4 A VIOLÊNCIA URBANA E O SEU ASPECTO TERRITORIAL : O BAIRRO
4.2 O TERRITÓRIO E SUAS CARÊNCIAS
4.2.1 Os índices de criminalidade
A impunidade deturpa a aplicação da lei, tomamos, por exemplo, o crime de homicídio no Brasil. Os inquéritos envolvendo crimes capitais, apesar do esforço hercúleo da polícia brasileira, carente de recursos básicos e humanos, quando confrontada com os índices de
28 Jürgen Habermas - filósofo alemão, nasceu em Gummersbach (18/06/1929). 29 Montesquieu
mortalidade de “guerra” em um dos países mais violentos do mundo, são ínfimos na capacidade de resolução dos crimes.
Uma dificuldade apontada por vários estudiosos, podendo macular a percepção de segurança, preocupação que deverá ser balizada no Programa piloto a ser implantado no bairro Jorge Teixeira, já ciente e inovador na utilização dos CVLI’s, é a divulgação de estatísticas criminais baseadas em indicadores únicos, como o crime de homicídio.
Ressaltando ser este o índice mais utilizado no mundo, e também mencionado na pesquisa realizada pela ONG do México, por seu caráter de crime capital e definitivo, reduzindo posicionamentos jurídicos contrários e melhor determinação da vítima. Observa-se que os pesquisadores preferem estudar os crimes de homicídios porque acreditam que esta é uma modalidade de delito em que o sub-registro e os problemas legais de classificação são menores. Entretanto o sociólogo Chileno Felipe Salazar Tobar (2015) propõe uma revisão dos métodos atuais de apuração da violência e criminalidade na América do Sul, baseando seu estudo em 08 (oito) indicadores, quais sejam: homicídios, lesões, roubo contra pessoas, violência sexual, furto, roubo com invasão, furtos de veículos e sequestro. Utilizando uma série temporal compreendida entre os anos de 2003 a 2012.
Em razão do lugar de destaque da criminalidade na agenda pública, a mensuração da violência e do crime tornar o fato de “medir” seus efeitos um tarefa complexa, “pela sua amplitude e dinâmica” (Tobar, 2015). As fontes oficiais, em regara, não são transparentes ou não estão disponíveis, eivadas de “cifras ocultas” ou “negras”, mascarando dados reais, além de mudanças legais, interesses institucionais, seriedade do crime ou mudança no manejo dos dados do crime. A capacidade de existir um “efeito político” causa, segundo o autor, a limitação da produção e da difusão dos dados envolvendo violência e criminalidade.
A série temporal analisada pelo autor constata que a Colômbia, a Venezuela e o Brasil possuem taxas de homicídios “acima do dobro do considerado epidêmico pela Organização Mundial da Saúde – OMS, ou seja, igual ou superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes”. A Colômbia que tinha a taxa de 53,8 mortes por 100 mil habitantes, no ano de 2003, conseguiu reduzir seus índice para 30,8 por 100 mil habitantes, ao passo que a Venezuela aumentou de 44,0 homicídios para 53,2 em 2012, enquanto que o Brasil teve um aumento de 13% na série temporal de 2006 a 2012, alcançando o patamar de 25,2 em 2012. (TOBAR, 2015).
A constatação do Chile como o país com menores índices de homicídios na América do Sul, no período analisado, em torno de 3,5 por 100 mil habitantes, leva o autor à conclusão de “estabilidade do fenômeno no país”. (TOBAR, 2015). Entretanto o estudo surpreende quando o indicador analisado é a lesão corporal grave, as taxas são de 600 lesões por 100 mil
habitantes, no período de 2005 a 2012, enquanto no Brasil, no período de 2004 a 2012, a valor médio foi 352,1 por 100 mil habitantes.
Quando o autor analisa índices de violência sexual, correspondentes aos crimes de estupro e de agressão sexual, incluindo os cometidos contra menores, o Chile e o Paraguai são os países com as maiores taxas na América do Sul, com 94,5 e 59,5 respectivamente, por 100 mil habitantes, no ano 2012, enquanto o Brasil, neste mesmo período, apresenta uma taxa de 26,9.
Os delitos contra a propriedade são analisados em quatro conjuntos de tipos de crime inter-relacionados: roubo contra as pessoas, furto, roubo com invasão e furto de veículos motorizados, segundo Tobar (2015). A constatação assemelha-se a anterior, isto é, são os países do cone sul que apresentam os maiores índices da região: Uruguai, Chile, Brasil e Argentina. O Uruguai, na série temporal dos indicadores de furto, apresenta a espantosa cifra da taxa média de 2.986,2 furtos por 100 mil habitantes no ano de 2012, enquanto o índice no Brasil foi de 717,4 e no Chile de 1.094,2.
Indiscutivelmente, consoante os dados coletados pelo autor chileno, o Chile continua na dianteira quando o indicador é furto de veículos: 189,0 por 100 mil habitantes, enquanto no mesmo período no Brasil observamos um índice de 93,3 por 100 mil habitantes.
O Brasil apresenta números endêmicos de homicídios, comparáveis aos existentes em países beligerantes, enfrentado disputas territoriais exterminadoras, segundo o estudo detalhado. Entretanto, quando mudamos o foco para os demais crimes violentos, causadores, também, de sequelas pessoais e patrimoniais graves, como a lesão corporal, o estupro, o roubo e o furto de veículos, percebemos que as posições se alternam, neste momento, países ditos “tranquilos” como o Chile e o Uruguai disputam a dianteira da criminalidade. Será que um país com baixos índices de homicídios é um local seguro? Quais são as características de um país violento?
O autor pondera ao asseverar a dificuldade em extrair dados fidedignos de fontes oficiais e administrativas (polícia e outras entidades da Justiça Criminal), afirmando que se deve considerar a “grau de confiabilidade da população em relação a essas instituições, influenciando nas notificações” (TOBAR, 2015). O texto do sociólogo chileno, embora alerte sobre a dificuldade metodológica e a carência de informações oficiais em toda América do Sul, ressalta a tendência de aumento da confiança institucional. Recomenda a necessidade de “adequada articulação entre as estatísticas administrativas e a construção de indicadores sociais por meio de pesquisas é uma maneira adequada de abordar, tanto o fenômeno quanto as suas respostas institucionais”.