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Os agentes nesse cotidiano: as crianças e adolescentes

II- O PROJETO "DIREITO DE SER"

2. Descrição do cotidiano do Projeto "Direito de Ser"

2.1. Os agentes nesse cotidiano: as crianças e adolescentes

Qual seria o aqui-agora no qual as crianças e adolescentes que participam do Projeto “Direito de Ser” estão inseridas? Se analisarmos o contexto socioeconômico, encontraremos crianças que vivem em situação de pobreza e miséria.

A maioria faz parte da parcela da população que migrou para o estado de São Paulo na década de 80 (principalmente de Minas e do Nordeste). Chegam à cidade grande e não encontram condições mínimas de sobrevivência. Buscam essa sobrevivência com subempregos, mendicância ou marginalidade. Alguns têm colocações não qualificadas, como trabalhadores braçais e domésticas. Quase 50% das crianças são criadas apenas pela figura feminina, que assume a chefia da casa.

A maioria já esteve presente em situações de assassinato no bairro e mora nas favelas e nas ocupações de sem-teto. Vemos nesse quadro, concretamente, o problema da má distribuição de renda e a exploração do capitalismo de mercado sobre o proletariado oprimido. O quadro não é muito diferente daquilo que acontece na periferia dos grandes centros urbanos; da periferia de Salvador, de onde saem as crianças do Projeto Axé, ou da periferia do Rio de Janeiro, onde localiza-se a Fábrica de Esperança; onde a crise econômica cria um excedente de população que vive à margem desse mesmo sistema que a cria. A maioria dos projetos de educação não-formal trabalha com um contexto muito próximo a este.

Dentro desse contexto, surge na população uma busca de ascensão social pelo estudo e pelo trabalho. Quando nos voltamos para o cotidiano dos pais das crianças e adolescentes, vemos esse discurso já interiorizado; todos vêem a possibilidade única de ascensão social pela educação e por uma possível educação profissionalizante. A visão que têm dos projetos de educação não-formal, é de um espaço a mais que possa auxiliar no sonho da ascensão pelo saber e pelo trabalho qualificado, exatamente por não terem tido acesso, em suas histórias pessoais, a essa realidade. É interessante percebermos como o discurso neoliberal, de progresso e desenvolvimento pela educação, se interioriza nas mentalidades. Vêem também

como um espaço que auxilie na superação do fracasso escolar das crianças, que ajude na escola, pois já percebem a insuficiência desta, mesmo que, na maioria das vezes, colocando a culpa na própria criança pelo seu fracasso.

As crianças já são estigmatizadas por diversos setores da sociedade: o simples fato de citarem o bairro onde moram já as torna vítimas de preconceitos. Quase todos os pais, quando questionados sobre a capacidade dos filhos, os consideram incapazes. Buscam essa “capacitação” em outros âmbitos, como os projetos de educação não-formal, pois não se acham capazes de contribuir na educação dos filhos. Outro motivo pelo qual buscam colocar o filho num projeto de educação não-formal é distanciá-lo do contexto das ruas, pois muitas vezes a criança, ao ficar sozinha enquanto os pais trabalham, busca a sua sobrevivência com pequenos trabalhos no centro da cidade (cuidar de carros, lavar pára-brisas) ou se envolve com mendicância, geralmente com um grupo de crianças do próprio bairro. O maior temor dos pais é que os filhos se envolvam com a rede de tráfico do bairro, uma das maiores da cidade. Muitas crianças e adolescentes iniciam a marginalidade traficando pequenas quantidades de drogas de um ponto ao outro do bairro, os chamados “aviões”, e logo se tornam usuários, incitados pelos traficantes, pois através da dependência da droga poderão manipular ainda mais a criança.

Esse contexto, que parece demonstrar apenas a miséria do cotidiano, nos coloca ao mesmo tempo frente a crianças e adolescentes com capacidades e amadurecimento muito diferentes e maiores daqueles que a escola está acostumada a lidar. Possuem uma independência muito grande em relação ao adulto, e uma capacidade criativa de lidar com os problemas cotidianos. A maior parte das concepções educacionais são feitas pensando-se num indivíduo de classe média, o que dificulta a transposição de um ideário já pronto para essa realidade.

Uma das questões que mais chama a atenção na problemática do bairro é a violência, tanto que, ao pensarmos sobre tudo o que foi vivenciado no contato quase diário com essa realidade, as diferentes formas de violência as quais essas crianças são submetidas, são o que primeiro aparecem. A “...nossa sociedade compreende e aceita a institucionalização da violência, que passa a ser concebida como instrumento educativo de disciplinarização.” (Roure, 1996, p. 35)

No contato com a realidade das crianças e adolescentes do Projeto "Direito de Ser" pudemos perceber um discurso construído no imaginário, onde questões como punição, repressão, assassinato e morte se tornaram verdades reificadas. A morte é algo comum no discurso do dia-a-dia, e não é algo fora do normal.

A questão vida/ morte no discurso das crianças e adolescentes mostra-se banal, a reação diante dos inúmeros assassinatos do bairro é de uma aparente normalidade. Encaram a questão como o curso natural das coisas.

Nos códigos construídos, a figura do traficante, que possui maior força e que controla e mantém uma aparente “ordem” no bairro, é a figura do herói. Os assassinatos por ele cometidos não são questionados e são considerados necessários e positivos, alegam que só mata se realmente for necessário. Ao mesmo tempo tentam resgatar aspectos humanitários desses indivíduos, que eles próprios tentam contrapor a do assassino frio (“ajuda as pessoas, gosta de crianças”).

No contexto do Projeto "Direito de Ser", começando pelo espaço há uma apropriação diferente. Não há uma agressão do espaço físico, pelo contrário, a limpeza, a organização é cobrada entre as próprias crianças. Para isso é feito um trabalho de apropriação do meio. Todos os espaços são de livre acesso para crianças.

Uma dicotomia existente se refere ao comportamento dentro e fora do Projeto "Direito de Ser". São indisciplinados e agressivos no contexto da escola formal e não o são no do Projeto "Direito de Ser" , entretanto o conceito de disciplina é diferente. Falar, questionar não é considerado estar fora da ordem. E, principalmente, é um espaço onde os conflitos externos são trazidos e questionados.

3- O cotidiano do Projeto "Direito de Ser" e as categorias de análise

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