Capítulo 5. A emergência de novos papéis sociais
5.3. Orquestras, regentes e músicos instrumentistas
Quanto às orquestras que acompanhavam estas companhias, não existe uma referência sistemática no que se refere à sua constituição. Sousa Bastos comenta que as orquestras dependiam do tipo de espectáculo apresentado e das dimensões dos teatros (Bastos 1908: 102). Segundo o autor, os teatros deviam ter uma orquestra formada consoante o género apresentado: um teatro de comédia poderia ter ou não orquestra. Os Teatros Ginásio, D. Amélia e Príncipe Real teriam um sexteto, um número de instrumentos frequentemente referido, apesar de não especificar a sua constituição; um teatro de Vaudeville poder-se-ia limitar a uma orquestra de doze ou catorze professores; os teatros de Ópera ou Ópera-Cómica deveriam ter uma orquestra de pelo menos vinte executantes; segundo a sua importância, as companhias líricas, deveriam ter orquestra compostas por cinquenta ou mais músicos (ibid.: 102). As orquestras foram compostas, segundo o autor que venho a citar, da seguinte forma: As pequenas orquestras, que serviam para tocar em intervalos, ou simplesmente para acompanhar couplets ou executar música de cena, seriam compostas por dois primeiros violinos, um segundo, uma viola-d’arco, um violoncelo, um contrabaixo, uma flauta, um clarinete, um piston, um trombone, duas trompas e um timbaleiro. Nos teatros de ópera-cómica e opereta, ainda segundo o mesmo autor, as orquestras seriam compostas por quatro primeiros violinos, dois segundos, uma viola-d’arco, um violoncelo, dois contrabaixos, duas flautas, dois clarinetes, dois pistons, um trombone, duas trompas, um fagote, um oboé um timbaleiro, um bombo e um caixa. Já a grande orquestra, que acompanharia as grandes
81 Essa obra [O cego] surge na catalogação de Pinto Loureiro, como drama em um prólogo e quatro actos,
de Ennery, tradução e cenografia de Miguel Costa, apresentada em 1894 e 1903. Contudo, o autor refere que existe outra tradução ou imitação em cinco actos, de Rodrigo Felner. Houve também, segundo o mesmo autor, com o mesmo título de 1849, do brasileiro Joaquim Manuel de Maecedo (Loureiro 1959: 238).
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companhias líricas, deveria ser composta por doze primeiros violinos, doze segundos, oito violas-d’arco, oito violoncelos, oito contrabaixos, duas flautas, um flautim, dois clarinetes, dois oboés, duas harpas, quatro baixos, quatro trompas, dois fagotes, dois pistons, três trombones, um oficlide, dois saxofones, um timbaleiro, um bombo, uma caixa e triangulo (ibid.: 102-103).
Com base na minha análise não será possível indicar a formação das orquestras dos teatros e grupos conimbricenses, todavia foram encontradas uma série de informações relativas aos regentes e às associações que permitem concluir que existiam essas formações musicais nas récitas de teatro cantado. Nos periódicos da época, a referência aos músicos e orquestras seria mais frequente em concertos musicais.
O Teatro Príncipe Real tinha orquestra e banda dirigida por Dias da Costa (ibid.: 326) e devido às suas dimensões e condições, foi a sala de espectáculo que a partir da década de 90 recebeu mais companhias profissionais.
No que diz respeito aos dirigentes, foram encontrados os seguintes:
Francisco Macedo, além de compositor e professor de música, terá sido regente de orquestra nomeadamente da orquestra da Sociedade Ensaios Dramáticos, duma grande orquestra que tocou em 1881 na festa da Nossa Senhora das Dores onde foi tocado o Stabat Mater do seu pai e foi regente da Tuna Académica da Universidade de Coimbra. Como músico tocaria piano e órgão.
Simões Barba foi outros dos compositores que terá regido orquestras na cidade. Foi nomeado em 1881 professor da cadeira de música anexa à Capela da Universidade. Dirigiu uma trupe musical académica em 1893 e no ano seguinte foi nomeado Regente da Tuna Académica composta por 32 elementos, sendo o seu substituto José Cochofel (s.a. 1894b:2). Foi o regente da orquestra que terá acompanhado a récita dos quintanistas de 1894 com a obra O Sr. Pelides de Coimbra. Como músico tocaria, pelo menos, flauta e violoncelo.
