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1.2 TECHNE MODERNA

1.2.1 Os alicerces do projeto baconiano

Jonas identifica no “ideal baconiano” uma ameaça intrínseca decorrente do “êxito excessivo” de sua proposta de exploração e domínio (PR, p. 235). Para o filósofo alemão, o programa baconiano carrega uma ameaça porque pretende “colocar o saber a serviço da dominação da natureza e utilizá-la para melhorar a sorte da humanidade” (PR, p. 235) e nessa pretensão carrega a ambivalência típica da técnica moderna, qual seja, a de não ser mais possível delimitar as consequências da ação no âmbito do bem ou do mal. Em outras palavras, mesmo que suas ações possam ser classificadas como “boas”, seus riscos não são passíveis de mensuração.

Ora, a reviravolta epistemológica ocorrida na modernidade atingiu as diferentes dimensões da vida humana e extra-humana. Com ela propagou-se a ideia de que as ciências naturais trariam ao homem uma redenção material que acompanharia o progresso espiritual proveniente do milênio cristão. Vários pensadores buscaram interpretar o novo momento e suas novas exigências, entre eles Jonas destaca Francis Bacon11. Com ele inicia-se a ideia da ciência como progresso e o conhecimento a serviço da ação, da previsão, de interesses e da eficácia, colocando um fim ao saber contemplativo e iniciando o espírito de uma nova época, de uma nova relação entre o homem e o mundo. Suas críticas dirigiram-se inicialmente à tradição filosófica e sua esterilidade na produção do conhecimento, bem como da necessidade de uma nova metodologia que pudesse dar conta da produção do conhecimento em vistas ao progresso da modernidade.

11 Suas teses aparecem disseminadas em várias de suas obras, entre elas no livro Do progresso do conhecimento (1605), na Da dignidade e desenvolvimento da ciência (1623), Da proficiência e o avanço do conhecimento divino e humano (1605), na Nova Atlântida (1627), no Temporis partus masculus (1602), em destaque a Novum Organum (1620), entre outros.

Para Bacon, toda a reverência à antiguidade e o respeito às grandes autoridades do conhecimento, levou o homem a um encantamento e a um conformismo que retardaram o progresso das ciências. Tudo parecia já ter sido dito em todas as dimensões do conhecimento, o que tornava novas conquistas uma meta quase impossível. Rossi, afirma que Bacon almejava fazer um exame histórico das civilizações do passado e mostrar a necessidade de uma ruptura não somente no modo de pensar, mas também no modo de viver dos homens, as suas atitudes frente ao mundo natural e diante da tradição cultural (1989, p. 75).

Embora busque uma ruptura com o passado e uma nova metodologia para a ciência, Bacon em A sabedoria dos antigos, obra inicialmente entendida como “literária” e somente com os estudos recentes passou a fazer parte das obras filosóficas do pensador, recorre à mitologia clássica para comunicar certas ideias, pois entendia ser o modo mais adequado para essas verdades serem aceitas pelo público, devido ao prestígio da sabedoria mítica. Nessas mitologias evidencia-se referências ao naturalismo materialista democriteano12, considerado uma das bases do seu pensamento. Trata-se de uma maneira oblíqua consubstanciada na interpretação alegórica, isto é, “um compromisso que os gregos antigos encontraram para não renunciar nem a Homero nem a ciência” (FIKER, 2002, p. 9), e também paradoxal, porque embora o estilo alegórico vise à comunicação para um público restrito, volta-se ao ocultamento, ao contrário do retórico, que constitui uma forma de comunicação para um público maior. O verdadeiro valor do mito, para Bacon, está na verdade que ele exprime, nos princípios que estão por trás e, não, na imagem por ele exprimida. No entanto, apesar do valor e do reconhecimento dos clássicos mitos, o autor não mantém uma coerência teórica na interpretação das mitologias.

