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3.4. Informação linguística e gramatical

3.4.1. Ortografia

Uma outra informação dada nos artigos tem a ver com a ortografia da palavra de entrada. Tal como acontece no Vocabulario de Bluteau, houve uma preocupação por parte de Folqman em registar as diferentes grafias de algumas palavras que constituem entrada no Diccionario. No início do século XVIII, gramáticos e lexicógrafos objetivavam uma maior

coerência ortográfica nas suas obras76. No entanto, a norma que procuravam nos textos

literários como base para a sua escrita tornou-se cada vez menos um ponto de referência, conflituando com a circulação de textos impressos com diferentes formas de escrita. A língua que se ensinava não assentava, portanto, em regras, mas sim em textos e frases

76 No século XVII houve algumas publicações normativas: em 1615 as Regras da orthografia da lingoagem

portugueza (Amaro de Roboredo); em 1631 a Orthographia, ou modo para escrever certo na lingoa portuguesa (de Álvaro Ferreira de Vera); em 1666 as Regras Gerays, breves e comprehensivas da melhor orthographia com que se podem evitar erros no escrever da lingoa Latina, e Portugueza (Bento Pereira); e em

célebres de autores conhecidos. No entanto, e porque muitas vezes o manuscrito sofria alterações ortográficas na tipografia, estes textos acabavam por, em alguns casos, não demonstrar a preferência ortográfica do autor mas sim da casa editora.

A Prosodia e o Thesouro de Bento Pereira, ainda que bastante extensos e elucidativos quanto ao significado das palavras, não contribuía de uma forma clara e direta para o esclarecimento da grafia de palavras portuguesas uma vez que, na maior parte dos casos, os termos latinos não eram traduzidos para português, acabando por ser ineficazes neste domínio.

Rafael Bluteau, Jerónimo Contador de Argote, João Madureira Feijó e Luís Caetano de Lima, os principais autores de obras metaortográficas desta época, prescrevem com reservas. Receavam impor o seu modus scribendi, uma vez que noutras línguas a norma era legitimada por uma assembleia de homens doutos e eruditos que se baseavam em textos de autores conceituados. Ora isto não poderia ser realizado em Portugal uma vez que, frequentemente, a ortografia dos autores não era respeitada pelos tipógrafos, o que arrastava consigo uma grande contradição.

É neste ambiente de anarquia a nível ortográfico que a publicação do Vocabulario Portuguez, e Latino (1712 - 1728) de Raphael Bluteau é recebida com grande expetativa. Para cada entrada, Bluteau apresenta uma série de exemplos de uso concreto das palavras baseando-se em autores conceituados a nível literário. No entanto, as normas ortográficas da língua portuguesa não puderam ser definidas por este lexicógrafo uma vez que, dessa forma, ele estaria a contrariar o uso dos autores com que exemplifica o significado das palavras do seu Vocabulario.

Por volta de 1721, Jerónimo Contador de Argote (1676-1749) publica a gramática Regras da Lingua Portugueza, onde defende que a ortografia portuguesa se devia assemelhar ao modelo latino.

Em 1734, João Madureira Feijó (1688-1741) publica a Orthographia77 que,

«propondo uma codificação ortográfica com as marcas e as indecisões da escrita do início do século XVIII, permaneceu inalterada até finais do século XIX e institui-se como uma das primeiras autoridades normativas do português moderno» (FEIJÓ 2008: 7).

77 A Ortografia de Feijó tem sido tema de diversos trabalhos, dos quais destacamos os de KEMMLER 2001 e de GONÇALVES 1992; 2003. A edição da Ortografia (FEIJÓ 2008) também constitui um contributo fundamental para o estudo da obra.

Feijó desconsidera a autoridade normativa de autores de textos e dos dicionários, que não revelam consenso ortográfico quer por indecisão dos autores ou por mudança nas tipografias, optando por «um equilíbrio entre a etimologia e usos consagrados, embora prefira as que se conformem com uma racionalização etimologizante da língua» (SILVESTRE 2007: 186). Esta obra tornou-se uma autoridade no domínio da normalização da ortografia até ao século XIX, o que justifica as sucessivas reimpressões da obra.

Dois anos mais tarde, em 1736, é publicada a Orthographia da lingua portugueza do Padre Luís Caetano de Lima (1671-1757) que «em nenhuma das [XXII] e 217 páginas» faz «alguma referência à obra de Feijó» (KEMMLER 2001: 220). Tendo como base a ortografia do Padre António Vieira, Caetano de Lima opta por um modelo preferencial relativamente à variedade da mesma palavra. No entanto, «ainda que apontasse soluções que poderiam conduzir a uma regularização, apresentava-se sob a forma de um tratado, de difícil consulta, e sem oferecer forma explicita de esclarecer dúvidas sobre a solução para determinada palavra» (SILVESTRE 2007: 188). Talvez por esse motivo a obra não tenha voltado a ser impressa.

Luís António Verney, em 1746, publica a obra Verdadeiro Método de Estudar, onde se manifesta contra a ortografia etimológica. Verney considerava que «os Portuguezes devem pronunciar, como pronunciam os omens de melhor doutrina, da Província de Estremadura; e, posto isto, devem escrever a sua língua, da mesma sorte que a pronunciam» (VERNEY: 1746: 14).

No Prólogo, a propósito das diferentes grafias apresentadas, Folqman diz: «Na palavra, em que remetto o Leitor para outra, he por ser a segunda de melhor ortografia, e aquella, a que se segue, ou q. vid. he porque se escreve de ambos os modos acertadamente» (FOLQMAN 1755: [V]).

No Diccionario, Folqman esforça-se por esclarecer a melhor forma de escrever as

palavras, quer apresentando as diferentes grafias de uma mesma palavra (SÁBADO, M. OU

SABBADO;SEBE, F. OU SEVE;SALOIO, OU SALOYO; LINGOAGEM, OU LINGUAGEM, Q. VID.; MEZA, OU MÊSA, Q. VID.;SIMPLES, ADJ. OU SIMPLEZ;SCIATICA, OU CIÁTICA, Q. VID.)quer referenciando

as que seriam de « melhor ortografia»: (SOBIDA, VID. SUBIDA; ABATIMENTO , VID. ABATE;

ABAXAR, VID. ABAIXAR.; ABAXO, VID. ABAIXO.; ABSOLVIDO, A, VID. ABSOLTO.; ABYSMO, VID. ABISMO; ACENDIDO, A, VID. ACESO.; SIENCIA, VID. SCIENCIA, COM OS MAIS).

A confusão e uso indistinto do <s> e do <z> reflete-se no Diccionario de Folqman, embora de forma pouco significativa. Apenas algumas palavras revelam o uso indistinto de

<s> e <z>: DEMASIADA/DEMAZIADA, FRISA/FRIZA, MESA/MEZA, PRESO/PREZO,

PRISÃO/PRIZÃO, RAZÃO/SEMRASÃO, SIMPLES/SIMPLEZ, SISO/SIZO e VESES/VEZES. A utilização indiferenciada de <s> e <z> quer no meio quer em final de palavra revela a dificuldade em

determinar qual a grafia mais correta e a falta de regras para executar tal escolha78. No

entanto, Folqman revela já uma tendência para eliminar grafias alternativas, optando pela que considera mais acertada. Tendencialmente grafa com <z> o som /z/, optando raras vezes pelo grafema <s>.

No que respeita às palavras iniciadas por <sc->, no Diccionario apenas se

contabilizam seis entradas - SCENA, SCIATICA, SCIENCIA, SCIENTE,

SCIENTEMENTE, e SCIRRO - indo de encontro às ideias de Caetano de Lima79

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