Foram identificados outros regentes que surgem ligados a associações e às bandas da cidade de Coimbra, mas que pouco mais se sabe: Adriano Tinoco (fotógrafo), regente da orquestra da Sociedade Recreio Artístico; Leite Junior (académico), regente do grupo musical do Grupo Dramático-Musical Eduardo Brasão; Alves Ribeiro, regente da banda do
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regimento 23; José Tito da Silva Lizardo, regente da orquestra dos Grupos Dramático Almeida Garrett e Dramático Augusto Rosa; Francisco Porto dirigente da Orquestra do Grémio Dramático; António dos Santos Tovim (académico), ensaiador musical e regente da orquestra da Troupe Dramática do Teatro de D. Luís de Coimbra, que era constituída por membros dessa mesma troupe; António Pio, músico da Filarmónica Conimbricense, foi regente da orquestra do Grémio Talma, Flor do Mondego; Augusto Gomes Paes mestre da Banda Boa-União e regente da orquestra da Sociedade Recreativa Conimbricense
Aquando das Comemorações em 1882 em Coimbra, há uma notícia no periódico O
Conimbricense, que refere uma “excelente orchestra, dirigida e ensaiada pelo sr. capelão
da casa real, bacharel Francisco José Brandão” (S.a. 1882k:1-3). A referida orquestra terá executado extractos de “óperas” portuguesas “feitos e concertados para septuors (flauta, violinos, violoncellos, piano e orgão melodium) magistralmente pelo sr., quartannista de Medicina pelo referido distincto professor o sr. bacharel Francisco José Brandão”, para serem executadas na “sala dos actos grandes da Universidade” (Ibid.). Dessas obras destaca-se Artemisia (1782), de Antonio Leal Moreira, Semiramide (1783), de Marcos Antonio Portugal e Natal augusto (1793), de António Leal Moreira. António Rodrigues Paula Santos foi regente da Filarmónica Conimbricense, teria o curso do Real Conservatório de Lisboa e ensinava vários instrumentos. António dos Santos Tovim, quartanista de Medicina terá regido a orquestra do teatro Príncipe Real. Nesse sarau em Março de 1895 terá sido tocado “O Gerellschafto-quartett, executado por S. Tovim, A. Pessoa, R. d Oliveira e S. Pessoa” (s.a. 1895a:3). Na primeira parte do programa a estudantina composta por dezoito músicos foi regida pelo mesmo Tovim e terá tocado entre outros compositores Michiels e Boccherini. Outros músicos que tocaram nesse sarau foram Martins Pereira e Samuel Pessoa (que já tinha tocado no quarteto), ambos violinistas e estudantes. Cantou também, Hilário, cantor conimbricense que terá cantado fados (Ibid.). No espectáculo de homenagem a Joaquim Martins de Carvalho realizado pelo Grupo Dramático Martins de Carvalho em Janeiro de 1897, a orquestra constituída por amadores foi dirigida por João Pinho.
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Entre os músicos conimbricenses ou residentes em Coimbra identificados em concertos anunciados nos periódicos da época posso citar Augusto Paes e Alfredo de Castro (flautistas), J. J. Sequeira, José Júlio Forbes e Luiz d'Albuquerque (pianistas), José Taborda (Baixo), A. Rego (tenor), Luiz da Gama (cantor), José Júlio e Fogaça (guitarritas), Medeiros (violino).
Em Coimbra, existiram orquestras, mesmo que pequenas, músicos que participavam em récitas musicais e concertos musicais, mas que também tocavam nas orquestras que acompanhavam as obras de teatro cantado. Nas récitas onde eram apresentadas obras dos géneros em análise por companhias portuguesas sediadas fora de Coimbra e companhias estrangeiras, as orquestras eram formadas por músicos dessas mesmas companhias. Se no caso dos artistas é possível afirmar que existia um intercâmbio de experiência, no caso dos músicos não é possível afirmar se esse intercâmbio seria tão frequente como com os outros artistas. Estão documentados concertos com músicos estrangeiros e portugueses, nos quais participam músicos conimbricenses, como é o caso dum dos concertos dados pelo violinista Julio Caggiani:
“Auxiliado por um grupo de distinctos amadores, os srs. Luiz d'Albuquerque, Ribeiro Alves, Mário da Silva Gayo, Francisco Macedo, João Maria Roque, Augusto Martins, Augusto Paes, A. Machado e Samuel Pessoa, este notável concertino do theatro de S. Carlos, realisou na quarta feira, no salão da Associação dos Artistas, um brilhante concerto” (S.a. 1893q:3).
Contudo nas orquestras não se sabe se existiam músicos oriundos de outras companhias, ou se algum dos músicos conimbricenses terá feito carreira como alguns dos actores dramáticos citados.