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CAPÍTULO 2. TERESA DE SALDANHA

2.2. Contexto ideológico e sócio-político

2.2.1. Os acontecimentos sociais e políticos

Desde muito cedo, as cartas de Teresa de Saldanha dão conta dos acontecimentos sociais e políticos, a que a autora dos textos junta a sua visão crítica. Para além das descrições que oferece, eventualmente de interesse histórico, parece-nos importante perceber, através da sua leitura, como ela os leu e encarou, como procurou respostas alternativas cada vez que a situação colocava, teórica ou efectivamente, obstáculos ao andamento do seu projecto.

Um conjunto de cartas escritas ao irmão mais velho, ausente em Coimbra, na década de 50, revelam um ambiente de alguma acalmia política, que permitia o desenvolvimento de uma vida social algo movimentada e colorida. Sucedem-se os bailes e as comemorações. Disso é exemplo o seguinte excerto:

Na Quinta-feira, principiou a azáfama logo de manhã. Às onze foi o juramento do Príncipe, depois Te Deum e beija mão, acabando isto às quatro horas da tarde, e com dia de calor, que não se faz ideia, parecia que o sol queimava. Pela volta das nove horas formou-se aqui defronte da casa a cavalaria Municipal e o Barão da Luz com uma farfalhada muito grande de ajudante de ordens, etc. veio passar revista. Havia alas pelas Janelas Verdes e todo o caminho até às Cortes, só quando a Rainha foi, porque assim que passou foram fazê-las para a Sé. A artilharia estava no Largo das Cortes para dar as descargas. Fui ver o Juramento do Príncipe mas não lhe posso contar porque não pude ver quase nada, porque estava imensa gente. A Rainha fez ir toda a sua comitiva a diante

para dar tempo que chegasse à Sé e ela foi a última que foi. Se não tivesse feito isto, arriscava-se a não achar ninguém na Sé. Depois foi o beija mão. A mamã e o papá foram a tudo, que estafa. À noite, houve baile e por fim lá fui. (ADSCS, C 7160, 11 Jul [1852])

Alguns dias depois, descreve a cerimónia da colocação da primeira pedra da estátua do Rossio:

A Rainha foi pôr ontem a primeira pedra na estátua que se vai fazer no Rossio. Esteve tudo o mais brilhante possível. Parecia uma daquelas vistas que se vêem às vezes nas Ilustrações inglesas. Estava, na verdade, lindo. À roda do Rossio estavam os regimentos. Por baixo daquele arco que há no teatro de D. Maria na frente, fizeram uma tribuna para a Rainha; no meio do Rossio estava uma barraca armada. Desde a tribuna até à barraca havia alcatifas que era o caminho por onde a Rainha passava. Quando a Rainha apareceu na tribuna as músicas principiaram a tocar o hino, a artilharia que estava na Rua do Ouro atirou e também atiraram uma quantidade de foguetes de maneira que era uma bulha que não se podia. Depois a Rainha veio à barraca esteve aí muito tempo a assinar o auto; saiu e então é que foi fazer a cerimónia. (ADSCS, C 7161, 18 Jul [1852]).

Em Maio de 1853, assinala a morte da princesa Maria Amélia de Bragança, filha de D. Pedro IV e da imperatriz D. Amélia Augusta Beauharnais de Leuchstenberg (ADSCS, C 7177) e, meses mais tarde, a morte e o enterro da rainha D. Maria II:

O que me dizes à morte da pobre Rainha. Coitadinha! Tem-me feito imenso dó (...). Fazem-me um dó os filhos. Realmente tem feito impressão a toda a gente e todos têm dó dela. Estes dias não se tem podido com os sinos, os tiros, tem sido uma bulha contínua. Desde que ela expirou não têm deixado de atirar todos os cinco minutos. Hoje devia ter lugar o beija-mão mas parece que não pode ser porque o corpo já não estava em estado, de sorte ouvi dizer que se chegam ao pé do caixão, fazem uma cortesia e vêm-se embora. Faz ideia, o caixão tem 5 palmos de largura e 6 de altura, e é tão grande que foram obrigados a serrar um corte para poder caber o caixão. (...) Chegou a princesa de Joinville com o marido, no dia seguinte da morte da Rainha. (ADSCS, C 7180, de TS ao irmão, António, 18 Nov 1853)

De regresso do funeral, conta: “Fui às nove e meia e estive lá até às duas. Não se faz ideia da gente que ia. Havia corporações de empregados públicos, de artistas, etc. enfim de tudo, todos iam adiante, a pé, com tochas na mão” (ADSCS, C 7181, de TS ao irmão, António, 19 Nov 1853). As descrições, nalguns casos bem pitorescas, registam alguns dos costumes da época como o cerimonial do beija-mão e a quebra dos selos após a morte do monarca (Nobre, 2003).

