova do Príncipe. Além disso, segundo os vereadores já mencionados, a Vila Nova de Pombal também queria tomar posse do rio Sabugi e Piranhas, alegando serem estes “ter- ritórios da Província da Paraíba”30. Os moradores dessas duas ribeiras, contudo, “requereram a esta Câmara [da Vila Nova do Príncipe] que os não desamparassem, que só queriam obedecer a esta Vila tanto por lhe ficar mais perto como por que tinham sido criados na obediência à mesma”31. O texto desse documento permite-nos, assim, compreender a razão dos insistentes pedidos de esclarecimento às autoridades coloniais 29 No original: “o Povo tumultuariamente obstou as Eleições tomando por pre-
texto serem do Termo da Villa do Pombal”. 30 No original: “territórios da Provincia da Paraiba”.
31 No original: “requererão a esta Camara [da Vila Nova do Príncipe] que os não desamparacem, que so querião obedecer a esta Villa tanto por lhe ficar mais perto como por que tinhão sido creados na obediencia á mesma”. BRA- SIL. AN. RJ. CODES. Fundo D9 – Vice-Reinado. Cx. 761. Cód. 029.0.78. Carta dos Vereadores da Villa do Principe ao Rei, de 3 jul 1822. (Manuscri- to).
e imperiais acerca da contenda envolvendo as fronteiras da Vila do Prín- cipe entre o Rio Grande e a Paraíba. O argumento da proximidade do rio Sabugi – mais o da Serra do Cuité – fica mais claro quando visibilizamos as suas distâncias em relação às vilas do Pombal e Príncipe, como bem demonstraram os vereadores desta última em sua vereação, que organi- zamos em forma de quadro:
Quadro 1 – distância dos povos do Sabugi e dos povos do Cuité em relação às vilas do príncipe e de pombal
lugares distância da Vila nova
do príncipe Vila nova de pombal
Povos da Serra do Cuité e mais
alguns lugares 24 léguas 44 léguas Povos do Sabugi, na parte mais longe
da Vila de Pombal 10 léguas 30 léguas Povos do Sabugi, na parte “de mais
perto” da Vila de Pombal 4 léguas 16 léguas
Fonte: BRASIL. AN. RJ. CODES. Fundo D9 – Vice-Reinado. Cx. 761. Cód. 029.0.78. Resposta pr artigos aos Quezitos pedidos á Camera da Villa do Prin- cipe pelo Exmo Snr Preside desta Prova [Villa do Principe 2 de junho de 1827], anexo à Carta dos Vereadores da Villa do Principe ao Rei, de 3 jul 1822. (Ma- nuscrito).
Além de estarem geograficamente mais perto da Vila do Príncipe, os moradores das ribeiras do Sabugi e Piranhas “tinham sido criados na obediência à mesma”, ou seja, o processo histórico que desembocou na ocupação desses espaços estava intimamente ligado ao surgimento da Freguesia do Seridó (1748) e da Vila Nova do Príncipe (1788). Dizendo de outra maneira, os povos que habitavam as áreas do Sabugi e Piranhas foram capazes, em meio a uma situação de conflito, de fazer escolhas acerca de sobre qual domínio administrativo gostariam de pertencer e o fizeram em favor da Vila do Príncipe, fazendo-nos crer que havia uma
identificação dessas pessoas para com o território que era abençoado por Santa Ana.
A questão dos limites entre as duas vilas continuou até a década de 1830. Mesmo os edis da Vila do Príncipe, em 1822, tendo pedido ao Rei para “Escutar os clamores dos Povos de nossa representação Mandando proceder a uma divisão mais análoga às circunstancias e urgências Civis e Militares desta Província e igualmente da sua limítrofe”32, tal demarca- ção não ocorreu – ou, ao menos, a documentação não aponta que tenha ocorrido. As reclamações dos habitantes da Vila do Príncipe acabaram chegando à esfera legislativa do Império, onde o padre Francisco de Brito Guerra ocupava a cadeira de deputado geral, representando os interesses do povo da ribeira do Seridó. Façamos uma pausa no processo histórico para, a partir de agora, descrevermos a forma pela qual era gerenciado o poder municipal no Senado da Câmara da Vila Nova do Príncipe.