12 Entre os pré-socráticos Bacon privilegia Demócrito, e esta afinidade se dá porque para Bacon este penetrou

na realidade natural mais profundamente do que qualquer outra doutrina filosófica. Ele reconheceu que os elementos constitutivos da matéria são imperceptíveis aos sentidos, tendo eliminado deles, portanto, qualquer resíduo de aparência sensível derivado da experiência grosseira com as coisas. O método de Demócrito, afirma Bacon, visa analisar a natureza decompondo-a em seus elementos constitutivos. Afirma no Novum organum “o estudo da natureza e dos corpos sem seus elementos simples fraciona e abate o intelecto, enquanto o estudo da natureza e da composição e da configuração dos corpos o entorpece e desarticula. Isso se pode muito bem observar na escola de Leucipo e Demócrito, se comparadas com as demais filosofias. Aquela, com efeito, de tal modo se preocupa com as partículas das coisas que negligencia a sua estrutura; as outras, por seu turno, ficam de tal modo empolgadas na consideração da estrutura que não penetram nos elementos simples da natureza. Assim, pois, se devem alternar ambas as formas de observação e adotar cada uma por sua vez, para que se torne a um tempo penetrante e capaz e se possam afastar os inconvenientes apontados, bem como os ídolos deles provenientes” (1999, p. 46).

O reconhecimento do valor presente nas clássicas mitologias, não impediram Bacon de fazer dura críticas aos grandes pensadores da filosofia antiga: Sócrates13, Platão14 e Aristóteles15. Para o autor, esses filósofos produziram um conhecimento fundamentado em inúteis abstrações e afirmações sem sentido à vida do homem. Na maioria das vezes, “mediam nos experimentos e efeitos já conhecidos e não faziam mais do que mantê-los juntos com uma fina rede de lógica tecida na medida precisa dos fatos familiares” (1986, p. 86). Ou seja, a ciência antiga não passou de uma espécie de lógica, regida pelo que já era conhecido sem nenhum desdobramento efetivo quanto à utilidade do saber.

Bacon tenta mostrar a superioridade dos modernos frente aos antigos, o que daria início a uma nova época. Afirma o autor que

do mesmo modo que esperamos do homem idoso um conhecimento mais vasto das coisas humanas e um juízo mais maduro do que o jovem, em razão de sua maior experiência, variedade e maior número de coisas que pôde ver, ouvir e pensar, assim também é de se esperar de nossa época muito mais que de priscas eras, por se tratar de idade mais avançada do mundo, mais alentada e cumulada de infinitos experimentos e observações (1999, p. 66).

Os tempos modernos, portanto, poderão ser superiores aos antigos, desde que os homens consigam derrubar o mito da antiguidade, recusar as autoridades e buscar o caminho da experiência, pois “a verdade é filha do tempo, não da autoridade” (BACON, 1999, p. 66). Romper com o dogma aristotélico, professado pelos escolásticos, em nome do qual tudo já estava previamente resolvido, tornou-se fundamental na filosofia de Bacon,

13 Sócrates desencorajou os homens a realizar pesquisas com a natureza, afirma Bacon, levando-os às

questões sobre ética, transformando toda a filosofia em ambiciosa procura de novas opiniões.

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Platão por sua vez reduziu a filosofia a um discurso lírico-retórico deixando-se levar por elementos míticos ou conceitos retirados da esfera religiosa. Criou assim uma filosofia supersticiosa, misturando religião com ciência e elementos míticos com elementos racionais. Ao proclamar que a verdade habita naturalmente, desde o nascimento, na mente do homem e não provém do exterior, Platão afastou os homens da realidade, da natureza, fazendo com que dirigissem seus olhos para o interior da alma orientando-os para a contemplação e impedindo-os de buscar o progresso.

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Paolo Rossi na obra Francis Bacon: da magia à ciência, afirma que, para Bacon, o pensamento de Aristóteles por sua vez tornou os homens escravos das palavras, entusiasmando-se por inúteis sutilezas e vãos sofismas. Ao construir apressadas teorias, baseado em poucos fatos, teria dado origem àquele tipo de ciência que se ilude por achar que encontrou as causas dos fenômenos, quando na realidade apenas construiu vãs aranheiras teóricas. Aristóteles, afirma Bacon, buscou reconstruir o mundo por meio de categorias e obrigou a experiência a confirmar suas conclusões. Uma vez estabelecida a ciência, caso surgisse alguma controvérsia quanto a algum exemplo ou demonstração que estivesse em contradição com seus princípios, “(...) não iam corrigir o princípio, mas mantinham firme e acolhiam em seu sistema, servindo-se de alguma distinção sutil e erudita, aqueles exemplos que serviam de escopo, ou então os deixavam de fora abertamente como exceções (2006, p. 167).

porque o espírito que busca conhecer a natureza deve fundamentar-se em dúvidas e não em certezas, pois, quando se inicia a ciência a partir das certezas, termina-se em dúvidas, mas quando se inicia com dúvidas, elas estimulam a buscar garantias de veracidade.