Aqui ainda não houve a quebradela dos escudos nem sei se haverá, dizem que sim e que não; no Porto já houve. Eu nunca vi nem sei o que é. (...) No beija-mão o outro dia dizem que estava muitíssima gente. O rei assim que acabou o beija-mão, foi-se logo embora e não ficou na sala a conversar conforme é seu costume. Coitado! Dizem que está muito sentido, assim como também o Rei D. Pedro. Fala-se em eles irem de todo para Belém (ADSCS, C 7184, 25 Nov 1853)

A quebra dos selos ocorreria em Lisboa, a 3 de Dezembro, “no Rossio, no Terreiro do Paço e na Sé” (ADSCS, C 7187, de TS ao irmão, António, 2 Dez 1853).

É neste conjunto de cartas ao irmão que encontramos, também, referência às epidemias que assolaram Lisboa, particularmente à epidemia de febre amarela que, entre Julho e Dezembro de 1857, contagiou cerca de 17 000 pessoas, matando mais de 5 000 (Cascão, 1993a). Nessa altura, muitas famílias da aristocracia saíram da capital para escapar ao contágio e instalaram- se em casas de férias, na linha de Cascais. Teresa de Saldanha escreve, de Oeiras, ao irmão:

Aqui, por agora, não há nada, mas temos poucas esperanças de voltar para Lisboa tão cedo. Este tempo frio tem feito algum bem, mas contudo, não tanto como era de desejar. É verdade que a mudança não pode ser de repente e dizem os médicos que continuando o tempo assim, as melhoras só se poderão perceber daqui a dez ou quinze dias. Porque o tempo frio que é bom para impedir os novos ataques de febre, é mau para os convalescentes e isto entende-se muito bem. Em Paço de Arcos e aqui ainda está toda a gente que estava. Ontem e antes de ontem, esteve aqui no meio do dia o Marquês da Fronteira para fazer uma visita e passar um bocado de tempo. (...) está morto por se ver em Benfica, mas por agora não lhe dão licença. (ADSCS, C 7200, de TS ao irmão, António, 25 Out 1857)

Alguns dias depois, conta: “De Lisboa não se sabe nada de exacto, contudo, segundo o que vem nos jornais vê-se que o número dos casos tem diminuído (...)” (ADSCS, C 7203, 5 Nov 1857). E, a 3 de Dezembro: “A epidemia (...) vai diminuindo espantosamente e se continuar assim, em poucos dias deve estar de todo extinta. Ontem não entraram para os hospitais senão dezassete doentes. Que diferença!” (ADSCS, C 7212, de TS ao irmão, António, 3 Dez 1857).

No início do ano de 1858, Teresa de Saldanha anuncia que “está acabada a febre em Lisboa e hoje deve-se ter cantado o Te Deum na Estrela, pois na Sé estão fazendo obras” (ADSCS, C 7206, de TS ao irmão, António, 6 Jan 1858) e que se procede à limpeza dos canos nas ruas da baixa lisboeta (ADSCS, C 7207, 20 Jan 1858).

O rápido crescimento populacional das grandes cidades, de modo especial de Lisboa, provocado por fluxos migratórios internos, de gente sem recursos económicos, mal instalada em bairros com condições de habitabilidade e de higiene extremamente deficientes, sem água e com acumulação de lixos e detritos nas ruas estreitas e amontoadas de gente (Cascão, 1993a, 1993b; Ramos, 1993; Relvas, 2002; Vicente, 2001), a que se associava a falta de instrução, criava as condições ideais para a propagação de doenças de fácil contágio. Não é, pois, de estranhar, que bairros como Alfama e o Bairro Alto tivessem sentido, de forma tão extensa, os efeitos da doença.