Gerenciando a vila: o Senado da Câmara
Percebemos, a partir da leitura do tópico anterior, que problemas ligados à jurisdição territorial da vila interessavam, em termos de resolução, a um corpo de pessoas eleitas para esta e outras finalidades, que compu- nham a Câmara Municipal. Esta era o organismo por meio do qual se ge- renciava a administração civil, em nível local, nos domínios do Império Ultramarino Português, desde o Reino até suas conquistas, alternando sua denominação, indistintamente, entre Câmara Municipal e Senado da Câmara, a depender do lugar.33
32 No original: “Escutar os clamores dos Povos de nossa representação Man- dando proceder á hũa divisão mais análoga as circunstancias e urgências Civis e Militares desta Provincia e igualmente da sua limítrofe”. BRASIL. AN. RJ. CODES. Fundo D9 – Vice-Reinado. Cx. 761. Cód. 029.0.78. Carta dos Vereadores da Villa do Principe ao Rei, de 3 jul 1822. (Manuscrito). 33 BICALHO, Maria Fernanda B. As Câmaras Ultramarinas e o Governo do
Império. In: FRAGOSO, João; ______. ; GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. (Org.). O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séc.
Tal sistema de governo municipal era baseado no Regimento de 1506, incorporado às Ordenações Filipinas de 1603, no seu Livro I, Tí- tulos 65 a 72, compilação do Direito lusitano que teve sua vigência, no Brasil, estendida até a promulgação do Código Civil de 1916. Entre suas competências estavam a defesa do território e a manutenção da ordem social e das condições de abastecimento.34 Em suas reuniões, em geral, duas vezes a cada semana, os agentes camarários “deliberavam sobre as- suntos relacionados ao cotidiano das populações, harmonizando as re- gras gerais do império português e as especificidades locais, sobretudo por meio das posturas”.35
Fornecendo suporte ao Senado da Câmara havia um corpo de fun- cionários responsáveis por funções administrativas, como o escrivão, cuja responsabilidade era cuidar dos registros escritos da própria edilidade, sobretudo, lavrando atas das vereações. Tabeliães das notas, tabeliães ju- diciais, contadores, inquiridores, distribuidores, solicitadores, partidores, alcaides-pequenos, quadrilheiros e porteiros eram cargos que orbitavam a sede do poder municipal. No caso da Vila do Príncipe, a partir da docu- mentação judicial disponível rastreamos um indivíduo que atuou como Porteiro do Auditório do Senado da Câmara, o índio Tomé Gonçalves da Silva, que era casado com Maria Egipcíaca da Silva. Ao porteiro ca- bia a função de cuidar de pregões, determinados pelo juiz ordinário e/ou de órfãos quando necessário leiloar, em público, bens para o pagamento de dívidas em processos judiciais. Em inventários post-mortem de 1795, 1798, 1805, 1809, 1810, 1813, 1814 e 1822 encontramos o índio Tomé Gonçalves, percorrendo as ruas da Vila Nova do Príncipe e apregoando os leilões de bens em hasta pública.36
XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p.189-221.
34 GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Administração. In: VAINFAS, Ronaldo (dir.). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808).
35 GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Câmaras. In: VAINFAS, Ronaldo (dir.).
Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), p. 88-90.
Retornando aos camaristas, dentre suas atribuições estavam a de distribuição das terras municipais e vigilância sobre a construção de ca- sas, os arruamentos, as pontes e os caminhos vicinais do seu termo; a do cuidado com a ordem pública e a saúde dos moradores, vigiando sobre os locais de despejo do lixo, conservação dos chafarizes e canos condu- tores de água, para evitar sua poluição; a de distribuição dos expostos ou enjeitados, quando não havia, nas vilas, Casa de Misericórdia para deles cuidarem; a de pagamento e organização de festas religiosas e públicas mais importantes.37
A quantidade de camaristas que compunham o Senado da Câmara variava de acordo com o tamanho da municipalidade – vila ou cidade – onde estava instalado, havendo, pelas Ordenações Filipinas, a necessida- de de, pelo menos, oficiais que deveriam ocupar os cargos de juiz ordiná- rio, vereador, procurador, tesoureiro e almotacé, além do juiz de órfãos, específico em alguns municípios.38 Apenas os “homens bons”, seguindo a lógica do Antigo Regime, poderiam eleger e ser eleitos oficiais do Sena- do da Câmara, preenchendo as funções de governança municipal, isto é, aqueles que reuniam condições para pertencerem a um certo estrato so- cial. Tratava-se de homens abonados, com cabedal e prestígio, e que não tivessem mancha de sangue (como, por exemplo, a de origem judaica) ou de defeito mecânico (ou seja, exercessem ofícios manuais, por exemplo, carpinteiros, sapateiros) em sua ascendência.39 No caso da Vila Nova do Silva pode ser obtido em MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Sobre mestiçagens numa freguesia do sertão da América portuguesa: o caso do ín- dio Tomé Gonçalves da Silva. Nuevo Mundo-Mundos Nuevos, v. 11, p. 1-15, 2011.
37 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Administração municipal. In: ______. (Co- ord.). Dicionário da história da colonização portuguesa no Brasil. Lisboa: Verbo, 1994. p. 25-28.
38 SALGADO, Graça (org.) Fiscais e Meirinhos: a administração no Brasil Co-