À figura do mestre e do discípulo defendida por Aristóteles, Bacon contrapõe a do inventor, pois para ele “a sabedoria dos gregos era professoral e pródiga de disputas (...)” (1999, p. 56), e consequentemente todo o processo científico se tornou uma “(...) sucessão de professores e alunos e não de inventores e aprimoradores de invenções (...) e nossa crença nas riquezas que herdamos deles é a suprema causa de nossa pobreza” (1986, p. 110).

Para Bacon, o casamento da filosofia com a religião cristã, no mundo cristão, constituía uma decadência do saber, pois, para ele, se tratava de um pacto iníquo e falso, impedindo a inclusão dos novos saberes e das novas descobertas. A verdade da ciência não deve ser procurada nos textos bíblicos. O objetivo da teologia é o de conhecer o livro da Palavra de Deus, e o objetivo da filosofia natural é conhecer o livro de suas obras. O livro das Escrituras revela a vontade de Deus, enquanto o da natureza revela seu poder. O estudo da natureza não nos revela nenhuma luz sobre a vontade divina, e as descobertas das verdades naturais constituem uma tarefa confiada aos homens por Deus. A tese da separação entre filosofia e teologia proposta por Bacon é interpretada Rossi como “o registro de nascimento da autonomia da pesquisa científica” (1992, p. 84).

Segundo o filósofo londrino, a esterilidade da filosofia greco-medieval se deu porque esta perdeu a capacidade de procriar, pois ao invés de tentar ler o livro da natureza, ficou presa às soluções verbais e harmônicas. Afirma Bacon que “os gregos, com efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos para tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois a sua sabedoria é farta em palavras, mas estéril em obras” (1999, p. 57). Ademais, tiveram a arrogância de encerrar, dentro da particularidade de uma doutrina ou de um princípio, a universalidade do saber e a totalidade da natureza. A lógica baconiana busca ser um instrumento na conquista de novas verdades, e não apenas de sua transmissão.

O equívoco da ciência grega e medieval, segundo Bacon, foi de cultuar os livros e os filósofos e suas especulações e não a natureza. Suas falácias tornaram-se um instrumento de preponderância e de disputas que buscavam consolar e divertir os espíritos, mas não se preocupavam em despertar a curiosidade e consequentemente, o avanço da pesquisa científica e do bem-estar da humanidade. Desse modo pretendia-se enclausurar a

partir de princípios ou de doutrinas a totalidade da natureza. O resultado foi a criação de uma escola de resignação, e não o lugar de novas possibilidades para o gênero humano.

Diferentemente da tradição, o projeto baconiano de conhecimento não era um trabalho individual, mas um esforço coletivo. Não há um apelo para a habilidade e a presteza de um indivíduo, mas para a sucessão de esforços e da divisão do trabalho em grupo. A cultura do tipo retórico-literário passa a ser substituída por uma do tipo retórico- científico, o que leva a uma tomada de decisão diante do passado, de modo a substituir uma filosofia das palavras por uma filosofia das obras. A contemplação das obras, a resignação diante da natureza, o valor da interioridade e do indivíduo, dão lugar às ações que permitam dominar e conquistar a natureza para o engrandecimento humano. Para Bacon, as teorias gerais ou metafísicas da natureza foram construídas por homens que, diante de um idioma desconhecido, observaram aqui e acolá alguma afinidade de sons e de caracteres, e com sua língua materna apressavam-se em dar às palavras semelhantes o mesmo significado, construindo desse modo analogias arbitrárias.

