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2. A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DA AGROPECUÁRIA MISSIONEIRA NO RS:

3.2. As variações gastronômicas no espaço missioneiro

3.2.1 Os alimentos e o consumo antes das missões

Verifica-se ser este período (da chegada do homem na região até a vinda dos jesuítas), de muita carência alimentar, embora que para os nativos, esta era uma vida ideal, pois mantinham uma relação de companheirismo com a natureza e dela tiravam só o necessário para sua sobrevivência, mesmo com deficiências em sua alimentação, viviam em harmonia com seu meio. O abastecimento de proteínas, indispensáveis para o desenvolvimento de um povo, foi, entretanto, o desafio maior. Na falta de animais domésticos, esta população teve de se voltar para a caça de animais dispersos pelo mato ou para os escassos peixes dos rios e das lagoas.

3.2.1.1. A caça a pesca e a coleta

Lugon (2010, p.22), escreve que "os agrupamentos de nativos desta época levavam uma vida semi-nômade, seus maiores recursos eram a caça e a pesca e uma agricultura primitiva, cultivavam milho, mandioca e batatas". Em época de semeadura e coleta, a tribo se fixava próxima das plantações e se amontoava em galpões primitivos, onde reinava a promiscuidade.

Foram encontrados abundantes restos ósseos, entre os quais predominava o veado, mas aparece o bugio, o gambá, o porco-do-mato, a anta e a cutia, o tapiti, a capivara, o mico, a paca, a preá, a jaguatirica, o mão-pelada, o ratão-do-banhado, o ouriço e o zorrilho, mas poucos peixes e répteis (MONTOYA,1892).

Schimitz (2006, p.41), explica que: ―havia determinadas épocas que a caça era abundante e gorda, o que trazia a solução protéica; no resto do ano, a caça andaria mais magra e dispersa, mas nem por isso desprezível‖. À beira dos rios, onde estavam as choças de palha tinham à sua disposição peixes, moluscos de água doce e animais terrestres.

Os acampamentos e aldeias na beira das lagoas exploravam intensamente moluscos de água doce ou salobra, peixes e caças terrestres. Peixe seco poderia ser estocado para épocas mal providas de proteína. O tempo que parecia ser melhor abastecido do ano era o verão e o outono, quando tanto os produtos da plantação e coleta vegetal, como da caça, pesca e coleta de moluscos eram abundantes.

O tempo menos bem abastecido parece ter sido o inverno e a primavera. Para o inverno ainda poderia haver reservas do período anterior, mas na primavera os depósitos deveriam estar vazios e os produtos naturais escassos. Esta situação levaria naturalmente os grupos, depois dos trabalhos na preparação das roças, a se dispersar em pequenas partidas de caça, como faziam os kaingang do século XIX, as aldeias permaneciam com um mínimo de pessoas, até que os produtos agrícolas pudessem ser colhidos (SCHIMITZ, 2006, p.42).

Estes nativos que viviam em pequenos grupos, clãs, e se alimentavam da caça, pesca e da coleta,se deslocavam constantemente pela sua atividade. Já os habitantes do litoral possuíam comida abundante que vinha do mar (os mariscos), eram, portanto, mais sedentários.

3.2.1.2. A lavoura de coivara

A lavoura de coivara não representava a destruição dos ecossistemas nativos, pelo contrário, o manejo realizado pelas comunidades missioneiras introduzia uma dinâmica transformadora das paisagens, modelando-as e não aniquilando seus componentes. As espécies nativas ocupavam nichos ecológicos diversos, dispersando sementes, havendo troca genética e convivência de espécies num espaço novo, esta ação modificadora era contemplada mediante a abertura de clareiras no mato. As roças consorciavam as espécies nativas com as exóticas, de forma branda e não aniquiladora da biodiversidade local.

O povo nativo guarani habitou esta região a partir do século V, utilizando o vale do rio Ijuí como caminho de acesso à região das missões: "Embora a ocupação humana date de pelo menos seis mil anos no Rio Grande do Sul, foram os guaranis os primeiros cultivadores a penetrarem neste território" (SILVA, 2005 apud TESCHE 2007, p.34).