O problema desse “programa”, segundo Jonas, é que a tese baconiana de que “saber é poder” tornou-se ameaçadoramente coerente consigo mesma, na medida em que subtraiu a autonomia do próprio homem que a idealizou. Sem o poder da escolha humana, um novo cenário despontou, pois não é mais o poder do homem sobre a natureza que se impõe, mas o poder da técnica sobre o homem e sobre a natureza. É a técnica que decidirá qual espaço a ética deverá ter, e, com isso, o comando não estaria mais nas mãos da política, que na cidade ideal de Platão é intérprete da ética, mas nas mãos da razão técnica. Desse modo, dissolve-se o horizonte antropocêntrico, pois o poder passou do homem à técnica, e este se tornou um executor passivo das possibilidades projetadas por ela, enquanto que a natureza passaria passivamente a sofrer seu poder. Nas palavras de Jonas, não só a natureza tornou- se objeto da técnica, “(...) mas o próprio homem passou a figurar entre os objetos da técnica” (PR, p. 57).

A técnica, concebida como artifício, passou a entender a natureza como um material a ser organizado com fórmulas não encontradas na própria natureza. Esse fim da naturalidade levou o progresso da técnica à direção da máquina, que cumpre as suas funções de modo artificial, afastando-se da diretriz perceptivo-intuitiva da natureza, e interpretando-a como material a ser utilizado.

Se a técnica representa a desnaturalização da natureza e também a sua única e possível salvaguarda, isso significa que o “negativo” nela presente proveniente de seu

fazer, é somente um erro, e que poderá ser corrigido. Enquanto na religião separou-se o santo do ímpio, na ética separou-se o bem do mal, na política, o justo do injusto, na técnica rompeu-se com essa lógica binária que exclui, porque o negativo para a técnica não precisa mais ser excluído, pois representa apenas um erro que se oferece aos procedimentos técnicos para a sua correção.

O progresso tecnológico constitui a força e a tendência-motriz do saber humano e um poder de tal forma gigantesco que se voltou para o seu próprio detentor. A instauração do regnum hominis, conduz ao perigo, pois sua grandeza através do poder humano tecnicamente potencializado

(...) não aumentou somente quantitativamente, mas seu conteúdo mudou qualitativamente. Não se trata apenas de dizer que hoje se pode fazer certas coisas com mais rapidez e com menor trabalho, mas que se pode fazer coisas totalmente distintas e novas e que influenciarão toda a cadeia da vida humana sem conseguirmos prever seus resultados, muito menos as consequências cumulativas (PV, p. 16-17).

O paradoxo do projeto baconiano está no sucesso das suas principais vertentes, isto é, o sucesso econômico e o sucesso biológico. O primeiro é representado pelo significativo aumento per capita da produção de bens com diminuição de dispêndio de trabalho, de onde decorre ao menos das nações desenvolvidas do assim chamado primeiro mundo, um crescente aumento de bem-estar e uma elevação, até mesmo involuntária do consumo para (potencialmente) todos no interior do sistema. Disso resulta uma intensificação gigantesca no metabolismo entre o corpo social e o meio ambiente natural. Esse aspecto, que por si só representaria um desafio para os recursos naturais finitos, potencializa-se e se acelera em razão do sucesso biológico do programa baconiano, representado pelo aumento exponencial da população em toda área sob efeito do poder tecnológico. Tal explosão da curva de crescimento populacional conduz à necessidade de aceleração e multiplicação dos recursos do sucesso econômico, bem como de seus efeitos, retirando da vertente econômica do programa a possibilidade de se impor limites no interior de seu próprio curso.

O projeto baconiano, afirma o autor, mesmo no ápice do seu triunfo revela-se insuficiente, pois possui uma contradição intrínseca, um descontrole sobre si mesmo, tornando-se incapaz de proteger o homem de si mesmo e a natureza, do homem (PR, p. 236). Ou seja, no desenvolvimento proposto pela ciência e pela tecnologia modernas, estão

embutidas junto com a promessa de redenção, as ameaças apocalípticas da continuidade da vida humana e extra-humana no futuro de modo autêntico.

Essa autonomia do poder técnico-científico fez com que os interesses do homo

faber se impusessem sobre o homo sapiens comprometendo a autenticidade da vida

humana e extra-humana, pois sua meta é a superação em vista do êxito econômico e biológico. Nas palavras do autor o poder da técnica

tornou-se autônomo (...) e não pertence mais ao homem, mas ao próprio poder (...) que dita as regras de uso ao seu suposto usuário, transformando-o em mero executor involuntário de sua capacidade. Que, portanto, em vez de libertar o homem, o escraviza (...) enquanto sua promessa transformou-se em ameaça, e sua perspectiva de salvação em apocalipse (PR, p. 237).

Essa dupla necessidade de proteção surge justamente por meio da extensão desmedida do poder alcançado no percurso do progresso técnico e da compulsão paralelamente crescente a seu emprego, que conduziu à espantosa impotência de pôr termo ao extensivo e previsível progresso destrutivo de si mesmo e de suas obras. A contradição que Bacon não conseguira visualizar, do poder criado pelo saber consiste em que ele, na verdade, conduziu a algo como o domínio sobre a natureza, ou seja, a um aproveitamento potencializado da natureza, mas com isso, ao mesmo tempo, a mais completa sujeição a si mesmo.

Na medida em que o positivo inscreve-se no exercício da força da técnica e o negativo passa a ser entendido como reparável, a técnica coloca-se como categoria “absoluta”. Trata-se de um novo modo de conceber o absoluto, isto é, como o universo de meios, e por não ter em vista verdadeiros fins, mas somente efeitos, traduz os fins em futuros meios em vista da sua eficiência. Apoiando-se no lema de que uma coisa é boa se

for considerada boa para uma segunda coisa, faz com que suas metas tornem-se

insensatas, carecendo de sentido. Se o sentido favorece a existência, onde ele não existe faz-se urgente inventá-lo para que ele seja capaz de assumir a sua função de meio. Nasce uma nova concepção de progresso voltada prioritariamente para atender a essa nova necessidade.

A supracitada ameaça do projeto baconiano presente, na obra O princípio

responsabilidade, é identificada por Jonas como característica do ideal de progresso nela

contida. Para o autor, essa ameaça está na excessiva capacidade da civilização tecnológica que colocou o saber a serviço da dominação da natureza numa perspectiva de constante e

ininterrupta modificação do presente em direção a uma meta futura. Esse progresso, além de visar uma constante superação das necessidades do homem, busca também a sua autorealização, visto que sua meta é a própria superação do estágio anterior.

A utilização de tal saber, segundo Jonas, “(...) não contou desde as origens (...) com a racionalidade e a retidão que lhe seriam adequadas” 16

(PR, p. 235), e sua dinâmica de sucesso promove o excesso de produção e de consumo em detrimento da reflexão ética.

A falta dessa racionalidade e retidão por parte do saber e o excessivo poder técnico- científico, associado à condição de vulnerabilidade da natureza e do homem, fez com que aquilo que se apresentava como uma proposta de salvação e até mesmo de uma possível remissão17 da humanidade, em vista de uma nova sociedade construída graças aos avanços tecnológicos, acabasse por se tornar um constante perigo.

Embora o ideal baconiano de progresso contenha grandes riscos, segundo Jonas, e mesmo não sendo possível atribuir a Bacon as grandes descobertas científicas de sua época18, com ele, conforme afirma Rossi, nasce a concepção de que “(...) os fins da ciência são o progresso e a renovação das condições de vida da humanidade (...)” (2006, p. 72). Mesmo sem praticar a sua própria concepção de ciência e ignorar os grandes cientistas de sua época, a exemplo de Galileu, suas concepções foram a base para o empreendimento científico e para a transformação da sociedade. Com Bacon, acredita-se que o progresso do saber deveria contribuir diretamente para o progresso social19. Afirma Bacon que

16 Para fazer referência a racionalidade e a retidão Jonas utiliza a expressão “die rationalität noch die gerechtigkeit” o que da um sentido de justiça, sendo a retidão um sentido figurado da justiça.

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O projeto de remissão, isto é, de retorno ao paraíso usado no sentido metafórico por Bacon mostra que a finalidade que o autor estabelece para o desenvolvimento da humanidade só pode ocorrer com a restauração do domínio do homem sobre a natureza. Paulo Rossi, na obra A ciência e a filosofia dos modernos, esclarece que “Bacon, não se serve apenas do texto bíblico, mas muitas vezes faz derivar dele suas teses mais