Sob esta perspectiva, a execução de sua agricultura era feita a partir da lavoura de coivara, isto é, a técnica agrícola que inicia-se a plantação através da derrubada da mata nativa, seguida pela queima da vegetação e a plantação intercalada de culturas (rotação de culturas), neste caso, milho, abóbora e feijão. A técnica de característica extremamente rudimentar levava ao rápido esgotamento do solo, fazendo com que as terras precisassem ficar em descanso de 3 a 12 anos. Sob esta base, Ruiz de Montoya (1892), estudando a organização e a economia guarani deste período relata que:

O Guarani racionalizava o uso da terra de modo a conseguir colheitas de produtos diferentes em diferentes estações do ano, como se pode deduzir,que comiam milho numa (primavera-começo de verão?), favas e abóboras noutra (verão-começo do outono?), mandioca numa terceira (outono-começo do inverno?), ficando uma estação (inverno-começo da primavera?) pouco abastecida, em que recorriam à colheita de produtos do mato, como certa palmeira (provavelmente palmito).Nos escritos de Montoya o pinhão é colocado como importante, quer em sua forma natural, quer transformado em farinha e pão.

Nas áreas de campo do habitat Guarani, onde os solos tinham baixa fertilidade eram praticadas a caça, a coleta (frutas, raízes, tubérculos). Nas lavouras

de coivara eram cultivados mandioca brava, feijão, batatas, abóbora, e fumo. Sendo que devido a esta prática acontecia o translado das famílias.

O desaparecimento, aos poucos, das atividades mistas de trabalho e de experiência lúdica vai em direção ao fato de que as práticas capitalistas, ligadas à monocultura extensiva e à utilização das máquinas agrícolas nas atividades de trabalho na zona rural gaúcha, engendraram um duplo impacto sobre as paisagens missioneiras.

Estas inovações estabeleceram rupturas nos laços de solidariedade presentes nas diversas comunidades que eram tradicionalmente cultivados e que revelavam a dimensão destes atores sociais no que se refere aos ritmos temporais, envolvendo o cuidado com os ciclos das estações, as lunações e o calendário do catolicismo popular nas localidades.

3.2.1.3. O milho como alimento sagrado dos nativos

Como já mencionado o milho, Zea mays L.Corn, tem seu centro de origem no sul do México e na América central. De acordo com Vavilov (1993), alguns povos mesoamericanos, por muito tempo, acreditaram que o homem teria vindo do milho.

Nos estudos realizados nos trabalhos de Mazoyer e Roudart (2010, p.111), observa-se que a agricultura de origem centro-americana, tem por base o milho, se estendendo para fora do centro de origem apenas no sexto milênio. Portanto, o milho representa grande importância para as populações nativas quando do início do processo agrícola.

Na roça do Guarani destacava-se o cultivo de milho que teve uma simbologia importante em seu imaginário, determinando, inclusive, a época das lutas tribais. Estas lutas iniciavam quando as espigas começavam a formar seus grãos, sinal de que havia comida para as crianças, mulheres e anciãos, quando os homens adultos podiam sair para lutar. Também era cultivado nestas roças mandioca, batata doce, feijões e amendoim. Estes alimentos eram consumidos de várias formas, sendo o milho consumido assado na brasa, esmagado e cozido em água formando uma pasta parecida com uma polenta, ou ainda transformado em bebida alcoólica,

chamada de ―chicha‖40

, além do milho, eram também utilizados na produção dessa bebida o abacaxi ou a mandioca (VENTURINI, 2009, p.10)

A produção tupi-guarani assentava-se na divisão sexual do trabalho. O homem caçava, pescava, guerreava, participava da construção da moradia coletiva, abria as clareiras para as plantações, em geral associado aos companheiros de moradia, etc. A divisão sexual do trabalho tupi-guarani sobrecarregava as mulheres, responsáveis pela coleta, pelo transporte, pelo cuidado dos filhos, pelo preparo dos alimentos, etc. As mulheres eram responsáveis pelas plantações. O produto-base da horticultura tupi-guarani era a mandioca brava, de alto poder calórico e escassa riqueza protéica. O tupi-guarani não criava animais para o abate. Nos meses de escassez de caça e de coleta, careciam penosamente de proteínas Porém, dispunham na natureza somente do que tinham necessidade deixando o resto intacto (CHIARA, 1956, p.08).